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EK-2: 8.DÖNEM ÖRGÜTLENME PERSPEKTİFİ 8 DÖNEM ÖRGÜTLENME PERSPEKTİFİMİZ

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Assim como o Estado, as políticas sociais são produto histórico das contradições existentes no interior da sociedade, da disputa entre as classes antagônicas, e, das relações destas com o próprio Estado. Por este motivo, elas mesmas são complexas e contraditórias, e, não podem ser compreendidas de forma unilateral, unidimensional.

Na sociedade capitalista, as políticas de proteção social expressam as contradições e os antagonismos de classes. Independente de seus objetivos específicos de intervenção, essas políticas dependem tanto do nível de socialização da política, conquistado pelas classes trabalhadoras, como das estratégias do capital, na incorporação das necessidades do trabalho, consideradas as particularidades históricas que definem cada formação social (MOTA, MARANHÃO, SITCOVSKY, 2008, p. 181).

As políticas sociais constituem uma forma de política pública. Por políticas públicas, entende-se toda e qualquer ação do Estado, seja no campo econômico, social, nas relações exteriores/internacionais, nas relações internas, e tantas outras dimensões nas quais o Estado intervém, mesmo que de forma mínima. Nesta perspectiva, compreende-se a política social pública como o conjunto de ações do Estado para atendimento das necessidades sociais, especialmente da classe trabalhadora, como respostas às demandas do conjunto da sociedade.

[...] o estudo das políticas sociais deve considerar sua múltipla causalidade, as conexões internas, as relações entre suas diversas manifestações e dimensões. Do ponto de vista histórico, é preciso relacionar o surgimento das política social às expressões da questão social que possuem papel determinante em sua origem (e que, dialeticamente, também sofrem efeitos da política social). Do ponto de vista econômico, faz-se necessário estabelecer relações da política social com as questões estruturais da economia e seus efeitos para as condições de produção e reprodução da vida da classe trabalhadora. [...]. Do ponto de vista político, preocupa-se em reconhecer e identificar as posições tomadas pelas forças políticas em confronto, desde o papel do Estado até a atuação de grupos que constituem as classes sociais e cuja ação é determinada pelos interesses da classe em que se situam (BEHRING, BOSCHETTI, 2006, p. 43).

É importante que a política social seja analisada enquanto processo e resultado das relações contraditórias que se estabelecem entre Estado e sociedade, no âmbito dos conflitos e lutas de classes que envolvem o processo de produção e reprodução do capitalismo. Neste sentido, além das categorias historicidade e contradição serem importantes para a compreensão das políticas sociais na sociedade atual, é fundamental a realização de uma leitura do todo, da

totalidade social concreta, tendo em vista que as políticas sociais, assim como o Estado e as relações estabelecidas socialmente, também são dinâmicas e dialéticas e não estão isoladas da estrutura econômica, política, cultural, social e histórica.

[...] todo fenômeno social analisado, e aqui se inserem as políticas sociais como processos sociais inscritos na sociedade burguesa, deve ser compreendido em sua múltipla causalidade, bem como, em sua múltipla funcionalidade no âmbito da totalidade concreta, como princípio estruturante da realidade. A totalidade concreta é um complexo constituído de complexos que se articulam, é um campo contraditório de forças que dá vida e movimento à essa totalidade e uma dimensão de processo [...] (BEHRING, BOSCHETTI, 2006, p. 40).

Nesta totalidade concreta, histórica, dialética e contraditória, Couto (2008) e Behring (2009) afirmam a importância de compreender as políticas sociais em relação ao binômio concessão e conquista. Ambas as autoras mencionam que o viés de concessão ou de conquista serão acentuados dependendo do momento histórico onde são gestadas, dependendo da correlação de forças na luta política entre os interesses das classes antagônicas. Além disso, importa notar que neste contexto também participam o Estado e o referencial que lhe dá sustentação.

As políticas sociais de fato assumem um caráter contraditório, pois, ao mesmo tempo em que representam conquistas da classe trabalhadora – que lutou por seu reconhecimento no cenário político e pelo reconhecimento de suas necessidades e demandas – apresentam um cunho de consenso e coerção, pois, também respondem as necessidades do capital, legitimando os interesses e a hegemonia dominante por apresentar as políticas sociais como concessão.

Não basta a existência de leis e documentos oficiais que formalizem a criação de políticas sociais. É imprescindível este reconhecimento formal, porém, não é suficiente. Assim como não é suficiente o conhecimento destes documentos. É preciso a existência de mecanismos que efetivamente assegurem direitos sociais (COUTO, 2008). É necessário que a população participe do planejamento e indicação do conjunto de ações e medidas necessárias para a implantação e implementação das políticas sociais no viés da cidadania. E, para além disso,conforme já mencionado no item anterior, é importante um movimento coletivo no sentido de ser colocada em discussão a concepção de política social disseminada socialmente pelo ideário neoliberal, o que pressupõe uma superação da cultura patrimonialista e coronelista vigente hoje na sociedade.

E, justamente neste sentido, torna-se importante ressaltar a política social na sua dimensão de conquista e não apenas de concessão, como hoje vem sendo divulgado pela classe dominante e mesmo pelo Estado. É preciso reforçar a função social assumida pela política social, na contra- corrente do que se vem presenciando no discurso dos defensores do neoliberalismo. Na atual ordem social, é necessário que as categorias e movimentos que lutam pela defesa e garantia dos direitos sociais, reconheçam as políticas sociais e lutem para que elas sejam implementadas na perspectiva de garantir direitos, de sua materialização pela ótica da conquista da classe trabalhadora, evidentemente sem esquecer da categoria contradição, presente em todos os processos e fenômenos sociais. Por este movimento, é imprescindível a mobilização de amplos segmentos sociais, com a materialização da participação e do controle social.

A garantia das políticas sociais nesta perspectiva passa pela luta por um projeto que defende os princípios da Carta Constitucional de 1988, que busca o avanço da democracia, da participação popular e do controle social; a universalização dos direitos e consequentemente da cobertura e atendimento das políticas sociais, na perspectiva da defesa da cidadania e da igualdade. A defesa dos direitos supõe a primazia do Estado na condução das políticas públicas e a democratização e universalização dos direitos, assegurando o controle social (IAMAMOTO, 2008).

É importante enfatizar que os/as assistentes sociais constituem categoria privilegiada para esta mobilização e politização da participação social. Na condição de espaços para participação social, encontram-se os órgãos de controle social, que constituem-se em “instâncias em que se refratam interesses contraditórios e, portanto, espaços de lutas e disputas políticas” (IAMAMOTO, 2008, p. 198) (grifos da autora). Neste sentido, a atuação profissional dos/as assistentes sociais nestes espaços de mobilização de amplos setores da sociedade e nos órgãos de controle social não pode prescindir de ações que visem

[...] estimular inserções sociais que contenham potencialidades de democratizar a vida

em sociedade, conclamando e viabilizando a ingerência de segmentos organizados da sociedade civil na coisa pública. Essa proposta requer ações voltadas ao fortalecimento

dos sujeitos coletivos, dos direitos sociais e a necessidade de organização para a sua defesa [...] (IAMAMOTO, 2008, p. 199-200) (grifos da autora).

Esta mobilização possibilita o fortalecimento da participação social, da democracia, da cidadania, da ampliação de direitos, bem como, fortalece a possibilidade de serem criadas as

condições necessárias à discussão e socialização da concepção aqui defendida de política social, ou seja, enquanto instrumento de acesso aos direitos sociais.

Reafirmando este caráter histórico de contraditoriedade, Montaño (2009) aponta as diferentes funções desempenhadas pelas políticas sociais no Estado capitalista, destacando a função econômica, a função política e a função social. A função econômica se refere ao fato de as políticas sociais serem executadas como uma estratégia de divisão social dos valores necessários à manutenção e reprodução da classe trabalhadora, enquanto mão-de-obra necessária ao capital. Sendo a política social financiada por toda a sociedade – todos os cidadãos, principalmente aqueles/as que são seus/suas usuários/as – há a desoneração do capital, que, antes, era o responsável pela manutenção da classe trabalhadora. A função política está relacionada com a necessidade de legitimação da hegemonia do Estado, pois, apresenta para sociedade as políticas sociais numa lógica de concessão, mostrando-se como bem-feitor. E, a função social, que representa a resistência e conquista da classe trabalhadora, pois, devolve a esta parcela ínfima da riqueza por ela criada mas não apropriada.

As políticas sociais e a formatação de padrões de proteção social são desdobramentos e até mesmo respostas e formas de enfrentamento – em geral setorializadas e fragmentadas

– às expressões multifacetadas da questão social no capitalismo, cujo fundamento se

encontra nas relações de exploração do capital sobre o trabalho (BEHRING, BOSCHETTI, 2006, p. 51).

Neste contexto, importa notar que o modo de produção capitalista, em sua fase de desenvolvimento financeiro, seguindo o referencial neoliberal, traz implicações na formulação e execução das políticas sociais, implicações estas, que desencadeiam intensas conseqüências (que poderiam ser chamadas de perversas conseqüências) nas condições de vida e trabalho da classe trabalhadora. Especialmente por este motivo, não se pode prescindir da mobilização social para assegurar a elaboração e execução de políticas sociais na perspectiva de garantia de direitos. Sabe-se que esta luta não significa a superação da exploração de uma classe por outra, ou, a superação do modo capitalista de produzir. No entanto, é por meio desta luta que se tornará possível a defesa de padrões mínimos29 de vida, pois,

29 Reconhece-se as discussões realizadas acerca de padrões mínimos versus padrões básicos de vida. No entanto, compreende-se que as políticas sociais ainda hoje não vem sendo capazes de suprir as necessidades mínimas, quanto mais as básicas. Assim, defende-se aqui, a concepção de que devem ser assegurados à população padrões e necessidades básicas, no entanto, antes do alcance destas necessidades, precisa ser garantido um padrão mínimo de

[...] somos obrigados a lembrar que o primeiro pressuposto de toda a existência humana e, portanto, de toda a história, é que todos os homens devem estar em condições de viver

para ‘fazer história’. Mas, para viver, é preciso antes de tudo comer, beber, ter moradia,

vestir-se e algumas coisas mais. O primeiro fato histórico é, portanto, a produção dos meios que permitam que haja a satisfação dessas necessidades, a produção da própria vida material, e de fato esse é um ato histórico, uma exigência fundamental de toda a história, que tanto hoje como há milênios deve ser cumprido cotidianamente e a toda hora, para manter os homens com vida (MARX, ENGELS, 2004, p. 53) (grifos dos autores).

Por este motivo, se faz necessário, neste período histórico, a luta pela defesa das necessidades mínimas da classe trabalhadora, e, posteriormente pela garantia de um padrão básico de vida ao conjunto da população, e, especialmente à classe trabalhadora, para que esta esteja em condições de fazer história, ou seja, de se posicionar na luta pela transformação da atual ordem sócio-econômica, superando a estrutura da divisão de classes.

A dificuldade de garantia das necessidades mínimas da classe trabalhadora, conforme discutido acima, e, o impacto das políticas de ajuste neoliberal nas condições de vida da maioria da população, são vivenciadas cotidianamente pela classe proletária, a qual sem acesso ao emprego formal, e, em conseqüência da focalização e precarização das políticas sociais, não tem tido o garantido o acesso a direitos sociais básicos, conforme relato de uma das usuárias participantes do estudo:

minha renda é só o Bolsa Família e essa sacola que eles me trazem lá de P30. Eu ganho cento e sessenta e quatro reais e essa sacola (U13, 2012).

Com o benefício proveniente do Programa Bolsa Família, somado ao valor médio da cesta básica disponibilizada pelo Programa Fome Zero do município vizinho que perfaz,aproximadamente,o valor de quarenta reais, conforme informação da usuária entrevistada, esta família não consegue alcançar uma renda per capita de R$ 70,00 (setenta reais)31, considerada como o mínimo necessário para superar a situação de miserabilidade.

vida, e, de forma gradual, ser assegurado o padrão básico. Sobre a discussão entre mínimos e básicos sociais, ver Pereira (2007).

30

Município vizinho ao que a família reside, o qual mantém com aquele, através de conveniamento, o Programa Fome Zero.

31 Questiona-se o valor de R$ 70,00 (setenta reais) adotado pelo Brasil (BRASIL, 2004) como limite divisório para a definição de situação de extrema pobreza e situação de pobreza. E, ainda assim, mesmo considerando setenta reais um valor irrisório para se afirmar que a família não encontra-se em situação de extrema pobreza, muitas famílias, como a família representada pela entrevistada citada, não conseguem alcançar este nível de renda mensal per capita e sair da situação de miserabilidade. Esta situação, ao qual está exposta grande parte da população brasileira e mundial,

Considerando esta situação de barbárie (NETTO, 1993), de banalização do humano (IAMAMOTO, 2008), é importante lembrar que a “defesa de políticas sociais universais e a disputa pelo fundo público destinado aos trabalhadores são tarefas dos próprios trabalhadores” (BEHRING, 2009, p. 318). Neste sentido, são de fundamental importância as mobilizações sociais, na perspectiva de consolidação e ampliação da participação social, da cidadania e da democracia. Para isso, é preciso que esta classe tenha suas necessidades básicas satisfeitas, para que consigam estar em condições de fazer história, como referem Marx e Engels (2004).

É decisivo lembrar que nestas condições,

crescem os níveis de exploração e as desigualdades assim como, no seu reverso, as insatisfações e resistências presentes nas lutas do dia-a-dia, ainda carentes de maior organicidade e densidade política. Na sua maioria, silenciadas pelos meios de comunicação, essas lutas condensam a recusa do instituído e expressam iniciativas tensas e ambíguas, que adensam um processo de acumulação de forças que procura avançar historicamente no horizonte da igualdade. Lutas tímidas, mas vivas nos âmbitos do direito ao trabalho e do trabalho; da luta pela reforma agrária; pelo acesso aos serviços públicos no atendimento às necessidades básicas dos cidadãos; contra as discriminações étnico-raciais e de gênero; pela defesa do meio ambiente, das expressões culturais, etc (IAMAMOTO, 2008, p. 145).

Neste processo de mobilização social na luta pela negação da alienação e garantia de direitos, a categoria dos/as assistentes sociais pode contribuir em vários aspectos, mas, especialmente na socialização junto à classe trabalhadora das reflexões e discussões acerca das principais categorias constituintes da teoria social crítica, criada por Marx, e, na informação e orientação acerca dos direitos legalmente reconhecidos e de estratégias para a garantia dos mesmos, contribuindo na visibilidade daquilo que a sociedade tenta não ver, ou, do que procura esquecer.

é caracterizada como barbárie, conforme indica Netto (1993), ou, como a banalização do humano, como define Iamamoto (2008). “Por este motivo afirma-se que, atualmente as políticas sociais não vem conseguindo dar conta da garantia de um padrão mínimo de vida à população, e, a esta situação precária de vida é submetida à classe trabalhadora. Considera-se aqui que [...] a condicionalidade são fatores que influenciam direta e negativamente o grau de efetivação dos direitos sociais. Estes fatores se somam a programas de baixa institucionalização – e, portanto, de baixa garantia de direitos –, como os de transferência de renda nos moldes do Programa Bolsa Família, no Brasil” (MARIANO, CARLOTO, 2011, p. 64).

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