Nosso trabalho visa detectar processos de variação no sistema de demonstrativos do espanhol de Lima e de Buenos Aires, para o qual vamos nos valer da perspectiva laboviana.
A variação e a mudança linguística são fenômenos presentes em todas as línguas naturais. A variação se caracteriza pela existência de formas linguísticas alternativas, chamadas de variantes, que constituem, por sua vez, um fenômeno variável. Isso significa que para um mesmo fenômeno da língua é possível existir mais de uma forma de realização possível que coexiste sincronicamente. As variantes podem permanecer estáveis no sistema durante um breve período ou até durante séculos. Quando uma das variantes desaparece se dá, então, o que se chama mudança linguística.
A variação e a mudança linguística não ocorrem de maneira aleatória, sendo controladas por fatores de natureza social - extralinguística - e estrutural - intralinguística. Afirma MOLLICA (2004, p. 11):
No conjunto de variáveis internas, encontram-se os fatores de natureza fono- morfo-sintáticos, os semânticos, os discursivos e os lexicais. Eles dizem respeito a características da língua em várias dimensões, levando-se em conta o nível do significante e do significado, bem como os diversos subsistemas de uma língua. No conjunto de variáveis externas à língua, reúnem-se os fatores inerentes ao indivíduo (como etnia e sexo), os propriamente sociais (como escolarização, nível de renda, profissão e classe social) e os contextuais (como grau de formalidade tensão discursiva).
Essas variáveis, sejam internas ou externas, não atuam de maneira isolada, mas formam um complexo de múltiplas interferências que se sobrepõem, levando a um resultado final. E tudo isso ocorre de maneira que a língua se mantenha coesa. Os processos de variação e mudança ocorrem de maneira que a unidade da língua seja mantida, pois, do contrário, seus usuários deixariam de se entender. Isto quer dizer que a língua encontra-se sob a pressão de uma força que atua no sentido da variedade e outra no sentido da unidade, de forma a propiciar a heterogeneidade, mantendo a unidade. É isso que torna possível, por exemplo, a variação diatópica - entre regiões - e a diastrática - entre estratos sociais.
Para fazer a análise dessas variações, as variantes linguísticas não podem ser rigidamente caracterizadas. Apesar de serem feitas certas generalizações nos estudos linguísticos, é importante recordar que as fronteiras dos fenômenos não são estanques. Também não é possível mais falar em superioridade de uma variedade ou de outra em termos linguísticos, apesar de algumas variedades gozarem de mais prestígio que outras, o que interfere nos processos de variação e mudança, sendo assim um aspecto a ser considerado nos estudos linguísticos.
Uma vez identificados os fatores internos e externos que participam da variação e mudança fica claro que, ao contrário do que possa parecer, esses processos não se dão de maneira aleatória. Apenas aparentemente desorganizada e caótica, é possível identificar na língua, sob a aparência de irregularidade, os fatores que a controlam, provando que ela é regular, sistemática e previsível. Ao estudar os fenômenos de variação e mudança, os linguistas querem justamente descobrir de que maneira esses fatores interagem, ocasionando o estado em que a língua se encontra. Dessa maneira, é importante trabalhar com o falante real, baseando-se em mostras linguísticas concretas, ao invés de se valer de exemplos supostamente verdadeiros, mas, na verdade, criados pela intuição do linguista.
WEINREICH, LABOV E HERZOG (1968) apud MARTELOTTA (2008, p. 149-150) estabeleceram cinco questões a serem consideradas para a explicação de processos de variação e mudança linguística:
1) os fatores universais limitadores da mudança (e variação), que podem ser sociais ou linguísticos;
2) o encaixamento das mudanças no sistema linguístico e social da comunidade; 3) a avaliação das mudanças em termos dos possíveis efeitos sobre a estrutura linguística e sobre a eficiência comunicativa;
4) a transição, momento em que há mudanças intermediárias;
5) a implementação da mudança: estudo dos fatores responsáveis pela implementação de uma determinada mudança; explicação para o fato de a mudança ocorrer numa língua e não em outras, ou na mesma língua em outros momentos.
A análise das variantes linguísticas pode levar à conclusão de que existe uma estabilidade entre elas, o que se chama variação, ou à constatação de que estão em competição, o que se dá quando uma das variantes tem o seu uso aumentado, e se chama mudança em curso. Para diferenciar se o fenômeno estudado é um caso de variação ou
de mudança em curso, normalmente o estudo de um momento temporal não é suficiente. Há duas estratégias para essa verificação, a realização de um estudo em tempo aparente ou em tempo real. O tempo real é observado através da pesquisa de duas ou mais épocas e o tempo aparente é quando o linguista realiza sua investigação com base em amostras de informantes de diferentes faixas etárias. A utilização do tempo aparente é frequente e válida, mas ainda há algumas dúvidas quanto a seu grau de confiabilidade. Afirmam PAIVA E DUARTE (2004, p. 179):
O estudo da mudança no tempo aparente, ainda que teoricamente sustentável, se depara com dificuldades nem sempre contornáveis com os recursos heurísticos disponíveis. A primeira se refere à própria validade da hipótese clássica acerca da aquisição da linguagem. A segunda dificuldade está no fato de que correlações sistemáticas com a variável idade não são, muitas vezes, índices conclusivos de uma mudança em progresso na língua. A predominância de uma determinada variante linguística na fala de pessoas mais jovens coloca o pesquisador frente a duas possibilidades: a) trata-se da instalação gradual de uma nova variante na língua (mudança linguística propriamente); b) trata-se de uma diferenciação linguística etária que se repete a cada geração.
Para as autoras, a utilização do tempo aparente é válida, mas deve estar associada a evidências obtidas através do estudo em tempo real. O estudo em tempo real, no entanto, apresenta dificuldades metodológicas. Uma delas é a ausência de material autêntico de fala de épocas passadas. Para suprir essa falta, o pesquisador pode se valer de documentos escritos considerando a natureza diferente entre fala e escrita. Para solucionar, pelo menos em parte, essa questão, os estudiosos muitas vezes optam por trabalhar com textos de teatro popular, uma vez que, a princípio, esses espelhariam com mais lealdade a fala. Outro problema da utilização dos documentos escritos de épocas passadas é que muitos deles chegam até o presente através de copistas que, frequentemente, cometiam erros ou até realizavam conscientemente alterações nos textos originais, inclusive no intento de corrigir aspectos linguísticos que consideravam inadequados, o que compromete a viabilidade do uso do documento para o estudo linguístico. Para suprir as dificuldades apresentadas para os estudos em tempo real e tempo aparente, outra estratégia é o uso do tempo real de curta duração. Há duas formas de realizar esse tipo de estudo. A primeira, do tipo "painel", consiste em analisar a fala do mesmo indivíduo com uma diferença de tempo, o que equivale assumir a estabilização do sistema linguístico do falante, ou seja, que o seu comportamento linguístico a partir de uma certa idade é estável. A segunda forma, do tipo "tendência",
se dá através da comparação de amostras aleatórias da mesma comunidade de fala em dois momentos do tempo.
A teoria variacionista tem enfrentado também algumas dificuldades teóricas. Inicialmente, ao focar sua atenção nos fenômenos fonológicos, o conceito de variável se aplicou muito bem e foi facilmente verificado. No entanto, ao passar para a análise dos fenômenos sintáticos ele não se encaixou tão tranquilamente. Também o estabelecimento da correlação entre os fatores extralinguísticos e as estruturas sintáticas escolhidas não se dá de maneira tão clara quando no nível fonológico.