A filosofia de Condillac (1989) é uma reação aos aspectos inatistas do pensamento de Locke. Em clara referência ao pensador inglês, Condillac (1989, p. 7-8), em seu Tratado dos sistemas, afirma que “[...] erramos quando queremos que nossos conhecimentos tenham origem em princípios abstratos”. Suas críticas se estendem em vários momentos do Tratado das sensações, sua obra mais famosa. Sobre Locke, Condillac (1993, p. 32-33) assevera que “[...] todas as faculdades da alma lhe pareceram qualidades inatas, ele não suspeitou que elas poderiam ter suas origens na própria sensação”. Ainda no Tratado das
sensações, ele contesta a teoria do filósofo inglês, que admite que o homem utiliza desde
sempre a razão para julgar. Para Condillac (1993), o desenvolvimento dos órgãos dos sentidos é anterior ao uso da razão. Assim, em sua crítica ao autor do Ensaio, ele pontua que:
[...] [Locke] se contenta em reconhecer que a alma percebe, pensa, duvida, crê, raciocina, conhece, quer, reflete que estamos convencidos da existência dessas operações, porque encontramo-las em nós mesmos, e que elas contribuem para os progressos de nossos conhecimentos: mas ele não sentiu a necessidade de descobrir seu princípio e geração, não suspeitou que eles poderiam ser simples hábitos adquiridos; parece tê-los considerado como algo inato, e diz apenas que se aperfeiçoam com a prática. (CONDILLAC, 1993, p. 35-36).
Condillac (1993) questiona a doutrina de Locke, asseverando que ela seria demasiado genérica. Monzani (1989) explica que Condillac acreditava ser necessário estudar todas as questões envolvidas no processo do conhecimento, ou seja, era preciso estudar cada sensação separadamente, distinguindo com precisão quais as ideias originadas por esse ou aquele sentido. Consoante Monzani (1989, p. IX):
[...] o resultado final dessas investigações seria, sem dúvida, o de que não só os conteúdos da consciência [como pensava Locke], mas também suas atividades e formas de pensamento constituem simples transformações de sensações passivas elementares, excluindo-se [outra tese de Locke] a reflexão como fonte do conhecimento.
A originalidade do pensamento de Condillac (1993), em relação à filosofia de Locke, foi ter radicalizado o seu empirismo e ter afirmado que os processos para a confecção do conhecimento começam e se desenvolvem exclusivamente pela via das sensações, para somente depois passarem por processos de avaliação mental (racional). Sobre a primeira hipótese, ele admite que “[...] todos os nossos conhecimentos vêm dos sentidos; de outro,
nossas sensações são apenas nossas maneiras de ser” (CONDILLAC, 1993, p. 42). No outro aspecto, “O princípio que determina o desenvolvimento de suas faculdades é simples; está encerrado nas próprias sensações [...]. O juízo, a reflexão, os desejos, as paixões, etc., não são mais do que a própria sensação que se transforma de diferentes maneiras [...]” (CONDILLAC, 1993, p. 56). Em seu artigo intitulado Condillac: Iluminismo como antropologia sensorialista
e filosofia da linguagem, Ricken (2007, p. 216) aponta que, para o autor do Tratado das sensações, o conhecimento provém dos sentidos e que a sensação transformada é a origem do
conhecimento: “[...] o surgimento de toda capacidade de raciocínio do ser humano é derivado da percepção sensória”.
Condillac (1993) marca uma outra novidade com relação ao empirismo de Locke. Se o desejo, para Locke (2012c), é o motor que move o homem para a descoberta de novos conhecimentos, Condillac (1993) ressalta que esses novos conhecimentos só podem ser produzidos por meio da relação de conveniência ou não conveniência, ou seja, do prazer ou da dor que os homens experimentam na correlação de suas sensações com os objetos externos a eles. Conforme o autor do Tratado das sensações, Locke confundiu o desejo com a causa que o produz, a inquietude (CONDILLAC, 1993). Para Condillac (1993, p. 38), “[...] não existem sensações indiferentes a não ser por comparação; cada uma é agradável ou desagradável em si: sentir e não se sentir bem ou mal são expressões totalmente contraditórias”. O par prazer/dor, como observa Monzani (1989), constitui, na filosofia de Condillac, o único princípio que determina todas as operações na alma. É desse princípio que nasce o desejo e, portanto, a necessidade do conhecimento, segundo Condillac (1993).
No sumário analítico do Tratado das sensações, ele assinala que o principal objetivo de sua obra é mostrar ao leitor como todos os nossos conhecimentos são provenientes dos sentidos, ou, para ser mais preciso, das sensações; pois, na verdade, os sentidos não passam de sua causa ocasional: “Eles [os sentidos] não sentem, é apenas a alma que sente por ocasião dos órgãos; e é das sensações que a modificam que ela extrai todos os seus conhecimentos e todas as suas faculdades” (CONDILLAC, 1993, p. 31). De acordo com Condillac (1993), a alma é a faculdade de onde irradia o conhecimento humano; para ele, diferentemente de Locke, o intelecto não se sobrepõe aos sentidos, mas, ao contrário, subordina-se a eles, por isso “[...] o prazer e a dor são o único princípio que, determinando todas as operações de sua alma, deve elevá-la gradualmente a todos os conhecimentos de que é capaz” (CONDILLAC, 1993, p. 65). É desse par prazer/dor que são desencadeados todos os progressos do conhecimento humano, como descreve Condillac (1993, p. 92):
[...] nossas primeiras ideias não passam de dor ou prazer. Logo outras se sucedem e dão lugar a comparações, donde nascem nossas primeiras necessidades e nossos primeiros desejos. Nossas tentativas de satisfazê-los levam a adquirir outras ideias que produzem outros novos desejos. O espanto, que contribui para que sintamos vivamente o que de extraordinário acontece, aumenta de tempos em tempos a atividade de nossas faculdades; e forma-se uma cadeia cujos elos são, alternadamente, ideias e desejos, e que basta seguir para descobrir o progresso de todos os conhecimentos do homem.