1.2. DOĞRUDAN YABANCI YATIRIMLARIN TEORİK ÇERÇEVESİ VE
1.2.2 Doğrudan Yabancı Yatırımların Belirleyicileri
1.2.2.4 Literatür Düzleminde Doğrudan Yabancı Yatırımların Belirleyicileri
1.2.2.4.2 Ekonomik İstikrar
Segundo Lacey, a ciência moderna pode ser caracterizada prioritariamente pela adoção do controle. Isso faz que fatores como a imagem que a ciência projeta a respeito da natureza não seja livre, no sentido de destituída, de valor. Desse modo, Lacey considera que a ciência é capaz de fornecer não são “(...) representações do mundo tal como ele é, mas uma imagem do mundo no qual, em certa medida, incidem nossa presença e nossos valores” (Lacey, 2008e, p. 37). O fundamento para a manutenção do controle como orientador da representação que a ciência fornece sobre o mundo é, por um lado, um fundamento sociológico e, por outro, epistemológico, ambos contribuindo para a expressão do sucesso da ciência.
Assim, da perspectiva sociológica, a ciência contribui para o desenvolvimento da tecnologia (Lacey, 2008e, p. 37), ou seja, possibilita um poder/fazer, um controle por meio do uso de determinados instrumentos, com certo grau de estabilidade e de previsibilidade. E, da perspectiva epistemológica, a justificativa para o sucesso da ciência é dada pela visão objetivista, segundo o qual a ciência fornece entendimento do mundo “(...) tal como ele é, ou seja, a representação dos componentes, estruturas, processos e leis do mundo” (Lacey, 2008e, p. 38), de modo que se obtenha com isso conhecimento objetivo.
Essa interação entre a ciência vista a partir da perspectiva metafísica materialista e da tecnologia contribui para o incremento da própria aceitação da teoria, que passa a estar apoiada na aplicação tecnológica, pois ela é considerada como uma “(...) replicação concreta das experiências que fornecem comprovações para uma teoria” (Lacey, 2008e, p. 40). Porém, dado a intermediação do conhecimento da natureza realizada pelo cientista que, por sua vez, endossa certos valores (pessoais e sociais) e não outros, Lacey considera que ao invés da metafísica materialista, o que efetivamente está em jogo na ciência é o entendimento que tem em vista o “(...) valor social do controle” (Lacey, 2008e, p. 41).
Sem entrarmos ainda no mérito das distinções entre os tipos de valores, vale ressaltar o que podemos denominar de a guinada valorativa proposta por Lacey, ou seja, a possibilidade
75 de analisarmos a ciência pelo viés dos valores e não por meio de uma suposta tábula rasa valorativa. Consideramos que a desconsideração dos valores pode produzir o efeito não de aumentar a desejável neutralidade do conhecimento científico, pela afirmação de que a ciência é livre de valores, mas antes de esconder os valores segundo os quais a ciência efetivamente opera. Assim, a proposta crítica de Lacey em relação à tese da “ciência livre de valores” provoca diretamente sua negação, pois é necessário reconhecer a interação entre a ciência e o controle da natureza. Além disso, é digno de nota também o fato de Lacey considerar o controle um valor social e, portanto, traçar uma linha de continuidade entre a sociedade e a ciência (mediado pela tecnologia, tanto por seu papel de reforço do teste das teorias, quanto por sua aplicação e, portanto, utilidade pública) e a própria atividade científica, reunindo, por fim, as esferas do fato e do valor.55
Portanto, ao invés de um papel secundário ou mesmo inexistente para os valores na atividade científica, Lacey eleva a análise dos valores ao patamar de imprescindibilidade, visto que no desenvolvimento das atividades científicas, o valor apresenta papel no “(...) nível das estratégias de restrição e seleção” (Lacey, 2008e [1997], p. 41). No entanto, existem diferentes tipos de valores, tais como os pessoais, os sociais e aqueles que expressam anseios privados ou públicos. É possível, por exemplo, que o indivíduo “(...) mantenha silêncio sobre seus valores pessoais ou os afirme publicamente [o que] é em si mesmo um reflexo de seus valores pessoais” (Lacey, 2008d[1997], p. 50). O que é certo para Lacey é só é possível “(...) agir segundo seus próprios valores, [ou seja, só] se pode ou não expressar o tipo de pessoa que aspira ser [caso haja contexto social que permita sua expressão, pois], isto depende socialmente, e mesmo logicamente, de que outros sustentem certos valores pessoais e sociais” (Lacey, 2008d[1997], p. 51).
Desse modo, por mais que existam diferenças entre os valores pessoais sustentados e reforçados pelos indivíduos na realização de seus projetos de vida, a base material oferecida por contextos sociais específicos pode permitir, inclusive, a realização daqueles projetos
55 Putnam esvazia a dicotomia fato/valor de suas possíveis conotações metafísicas. Tal dicotomia que, por um lado, se apoia na tese de que a ética não trata de questões de fato, embora, segundo Putnam, Hume ainda mantivesse a crença não cognitivista na ética, enquanto Carnap tentou certamente excluí-la do domínio do conhecimento (cf. Putnam, 2002, p. 19-20). Cabe ressaltar que, “(...) [n]os escritos dos positivistas, no caso de ambas as dualidades das sentenças analíticas e fatuais e dos julgamentos éticos e fatuais, é a concepção de ‘fatual’ que faz todo o trabalho filosófico” (Putnam, 2002, p. 21). Em outras palavras, para demonstrar a invalidade da dicotomia fato/valor, baseada como está na ideia de “fato”, Putnam ressalta que mesmo os mais ávidos defensores da distinção, ou seja, os positivistas, foram pressionados a abandoná-la. Isto porque mudanças na própria ciência, fruto dos desenvolvimentos especialmente da Física do século XX impactaram diretamente na
76 pessoais; e, mesmo os projetos coletivos, tal como a prática científica, dependem da criação e da manutenção de contextos sociais para sua realização. Daí porque, no caso da análise da ciência proposta por Lacey, o reconhecimento do valor social do controle influenciando, portanto, as estratégias de seleção e de restrição da pesquisa científica promove, como sugerimos, uma guinada valorativa para a filosofia da ciência.
A fim de melhor compreendermos o modo como os valores interagem com a prática científica, Lacey e Mariconda consideram que existe um momento logicamente anterior ao exercício da pesquisa, que é constituído fundamentalmente pela adoção da estratégia de pesquisa de seleção e de restrição (cf. Lacey & Mariconda, 2014a, p. 646). E, embora dediquemos um item específico para analisar tanto as estratégias de pesquisa, quanto os momentos de realização da atividade científica (cf. cap. 2, item 2.3), cabe nesse ponto de nossa exposição distinguir dois tipos de estratégias científicas que, por sua vez, carregam consigo distintas perspectivas de valor, que são as estratégias descontextualizadoras e as estratégias sensíveis ao contexto. Isso porque elas representam no modelo da interação entre as atividades científicas e os valores dois modos de exercício da atividade científica que são associadas a valores, por vezes, conflitantes entre si.
Lacey e Mariconda consideram que a estratégia de pesquisa possui duas implicações principais para a prática científica. Ela, por um lado, “(...) restringe os tipos de teorias (ou hipóteses) a serem considerados e possivelmente aceitos em um projeto de pesquisa”; e, por outro, “(...) seleciona os tipos de dados empíricos que o cientista busca obter e relatar, assim como os fenômenos e aspectos a serem observados pelos pesquisadores” (Lacey & Mariconda, 2014, p. 182). Além disso, os autores afirmam ainda que,
(...) a longo prazo, a adoção de S [,ou seja, da estratégia] depende de sua fecundidade, isto é, de sua capacidade em aumentar o campo de conhecimento científico estabelecido; nesse sentido, há forte restrição empírica na adoção de estratégias (Lacey & Mariconda, 2014, p. 182).
Geralmente, em que pese apresentarem essas três características em comum, ou seja, restringirem os tipos de teorias e selecionarem os dados empíricos, bem como garantirem a sua manutenção devido a apresentação gradual de sua fecundidade, as estratégias de pesquisa implicam distintas perspectivas de valor sendo possível, então, classifica-las conforme dois grupos: o das estratégias descontextualizadoras e o das estratégias sensíveis ao contexto.
77 Quanto às estratégias descontextualizadoras, elas se definem pela restrição de teorias capazes de “(...) representar os fenômenos e encapsular as suas possibilidades por referência à sua ordem causal subjacente (a sua EPILs), isto é, por referência à estrutura subjacente dos fenômenos, aos processos e interações de seus componentes e às leis que os governam” (Lacey & Mariconda, 2014, p. 186). Assim, grande parte do exercício dessa estratégia de investigação implica retirar os fenômenos de suas relações com os contextos sociais e experiências humanas (cf. Lacey & Mariconda, 2014, p. 186). Partindo dessa estratégia que descontextualiza os fenômenos, a natureza é considerada como um “(...) repositório de possibilidades (...) [, permitindo-nos realizar] novos tipos de fenômenos (técnico-científicos) que se podem criar no curso dessas práticas [tecnológicas e experimentais]” (Lacey & Mariconda, 2014, p. 187).
Por contraste, as estratégias sensíveis ao contexto permitem a pesquisa de “(...) fenômenos cujas identidades estão intrinsecamente vinculadas aos contextos” (Lacey & Mariconda, 2014, p. 187). Ademais, não se deve considerar que as SCs (isto é, as estratégias sensíveis ao contexto), substituam completamente o uso das SDs (isto é, das estratégias descontextualizadoras), na medida em que a “(...) pesquisa conduzida sob SCs utiliza conhecimento obtido sob as SDs. Nesse sentido, as SDs devem ser consideradas centrais para a investigação científica” (Lacey & Mariconda, 2014, p. 191), porém isso por si só não deve justificar seu uso hegemônico. Tal como no caso das pesquisas em agroecologia que, embora apoiada nos valores da justiça social, da participação democrática e da sustentabilidade (cf. Lacey & Mariconda, 2014, p. 189), levam também em conta a produção de conhecimento sobre os fenômenos e que esteja, desse modo, de acordo com a imparcialidade (cf. Lacey & Mariconda, 2014, p. 187).
Assim, a utilização de ambas as estratégias está, por um lado, de acordo com o tipo de objeto investigado pela ciência; considerando, por exemplo, que SDs são plenamente adequadas à análise realizada por pesquisas em mecânica newtoniana, na química molecular e na genética (cf. Lacey & Mariconda, 2014, p. 182); em que pese no último caso, questões éticas acerca da aplicação do conhecimento produzido pela genética poderem ou não fazer parte da investigação (cf. cap. 3, item 3.3.3). No entanto, dado o ideal da abrangência, ou seja, dada a tendência de obtenção de entendimento através da pesquisa científica para “(...) qualquer objeto/ fenômeno do mundo” (Lacey & Mariconda, 2014, p. 183), não se pode aceitar a exclusividade a adoção da estratégia descontextualizadora, sob pena de excluir da
78 ciência a possibilidade de investigação de fenômenos que implicam, por exemplo, os “(...) efeitos sistêmicos da mudança social (...) [e] os fenômenos nos agroecossitemas sustentáveis” (Lacey & Mariconda, 2014, p. 187), que seriam mais bem investigados à luz de SCs. Portanto, segundo Lacey e Mariconda, isso implica que não somos “(...) capazes de entender todos os fenômenos, ou todos os seus aspectos, através do uso de SDs” (Lacey & Mariconda, 2014, p. 187). Dado esse conjunto de características que aproximam e que distinguem as estratégias científicas, apresentamos a seguir uma figura que as representa esquematicamente.
Figura 2: comparação entre as estratégias descontextualizadoras e sensíveis ao contexto, segundo a hegemonia de sua adoção, a sua relação com os objetos de investigação, o método que utilizam para gerar entendimento sobre tais objetos, a teoria que é gerada a partir delas, exemplos de pesquisas que envolvem cada estratégia e, finalmente, segundo a inclusão ou exclusão dos valores éticos e sociais, bem como dos valores cognitivos da prática científica.
Desse modo, enquanto as estratégias descontextualizadoras são hegemonicamente adotadas nas pesquisas científicas contemporâneas, ela opta por uma abordagem que descontextualiza os objetos das suas relações com o mundo da vida e da experiência humanas. E, portanto, da perspectiva dos métodos, são as estratégias sensíveis ao contexto que podem gerar entendimento sobre os fenômenos no mundo que estabelecem relações sistêmicas entre si, tal como as epidemias de gripe (cf. Lacey & Mariconda, 2014, p. 187). Quanto às teorias, ambas as estratégias geram EPILs, sendo que no caso das estratégias sensíveis ao contexto,
Descontextualizadas
Estratégias Científicas
não hegemônica contextualizados analisa fenômeno no mundo
EPILs (sistêmicos) ecossistemas sustentáveis Sensíveis ao contexto hegemônica descontextualizados extrai o fenômeno EPILs estruturas genômicas inclui inclui exclui (livre de valores)
inclui Adoção Objetos Método Teoria Pesquisas (ex.) V. Ético/Sociais V. Cognitivos
79 visam entendimento de fenômenos imersos em contextos sociais e que só podem ser compreendidos de modo sistêmico. Finalmente, enquanto as estratégias descontextualizadoras estimulam a compreensão da ciência como livre de valores, pela exclusão da possibilidade de interação da ciência com os valores éticos e sociais, as estratégias sensíveis ao contexto os consideram, porém apenas em determinados momentos da pesquisa. Isso porque, tanto no caso das estratégias descontextualizadoras quanto nas sensíveis ao contexto a avaliação e escolha das teorias científicas é feita tendo em vista a realização da imparcialidade.
Além das semelhanças já apontadas entre as duas estratégias, ou seja, o fato de ambas buscarem a produção de entendimento com respeito à imparcialidade deve-se considerar também que tanto as estratégias descontextualizadoras quanto as sensíveis ao contexto aplicam restrições nas teorias e nos fenômenos, e que, em qualquer dos casos, as estratégias são adotadas em momento (logicamente anterior) ao das práticas científicas. Além disso, as duas estratégias consideram o uso método empírico, e realizam em seu conjunto o ideal da abrangência. Por fim, essas duas estratégias visam, em maior ou menor medida, a intervenção, levando-se em conta que o controle da natureza está profundamente enraizado na ciência contemporânea. Note-se que a hegemonia da estratégia descontextualizada e o valor social do controle reforçam-se mutuamente e, portanto, o uso exclusivo das SDs e a falta de limite da aplicação do valor do controle serão criticados juntamente com a crítica de que a ciência livre de valores. E, assim, para gerar pesquisas que compartilhem valores além do controle da natureza, é necessário, primeiramente, elucidar as perspectivas de valor implicadas nas estratégias científicas e, em segundo lugar, estimular pesquisas científicas que estejam apoiadas e comprometidas com outras perspectivas, preferencialmente as não hegemônicas.
Para a análise da ciência, assim, é necessário ter atenção aos valores, pois eles “(...) podem tornar-se a base da participação em práticas compartilhadas e da construção da comunidade” (Lacey, 2008d[1997], p. 57). E, embora haja interação e possível acordo entre valores pessoais e sociais, a própria socialização promove a restrição de possibilidades de valores pessoais abarcados (Lacey, 2008d[1997], p. 58-9). No caso específico da tese da ciência livre de valores, a exposição acima é suficiente para definir, primeiramente, o reconhecimento do valor na realização da atividade científica através da adoção de determinadas estratégias de pesquisa de restrição e de seleção, tais como as estratégias descontextualizadoras e as sensíveis ao contexto; e, em segundo lugar, a necessidade de reconhecer a função da sociedade para o reconhecimento e o reforço de valores. O que pode
80 implicar o endosso ainda mais intenso do valor do controle da natureza, através do investimento exclusivo em estratégias de pesquisa descontextualizadoras, ou ainda, o reforço da busca de entendimento mais sistêmico, tal como o gerado a partir de investigações que levem em conta a estratégia sensível ao contexto. A seguir, daremos continuidade à refutação da tese da ciência livre de valores com base na crítica em relação às ideias de neutralidade, de imparcialidade e de autonomia, o que só pode ser feito adotando a perspectiva da ciência enquanto prática.