Com o término da segunda guerra mundial, no Japão, Taiichi Ohno concebeu um novo modelo de produção, específico para um país em reconstrução e com um mercado consumidor bem menor que os mercados americano e europeu. No mercado em que se iniciara esse novo modelo, o fordismo ainda tinha destaque, apesar das necessidades cada vez mais recorrentes de restruturações pontuais. O modelo de Ohno foi implantado nas fábricas de automóveis Toyota, razão pela qual passou a ser conhecido como toyotismo (MERLO; LAPIS, 2007).
Esse modelo, em que pese manter inúmeros pontos de contato com os modelos então reinantes, foi responsável por promover modificações de grande intensidade, seja diante de sua necessidade de adaptação a uma realidade diversa (mercado em reconstrução), seja para impedir a transposição de modelos que já tinham se mostrado ineficazes em momentos de retração ou estagnação do consumo.
O toyotismo se inseriu de maneira profunda no processo conhecido como globalização. Tanto isso é verdade que diante de mais uma crise do capital, ocorrida na década de 70, esse modelo se espalhou pelo mundo, em substituição a inúmeras
práticas alicerçantes que ainda restavam da grande indústria fordista, representando uma alternativa para a crise do capitalismo então instalada (MERLO; LAPIS, 2007).
Com a difusão das práticas neoliberais e consequente derrocada do modelo de Estado interventor e provedor, o toyotismo se mostrou imprescindível para a nova configuração da produção, especialmente pelo seu caráter flexível e fragmentado (como flexível e fragmentada era, à época, a produção).
Atualmente, o toyotismo é o modelo de gestão que predomina em praticamente todos os países capitalistas industrializados do mundo. É que a descentralização da produção, uma de suas características principais, não encontra, hodiernamente, nenhum tipo de barreira geográfica.
No modelo de Ohno, além da descentralização do espaço industrial, o controle do processo produtivo é mais dinâmico e simplificado, estrutura criada exatamente para atender interesses em constantes mutações, ao sabor das necessidades variadas dos consumidores.
A produção sob o modelo toyotista ocorre sob demanda, sem formação de estoques. Essa situação gera a necessidade de fragmentação da produção em si e não apenas a fragmentação de suas etapas. Gerada a demanda, é mais fácil e mais rápido reunir partes do produto, em um processo de montagem, do que fabricá-lo inteiramente.
Em outros termos, na fábrica toyotista, não há a necessidade de se produzir todas as peças do produto fabricado. É necessário, em verdade, a realização de uma adequada e eficaz montagem.
Diante desse novo modelo produtivo, houve aumento das possibilidades de aprimoramento e ampliação das estratégias de distribuição das mercadorias produzidas, que ao cabo alcançaram escalas globais. Ainda que possam existir políticas de difusão específicas para determinados mercados, é certo que a matriz produtiva pouco se difere de uma região para a outra. Essa situação favorece a simples reunião de peças, a montagem. Em outras palavras, a prática é muito mais vantajosa, em termos econômicos, que a fabricação concentrada de todo o produto ou de grande parte dele em um único local.
No contexto da produção toyotista, as inovações técnicas constantes são absolutamente necessárias. Aliás, atualmente, e em uma intensidade sem precedentes, as inovações técnicas também se mostram imprescindíveis para outro fim, qual seja, o fomento de estratégias de obsolescência programada. É a situação
em que um mesmo indivíduo se torna consumidor de mais de uma mercadoria do mesmo tipo em um curto espaço de tempo, à vista de uma suposta e criada perda de utilidade do produto anterior, decorrência do aparecimento de novas funcionalidades no equipamento novo.
Especificamente em relação ao mundo do trabalho no cenário acima retratado, pode-se afirmar que os sistemas produtivos toyotista passou a carecer de um trabalhador especializado e, ao mesmo tempo, polivalente, ou seja, capaz de atuar em mais de uma etapa do processo produtivo ou, ainda que adstrito a uma só etapa, apto a corresponder a um desejo de produtividade bem maior que a de um operário da indústria fordista. As novas técnicas de produção, alicerçadas em alta tecnologia, passam a ditar, com intensidade ainda maior, a velocidade de todo o processo produtivo. A polivalência exigida do empregado não foi concebida, no toyotismo, para emancipá-lo, mas para garantir a continuidade e o ritmo da produção em um ambiente laborativo mais complexo, dominado pela técnica (MERLO; LAPIS, 2007).
O trabalhador, nesse sistema, geralmente é regulado por tarefas diárias, sem a existência de mapas de produção previamente delimitados, em uma marcante alienação em relação ao produto ou à atividade. Ainda que mais especializado, o trabalhador não consegue deter “as rédeas” do processo produtivo, justamente por conta da circunstância de que esse processo sempre se apresenta segmentado e abstrato.
Uma economia neoliberal que prestigia um aumento de produtividade não deve possuir amarras. Assim, também no toyotismo, a flexibilização dos contratos de trabalho e a alocação de fornecedores externos são medidas altamente incentivadas.
Diante desse quadro, o sistema de acumulação flexível defende não ser papel do Estado promover a intervenção na relação entre patrão e empregado. Se intervenções desse tipo ocorressem, haveria graves entraves ao crescimento da economia, com supostos prejuízos a toda a coletividade.
Os toyotistas neoliberais defendem, ainda, que os benefícios trabalhistas devem ser conquistados diariamente através do rendimento individual ou coletivo. Essa tese conduz à exacerbação da meritocracia no ambiente de trabalho, com associações a competições desenfreadas entre os trabalhadores pelo melhor posto de trabalho (que renderão as melhores retribuições pecuniárias, ainda que essas
retribuições, em iguais medidas, não venham acompanhadas de melhores condições de exercício da atividade de trabalho).
No modelo toyotista, portanto, o trabalhador, além de não perder a sua característica de ser mais um insumo de produção para o detentor do capital, também passa a ser fortemente classificado segundo os benefícios que pode trazer ao processo produtivo. Essa situação gera mais descartes de pessoas do que propriamente reconhecimento de méritos e concessões de benefícios.
Para bem elucidar o tema, importar transcrever as lições dos professores Ricardo Antunes e Graça Druck (2014, p.15) sobre o toyotismo, suas diferenças essenciais com o taylorismo/fordismo:
De modo sintético, podemos dizer que o toyotismo e a empresa flexível se diferenciam do fordismo basicamente pelos seguintes traços: 1. trata-se de uma produção diretamente vinculada à demanda, diferenciando-se da produção em série e de massa do taylorismo/fordismo; 2. dependem do trabalho em equipe, com multivariedade de funções, rompendo com o caráter parcelar típico do fordismo; 3. estruturam-se em um processo produtivo flexível, que possibilita ao trabalhador operar simultaneamente várias máquinas, diferentemente da relação homem/máquina na qual se baseava o taylorismo/fordismo; 4. tem como princípio o just in time, isto é, a produção deve ser efetivada no menor tempo possível; 5. desenvolvem o sistema de kanban, senhas de comando para reposição de peças e estoque, uma vez que no toyotismo os estoques são os menores possíveis, em comparação com o fordismo; 6. têm uma estrutura horizontalizada, ao contrário da verticalidade fordista. Enquanto na fábrica fordista, aproximadamente 75% da produção era realizada em seu interior, a fábrica toyotista é responsável por somente 25% dela e a terceirização/subcontratação passa a ser central na estratégia patronal. Essa horizontalização estende-se às subcontratadas, às firmas “terceirizadas”, acarretando a expansão de seus métodos e procedimentos para toda a rede de subcontratação. E essa tendência vem se intensificando cada vez mais nos dias atuais, pois a empresa flexível defende e implementa a terceirização não só das atividades-meio, mas também das atividades-fim; 7. criam os círculos de controle de qualidade (CCQs), visando a melhoria da produtividade e permitindo que as empresas se apropriem do savior-faire intelectual e cognitivo do trabalho, que o fordismo desprezava.