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A postura ética, em sentido largo, tem sido objeto de reflexão de pesquisadores que se preocupam com o que seria a dimensão ética da pesquisa científica. Moita Lopes (2006), no campo dos Estudos da Linguagem, discute a relação da Lingüística Aplicada com a vida contemporânea e defende que, em uma agenda de trabalho condizente com os imperativos da vida nesse atual momento

histórico, político, social, cultural, econômico e tecnológico, a Lingüística Aplicada necessita “re-descrever a vida” como ela é para poder compreendê-la. Somente assim, o conhecimento produzido estará situado no mundo e apto a responder às questões desse mundo. Para esse pesquisador, somente um campo de estudo que se preocupasse em agir de tal modo estaria adotando uma agenda ética de investigação.

O fato de se questionar a produção do conhecimento de um campo teórico como a Lingüística Aplicada buscando compreender de que modo a ética se faz presente em sua prática também significa buscar respostas para os sentidos que emergem das relações sociais que se travam em todas as esferas envolvidas na atividade de produção desse conhecimento (esfera teórica e esfera da vida) inserida na contemporaneidade, quer seja ela moderna ou pós-moderna.

Se a Lingüística Aplicada tem-se encaminhado para uma ampliação de suas fronteiras, uma hibridização de seus métodos, uma interdisciplinaridade que a transforma e faz explodir uma produção de conhecimento com identidades múltiplas, variadas e até mestiças (MOITA LOPES, 2006), é sinal também de que ela está buscando responder a esses sentidos que clamam por não mais serem ignorados.

A investigação ética de que fala Moita Lopes (2006) remete, nesse sentido, à preocupação de Bakhtin (2003) em unificar os três campos da cultura humana – a ciência, a arte e a vida – na unidade da responsabilidade que caracteriza cada uma e todas entre si, de forma que o agir concreto dos sujeitos e o pensar sobre o agir concreto dos sujeitos não estejam dissociados. Essa responsabilidade só passa a existir quando entra em cena a ética, pois, se vida de cada um é única e é concebida como um atuar ético permanente, os atos éticos individuais e responsáveis, por sua vez, compõem a vida (BAKHTIN, 1997).

Assim, fazer pesquisa lingüística, produzir conhecimento nesse campo de estudo, significa reconhecer que seu objeto de estudo, a linguagem, é opaca, plural em seus sentidos, e que, para compreendê-la, são necessárias mais do que regras estáticas e preexistentes. Para tanto, cada “pesquisador precisará equipar-se com sua opção (política, é claro) [...] e, nesse lugar de opção, pesquisa e ética se reencontram” (GERALDI, 2005, p. 7).

Nesse sentido, fazer pesquisa lingüística ética é reinventar a vida social. Segundo Moita Lopes (2006), significa ainda que é preciso dar voz a vozes que nunca foram ouvidas: vozes das margens, das minorias, dos excluídos não somente

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em termos de classes sociais mas em termos de acesso ao conhecimento, à tecnologia, às benesses do progresso que tão bem caracterizam a sociedade moderna. Ouvir essas vozes, ou seja, assumir que é preciso “aprender com o Sul e ouvir as vozes do Sul” (SANTOS, 2001), implica um tipo de produção de conhecimento que procure seu objeto de estudo além dos discursos hegemônicos que mascaram as diferenças ou, quando muito, as identificam como mesmas e iguais.

Na base da ética da vida que deve perpassar todos os campos da cultura humana, encontra-se o Ser único que atua incessantemente na vida sob o peso de sua responsabilidade que lhe permite escolhas e transformações num eterno vir-a- ser, dado o caráter de inacabamento que lhe é inerente. Como sujeito único, ele é da ordem do irrepetível, portanto diferente de cada um outro que não ele. Como seu atuar também é único em cada evento único, continuamos na ordem do irrepetível. Como, diante dessas constatações, não considerar as diferenças?

“Ouvir as vozes do Sul” é, assim, uma metáfora das desigualdades que explodem em todas as partes do mundo e são causadoras de sofrimento para o ser humano. Nesse momento, é preciso concordar com Geraldi (2003, p. 39) e com seu alerta de que se “as desigualdades deformam, a diferença identifica”. Na desigualdade, temos sofrimento e exclusão; na diferença, temos apenas o outro que não eu mesmo.

Uma investigação ética relaciona-se, assim, com a construção de um conhecimento que assuma uma relação teoria-prática na qual o sujeito da pesquisa tenha sua voz ouvida independentemente do lugar social por ele ocupado, para que sobressaiam os discursos nas suas singularidades, e não apenas nas suas regularidades.

Para fazer face a esses novos desafios, encontramos em Moita Lopes (2006) uma proposta de transformação da Lingüística Aplicada em um campo de estudos atuante na contemporaneidade, capaz de assumir-se eticamente e de produzir conhecimentos que estejam realmente situados no mundo tal qual ele se apresenta em todas as suas faces identitárias e em toda a sua dinâmica fluidez (BAUMAN, 2001). Moita Lopes (2006) defende serem necessárias quatro condições para que uma Lingüística Aplicada contemporânea com tais características produza um conhecimento responsivo e responsável à vida social.

A primeira condição diz respeito ao caráter híbrido ou mestiço, tanto teórico quanto metodológico, que deve ter uma área de estudos como a Lingüística Aplicada no sentido de que, ao procurar ampliar seu objeto de estudo buscando escutar outras vozes e outros discursos, apóie-se igualmente em outras teorias que possam ajudá-la a compreender seu objeto de estudo dentro da complexidade que o caracteriza.

As escolhas teóricas que fazemos interferem diretamente em nossa práxis e têm sempre implicações éticas. Compreende-se, hoje que dificilmente uma área de atuação única seja capaz de dar conta do Ser complexo que habita em um mundo tanto ou mais complexo do que ele. Nesse sentido, a primeira condição defendida pelo pesquisador aponta para a efetiva interdisciplinaridade entre campos teóricos na forma de “diálogo (ou conversa) entre teorias [...] na qual a lógica de uma teoria é posta a operar dentro de uma outra sem que a última seja reduzida à primeira” (MOITA LOPES, 2006, p.100).

A segunda condição pode ser tomada como uma conseqüência da primeira, considerando-se o fato de que, ao buscar a contribuição de outras disciplinas, ampliando dessa forma as fronteiras de atuação, apaguem-se, igualmente, os limites entre teoria e prática. Em uma perspectiva de produção do conhecimento que trate seu objeto de estudo como entidade abstrata, separada e isolada da vida (típica do paradigma positivista dominante da ciência moderna), a relação teoria x prática inexiste dado que o sujeito sai da vida para entrar na teoria que o despe de todos os seus atributos sociais, políticos e éticos e para dele considerar apenas o que pode ser empiricamente estudado.

Tal não deve ser a perspectiva de estudo de uma disciplina como a Lingüística Aplicada contemporânea que pretende superar a dicotomia que sempre a perseguiu. Seu dilema situa-se entre a possibilidade de ser somente a aplicação, na prática, de uma teoria que ela não é capaz de produzir e entre a possibilidade de garantir que, na relação entre o objeto e o estudo do objeto e entre teoria e prática, exista uma interpenetração que supere os ideais de “neutralidade científica” e “racionalidade descorporificada”, de tal forma que um só possa existir se correlacionado com o outro de forma responsável e responsiva, ou seja, de forma ética.

A terceira condição diz respeito ao sujeito da Lingüística Aplicada. Como disciplina que se ocupa das questões de linguagem, dos discursos que emergem

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nas relações sociais entre sujeitos, é preciso saber quem é o sujeito desses discursos. Esse sujeito não pode mais ser o sujeito cartesiano, o sujeito do Iluminismo, que pensa e existe apenas em sua racionalidade e objetividade. Esse sujeito é um sujeito social, de identidades múltiplas, complexo, fluído e mutante, que atua na vida dentro da dimensão ética da sua responsabilidade. Dessa forma, ele se constitui incessantemente no seu agir situado (BAKHTIN, 1993; 1997) e, por meio de suas opções e de seus pontos de vista, atribui sentido a si, aos outros e ao mundo. Um sujeito assim, único e diferente de qualquer outro, não pode ser estudado naquilo que ele tem de igual, mas naquilo que ele tem de diferente. Uma perspectiva de estudo tal qual a que busca uma Lingüística Aplicada contemporânea só poderá tornar-se possível se contemplar, necessariamente, a natureza social, política, ideológica e histórica de seu sujeito.

A quarta condição, por fim, reitera a intrínseca relação de constitutividade que a ética e o poder devem ter em um campo de estudos que se configure conforme as características apontadas anteriormente. A posição ética está diretamente relacionada com as escolhas que fazemos.

Não se trata de defender qualquer escolha no sentido de que, sendo sujeito livre em seu pensar e em seu agir, tudo é válido. Os valores que perpassam nossas escolhas no nosso agir, no nosso pensar e no nosso dizer e, além disso, no agir, no pensar e no dizer de qualquer outro, refletem posicionamentos que devemos considerar como válidos independentemente de concordarmos ou não com eles.

No campo da produção do conhecimento, o ideal de neutralidade há muito deixou de ser perseguido. As escolhas que fazemos implicam posições ideológicas, relações de poder, lugares sociais, e, se é legitimo considerarmos todos os modos de produzir conhecimento como modelos válidos de descrever o mundo e os sujeitos inseridos nesse mundo (a polifonia ideal na qual todas as vozes co-existem em pé de igualdade), é igualmente legítimo preferirmos uns modelos e rejeitarmos outros, sinalizando os sentidos que queremos fazer emergir de nossos discursos. Para Moita Lopes (2006, p. 103), a “escolha deve se basear na exclusão de significados que causem sofrimento humano ou significados que façam mal aos outros”. Essa escolha é uma escolha ética, e é ela que deve sustentar uma pesquisa lingüística contemporânea.

Em tempos de mudanças paradigmáticas, crises da ciência e busca de novos rumos para os estudos humanísticos, encontramos opções para transformar, ou

melhor, para humanizar o campo de estudos da Lingüística Aplicada. Fazer escolhas do tipo das propostas por Moita Lopes (2006) faz com que a área se reinvente.

Em tempos de identidades múltiplas, hibridas e mestiças, é salutar perceber que novos ventos sopram no campo da pesquisa em Lingüística Aplicada, confirmando as previsões de pesquisadores, como Rajagopalan (2006), que, atentos às tendências e propostas de estudo da linguagem e de suas representações, estão buscando o confronto da ciência e da teoria com a prática e com a vida. Em última instância, estão buscando não somente fazer uma pesquisa ética mas fazer sobressair a ética na pesquisa e na produção do conhecimento.

As discussões teóricas apresentadas nos capítulos anteriores sinalizam as bases teóricas da discussão a respeito da produção do conhecimento da Lingüística Aplicada. Elas nos orientam para a observação das mudanças sociais epistemológicas e metodológicas desse campo e do modo como o conceito de ética evoluiu ao longo do percurso dessa área, cuja reconstituição é focalizada no capítulo que segue.

4.1 DEFINIÇÕES

“Nenhuma corrente científica (nem charlatona) é total, e nenhuma corrente se manteve em sua forma original e imutável. Não houve uma única época na ciência em que tenha existido apenas uma única corrente (embora quase sempre tenha existido uma corrente dominante). Não se pode falar de ecletismo: a fusão de todas as correntes em uma única seria mortal para a ciência (se a ciência fosse mortal). Quanto mais demarcação, melhor, só que demarcações benevolentes. Sem brigas na linha de demarcação. Cooperação. Existência de zonas fronteiriças (nestas costumam surgir novas correntes e disciplinas)” . Mikhail Bakhtin, 2003, p. 372

A Lingüística é uma ciência! A Lingüística Aplicada, não! Estas afirmações podem parecer fortes, categóricas e contraditórias. No entanto, podemos encontrar respaldo para elas nas definições dos termos “Lingüística” e “Lingüística Aplicada” apresentados no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Senão vejamos:

Lingüística: ciência6que tem por objeto (1) a linguagem humana em seus aspectos fonéticos, morfológico,sintático, semântico, social e psicológico; (2) as línguas consideradas como estrutura; (3) origem, desenvolvimento e evolução das línguas; (4) as divisões das línguas em grupos, por tipo de estrutura ou em famílias, consoante o critério seja tipológico ou genético (HOUAISS, 2001, p. 1764).

Lingüística Aplicada: corpo de conhecimentos7 obtido pela lingüística, selecionados para atender aos problemas relacionados com atividades de natureza prática ou profissional (ensino de línguas, tradução, transformação da linguagem humana em outros códigos e vice-versa, transmissão de informações, tratamento de problemas da fala e da linguagem, decodificação mecânica da fala etc.) e para resolver certas questões levantadas por outras disciplinas (psicolingüística, neurolingüística, sociolingüística etc.) (HOUAISS, 2001, p. 1764).

Embora essas definições apareçam dicionarizadas em uma versão relativamente atual (2001), elas reproduzem, em essência, o modo de conceber esses dois campos de estudo tal qual se pensava há mais de cinqüenta anos, na

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Ênfase minha. 7Idem.

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Europa, nos Estados Unidos e no Brasil, quando do surgimento da disciplina Lingüística Aplicada.

A Lingüística Aplicada surgiu, de fato, em todo o mundo, como uma subárea da Lingüística, constituindo-se, principalmente, como a aplicação das teorias desenvolvidas pela disciplina-mãe, a Lingüística, à pratica de ensino de línguas, principalmente estrangeiras (CAVALCANTI, 1986; GOMES DE MATTOS, 1976; CELANI, 1992; MOITA LOPES, 1994).

Porém, segundo Brumfit (1995/6, p.18), remonta a Platão e aos estudos clássicos da Retórica a distinção entre Lingüística Teórica, ocupada com a descoberta e a formulação de leis lingüísticas, e aplicação da Lingüística, responsável pela explicação das palavras e da gramática. Nada mais coerente, então, que, em seu processo de dicionarização, adote-se essa origem milenar, e a nova disciplina, nomeada Lingüística Aplicada, seja definida como um “corpo de conhecimentos” desenvolvido, a partir das teorias lingüísticas, para atender aos problemas relacionados com atividades envolvendo a linguagem, quer na prática do cotidiano, no âmbito escolar ou profissional.

Na definição do dicionário Houaiss (2001), encontramos explicitado o conceito de uma disciplina que existe para dar visibilidade prática (Lingüística Aplicada) às teorias produzidas pela ciência que lhe deu origem (Lingüística). Por conseguinte, constituindo-se na aplicação de estudos realizados no âmbito de uma ciência em contextos específicos, seu status não poderia ser o mesmo de sua disciplina-mãe, nem tampouco poderia se supor um descolamento de uma em relação à outra.

Na verdade, desde 1970, autores como Spolsky, Sharwood-Smith, Stubbs e van Lier (apud RAJAGOPALAN, 1999, p. 100) reclamam da inadequação do nome atribuído a essa nova disciplina: ora é genérico demais, falhando no esclarecimento sobre que lingüística se aplica a quê; ora é simplista demais, sugerindo, com o uso do adjetivo “aplicada”, uma relevância menor se comparada com a ciência teórica que lhe empresta o nome. Em nenhum dos dois casos, essa nomeação é capaz de esclarecer o que de fato é o campo de atividade da Lingüística Aplicada.

Vale salientar um outro aspecto interessante, constante na definição proposta pelo Dicionário Houaiss (2001), acerca do que seja a Lingüística Aplicada: a possibilidade de esta relacionar-se com outras disciplinas (“corpo de conhecimentos selecionado [...] para resolver certas questões levantadas por outras disciplinas”).

Mesmo que a idéia presente nos termos usados reflita, ainda, o aplicacionismo puro e simples de conhecimentos de uma área sobre outras, a possibilidade de se estabelecer um elo entre a Lingüística Aplicada e outras disciplinas será, ao longo da evolução dessa área, uma importante via para a conquista e a construção de sua autonomia e de uma identidade própria.

Benzer Belgeler