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Elektrik Sistemi Düzenleme ve Denetleme Açısından Durum: Türkiye elektrik sektöründe en üst düzenleme ve denetleme kuruluşu olarak Enerji Piyasası Düzenleme

Sektörlere Göre Sera Gazı Emisyonu - 2015 TÜİK

7- Elektrik Sistemi Düzenleme ve Denetleme Açısından Durum: Türkiye elektrik sektöründe en üst düzenleme ve denetleme kuruluşu olarak Enerji Piyasası Düzenleme

Depois das críticas às ciências e às artes como efeitos, mas também como produtoras das desigualdades entre os homens, Rousseau, em seu Primeiro discurso, passa a contrapor o ideal do estado de natureza às mazelas criadas pela civilização. Rousseau faz da imagem dos primeiros tempos uma alternativa contra a corrupção generalizada da sociedade moderna. Na referida obra, ele afirma que “Não se pode refletir sobre os costumes sem se comprazer com a lembrança da imagem da simplicidade dos primeiros tempos” (ROUSSEAU, 1999b, p. 207). Ao lado do ideal do estado de natureza, Rousseau coloca a simplicidade dos costumes, a transparência das relações, a bondade natural, a inocência dos instintos, o equilíbrio entre o desejo e a força, a consciência moral, as virtudes guerreiras e patrióticas, as profissões úteis ao povo e a sabedoria dos costumes. Ao lado da civilização, Rousseau ressalta que suas principais características são a vaidade, o mérito, a ociosidade, o luxo, a aparência, a maldade, a ambição, a antinomia entre o “ser” e o “parecer”, as paixões desenfreadas, a razão interessada e, por fim, o conhecimento científico. Rousseau (1999b, p. 194-195) resume esse quadro de oposições entre natureza e civilização na primeira parte do

Segundo discurso:

Oponhamos a esse quadro [civilizatório] o dos costumes de pequeno número de povos que, preservados desse contágio de conhecimentos maus, por suas virtudes construíram a própria felicidade e constituem exemplos para as demais nações. Tais

132 A crítica de Rousseau ao dinheiro está espalhada por várias de suas obras. Para citar algumas, o livro

primeiro das Confissões, o capítulo XI das Considerações sobre o governo da Polônia, a carta XXIII da primeira parte de Júlia ou a nova Heloísa e algumas passagens do Projeto para a constituição da Córsega. Para um estudo mais sistemático sobre a crítica rousseauniana ao dinheiro, recomendamos o artigo da professora Jacira de Freitas (2012).

foram os antigos persas, nação singular no seio da qual se aprendia a virtude como entre nós se aprende a ciência, que com tanta facilidade subjugou a Ásia, sendo a única a possuir tal glória, cuja história das instituições pode ser considerada um romance da filosofia. Tais os citas, dos quais nos restam elogios tão magníficos. Tais os germanos, a cujo respeito uma pena, cansada de descrever os crimes e as maldades de um povo instruído, opulento e voluptuoso, aliviou-se com descrever- -lhes a simplicidade, a inocência e as virtudes. Tal foi, também, a própria Roma, nos tempos de pobreza e de ignorância; tal se mostrou até os nossos dias essa nação rústica, tão enaltecida pela sua coragem, que a adversidade não pode abater, e pela sua fidelidade, que o exemplo não pode corromper.

Rousseau (1999b, p. 75) sustenta que “O homem encontrava no instinto todo o necessário para viver no estado de natureza; numa razão cultivada, só encontra aquilo de que necessita para viver em sociedade”. Para ele, o selvagem vivia em si mesmo; o homem sociável, sempre fora de si; assim sendo, esse último só sabe viver orientado pela opinião dos outros; enquanto o primeiro retirava do sentimento de sua existência a sentença do seu julgamento. Em Júlia ou a nova Heloísa, Rousseau (1994a, p. 284), ao opor “natureza” e “civilização”, confirma sua máxima: “[...] se é o coração que faz o homem, é o sentimento que o conduz”. Nosso autor acrescenta ao “sentimento de existência” do homem primitivo o proveitoso uso da razão, que o homem civilizado deve incorporar às suas necessidades cotidianas133.

[...] uma ordem de coisas em que nada é concedido à opinião, onde tudo tem a sua utilidade real e que se limita às verdadeiras necessidades da natureza não oferece apenas um espetáculo aprovado pela razão, mas um espetáculo que satisfaz aos olhos e ao coração, pelo fato de o homem nele ver-se somente através de relações agradáveis, como se bastasse a si mesmo, pelo fato de a imagem de sua fraqueza não se evidenciar e pelo fato de esse quadro risonho nunca excitar reflexões tristes. (ROUSSEAU, 1994a, p. 474).

Nessas palavras de Rousseau, percebe-se um certo otimismo acerca do “bom uso da razão”. Um otimismo que não encerra a raison, como vimos, numa mera condição opinativa, mas a coloca ao lado do couer. O coração e a razão, na perspectiva de Rousseau, aparecem, portanto, como alternativas à degradação dos “bons costumes” que “uma vida simples nos mostra sempre as suas vantagens”.

No entanto, nosso autor não acredita no retorno do homem à natureza calma e benfazeja dos primeiros tempos: “[...] um povo corrupto nunca mais volta à virtude” (ROUSSEAU, 1999b, p. 300). Contudo, esclarece Rousseau (1999b, p. 300), “[...] as artes e as ciências, depois de terem feito os vícios brotarem, são necessárias para impedi-los de se

133 Não nos custa lembrar que este “homem primitivo” a que escreve Rousseau é o homem sociabilizado

tornarem crimes [...]. Destroem a virtude, mas preservam seu simulacro público134, que é

sempre uma bela coisa; em seu lugar, introduzem a polidez e a decência”. Starobinski (2011) observa que, no Segundo discurso, o pessimismo histórico de Rousseau é contrabalançado pelo seu otimismo antropológico. O homem é naturalmente bom. A bondade natural está perdida para sempre, indaga ele: “[...] Sim, se se consideram as sociedades. Não, se se considera o homem secular. O mal não reside na natureza humana, mas nas estruturas sociais [...], pode-se conceber uma educação que previna e contrarie a influência de uma sociedade corrompida” (STAROBINSKI, 2011, p. 396). De maneira semelhante a Starobinski (2011), Matos (1978) declara que Rousseau mantém uma esperança no homem. Essa confiança surge, salienta ela, do equilíbrio de suas faculdades – nesse caso, o sentimento moral e a razão –, que, se combinadas perfeitamente, são capazes de induzir o homem à descoberta de sua “segunda natureza”, muito próxima daquela anterior.

[...] É pelo aperfeiçoamento da cultura, por uma desnaturação mais avançada que a concordância com a natureza poderá ser reencontrada; esta ‘segunda natureza’ será um equilíbrio novo, agora esclarecida pela razão e garantida pelo sentimento moral que o homem desconhecia antes. (MATOS, 1978, p. 43).

Consoante Rousseau, a combinação entre a raison e o couer no homem moderno significaria uma redescoberta da virtude presente nos primeiros tempos. No último parágrafo do seu Discurso sobre as ciências e as artes, Rousseau (1999c) assegura que a virtude é a ciência sublime das almas simples e está gravada em todos os corações, basta voltar-se para si mesmo e ouvir a voz da consciência no silêncio das paixões. Na Carta-resposta ao Rei da Polônia, anexada ao Primeiro discurso, nosso filósofo ressalta que a “ignorância feroz” nasce de um mau espírito e degrada o “bom uso da razão”; e a “ignorância razoável” nasce de um vivo amor pela virtude, que se ocupa das coisas boas do coração e que tornam o homem melhor: “[...] uma doce e preciosa ignorância, tesouro de uma alma pura e satisfeita consigo mesma, torna-se testemunha de sua inocência e não sente necessidade de procurar uma falsa e vã felicidade na opinião que possam fazer de suas luzes” (ROUSSEAU, 1999c, p. 258). A virtude que Rousseau exalta é aquela que, subtraída da vaidade, do ócio e do luxo, é capaz de reconduzir o homem à sua primeira igualdade, presente na jeunesse du monde135.

134 “Esse simulacro consiste numa certa doçura de costumes que algumas vezes substitui a sua pureza, uma certa

aparência de ordem que previne a tremenda confusão, uma certa admiração pelas belas coisas que impede as boas de caírem inteiramente no esquecimento” (ROUSSEAU, 1999b, p. 300).

135 A sociedade da pequena comunidade familiar, descrita por Rousseau n’A nova Heloísa, aproxima-se da

sociedade do couer, presente na jeunesse du monde. Sobre isso, consultar as Cartas II e XV da segunda parte e a Carta XVIII da terceira parte de sua obra.

Para Jean-Jacques, uma vida virtuosa deve necessariamente estar vinculada a uma vida simples. Rousseau liga o homem do campo e as suas atividades laborais à imagem de uma vida virtuosa136. Na Carta-resposta intitulada a Última resposta ao Sr. Bordes, também

anexada ao Primeiro discurso, Rousseau situa que a virtude combina com a severidade dos costumes e com a boa ignorância, porta-voz de uma vida ativa e honesta.

Na obscuridade dos antigos tempos e na rusticidade dos antigos povos, percebem-se, em inúmeros deles, virtudes assaz grandes, sobretudo uma severidade dos costumes, que é marca infalível de sua pureza, a boa-fé, a hospitalidade, a justiça e, o que é muito importante, um marcado horror pela depravação, mãe fecunda de todos os outros vícios. A virtude não é, pois, incompatível com a ignorância. (ROUSSEAU, 1999c, p. 264).

De acordo com isso, no Livro III do Emílio, Rousseau (2014, p. 214) defende que o trabalho é uma condição indispensável para o homem social137: “[...] Rico ou pobre,

poderoso ou fraco, todo cidadão ocioso é um patife”. Nosso filósofo valoriza, contra a ambição de uma ciência desmedida, o trabalho como a medida da virtude: “Um ofício, e não um talento, é o que vos peço” (ROUSSEAU, 2014, p. 263). Rousseau (2014) valoriza os trabalhos manuais. Para ele, uma arte mecânica que enriqueça a vida, e não os bolsos, é o passo mais importante para o estabelecimento de uma boa ordem social. O genebrino, em clara oposição à redução das relações humanas ao jugo do dinheiro e aos gastos com “as inutilidades públicas”, acredita que o critério para se exercer uma profissão deve ser sua utilidade mais imediata; profissões em que as mãos trabalhem mais do que a cabeça e que de fato promovam o bem-estar público (ROUSSEAU, 2014).

Rousseau, em seus pensamentos acerca das ciências, foi notadamente influenciado pelo livro do Padre Bernard Lamy, intitulado Entretiens sur les sciences138. A ideia de uma

vida simples, das profissões úteis ao povo, do bem-estar público, de um bom uso da razão contra o seu abuso, é resultado da diferença exposta por Lamy e, de certa forma, também por Malebranche entre a ciência de Deus e aquela praticada pelos homens139. Na Carta-resposta

ao Rei da Polônia, Rousseau faz elogios às ciências, pois elas nos foram dadas diretamente

136 No pensamento de Rousseau, observa Faguet (1910, p. 107), “[...] a condição natural do homem é a de

cultivar a terra e de viver dos seus frutos”. A moral de Rousseau, salienta ele, é baseada na vida simples do homem do campo, em que “A simplicidade da vida comanda a simplicidade do coração e a simplicidade do coração comanda a vida simples” (FAGUET, 1910, p. 108). Uma vida virtuosa, como pensa Rousseau, está ligada a uma vida moderada, simples e com poucas paixões (FAGUET, 1910).

137 “[...] O elogio rousseauísta [ao trabalho] não é a outra face da crítica à propriedade [...], este elogio é

precedido de uma condenação da ociosidade: ‘trabalhar é um dever indispensável da vida social’ [...]; o trabalho assegura a independência individual e nos liga socialmente” (GOLDSCHIMIDT, 1983, p. 535).

138 Rousseau (2008a) relata que, em sua estada na Charmettes da Sra. de Warrens, conheceu o livro do Padre

Lamy intitulado Palestras sobre as ciências e que o leu e o releu pelo menos umas cem vezes.

139 Sobre a concepção de Malebranche e de Lamy acerca da ciência de Deus e da ciência dos homens, consultar

pelo autor das coisas, por isso elas são boas em si mesmas e são fontes da verdade; “[...] tudo conhecer é um de seus tributos divinos: adquirir conhecimentos e espalhar luzes equivale, pois, a participar, de certo modo, da inteligência suprema” (ROUSSEAU, 1999b, p. 242). Em seu Prefácio de Narciso, Rousseau (1999c, p. 294) afirma que: “[...] A ciência, tomada de modo abstrato, merece nossa inteira admiração. A louca ciência dos homens é digna unicamente de escárnio e de desprezo140”.

Para Rousseau, os princípios abstratos – absolutos – provêm de Deus, sendo diferente da ciência dos homens, que se corrompe em contato com os enredos sociais de seu tempo141. No Prefácio de Narciso, Rousseau separa os valores absolutos dos princípios

considerados em si mesmos; ele enuncia que a ciência boa em si mesma corrompe-se em contato com os enredos sociais e condena os valores consagrados em seu tempo; “[...] tudo está bem quando sai das mãos do autor das coisas, tudo degenera entre as mãos dos homens”, garante nosso autor no Emílio (ROUSSEAU, 2014, p. 7). Em um de seus primeiros escritos,

Fragmentos sobre Deus e sobre a Revelação, Rousseau perfila que Deus dotou os homens de

sabedoria e gravou em seus corações leis plenas de justiça. Essas leis os conduzem a uma vida livre e feliz, porque dadas pelo Grande Ser, e fornecem a eles autonomia sobre os seus atos e a plenitude sobre suas ações (ROUSSEAU, 2005g). Na filosofia de Rousseau, observa com razão Derathé (2011), a base do conhecimento está na relação entre a consciência moral e a razão.

Em seu pensamento, Rousseau procura ressignificar o valor das ciências ao seu modo, relacionando os saberes a valores positivos da vida social, como os de uma vida simples e virtuosa, com aqueles provenientes dos princípios abstratos de Deus. Ao conceber um novo sentido às ciências, Rousseau dá à raison seu devido reconhecimento. É principalmente nas Cartas em resposta às polêmicas levantadas no Primeiro discurso que Rousseau imprime um tom positivo às ciências e às artes. Na Carta-resposta ao Rei da

Polônia, ele reconhece o valor das Academias de Ciências, Letras e Belas-Artes; ele pontua

que elas devem funcionar como antídotos contra os males sociais e, por consequência, como apoio às necessidades do povo (ROUSSEAU, 1999c). Na Última resposta ao senhor Bordes, Rousseau (1999c, p. 262) afirma que “As ciências são a obra-prima do gênio e da razão [...].

140 Na obra Os devaneios do caminhante solitário, Rousseau (1995, p. 56-57) tece elogios à moral abstrata: “A

verdade geral e abstrata é o mais precioso de todos os bens. Sem ela, o homem é cego; ela é a luz da razão. É por ela que o homem aprende a se conduzir, a ser o que deve ser [...]”.

141 Prado Júnior (2008, p. 333) infere que “[...] Esta distinção [entre a ciência ‘considerada de maneira abstrata’

e a ‘louca ciência dos homens’] parece remeter-nos à problemática do ceticismo, ao abismo que separa o entendimento infinito de Deus, idêntico à verdade, do entendimento finito do homem, condenado ao não saber”. Linhas depois, ele diz que “[...] O verdadeiro objetivo da crítica de Rousseau [com esta distinção] é a modernidade, a mesma que aparece adjetivada nas expressões: Estado moderno, ciência moderna” (PRADO JÚNIOR, 2008, p. 333).

Devemos às artes mecânicas um grande número de invenções úteis que aumentaram os encantos e as comodidades da vida”. Finalmente, em seu Prefácio de Narciso, ele salienta que somente aos verdadeiros sábios foram reservadas as ciências: “[...] Somente a eles convém, para o bem de todos, trabalhar no estudo e essa mesma exceção confirma a regra, pois, se todos os homens fossem Sócrates, a ciência não seria então danosa, mas também não teriam nenhuma necessidade dela” (ROUSSEAU, 1999c, p. 299).

Rousseau reserva a uma elite de gênios a exclusividade das ciências. Para ele, a excepcionalidade do gênio é uma condição sine qua non de alguns indivíduos; uma habilidade única que não poderia ser encerrada em cadeiras ou aulas enfadonhas. “[...] Os Verulamios, os Descartes e os Newtons, esses preceptores do gênero humano, não tiveram preceptores [...]; é a esse pequeno número que cabe elevar monumentos à glória do espírito humano” (ROUSSEAU, 1999c, p. 213). Somente aos verdadeiros sábios foram reservadas as ciências, desde que o todo coletivo se sirva de seus resultados, apenas os homens superiores devem ocupar-se do conhecimento. Na Carta-resposta ao Rei da Polônia, Rousseau (1999c, p. 243) constata que a ciência é papel de alguns, e não da maioria dos homens: “[...] Eu diria que a ciência, apesar de muitíssimo bela e muitíssimo sublime, não é feita para o homem; que lhe basta estudar seus deveres e que cada um recebeu todas as luzes necessárias a esse estudo”. Cada indivíduo deve cuidar dos seus ofícios e procurar viver da melhor maneira possível. A ciência é boa quando é útil ao povo, e este é virtuoso quando cumpre suas tarefas sociais. Para Rousseau, se o gênio é uma condição única para alguns, da mesma forma a habilidade de um artesão ou de um carpinteiro é igualmente singular para cada indivíduo.

Numa perspectiva rousseauniana, a razão deve ser prática. Consoante Rousseau, exercitamos melhor o nosso espírito quando procuramos na natureza ou em nossas habilidades, sejam elas físicas ou intelectuais, o nosso lugar na vida social. A ciência só é boa quando ela está a serviço do povo: “[...] Retirai a nossos sábios o prazer de se fazerem ouvir que o saber nada será para eles” (ROUSSEAU, 1994a, p. 65). A mesma regra vale para um camponês ou um artesão; é para o usufruto das nossas habilidades que derramamos o nosso suor; nossos conhecimentos devem ser aproveitados em benefício da nossa sobrevivência e da nossa felicidade, e não para serem vendidos ou acumulados (ROUSSEAU, 1994a). N’A nova

Heloísa, Rousseau (1994a, p. 66) pondera que de todos os sofistas nossa razão é a que engana

menos: “[...] Logo que se quer refletir, cada um sente o que é bem, cada um discerne o que é belo; não precisamos que nos ensinem a conhecer nem a um nem a outro e apenas nos iludimos neste ponto quanto nos quisermos iludir”. Sendo assim, o que Rousseau (1994a)

quer nos ensinar é que a razão é uma faculdade em prol da vida, e não uma mercadoria que estamos a todo momento a negociar.

Em sua crítica à cultura livresca, Rousseau (1994a) faz do sentiment intérieur um princípio seguro tanto quanto nos é a razão quando ela é por nós bem conduzida. Ele diz que não se deve procurar nos livros princípios e regras que encontramos com maior segurança dentro de nós:

[...] Abandonemos todas essas vãs disputas dos filósofos sobre a felicidade e sobre a virtude, empreguemos, para nos tornarmos bons e felizes, o tempo que dispendem em procurar como se deve sê-lo e proponhamo-nos antes exemplos a serem imitados do que vãos sistemas a seguir. (ROUSSEAU, 1994a, p. 67).

Semelhante conselho Rousseau escreve no Emílio, quando recomenda que a ciência não deve ser ensinada, assim como não devem ser ensinadas a felicidade e a virtude; é sempre o desejo e o prazer que devem produzir em nós a vontade de aprender (ROUSSEAU, 2014). Sendo assim, “[...] Não se trata de ensinar-lhe as ciências, mas de dar-lhe o gosto para amá-las e métodos para aprendê-las quando esse gosto estiver mais desenvolvido. Este é com toda certeza um princípio fundamental de toda boa educação” (ROUSSEAU, 2014, p. 222).

No pensamento de Rousseau, coexistem duas formas de conhecimento: uma ligada à consciência moral presente no interior dos indivíduos e a outra presa a um certo racionalismo de base científica142. A intenção do genebrino em reaver o papel das ciências na

modernidade foi de convertê-las em prol de uma maneira comunitária de viver, tal como aquela presente entre os homens na jeunesse du monde. Nesse sentido, para que as suas intenções fossem bem-sucedidas, Rousseau teve que apelar para a estreita ligação entre a

raison e o couer. Para ele, a junção entre essas duas faculdades deveria ser transformada em

base para que as ciências pudessem, da melhor forma possível, atuar em prol da humanidade. Rousseau acredita que as ciências devem passar pelo crivo moral do “bem” e do “mal”, do “bom” e do “ruim”, para que finalmente possam ser dispensadas em proveito dos homens. Assim, somente o assentimento interior, com o auxílio da razão, pode resguardar as ciências de um valor moral e racional ao mesmo tempo.

Embora Rousseau não acreditasse no retorno do homem ao seu estado primitivo, em especial quando os homens já socializados eram felizes, ele mantém uma esperança na

142 Bernardi (2003) nos lembra que, durante a estada de Rousseau na Charmettes (1737-1738), a Sra. de Warrens

cuidou para que mais de um eclesiástico desse lições sobre música, matemática, geometria, química e latim para o jovem egresso. Essas impressões, realça novamente Bernardi (2003), perduraram por toda a sua vida. Rousseau, embora fosse um cientista amador, participou ativamente dos encontros da République des Lettres, onde assistiu atentamente ao curso de química do Sr. de Rouelle e trocou correspondências com vários botânicos importantes de sua época. Ele escreveu sobre química, música, geografia, botânica e física, como sublinha Bernardi (2003).

humanidade. Os seus argumentos por si desmistificam o otimismo científico que se instaurou no Século das Luzes. Para ele, os filósofos iluministas foram incapazes de questionar a atuação e o avanço das técnicas sobre a natureza. Nesse sentido, as produções anárquicas das ciências tiveram, frente à filosofia de Rousseau, suas intenções colocadas em xeque. Com as suas críticas, no entanto, ele não quis negar os avanços científicos realizados ao longo dos tempos, sua intenção maior foi a de interrogar as ciências sobre a ganância desmedida de suas empresas143. O olhar previdente do nosso filósofo, portanto, não contribuiu apenas com o

aspecto metafísico da história da filosofia, mas colaborou sobremaneira com o despertar ético da crítica filosófica sobre a racionalidade técnico-instrumental, que desde sua época vem se desenvolvendo a passos largos.

É interessante notarmos que as críticas de Rousseau às ciências seguem um roteiro semelhante àquele que ele faz com relação à genealogia e ao desenvolvimento da linguagem. Embora escritos em anos distintos, o Primeiro e o Segundo discurso e o Ensaio sobre a