2.2.1 Percepção do sistema público de comunicação
Como consequência da reduzida importância do sistema público de comunicação na história da radiodifusão brasileira, a televisão comercial tem dominado há muito tempo a preferência dos telespectadores. Uma pesquisa realizada pelo Datafolha mostra a TV Brasil com percentual de 1% e a TV Cultura com 4%, em resposta a uma pergunta aberta de múltipla escolha sobre os canais de TV mais assistidos.
Figura 17.
Canais mais assistidos (pergunta aberta de múltipla escolha), 2009
91 60 59 37 11 8 6 4 3 3 3 3 2 2 2 2 1 1 1 1 1 1 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 GloboRecord Bandeirantes SBT
Rede TV!OutrosTV Cultura MTV
Rede VidaSporTV Globo News Discovery Channel Gazeta Telecine TV Canção Nova Futura Rede Mulher TV Brasil Disney Channel CNT
Discovery KidsNão assiste TV
Fonte: Datafolha, TV Brasil: Conhecimento e Avaliação, 2009; arquivado com os autores. Dos 24% de telespectadores que sabem da existência da TV Brasil, mas não a assistem, 42% indicaram problemas técnicos como justifi cativa, 27% afi r- maram não saber o número do canal ou seu horário de funcionamento, 23% não gostam da programação e 19% citaram a falta de tempo.
Como apontado por Moysés, Valente e Silva58, apesar dos períodos histó- ricos durante os quais a TVE Rio e a TV Cultura alcançaram índices expressivos de audiência, o conceito de serviço público de radiodifusão não é bem compre- endido pelo público brasileiro, uma vez que as informações recebidas sobre o assunto em geral se dão através de veículos comerciais que fazem uma cober- tura frequentemente negativa dos meios de comunicação públicos.
2.2.2 Fornecimento de serviços públicos na mídia comercial
O artigo 221, inciso I, da Constituição estabelece como princípio geral que con- teúdos educativos, artísticos, culturais e informativos devem ser priorizados na programação de rádio e televisão e na produção de conteúdo, até mesmo na mídia comercial. Entretanto, esse princípio jamais conseguiu ser adotado na prática, à exceção das cotas de conteúdo e publicidade que nunca são cum- pridas e de requisitos incluídos em procedimentos de licitação de outorgas comerciais que não são realmente decisivos.
As emissoras comerciais são obrigadas a transmitir pelo menos cinco ho- ras por semana de conteúdo educativo, reservar pelo menos 5% de sua pro- gramação para conteúdo de notícias e não se pode ultrapassar a quota de 25% da programação em publicidade59. É notório, porém, que as emissoras desres- peitam essas cotas. Por exemplo, um relatório de 2009 da Agência Nacional do Cinema (Ancine) mostra que a TV Gazeta, a Bandeirantes e a Record não transmitiam uma hora sequer das cinco horas de programação educativa60. O Ministério das Comunicações é responsável por impor o cumprimento desses requisitos, mas o fato de não fazê-lo é mais uma confi rmação da relevância da captura que os veículos comerciais exercem no setor de mídia.
Foi apenas recentemente que o Ministério das Comunicações adotou ações para melhorar seu processo de monitoramento e aplicação da lei, esta- belecendo em seu plano de ação para o período de 2012 a 2015 a meta de veri- fi car a regularidade de 100% das atuais outorgas. Segundo dados do Ministério, foram aplicadas 741 sanções a emissoras em 2012, a maioria das quais sob a forma de multas e suspensões, impostas principalmente a rádios comunitárias (50,8%)61. Resta verifi car se esses esforços vão resultar em uma melhor confor- midade com os requisitos relacionados à transmissão de conteúdo.
58 D. Moysés, J. Valente, e S. P. da Silva, Sistemas Públicos de Comunicação: Panorama Ana- lítico das Experiências em Doze Países e os Desafi os para o Caso Brasileiro. In: Intervozes,
Sistemas Públicos de Comunicação no Mundo: Experiências de Doze Países e o Caso Brasi-
leiro. São Paulo: Editora Paulus, 2009, p. 309.
59 Lei no 4.117/62, artigo 24, e Decreto-Lei no 236/67, artigo 16, § 1º.
60 Ancine, TV Aberta — Monitoramento da Programação 2009, em http://oca.ancine.gov.br/
rel_programastv2009.htm (Acesso em: 21 de agosto de 2012).
61 B. Marinoni, Ministério das Comunicações aplica 741 sanções a emissoras em 2012. Observatório
do Direito à Comunicação, 29 de janeiro de 2013, em http://www.direitoacomunicacao.org.br/
Critérios como o número de horas dedicadas a programações educativas, culturais e de notícias também são considerados em licitações públicas de ou- torgas de radiodifusão comercial, e acrescentam à pontuação das propostas técnicas apresentadas pelos concorrentes. No entanto, a maioria das decisões é tomada com base na proposta de valor mais alto (consulte a seção 5.1.1), e as obrigações contratuais sofrem da mesma falta de enforcement que afeta os requisitos legais anteriormente mencionados.
2.3 Avaliações
A digitalização pode representar tanto um momento decisivo de mudança na história da radiodifusão de serviço público quanto a defi nitiva consolidação dos interesses comerciais que têm dominado historicamente o rádio e a te- levisão. Até o momento, com a discussão sobre o operador comum de rede avançando lentamente, com a tão anunciada interatividade na televisão digital terrestre sendo ainda uma promessa e com a Internet cada vez mais controlada pelos mesmos agentes que dominam a mídia tradicional, o segundo cenário parece mais provável do que o primeiro.
No entanto, apesar dos problemas institucionais que afetam a EBC, pela primeira vez desde a promulgação da Constituição de 1988, foi feita uma ten- tativa séria para tornar realidade o princípio da complementaridade da radio- difusão pública, privada e estatal. Segundo Lima62, um dos maiores méritos da EBC é defi nir-se institucionalmente como uma emissora pública — ou seja, não estatal e não comercial — sendo a defi nição do que isso implicará uma preocu- pação prática.
Afi nal de contas, o serviço de radiodifusão pública nunca teve a oportuni- dade de se desenvolver plenamente no Brasil e, como resultado, tanto as emis- soras quanto as audiências estão buscando recuperar o atraso. Como resumido de forma eloquente por Eugênio Bucci, “com base no exame do que acontece na TV Cultura e da TV Brasil, a conclusão de que não temos radiodifusão pú- blica entre nós é evidente. Isso não signifi ca que não estejamos caminhando nessa direção. Signifi ca apenas que esse é um caminho tortuoso, traiçoeiro, e que há mais por fazer do que normalmente se admite”63.
62 V. A. de Lima, Regulação das Comunicações: História, Poder e Direitos. São Paulo: Editora Paulus, 2011, p. 41 (doravante, V. A. de Lima, Regulação das Comunicações).
63 E. Bucci, É possível fazer televisão pública no Brasil?. Novos Estudos CEBRAP, n. 88, no- vembro de 2010, p. 5-18, em http://www.scielo.br/pdf/nec/n88/n88a01.pdf (Acesso em: 29 de janeiro de 2013).