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1.2. DOĞRUDAN YABANCI YATIRIMLARIN TEORİK ÇERÇEVESİ VE

1.2.2 Doğrudan Yabancı Yatırımların Belirleyicileri

1.2.2.4 Literatür Düzleminde Doğrudan Yabancı Yatırımların Belirleyicileri

1.2.2.4.5 Altyapı

Descrevendo a forma como, em geral, é assumida a discussão acerca dos valores nos Estados Unidos, Lacey afirma que a maioria os consideram como pessoais e, até mesmo, privados (cf. 2008d[1997], p. 49). Uma explicação possível para isso é o fato de que os valores assumidos por uma pessoa o tornam um indivíduo, ou seja, reúne em torno daquela pessoa uma série de características que o tornam quem ele é, para si e perante os outros. Porém, segundo a descrição de Lacey, há quem assuma que, embora uma pessoa possa clarificar os valores que endossa, eles não precisam ser necessariamente defendidos por mais diferentes que seus valores possam ser dos demais indivíduos, da maioria ou de sua cultura em sentido mais amplo. Lacey resume sua percepção sobre o contexto americano com a frase “(...) valores não se discutem” (2008d[1997], p. 49). Tal atitude não é, em princípio, problemática, na medida em que ela decorre da tolerância e da liberdade individual negativa, que são considerados nas sociedades liberais valores sociais (cf. Lacey, 2008d[1997], p. 50).

Observe-se aqui claramente a primeira dualidade presente no debate acerca dos valores, ou seja, a interação na prática cotidiana dos indivíduos entre seus valores pessoais e o conjunto de valores sociais pertencentes ao contexto amplo de sua interação com outros indivíduos em sociedade. Daí que Lacey considera que se

(...) uma pessoa pode ou não agir segundo seus próprios valores, se pode ou não expressar o tipo de pessoa que aspira ser, isto depende socialmente, e mesmo logicamente, de que os outros sustentem certos valores pessoais e sociais (Lacey, 2008d[1997], p.51).

61 Embora a listagem possa sugerir uma anterioridade cronológica entre os valores, não estamos aqui defendendo nem a anterioridade cronológica nem a lógica entre esses tipos de valor. Ao contrário, como esses valores se entrelaçam e se influenciam de maneiras complexas, preferimos adotar a perspectiva de que as fronteiras entre eles precisem ser esclarecidas através da articulação, já que sua distinção depende, em parte, do confronto com o valor que lhe é oposto.

90 Enquanto sujeitos intencionais, ou seja, agentes cuja ação se dirige para a realização de fins, as ações podem ser justificadas segundo as crenças e os desejos dos indivíduos. Eles funcionam, portanto, como metas (cf. Lacey, 2008d[1997], p. 52). Supondo a interação entre os valores pessoais e os sociais, Lacey sugere um tipo de sentimento de coletividade socialmente valorada quando trata do valor do bem-estar humano e, inclusive por defender esse valor, considera que a ciência “(...) deve ser realizada sob orientação e vigilância democráticas” (Lacey, 2008f [1997], p. 126). Assim, por mais que o estímulo para a direção da ação a fins diversos da autossatisfação de desejos pessoais não seja sempre espontâneo, ainda assim está resguardada a possibilidade de que as ações individuais possam ser dirigidas a outros fins no contexto social. Cabe ressaltar ainda sobre os valores pessoais que as ações neles baseados dirigem-se para a vida prática, de modo que as ações

(...) moldam ou produzem uma vida caracterizada por certa qualidade (pela participação em certa prática, ou pela relação adequada com determinado objeto de valor) que caracteriza uma vida realizada (boa, repleta de significado, bem vivida), e que é parcialmente constitutiva da identidade de alguém (Lacey, 2008d[1997], p. 53- 4).

Desse modo, assim como os valores pessoais são considerados a partir da articulação ou da ação dos indivíduos, os valores sociais são também observados a partir de suas expressões práticas, amenizando, portanto, a característica subjetiva que é comumente atribuída aos valores. Já que na filosofia da ciência de Lacey, os valores podem ser expressos e exercidos na vida prática dos indivíduos e nas instituições com as quais ele se relaciona ao longo de sua trajetória de vida.

Em todo caso, quer dos valores pessoais, quer dos sociais, Lacey ressalta o papel primordial da articulação para que seja possível a identificação de valores. Inclusive esse procedimento permite a identificação de possíveis lacunas [gaps] entre os valores apresentados na vida atualmente vivida e os valores que se pretende alcançar para o exercício da vida plena. Há, portanto, uma disparidade entre a vida vivida e a aquela almejada. Lacey expressa essa relação dizendo que “[e]xistirá sempre em alguma medida uma brecha [gap] entre os valores manifestos e os valores articulados. A sustentação razoável de valores se dá à luz do desejo e do comprometimento com a diminuição dessa brecha” (Lacey, 2008d[1997], p. 54).

91 Portanto, o valor articulado por meio da linguagem pode ou não ser reconhecido como plenamente realizado na vida prática atual. E tal característica é, na verdade, motor da ação. Ou seja, o compromisso humano com uma vida plenamente realizada agita e pressiona a ação em direção a ela. Isso ocorre porque, segundo Lacey, os “(...) valores estão entrelaçados em uma vida (sempre maior ou menor) em que a trajetória de vida de um agente exibe um comportamento que manifesta constante, consistente e recorrentemente os valores (Lacey, 2008d[1997], p. 54). O valor é, assim, reforçado pela ação prática dos agentes, formando, a nosso entender, uma possível linha de continuidade entre os diversos eventos que compõem sua experiência de vida.62

A seguir, Lacey discorre sobre a incorporação dos valores pessoais nas instituições sociais, apresentando seus modos de interação para, finalmente, distinguir valores pessoais dos sociais. O primeiro modo de interação entre valores pessoais e instituições sociais é a incorporação. Ou seja, da mesma maneira que afirmamos que na esfera individual os valores estão presentes na vida prática das pessoas na medida em que elas mantêm certos comportamentos “(...) constante, consistente e recorrentemente” (Lacey, 2008d[1997], p. 54), também os valores pessoais incorporados nas instituições precisam gozar desse mesmo conjunto de características.

Além disso, quanto ao aspecto da amplitude, valores pessoais podem estar presentes tanto nas instituições sociais, quanto na sociedade como um todo (cf. Lacey, 2008d[1997], p. 57). Daí que, no âmbito institucional ou social, o valor será considerado por Lacey como incorporado em alto grau quando

(...) em seu funcionamento normal oferece papéis nos quais o valor está entrelaçado, encorajando o comportamento que manifesta e práticas que o expressam, reforçando sua articulação e proporcionando condições para que seja mais entrelaçado nas vidas de seus membros (Lacey, 2008d[1997], p. 57).

Convém não deixar de considerar o papel das instituições. Ou seja, na medida em que a instituição não age, ela é dependente da ação dos seus agentes. Assim tudo o que ela pode promover é um ambiente propício à incorporação, tais como os valores pessoais. Dessa

62 Essa ideia será melhor desenvolvida no capítulo 3. Aqui adiantamos apenas que essas quatro características dos valores, ou seja, sua expressão em determinada prática, sua elucidação por meio da articulação, a lacuna que geralmente existe entre valor articulado e valor manifesto, bem como a busca por uma vida plena, promove tanto na escala pessoal quanto na social, narrativas cuja continuidade pode ser desenvolvida em relação ao atendimento ou afastamento do valor articulado.

92 maneira, a instituição é capaz, inclusive de atrair indivíduos, reunindo-os em torno do mesmo conjunto de valores. Mencionamos anteriormente esse papel negativo do contexto social quanto afirmamos que o exercício dos ideais de vida plena decorre da tolerância e da liberdade individual negativa, que são considerados nas sociedades liberais valores sociais (cf. Lacey, 2008d[1997], p. 50). Ou seja, para que todos tenham a possibilidade de agir em prol da realização de seus ideais de vida plena, é necessário preencher a condição de que as pessoas “(...) possam escolher como desejarem, sujeito apenas à restrição de que as ações escolhidas não prejudiquem os outros, e o prejuízo inclui aí o impedimento de que os outros ajam em conformidade com seus valores pessoais” (Lacey, 2008d[1997], p. 50), o que pode ser incentivado tanto pelas instituições, quanto pelos contextos sociais considerados.

Outros exemplos são dados por Lacey quando ele afirma o valor do cultivo intelectual incorporado em alto grau em universidades de elite, bem como os valores egoístas incorporados por instituições econômicas (cf. Lacey, 2008d[1997], p. 57). Note-se, no entanto, que toda incorporação de valores pessoais implica no não atendimento (total ou parcial) de outros valores. Especificamente quanto a esses dois exemplos, a incorporação do cultivo intelectual e dos valores egoístas implicam a não incorporação da solidariedade com os pobres ou de valores relacionados à cooperação e ao compartilhamento (cf. Lacey, 2008d[1997], p. 57).

Mais um aspecto relevante da relação entre os valores pessoais e sua incorporação na sociedade é que, devido ao fato de a articulação depender dos recursos linguísticos e pelo fato de a linguagem ser carregada de sentidos variados, a linguagem limita a possibilidade de articulação de determinados valores. Assim, segundo Lacey, a

(...) linguagem disponível para a articulação de determinados valores refletirá em algum grau as concepções de bem-estar que são dominantes e reforçadas na sociedade. Esta linguagem pode não permitir que uma pessoa expresse com facilidade o fato de que sua experiência de bem-estar (ou mal-estar) não se adapta às avaliações predominantes do que constitui o bem-estar (Lacey, 2008d[1997], p. 58).

Fica claro, portanto, que a sociedade pode tanto auxiliar na articulação e incorporação de determinados valores, como também dificultar. Daí que Lacey explore na passagem acima a hegemonia de certos valores sociais, sendo que o elemento de consonância entre valor pessoal e valor social é incorporado pelas instituições e pelos discursos que facilitam ou prejudicam a articulação e incorporação de determinado valor social. Segundo Lacey em “(...)

93 grau considerável uma pessoa não pode manifestar seus valores pessoais sem a participação em instituições que permitam a sua manifestação” (2008d[1997], p. 59).

Apresentados, portanto, tanto os valores pessoais quanto a sua interrelação com o contexto social através da linguagem e das instituições, cabe agora finalizar com algumas considerações sobre os valores sociais. Lacey considera que os valores sociais estão presentes nos “(...) programas, leis e políticas de uma sociedade, e expressos nas práticas cujas condições eles proporcionam e reforçam” (2008d[1997], p. 60). Daí que, por mais que exista também a lacuna entre o valor social manifesto e o articulado, Lacey estabelece que para que um valor social esteja efetivamente incorporado em determinada sociedade, tal lacuna não pode ser grande. Ele cita como exemplos de valores sociais incorporados pela sociedade norte-americana a liberdade, o direito à propriedade e à igualdade (cf. 2008d[1997], p. 60).

Interessante notar que, em que pese Lacey reconhecer o problema que a hegemonia pode causar para incorporar valores pessoais em instituições e em contextos sociais, a articulação dos valores sociais é essencial, pois é nesse contexto em que reconheceremos mais facilmente a pluralidade de valores defendidos pelos indivíduos e mesmo as diferenças na articulação desses valores. Consequentemente,

[g]rupos diferentes no interior da sociedade perceberão e interpretarão a brecha entre valores articulados e valores manifestos de maneira muito diferentes, e grande parte do discurso político moderno está centrado nas várias avaliações rivais do significado dessa brecha (2008d[1997], p. 61).

Como vimos, no caso dos valores pessoais, também no dos valores sociais, a articulação e a percepção mesma da lacuna entre valor social manifesto e articulação produz, no âmbito social, a busca pela maior aproximação possível entre vida vivida e vida plena. Porém, com uma dificuldade adicional, pois não apenas grupos diferentes podem articular diferentemente os mesmos valores sociais, como podem considerar certos valores sociais como prioritários a outros. Daí que a mobilização para a ação social pareça mais complexa que a mobilização para ação individual.

Finalmente, cabe ressaltar que, segundo Lacey, a estabilização social depende, em grande medida de indivíduos dispostos a agir em conformidade com valores sociais hegemônicos. Ele denomina esse processo de personalização, que significa que os “(...) atos de uma pessoa estão dirigidos à manutenção, modificação ou transformação da ordem social são guiados pelo desejo pessoal de uma sociedade na qual o valor social é entrelaçado”

94 (2008d[1997], p. 61-2). Ou seja, há consonância entre o valor social incorporado por instituições ou pela sociedade, e os valores pessoais defendidos por um ou mais indivíduos.

A pluralidade de valores e mesmo a diferença na articulação dos valores pode gerar, no entanto, o debate público acerca dos valores sociais incorporados. Já que, para Lacey, existem complexidades inerentes aos valores, tornando necessário o debate público sobre os valores, pois não podemos esperar “(...) que a discussão pública resulte em um consenso sobre quais valores uma pessoa deve sustentar” (Lacey, 2008d[1997], p. 62). A discussão pública é, assim, vista como essencial, na medida em que pode proporcionar “(...) conhecimento bem fundado sobre quais são as condições necessárias para a sustentação de valores particulares” (Lacey, 2008d[1997], p. 63).