Michelle Grier intenta, conforme afirma o título de sua obra, explicitar a “teoria” ou a
“doutrina” kantiana na ilusão transcendental, ao passo que Gerar Lebrun, em seu “Kant e o
fim da Metafísica”, busca trazer à baila o aspecto a-doutrinal da Dialética Transcendental,
“De investigação subjetiva, mas até agora governada pela analítica lógica (doutrina para o
juízo), a Crítica da razão pura torna-se então, expressamente, um exame não-doutrinal” (LEBRUN, 2002, p. 66, grifos do autor).
Lebrun ressalta, por assim dizer, o caráter efetivamente “revolucionário” da Crítica
kantiana com relação a toda a filosofia prévia a ela. Em outras palavras, é preciso levar a revolução copernicana às suas últimas consequências, pois “a Crítica não traz uma outra
verdade; ela ensina a pensar de outra maneira” (LEBRUN, 2002, p. 5). É esse aspecto que
torna possível uma investigação concreta e efetiva das “ilusões” da metafísica que nenhuma outra filosofia anterior havia feito.
Embora esse ponto de discordância entre Grier e Lebrun, de que a Dialética Transcendental não exibe propriamente uma doutrina, seja de suma importância, ambos concordam que a Dialética de Kant, contra certa leitura positivista, não se presta apenas a avançar contra os rastros metafísicos nas ciências teóricas e também não é mero ataque às metafísicas até então feitas. Ou seja, Lebrun adere à corrente que não vê a Dialética como limitação do conhecimento teórico ou refutação dos sistemas metafísicos. Conforme diz Lebrun:
Centrar a crítica na restrição à intuição no nosso uso teórico da razão é forçosamente expor-se a deformar seu projeto; é privilegiar a análise do conhecimento (o meio) às expensas da determinação da envergadura da razão (o fim). Que nossa razão cognoscente seja
limitada exclusivamente aos fenômenos, esse é um resultado essencial da Crítica – mas que ela “deva se situar em relação ao espaço que ela vê em torno dela” (Proleg. IV 353), essa é a sua motivação. É verdade que a Crítica nos proíbe de ultrapassar o plano dos fenômenos, pois “o limite dos fenômenos pertence ao fenômeno”; “mas a coisa que forma o limite está fora deste” (Rx 4958). Ora, é a presença dessa “coisa” que nos obriga a traçar a linha, é porque o oceano estende-se a perder de vista que nós percorremos a orla. (LEBRUN, 2002, p. 44)
O propósito da Crítica não é restringir o conhecimento à experiência, mas sim apresentar as fronteiras da razão que, justamente, se projetam para além dessa experiência. A revolução copernicana não veio para puramente limitar, pois é a própria distinção entre fenômenos e coisas em si que também cumpre a função de mostrar os limites daquilo que o entendimento alcança, mas apresenta a necessidade que a razão tem de tentar ir além desses limites.
Sob duas chaves de interpretação distintas – uma que compreende a Dialética como uma doutrina da ilusão transcendental e outra que defende o caráter a-doutrinal da Dialética, Grier e Lebrun assinalam com uma resposta possível para o problema da nossa investigação: como se dão os erros da metafísica e se, à luz da Dialética e do Apêndice, é possível admitir um uso legítimo dos conceitos da razão que não conduzam às falácias da metafísica especial.
Grier e Lebrun afirmam que o erro da metafísica especial não está na busca por um incondicionado que encerre a série condicionada. O erro está em pressupor que as condições com a razão são as mesmas que com as categorias, bastando “copiar” a unidade sintética das categorias. É o uso das categorias do entendimento, e estas sim estão necessariamente limitadas à experiência, na tentativa de conceber objetos suprassensíveis que conduzirá inevitavelmente ao erro.
Ambos comentadores pretendem aludir ao fato que o objetivo de Kant com a Dialética não é fazer um mero inventário das falácias da metafísica especial, mas sim mostrar como as ideias da metafísica são produto de uma “ilusão racional”; ideias estas que são corolário do
próprio funcionamento da razão e não meros erros a serem simplesmente descartados e que surgiram de maneira exógena ao processo. A Dialética apresenta a necessidade de compreender o processo que ocasiona as ideias da metafísica e o Apêndice, como mostramos, como estas ideias são necessárias para o estabelecimento do conhecimento.
Lebrun, citando a Lógica, afirma que mais relevante que a refutação das falácias da
metafísica é desvelar o processo que as gera: “Eles procuraram apenas refutar os próprios
erros, sem indicar a Aparência de onde eles nascem. Ora, essa descoberta e essa dissipação da aparência são um serviço prestado à verdade, bem maior do que a refutação direta dos próprios erros [...]” (LEBRUN apud KANT, 2002, p. 65-66).
Frisamos que, embora a investigação aqui proposta obtenha suporte maior na interpretação de Michelle Grier que na de Gerard Lebrun, visto que a tese da pesquisadora culmina na afirmação que aquilo que Kant traz no Apêndice, é, de fato “a articulação da função positiva dessa demanda [demanda por uma unidade sistemática], ou princípio, da
razão” (GRIER, 2001, p. 34), não apenas a unidade sistemática da natureza, mas das ideias
cosmológicas, psicológica e teológica. Isso, em passo inverso do que afirma Lebrun, para quem Kant não está formulando uma nova doutrina com a Dialética, agora para explicar a
“ilusão transcendental” ou ainda uma “doutrina da razão”, mas sim, como é todo o mote de
sua obra Kant e o fim da metafísica, ele está a afirmar que Kant aponta para problemáticas e não para uma doutrina outra, reiterando o que fora afirmado: “A Crítica não tem, portanto, como tarefa munir-nos de convicções novas, mas sim fazer-nos colocar em questão o modo que tínhamos de ser convencidos. Ela não nos traz uma outra verdade; ela nos ensina a pensar
de outra maneira” (LEBRUN, 2002, p. 5). Para o filósofo francês, mesmo quando pensamos
no Apêndice, não podemos desconsiderar o novo registro em que a filosofia crítica se coloca e o desafio que isso representa para o edifício da metafísica (que continua sendo alvo de uma crítica devastadora, conforme se vê no capítulo segundo de Kant e o fim da metafísica).
Enquanto que para Grier há uma purgação possível para as ilusões da metafísica – que se originam no seio da própria razão, dentro de uma “doutrina da ilusão transcendental”, que acolhe o erro enquanto erro para poder superá-lo e enquadrá-lo como uma parte do percurso a ser superada. Dentro desse contexto pode-se atribuir um caráter ativo ao estofo da razão sem
que isso implique nalgum tipo de “deslize”, ao passo que Lebrun considera as concessões
feitas por Kant problemáticas:
No Apêndice, o deslize da unidade sistemática para a unidade final permanece ambíguo e mal justificado. Que o todo da natureza forma um sistema: essa pressuposição, afinal, deveria bastar; ela apareceria claramente como uma ficção útil. Mas que o todo da natureza, para ser pensado como sistema, exija o esquema tecnológico, essa é uma pressuposição suplementar – mesmo se estruturalmente indispensável – que faz ressurgir a ideia de uma demiurgia pelo menos imaginável (LEBRUN, 2002, p. 319).