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3. TERMAL TESİS BÜNYESİNDE BULUNAN FİZİK TEDAVİ VE

4.4. Denizli Pam Termal Otel

Depois de São Paulo, o Rio Grande do Sul foi o Estado a receber o maior número de imigrantes médicos de origem italiana. Diferentemente das razões de imigração médica que ocorreram em São Paulo e do seu vínculo inicial com a expansão cafeeira, um fator que promoveu o interesse de médicos italianos pelo Rio Grande do Sul era uma particularidade da legislação estadual no tocante à permissão de trabalho para profissionais estrangeiros. Apesar da determinação federal de obrigatoriedade de revalidação do título de médico obtido no exterior, junto a uma escola nacional para médicos, o Estado apresentou peculiaridades ao pautar-se a esse respeito por sua própria Constituição Estadual de 1891 – essa previa, pois, o livre exercício profissional. Os médicos estrangeiros recebiam autorização para clinicar no Estado mediante registro à Diretoria de Higiene e Saúde Pública, mesmo sem a apresentação de diploma médico.

A solicitação para o exercício da Medicina era feita por inscrição nas delegacias de higiene locais que se reportavam à Diretoria de Higiene. A ela estava subordinada a fiscalização do exercício das profissões que, em seu cerne, seguia a orientação positivista. Na responsabilidade da diretoria, estava “a severa fiscalização do exercício das profissões a que

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SALLES, Maria do Rosário. Médicos italianos em São Paulo (1890-1930): um projeto de ascensão social. São Paulo: Editora Sumaré/FAPESP, 1997. p. 53.

164

Ibid., p. 19. 165

O Instituto Pasteur surgiu em São Paulo em 1904. Era uma instituição privada de caráter filantrópico, mas subsidiada pelo estado. Foi dirigida pelo italiano Antonio Carini. Ver: EDLER, Flávio C. Boticas &

se refere o Regulamento para o serviço de higiene do Estado, é corolário obrigatório da ampla liberdade espiritual consagrada na Constituição rio-grandense”166.

No período de informações das inscrições que abrangem os relatórios de 1900 a 1906, Geraldo Mainardi observou que houve 300 solicitações para inscrições de médicos: destes 34 (11,3%) mostraram titulação de Medicina obtida em faculdades nacionais; 42 (14%) com titulação em universidades estrangeiras e 224 (74,6%), sem titulação167.Não há informação nestes relatórios sobre a procedência dos médicos formados em universidades estrangeiras. Sabe-se que um número razoável de médicos nacionais buscava formação no exterior.

O mesmo autor, no estudo a respeito dos médicos italianos diplomados em faculdades estrangeiras que se radicaram no Rio Grande do Sul, a partir de 1898, constatou que a maioria era de médicos recém-formados; além disso, um grande número desses não se radicou somente junto às florescentes comunidades ou aos núcleos de imigração italiana, eles também se integraram em outras comunidades. Poucos foram os que se fixaram em Porto Alegre168.

A partir desse estudo, verifica-se que destes 120 médicos italianos, pode-se inferir que, pelos menos, foram 49 os médicos nascidos antes de 1900 que possuem informações referentes ao ano de formatura, ao ano que revalidaram os seus títulos perante a Diretoria de Higiene ou ao ano em que requereram exame de revalidação na Faculdade de Medicina de Porto Alegre. Os anos de formatura estendem-se de 1890 a 1926, sendo a última solicitação de revalidação de diploma feita no ano de 1932. Pode-se observar que houve um grande contingente de médicos formados no período anterior à Primeira Guerra Mundial, e que na década de 1910, houve uma diminuição dos imigrantes médicos devido à provável necessidade de trabalho no front de batalha. Um exemplo disso é o médico italiano Riego Sparvoli que trabalhava na cidade de Rio Grande e foi convocado para servir na Itália neste período169.

É importante também referir que, na primeira década de 1900, os médicos que se instalavam em Caxias do Sul, região colonial italiana, em sua maioria, eram jovens e recém

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Relatório do Dr. Diretor de Hygiene. In: Relatório apresentado ao Sr. Dr. A. A. Borges de Medeiros,

Presidente do Estado do Rio Grande do Sul pelo Dr. João Abbott, Secretário de Estado dos Negócios do

Interior e Exterior, 1903. 167

MAINARDI, Geraldo. Médicos italianos no Rio Grande do Sul. In: De BONI, Luís A. (Org.). A presença

italiana no Brasil. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes; Torino: Fondazione

Giovanni Agnelli, 1996. p. 380-401. Neste estudo há verbetes para cada médico que fez o seu registro na Diretoria de Higiene Médica do Rio Grande do Sul. Para cada entrada constam a data de nascimento, o ano de formatura e/ou dados sobre as atividades profissionais realizadas.

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Ibid., p. 380-401. 169

saídos das universidades italianas. Alguns retornavam à Itália; outros se dirigiam a centros maiores como Porto Alegre170. As características do exercício local da Medicina em Caxias do Sul apresentam um número reduzido de profissionais médicos, uma alta rotatividade, além da curta permanência no lugar. Conforme relatos de antigos moradores desta cidade, as cirurgias praticadas pelos médicos italianos não atingiam bons resultados, quase todas supuravam em decorrência da assepsia precária. Para alguns médicos, a assepsia era considerada um mito, e a sua importância ainda era questionada171.

As razões que justificam a vinda desses médicos italianos para o Brasil são distintas. O médico Ricardo D’Elia, ao decidir pela emigração para o Brasil, na última década do século XIX, admitiu à sua esposa duas razões para deixar a Itália:

... agora eu não estou mais sozinho a precipitar na minha habitual extravagância, mas eu assumi um sacrossanto dever; aquele de procurar a tua felicidade e a da nossa idolatrada filhinha .Outro pensamento me incita de ir para a América com muita confiança, que farei fortuna; que se outros em condições piores que a minha foram felizes, porque não esperá-la eu também e depois retornaremos logo ao meio dos nossos queridos que tanto nós amamos...172.

Entre os médicos italianos estão Giovanni Palombini, que trabalhou como médico itinerante em várias cidades do interior do Rio Grande do Sul173; Arrigo Cini, Giuseppe Ricaldone e Renzo Rossa que se estabeleceram em Porto Alegre; Riego Sparvoli e Francesco Bertoni, que se radicaram em Rio Grande.

Foram ouvidos para esta pesquisa depoimentos de familiares ou de pessoas com quem esses médicos mantiveram relacionamento. Através de depoimentos utilizando a metodologia da História Oral, tornou-se possível observar as razões de emigração para o Brasil, as condições de vida de médicos italianos formados na Itália ou no Brasil, o seu sucesso profissional e a sua integração na comunidade.

170

MARTINI, André; BRITTO, Elizabeth; FRUSSETO, Fernando. A história da prática médica em Caxias do Sul: do nascimento à lei orgânica. Estudos Leopoldenses, São Leopoldo, v. 31, n. 90, mar.-abr. 1995.

171

Ibid., p. 87. 172

D’ELIA, Ricardo. Argentina, Paraguay e Brasile: riccordi e impressioni e consigli. Torino: Tipografia Torinese, 1906. p. 20.

173

Um retrospecto sobre a vida de Giovanni Palombini na Itália e particularidades sobre sua origem encontram- se no artigo PALOMBINI, Bruno; SCHRÖER, Madelaine T. João Palombini: as agruras de um médico trilhando uma floresta de araucária. In: POSSAMAI, Osmar; BERTELLI, Áureo; CASTILHOS, Evaldo P. et al. (Orgs.). Raízes de São Marcos e Criúva. Porto Alegre: EST, 2005. p. 776-778.

Giovanni Palombini, natural de Ascoli Piceno, trabalhava como medico condotto na Itália quando tomou a decisão de emigrar para o Brasil no ano de 1901. Após uma viagem de observação a esse País, realizada em companhia do colega oftalmologista Arrigo Cini, acompanhados de suas respectivas esposas, decidiram pelo Sul. Cini radicou-se em Porto Alegre, e Giovanni utilizou uma pequena fortuna deixada em decorrência da morte da mãe, para vir ao Brasil. Esse último trabalhou inicialmente no interior de São Paulo e depois optou pelo Rio Grande do Sul. Após a morte de sua madrasta seguida pelo falecimento de seu pai, na Itália, chamou seu único irmão Vicenzo para acompanhá-lo174. Giovanni Palombini atuou como médico e naturalista, e era considerado um aventureiro pela família. Em Jaguarão, clinicou no Hospital de Caridade com o auxílio de um aparelho de Raios X. Este aparelho era guardado no porão do hospital durante as suas viagens e terminou se deteriorando. A família acreditava que ele fora o introdutor deste aparelho no Estado. Além da clínica médica e da cirurgia, dedicou-se a divulgar propaganda para fins de incentivo à imigração italiana. Ele queria que o Brasil ficasse conhecido na Itália, e que aqui não era só terra de índios. Entre outras atividades, percorreu os Estados do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro e esteve no Uruguai, na região das Termas. Realizou conferências e organizou exposições de artigos gaúchos de diferentes proveniências no Brasil e na Europa. O dinheiro que conseguia ao clinicar era utilizado para pagar as despesas das viagens. Durante os grandes deslocamentos pelo interior gaúcho, sua mulher e os filhos pequenos ficavam nas cidades. Os filhos maiores eram enviados para estudar em internatos. Exerceu a profissão em Vacaria, nos últimos anos de vida. Morreu prematuramente e em dificuldades financeiras na cidade de Caxias do Sul, em 1927. Foi enterrado em Ana Rech, local de veraneio da família175.

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Vicente Palombini se estabeleceu em Antônio Prado no ano de 1906 aos 22 anos. Foi o primeiro farmacêutico desta cidade. Era casado com Ema Nol, luterana, de origem germânica. Tiveram um filho que foi chamado de Calvino. Exerceu o cargo de prefeito neste município nos anos de 1952 a 1955. Faleceu em 1965. Ver: Praças e ruas de Antônio Prado XVI - Vicente Palombini, o prefeito trabalhista. Panorama Pradense. Antônio Prado, ano 11, p. 10, 1985.

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Entrevistas orais realizadas com Bruno Palombini, em 22 de setembro de 2004, e com Wanda Palombini, em 20 de junho de 2005, netos de Giovanni Palombini, na cidade de Porto Alegre.

Figura 7 - Giovanni Palombini (3º à esq.), mulher e filhos, juntamente com o irmão Vicenzo (2º à esq.)

mulher e filho.

O médico Piero Francesco Bertoni, diplomado em Medicina em Módena no ano de 1900, decidiu conhecer o mundo após ter recebido o diagnóstico de ser possuidor de tuberculose. Iniciou uma viagem de navio que se encerrou na cidade de Rio Grande, onde se estabeleceu e constituiu família; tornou-se amigo do médico italiano Riego Sparvoli. Bertoni passou os últimos anos de sua vida internado na enfermaria dos tuberculosos da Santa Casa de Misericórdia de Rio Grande, onde exercia a função de tisiologista176.

Riego Sparvoli radicou-se no Brasil no ano de 1912, devido aos conhecimentos feitos em Roma com o embaixador brasileiro e com o cunhado desse, Berchon D’Essarts, médico que trabalhava em Pelotas. D’Essarts convidou-o para trabalhar nessa cidade, salientando que uma das facilidades para trabalhar no Rio Grande do Sul era a não-exigência de revalidação do diploma médico para os estrangeiros. Além do convite, outra razão para vir a América do Sul era a fantasia de conhecer a Patagônia, adquirida nos livros de aventura e de contos juvenis. Nessa região, ele encontraria o vento, os índios e as montanhas cheias de neve. Sua noiva italiana emigrou para o Brasil oportunamente. Riego, após um período de trabalho em

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Pelotas, transferiu-se para Rio Grande devido à proximidade do mar e pela possibilidade de sempre poder voltar para a Itália, desejo que o perseguiu durante toda a sua vida, a ponto de nunca se naturalizar.

Convocado para servir à Itália durante a Primeira Guerra Mundial, trabalhou como cirurgião da Cruz Vermelha Italiana, acompanhado pela mulher na condição de enfermeira. Após regressar ao Brasil, durante muitos anos, Sparvoli continuou solicitando licença do hospital onde trabalhara, em Roma, para não perder o seu vínculo empregatício. Trabalhou por longo período na Santa Casa de Misericórdia de Rio Grande, onde foi homenageado com um busto. Seus dois filhos cursaram a Faculdade de Medicina na Itália e exerceram a profissão no Brasil. No mesmo período em que Sparvoli emigrou para o Brasil, dois de seus colegas partiram com destino a São Paulo: Piero Mangineli e Mario de Fiori177.

Giuseppe Ricaldone iniciou os seus estudos em Roma onde fez o primeiro ano de Medicina. Ao emigrar para o Brasil, trabalhou como rato branco, denominação que davam aos guardas municipais da cidade de Porto Alegre, a fim de custear seus estudos médicos. Diplomou-se na Faculdade de Medicina de Porto Alegre no ano de 1909, tendo sido colega do também italiano Vicenzo Caruso. Chefiou uma enfermaria na Santa Casa de Misericórdia e chegou a possuir renomada clínica na cidade. A região, onde sua casa se localizava na cidade de Porto Alegre, recebeu o nome de Morro Ricaldone178.

Renzo Rosa chegou ao Brasil, já formado, em 1927. No final da década de 30, ao decidir rever a família na Itália, foi preso pelo regime fascista. Por ser figura popular na capital, a sua prisão na Itália foi motivo de reação em Porto Alegre. Reza a lenda que a pena mínima que davam para quem não era fascista era tomar um purgante179. De acordo com Geraldo Mainardi, o médico acima citado morreu pobre.

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SPARVOLI, Ana Maria. Entrevista oral. Realizada em 26 e 27 de julho de 2005, Rio de Janeiro. 178

Os guardas municipais receberam o nome de “ratos brancos” em decorrência do fardamento branco de verão e por estarem lotados no porão da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Entrevista oral com José Baptista Neto em 26 de maio e 3 de julho de 2006, Porto Alegre. José era filho do médico Israel Baptista Soares da Silveira e Souza , colega de turma de Giuseppe Ricaldone e Vicenzo Caruzo (formandos de 1909).

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