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As análises realizadas ao longo da intervenção demonstraram um crescimento no desempenho dos indivíduos do grupo experimental, tanto no Safari como no N-Back. Em relação ao Safari, o crescimento no desempenho se deu exclusivamente na primeira metade da intervenção. Traduzindo em termos percentuais, os ganhos no treinamento nos primeiros 15 dias foram de 20,73%, ao passo que nos últimos quinze dias o ganho foi praticamente nulo (0,08%). Loosli et al. (2008) obtiveram ganhos de 23% após uma intervenção com duração de 4 semanas (no nosso estudo, o treinamento ocorreu ao longo de 6 semanas).

No estudo de Loosli et al. (2011), 66 crianças com idades entre 9 e 11 anos foram submetidas a 2 semanas de treinamento computadorizado na tarefa Safari, com o objetivo de verificar os efeitos do treinamento com jogos eletrônicos na memória operacional, bem como as repercussões sobre as habilidades em leitura. Os dados mostraram que os participantes obtiveram ganhos não somente nos processos cognitivos diretamente treinados, mas também naqueles que não receberam treinamento cognitivo, como por exemplo, a leitura de palavras simples e de textos. Apesar dos indivíduos do nosso estudo escreverem e lerem pouco, é provável que implicações positivas tenham decorrido do treinamento, refletindo-se em ganhos cognitivos nestes outros processos e habilidades, até porque também foram consideradas

outras habilidades cognitivas não diretamente treinadas pela intervenção como a visuoespacialidade, por exemplo.

Apesar do achado de que o treinamento foi mais efetivo nos primeiros dias intervenção ter sido condizente com o encontrado por Loosli et al. (2011), ele não foi confirmado por outros estudos (Dahlin, Neely, Larsson, Backman & Nyberg, 2008; Olesen, Westerberg & Klingberg, 2004). Tais autores discutem que é mais comum que o crescimento aconteça de forma linear ao longo da intervenção. Um dos fatores que podem ter contribuído para isso refere-se à proximidade do término da intervenção com as férias escolares, já que não foram encontradas diferenças significativas comparando-se o desempenho no trigésimo dia em relação ao décimo quinto. Tal fato pode ter trazido implicações, como a diminuição da motivação dos alunos, mais interessados e focados na finalização do ano letivo. Também pode ser indicativo de que, uma vez aprendida a tarefa, por ser adaptável, o interesse dos indivíduos resultante do caráter “desafiador” do jogo tenha acabado.

Em relação ao N-Back, o crescimento foi constatado na comparação do desempenho na metade da intervenção em relação ao início (ganhos de 64% com o treino), e ao comparar- se a performance ao término em relação à metade do treinamento cognitivo (ganhos de 55%). Vale lembrar que o crescimento no desempenho é representado através dos níveis dos jogos que foram alcançados e que, quanto maiores as médias desses níveis, maior também terá sido a performance dos indivíduos, indicando que no nosso estudo o desempenho dos participantes cresceu significativamente ao longo da intervenção.

Ao contrário dos achados do presente estudo em relação ao menor desempenho obtido ao término da intervenção, no estudo de Jaeggi et al. (2011) a última semana foi decisiva para o acréscimo na performance. Inclusive, nas três primeiras semanas de intervenção os ganhos não foram significativos a ponto de justificar a efetividade do treinamento com jogos eletrônicos. Além da proximidade com as férias escolares, já mencionada acima, fatores

motivacionais ao longo da intervenção podem ter contribuído para o nosso resultado, já que é provável que os indivíduos tenham se frustrado com o nível cognitivo exigido pelas tarefas. Vale lembrar que os indivíduos iniciaram a intervenção com baixo desempenho em QI, o que pode ter dificultado a efetividade do treinamento. Somado a isso, e talvez dificultando a adaptação aos jogos, na realidade socioeconômica em que viviam não havia contato com esse tipo de tarefa cognitiva, preferindo o acesso em computadores à sites de relacionamento ou jogos que não trabalhavam com processos cognitivos.

Os autores chamam a atenção para os níveis de dificuldade do jogo como motivadores para os participantes. Dificuldades como a frustração resultante de não conseguir alcançar o desempenho esperado pode diminuir a auto-estima da criança de modo que ela não se sinta suficientemente incentivada para cumprir as etapas do jogo. Assim, o engajamento dos indivíduos nas tarefas cognitivas depende do nível de dificuldade imposto na tarefa, de maneira que seja nem demasiado fácil nem demasiado difícil, mas suficiente desafiador. Pode ajudar a inserção de estímulos lúdicos na própria tarefa cognitiva contendo, por exemplo, elementos gráficos com temas que chamem a atenção das crianças e adolescentes, bem como a presença de estórias que tragam um contexto e um objetivo mais claro para a atividade (Malone & Lepper, 1987).

Jogos como o Safari e o N-Back são capazes de detectar mudanças sutis no desempenho de algumas das funções executivas, como a memória operacional, além de trazer benefícios para outros processos cognitivos, como a velocidade de processamento (Miller, Price, Okun, Montijo & Bowers, 2009). Após a intervenção com os jogos o desempenho da maioria dos processos cognitivos avaliados pelo WISC no nosso estudo passou de intelectualmente deficiente para um desempenho dentro da média esperada. Por exemplo, o desempenho da visuoespacialidade e atenção no grupo experimental foi considerado adequado para a faixa etária em que se encontravam, sendo que o mesmo vale para o grupo

controle após os indivíduos desse grupo terem sido submetidos à intervenção com desenhos. No caso da memória operacional, cujo desempenho também passou a ser dentro da média esperada, a melhora não foi considerada significativa.

Jaeggi et al. (2011), numa pesquisa em que também empregaram o N-Back, submeteram 76 alunos de ensino fundamental a quatro semanas de treinamento computadorizado. A amostra foi dividida em grupo controle, cujos indivíduos receberam treinamento em tarefas voltadas para o conhecimento e o vocabulário, e em grupo experimental, que posteriormente foi subdividido em função dos indivíduos com maiores e menores ganhos obtidos. Os resultados alcançados apontaram para um aumento significativo na performance em memória operacional no decorrer da intervenção para os indivíduos do grupo experimental que obtiveram grandes ganhos com o treino, mas não para os indivíduos deste grupo com pequenos ganhos, nem para os indivíduos do grupo controle.

Conforme aponta a literatura, intervenções cognitivas podem beneficiar a melhora do desempenho dos processos cognitivos. Na seção seguinte, discutiremos se as diferenças que encontramos no desempenho dos processos cognitivos após intervenção foi significativamente maior em relação ao período anterior à intervenção.