Nesta parte explorar-se-á as inúmeras e necessárias interrrelações entre o Direito e a Política, especialmente no Direito Constitucional. Após a aceitação da teoria positivista, no final do século XIX e início do século XX, muitos doutrinadores entenderam que há decisões exclusivamente políticas, que estariam a margem de apreciação pelo Direito e, consequentemente, pelo Judiciário.
Inclusive toda uma doutrina a este respeito foi criada: a da separação de poderes, com consequente atribuição de competências a cada um dos órgãos; no direito administrativo, a chamada decisão “discricionária”, onde haveria uma margem de decisão “livre” do Executivo, insindicável ao Judiciário.
Neste trecho será narrado como isso começou, como foi “cientificamente” realçado e como se pode entender que tal entendimento, para muitos doutrinadores e em muitos precedentes do STF e STJ, estaria superado. Tal análise acabará por desaguar num dos pontos fulcrais de defesa desta tese, concernente ao princípio da pluralidade dos poderes.
3.1.1 Direito, Política e Poder: uma intersecção necessária
Como é sabido, os termos política e poder são polissêmicos. Isto não significa dizer, porém, que não seja possível sua delimitação. Para Pedro Lessa (2000, p. 113), ministro do STF no início do século XX e filósofo do Direito:
Considerada como arte, a política tem sido por muitos definida: a arte do
governo do Estado. Pode a definição ser verdadeira, e em substância o
é; mas, não nos subministra uma idéia bastante clara e precisa do objeto definido. Mais aceitável nos parece o conceito de Schäfle: ‘a arte de guiar todas as tendências sociais divergentes, imprimindo-lhes novas direções, comuns e médias, com a mínima resistência coletiva e a mínima perda de forças’.
Segundo De Plácido e Silva (1997, p.389), política, na acepção jurídica, com o mesmo sentido filosófico, designa a ciência de bem governar um povo, constituído em Estado. Assim, seu objetivo é estabelecer os princípios, que se mostrem indispensáveis à realização de um governo, tanto mais perfeito, quanto seja o desejo de conduzir o Estado ao cumprimento de suas precípuas finalidades, em melhor proveito dos governantes e governados. Correlato a este entendimento, baseado profundamente na filosofia clássica grega, assim colocou Dante Pacini (1973, p.247-248):
Historicamente, foi a POLÍTICA definida até mesmo como uma ‘arte’ de governar, segundo uma sua impressão através da Filosofia grega. Mas, não é ela uma Arte, no exato sentido que esta unidade irredutível do saber expressa, porque a POLÍTICA não configura o belo no estético, embora possa também se direcionar para ativar, criar ou produzir o belo-comum. A POLÍTICA é uma ‘ciência de ação’.
Max Weber (2011, p.66-67) associa o termo política com o de Estado:
[...] devemos conceber o Estado contemporâneo como uma comunidade humana que, dentro dos limites de determinado território – a noção de território corresponde a um dos elementos essenciais do Estado – reivindica o monopólio do uso legítimo da violência física. [...] Por política, entenderemos, consequentemente, o conjunto de esforços feitos com vistas a participar do poder ou a influenciar a divisão do poder, seja entre Estados, seja no interior de um único Estado.
Sociologicamente, a política surgiu com a separação do sagrado e do profano, apesar da eterna ligação entre a autoridade do poder privado, econômico e militar. Como estabelece Marilena Chauí (2007, p.35),
A política foi inventada quando surgiu a figura do poder público, por meio da invenção do direito e da lei (isto é, a instituição dos tribunais) e da criação de instituições públicas de deliberação e decisão (isto é, as assembléias e os senados). Esse surgimento só foi possível porque o poder político foi separado de três autoridades tradicionais que anteriormente definiam o exercício do poder: a autoridade do poder privado ou econômico do chefe de família, de cuja vontade dependiam a vida e a morte dos membros da
família, a do chefe militar e a do chefe religioso, figuras que, nos impérios antigos, estavam unificadas numa chefia única, a do rei. A política nasceu, portanto, quando a esfera privada da economia e da vontade pessoal, a esfera da guerra e a esfera do sagrado ou do saber foram separadas e o poder político deixou de identificar-se com o corpo místico do governante como pai, comandante e sacerdote, representante humano de poderes divinos transcendentes.
O que é consensual é que, sempre, o conceito de Política encontra-se imbricado com o de Poder. Neste sentido, as palavras de Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino (2000, p.954, grifo nosso), em seu clássico Dicionário de Política, segundo o qual:
O conceito de Política, entendida como forma de atividade ou de práxis humana, está estreitamente ligado ao de poder. [...] Sendo um destes meios, além do domínio da natureza, o domínio sobre os outros homens, o poder é definido por vezes como uma relação entre dois sujeitos, dos quais se impõe ao outro a própria vontade e lhe determina, malgrado seu, o comportamento.
E continuando sua relação entre Política e Poder: “O poder político
pertence à categoria do poder do homem sobre outro homem, não à do poder do homem sobre a natureza”. (BOBBIO; MATTEUCCI; PASQUINO, 2000, p.955).
Importante ainda ressaltar os três critérios de classificar as formas de poder: o econômico, o ideológico e o político strictu sensu. De acordo com Bobbio (2000, p.955-958, grifo nosso),
O primeiro [poder econômico] é o que se vale da posse de certos bens, necessários ou considerados como tais, numa situação de escassez, para induzir aqueles que não os possuem a manter um certo comportamento, consistente sobretudo na realização de um certo tipo de trabalho.
Já
O poder ideológico se baseia na influência que as idéias formuladas de um certo modo, expressas em certas circunstâncias, por uma pessoa investida de certa autoridade e difundidas mediante certos processos, exercem sobre a conduta dos consociados.
E,
Finalmente, o poder político se baseia na posse dos instrumentos mediante os quais se exerce a força física (as armas de toda a espécie e potência): é o poder coator no sentido mais estrito da palavra.
De tudo isso, tem-se que a Política e poder são termos necessariamente correlacionados. Tem-se ainda que o poder – termo plurissignificativo – pode ser ideológico, econômico ou político. Que o poder político corresponde à exclusividade do Estado de exercer a coação física, quando necessária. E que o fim da política – exercida por seu poder – é a manutenção da ordem e, portanto, assegurar a paz social. Neste sentido, Jürgen Habermas (2003, p.175, grifo nosso):
Hobbes conta, de um lado, com a estrutura de regras de relações contratuais e leis; de outro lado, com o poder fático de mando de um soberano, cuja vontade pode dominar qualquer outra vontade sobre a terra. Na base de um contrato de dominação, constitui-se então um poder do Estado, segundo o esquema: a vontade soberana assume funções de legislação, revestindo suas manifestações imperativas com a forma do direito. Porém o poder da vontade do senhor, canalizado pelas leis, continua sendo essencialmente o poder substancial de uma vontade apoiada na pura decisão. Esta se dobra à razão, transformada em lei, apenas para servir-se dela. [...] As idéias reformistas de Kant ainda traem o respeito de Hobbes perante o fato natural do poder político, núcleo impenetrável da política, no qual se separam o direito e a moral.
Em síntese ao colocado acima, procurando não descurar dos caracteres essenciais. Poder é decidir e implementar (transformar em realidade) tais decisões, tudo isso em nome da coletividade.1 Portanto, a palavra-chave é decidir e
transformar tais decisões em realidade.