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4. ELEKTRİK İLETİM TESİSLERİ

Essas explicações preliminares do sistema de Condillac sobre a aquisição e o funcionamento do conhecimento humano servirão para compreendermos o famoso exemplo da estátua usado em seu Tratado das sensações. A imagem construída por ele de uma estátua isolada do comércio dos homens, sem linguagem e desprovida de qualquer hábito, assemelha- -se ao retrato do homem primitivo descrito por Rousseau no Segundo discurso e do jovem selvagem apresentado no Emílio. O método genético de investigação dos sentidos e dos seus desenvolvimentos, aliado ao isolamento do indivíduo da esfera social, faz das teorias de Condillac e de Rousseau um departamento do deducionismo histórico e, ao mesmo tempo, da psicologia43. Sobre o Tratado das sensações, Condillac (1993, p. 33) enuncia que essa “[...] é a

única obra em que o homem foi despojado de todos os seus hábitos. Observando o sentimento desde o seu nascimento, aqui se demonstra como adquirimos o uso de nossas faculdades”. Rousseau (1999b), de forma semelhante a Condillac, assevera que os primeiros homens eram desprovidos de hábitos e que só de maneira lenta e tardia estes desenvolveram suas habilidades. As ideias de Rousseau no Segundo discurso concordam em parte com as teorias de Condillac no Tratado das sensações. Para ambos, a razão é uma faculdade que só tardiamente foi desenvolvida e, como observa Morel (1909), embora Condillac atribua o uso da razão a um desenvolvimento individual e Rousseau ao desenvolvimento de uma espécie44, a tese única é

que os homens não precisaram do entendimento desde sempre. Por muito tempo, a razão foi uma faculdade virtual; o selvagem vivendo na natureza era desprovido de costumes, semelhante à estátua de Condillac, que, em seu estado de isolamento, não possuía hábitos. No Segundo

43 Cassirer (1999, p. 108) diz que Rousseau “[...] Ligou-se a Condillac não somente por uma estreita amizade

pessoal, mas este desde o princípio tornou-se o seu guia e mestre admirado em todas as questões relativas à doutrina epistemológica e à psicologia analítica. No Emílio, também essa dependência de modo algum é superada. Ela se destaca inequivocamente na maneira como Rousseau coloca ali o seu pupilo ascendendo passo a passo do ‘concreto’ ao ‘abstrato’, do ‘sensorial’ ao ‘intelectual’. Temos aqui, diante de nós, essencialmente nada mais do que a aplicação pedagógica daquela famosa imagem cunhada por Condillac no Tratado das sensações – a imagem da estátua que vai sendo gradualmente despertada para a vida à medida que cada um dos sentidos registra nela suas impressões”.

44 Sobre isso, Starobinski (2011, p. 417) assinala que “[...] os sensualistas não cessam de evocar o papel da

experiência; mas, tal como a entendem, a experiência é apenas uma sucessão de momentos abstratos; Rousseau, em compensação, temporaliza a experiência, estende-se através da duração e faz dela uma história em devir”.

discurso, Rousseau explica que a imaginação do selvagem nada lhe dizia, pois suas

necessidades encontravam-se ao seu alcance, por isso, da mesma forma, ele não nutria desejos nem sentia curiosidade sobre as coisas que manipulava. Para o selvagem, existir é sendo, pontua Rousseau (1999b, p. 67)45: “[...] Sua alma, que nada agita, entrega-se unicamente ao sentimento

da existência atual sem nenhuma ideia do futuro, ainda que próximo, e seus projetos, limitados como suas vistas, dificilmente se estendiam até o fim do dia”.

Bastide (1999), em nota a este trecho do Segundo discurso, observa que Rousseau inspirou-se no Ensaio sobre a origem dos conhecimentos humanos de Condillac. Para Rousseau, explica Bastide (1999, p. 67), “[...] A história do pensamento humano durante muito tempo foi orientada unicamente pelas impressões dos sentidos”. No Segundo discurso, o genebrino esclarece que nas primeiras épocas “[...] O homem encontrava unicamente no instinto todo o necessário para viver no estado de natureza [...]” (ROUSSEAU, 1999b, p. 75). Esse empreendimento genético de Rousseau foi apreendido exemplarmente de Condillac na obra supracitada. No Ensaio, Condillac (2010, p. 15) sinaliza que é “[...] Necessário remontar à origem das nossas ideias, desenvolver a geração, ou seguir até os limites que a natureza prescreveu, para fixar o entendimento e os limites dos nossos conhecimentos [...]”.

No Ensaio, mas sobretudo no Tratado das sensações, Condillac explica que o homem só pode apoderar-se do seu entendimento após ter desenvolvido longamente os seus sentidos. Para Rousseau, esse desenvolvimento das habilidades manuais do homem foi imprescindível para o uso em definitivo de sua razão. Contudo, pontua Rousseau (1999b), foram as necessidades cotidianas, como a disputa com outros animais pela sobrevivência, o aumento do gênero humano e a necessidade de juntar-se a outros semelhantes, causa de sua sociabilidade, que fizeram o homem passar a comparar e analisar os objetos e as relações sociais que formava ao longo de sua existência. Portanto, o desenvolvimento da sociabilidade é o que marca, na antropologia rousseauniana, o desenvolvimento da inteligência humana. “Eis, pois, todas as nossas faculdades desenvolvidas, a memória e a imaginação em ação, o amor-próprio interessado, a razão em atividade, alcançando o espírito quase que o termo da perfectibilidade de que é suscetível” (ROUSSEAU, 1999b, p. 97).

Rousseau escreve sobre o alcance da perfectibilidade humana para justificar a passagem do estado de natureza para o estado social46, ou mais exatamente para falar das lentas

45 Goldschimidt (1983, p. 329) enuncia que “A potência [do homem natural] não é a força do braço, mas a relação

equilibrada entre as necessidades e as faculdades, isto é, mais fundamentalmente à [sua] independência [...]”.

46 Matos (1978) destaca o dúplice aspecto do conceito de perfectibilidade no pensamento de Rousseau. A autora

assegura que, para Rousseau, o instinto de perfectibilidade encontra-se na origem de todas as transformações históricas e sociais do homem. A perfectibilidade, ao mesmo tempo que simboliza a conquista das “luzes

aquisições que o espírito adquiriu através dos longos e sucessivos desenvolvimentos dos sentidos. Embora a teoria das sensações transformadas de Condillac seja estranha a Rousseau, como observa Schøsler (1978), o genebrino não nega que, no estado pré-social, o homem era todo instinto e tudo de que ele dispunha era do uso dos seus sentidos47. A entrada do homem na

esfera pública marca também o uso do seu entendimento e, ao mesmo tempo, nega a utilidade da razão no estado de natureza. Rousseau (1999b, p. 123-124) afirma essa realidade em suas notas preparadas para o Segundo discurso: “Todos os nossos conhecimentos que exigem reflexão, todos aqueles que só se adquirem pelo encadeamento de ideias e que só se aperfeiçoam sucessivamente parecem estar completamente fora do alcance do homem selvagem [...]”. É assim que ele conclui sua exposição no Segundo discurso: “[...] Conclui-se dessa exposição que, sendo quase nula a desigualdade no estado de natureza, [o homem] deve sua força e seu desenvolvimento às nossas faculdades e aos progressos do espírito humano [...]” (ROUSSEAU, 1999b, p. 116).

A adesão de Rousseau às ideias de Condillac é confirmada por algumas ideias presentes no Segundo discurso, a exemplo da afirmação que postula que a longa instrução dos sentidos, a luta pela sobrevivência e a sociabilidade tiraram o homem primitivo do estado de letargia da razão. Condillac foi para ele uma fonte de inspiração. No Tratado das sensações, o francês reforça que “[...] o homem, não tendo sido a princípio mais do que um animal senciente, torna-se um animal reflexionante, capaz de velar pessoalmente por sua conservação” (CONDILLAC, 1993, p. 47). No Emílio, Rousseau aproxima-se cada vez mais do seu contemporâneo e da sua hipótese do desenvolvimento gradual do conhecimento, exposta no Tratado das sensações. Assim, em sua grande obra sobre educação, ele defende que a infância é o sono da razão e que todo o saber da criança está na sensação, porque nada nessa fase passou para o entendimento48 (ROUSSEAU, 2014). O infante, em certa medida,

aproxima-se do selvagem dos primeiros tempos. Não seria, portanto, exagero afirmar que o Emílio é uma pista para o homem natural49.

adquiridas”, é também a gênese de todas as misérias, pois representa de forma definitiva a permanência do homem na vida em sociedade. “Entendida como desenvolvimento de ‘potencialidades’, a perfectibilidade é sinônimo de progresso, mas de um progresso que é ‘a perdição do gênero humano’” (MATOS, 1978, p. 42).

47 “A maneira pela qual Rousseau fala da verdade dos sentidos não é diferente do que propõe a filosofia de

Condillac, para quem o erro só começa a partir do momento em que julgamos os dados sensíveis [...]. A sensação sempre tem razão, mas não sabe que tem razão” (STAROBINSKI, 2011, p. 515).

48 Rousseau se refere à razão intelectual, que na criança ainda não se consolidou. No entanto, é equivocado,

numa perspectiva rousseauniana, asseverar que a criança seja desprovida de razão. Na realidade, para o genebrino, nem o homem primitivo era irracional. Para Rousseau, a razão na criança é sensitiva e pouco desenvolvida, enquanto no selvagem a razão era uma faculdade virtual.

49 Sobre isso, Masters (2002, p. 29) assinala que “É necessário, no entanto, distinguir esta história [do indivíduo

Condillac, assim como Rousseau, acredita que existe um progresso na escala do conhecimento. Como vimos, o homem parte lentamente dos sentidos em direção à razão.

À medida que o ser sensitivo torna-se ativo, adquire um discernimento proporcional às suas forças; e é somente com a força que excede aquela de que precisa para conservar-se que se desenvolve nele a faculdade especulativa própria para empregar esse excesso de força em outros usos. Quereis, então, cultivar a inteligência de vosso aluno; cultivai as forças que ele deve governar. Exercitai de contínuo seu corpo; tornai-o robusto e sadio, para torná-lo sábio e razoável; que ele trabalhe, aja, corra e grite, esteja sempre em movimento; que seja homem pelo vigor, e logo o será pela razão. (ROUSSEAU, 2014, p. 137).

Rousseau (2014, p. 149) defende a ideia de que é preciso educar os sentidos e fortalecer os órgãos do corpo para formar uma boa razão: “[...] longe da verdadeira razão do homem, formar-se independentemente do corpo é a boa conformação do corpo que torna fáceis e seguras as operações do espírito”. Condillac (1993) nos ensina que somente a paciente instrução dos sentidos torna o homem apto para usar a razão. Em sua filosofia, os sentidos e a razão estão intimamente interligados; não é diferente para Rousseau (2014). Em certa medida, podemos inferir que o homem do estado de natureza e o Emílio seguem o desenvolvimento progressivo das operações do espírito de maneira semelhante à da estátua de Condillac. Quanto a essa questão, Morel (1909, p. 156) alega que:

[...] Sem Condillac, Rousseau não teria podido elaborar sua ideia do homem da natureza, mais próximo do antropoide que do homem. Todos [os filósofos] políticos que ele leu acreditaram que a razão é um fato inato [inclui-se entre eles John Locke] [...]. Entre todas essas influências, Rousseau se interpõe à afirmação de Condillac: as operações do espírito aparecem numa ordem progressiva.

Como no sensualismo de Condillac, no Emílio Rousseau liga a boa formação da razão à educação gradual dos sentidos do seu aluno. Ele afirma que “[...] não podemos saber o uso de nossos órgãos sem tê-los empregado. Só uma longa experiência pode nos ensinar a tirar partido de nós próprios, e esta experiência é o verdadeiro estudo em que nunca é cedo demais para nos aplicarmos” (ROUSSEAU, 2014, p. 185). Esse será o mote para que Rousseau (2014) postule que a razão se forma pelo gradativo desenvolvimento dos sentidos.

No Emílio, ele sinaliza que os primeiros movimentos naturais do homem consistem em medir-se com tudo que o rodeia e em experimentar em cada objeto suas qualidades sensíveis a partir daquilo que se relaciona com ele. Esse estudo de física experimental, como

Emílio reconstitui o desenvolvimento do homem natural graças ao qual a espécie atingiu sua condição presente. Rousseau pressupõe no Emílio a evolução e o aperfeiçoamento da espécie e a destruição irreversível do estado de natureza: ele [Rousseau] analisa [no Emílio], portanto, ‘a condição humana’ tal qual somos hoje”. Goldschimidt (1983, p. 326) não desfaz as observações de Masters (2002), porém avalia que a criança e o selvagem são semelhantes por sua inocência original: “[...] l’innocence traditionelle de l’infant est tout à fait de l’état de nature [...]”. É essa última perspectiva que tomaremos como hipótese.

observa Rousseau (2014), é o primeiro e o mais importante para a sua conservação. Enquanto os seus sentidos ainda são puros, ele pode exercitá-los nas funções que lhes são próprias, uma vez que o tempo para ele é de aprender a conhecer as relações sensíveis que as coisas têm consigo. Consoante Rousseau (2014, p. 148): “[...] Como tudo que entra no entendimento humano vem pelos sentidos, a primeira razão do homem é uma razão sensitiva; é ela que serve de base para a razão intelectual: nossos primeiros mestres de filosofia são nossos pés, nossas mãos, nossos olhos”. Ao longo do Livro II do Emílio, Rousseau faz considerações sobre o uso e a atuação dos sentidos, não de maneira tão detalhada como Condillac se dedica ao assunto no

Tratado das sensações, porém, de maneira semelhante à de seu contemporâneo, o genebrino

reconhece que a razão intelectiva se forma tendo como auxiliar a razão pueril50, ou seja,

através do auxílio de várias sensações que ajudam a formar as ideias simples e, consequentemente, as ideias complexas (ROUSSEAU, 2014).

Um outro ponto de contato entre o pensamento de Condillac e o de Rousseau diz respeito ao princípio do prazer e da dor como motores do conhecimento humano. No Emílio, o genebrino ressalta a importância das coisas agradáveis e daquelas que são inconvenientes no processo de aquisição do conhecimento por parte da criança. Como o filósofo francês, Rousseau destaca que somos seres sencientes e que somos afetados desde o nascimento pelos objetos que nos cercam. Assim que adquirimos, por assim dizer, a consciência de nossas sensações:

[...] estamos dispostos a procurar ou a evitar os objetos que as produzem, em primeiro lugar conforme elas sejam agradáveis, depois conforme a conveniência ou a inconveniência que encontramos entre nós e esses objetos, e, enfim, conforme os juízos que fazemos sobre a ideia de felicidade ou de perfeição que a razão nos dá. (ROUSSEAU, 2014, p. 10).

A dupla conveniência/inconveniência de Rousseau é semelhante ao par prazer/dor de Condillac, com a diferença de que, para Rousseau, a razão, e não os sentidos, como quer o filósofo francês, fornece-nos os juízos sobre a ideia de felicidade que extraímos do nosso contato com os objetos. No Tratado das sensações, Condillac (1993, p. 37) parece manter uma concordância provisória com o pensamento de Rousseau, como se pode ler no excerto:

Perceber ou sentir essas duas sensações é a mesma coisa: ora, esse sentimento assume o nome de sensação quando essa sensação se exerce atualmente sobre os sentidos, e o nome de memória quando essa sensação, que não se exerce atualmente, se nos oferece como uma sensação já exercida.

50 Derathé (2011, p. 177-178) pontua que: “Sobre o plano psicológico, a razão se define [para Rousseau] como

uma regra ou um guia, que, para o homem, resulta do emprego judicioso de todas as suas faculdades. Ela não é propriamente uma faculdade, ela não é, por assim dizer, o composto de todas as outras faculdades humanas. Com a razão, assim definida, ela se divide em razão sensitiva e razão intelectual; não há em Rousseau a oposição que os cartesianos estabelecem entre a razão e os sentidos. Sobre este ponto, Rousseau é um discípulo fiel de Condillac”.

Na página seguinte do seu Tratado, Condillac (1993, p. 38) explica que:

[...] percorrendo desta maneira todas as sensações que eles [os objetos] provocam em nós, descobrimos por uma sequência de comparações e juízos as relações que existem entre eles, e o resultado desses juízos é a ideia que formamos de cada um. A atenção assim conduzida é como uma luz que reflete de um corpo sobre o outro para iluminar ambos, e denomino-a reflexão. A sensação, depois de ter sido atenção, comparação, juízo, transforma-se ainda na própria reflexão.

Essa ideia de Condillac (1993) de que a razão julga enquanto os sentidos apenas absorvem o impacto dos objetos sobre nós é parcialmente aceita por Rousseau, porque o processo de formação da reflexão é praticamente comum para ambos. No entanto, essa concordância é provisória e se desfaz, haja vista que a teoria das sensações transformadas de Condillac, como veremos, é estranha para Jean-Jacques.