2.5 Duygusal Zekâ Modelleri
2.5.2 Daniel Goleman’ın Duygusal Zekâ Modeli
Nessa temporada de estudos na Alemanha, pequenas excursões para explorar a natureza local fizeram parte da rotina de formação do jovem Agassiz. As expedições científicas induziam o importante trabalho de campo, elemento central da prática da história !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! que contribuíram para a valorização da história e das origens primitivas e populares, assim como um evolucionismo romântico em que os seres caminhariam do estado bruto para o sublime. LOUREIRO, José Mauro Matheus. Entre natureza morta e cultura viva: os museus de história natural. Revista Brasileira de História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p.161-162, jul.-dez. 2007.
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Joahann Joseph Ignaz Döllinger (1799-1890) alemão, professor de lei, teologia e religião, polemizou com a instituição católica tendo indisposições com a política papal. Abraçou o criticismo moderno e a liberdade religiosa. O alemão Humboldt entrará diretamente na vida de Agassiz, somente após a chegada do jovem suíço em Paris em 1831. Carta de Louis Agassiz ao irmão Auguste Agassiz, Munique, 22 de maio de 1829. In: AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p. 110. 1v. Transcrição inglesa: Elizabeth Cary Agassiz. Tradução desta autora.!!
natural. O exercício da observação permitiu ao naturalista apreender dimensões mutáveis e imutáveis da natureza, como o comportamento dos animais e feições geológicas. Para a ciência da observação, seja no frio das geleiras, nos sítios onde são examinados os fósseis ou nas florestas onde as amostras de plantas são colhidas e animais dessecados, encontram-se tantos instrumentos sofisticados quanto num laboratório experimental. O campo era local obrigatório para naturalistas influenciados e incentivados por interpretações pujantes das trajetórias científicas inauguradas por nomes consagrados como Alexander von Humboldt. Com uma linguagem levemente poética e, provavelmente, inspirada nessa tradição humboldtiana que unia ciência, arte e filosofia para apresentar coincidências qualitativas entre o real e o ideal, entre o empírico e o pensamento, entre a emoção e a razão, Agassiz descreveu paisagens explorando o mundo dos sentidos de seus correspondentes36:
Eu nunca havia visto nada mais bonito que a paisagem quando deixamos Ulm. A lua ascendeu-se e brilhava sobre o campanário como a plena luz do dia. Por todos os lados estendeu-se uma planície ampla [...] a medida em que os olhos podiam distinguir, e cortada pelo Danúbio, brilhando nos raios lunares. Atravessamos a planície durante a noite, e alcançamos Augsburg ao amanhecer. É uma bela cidade, mas nós simplesmente paramos lá no café da manhã, vi somente as suas ruas quando passamos por lá. Ao sair de Augsburg, o Alpes Tirolean, embora a quase quarenta léguas de distância, estava à vista. A cerca de dezoito léguas também foi perceptível uma imensa floresta, dali tivemos uma vista mais próxima à medida que avançamos, por já circundar Munique a uma certa distância da cidade.iv37
Foi para o irmão Auguste que Agassiz simulou, em palavras, a experiência visualizada. A carta de 5 de novembro de 1827 narrava a sequência dos acontecimentos, da “história de uma viagem” ao longo de várias cidades nas margens do rio Neckar em meio à vegetação generosa de coníferas da Schwarzwald – a Floresta Negra da Alemanha, as montanhas e vales dos Alpes Suábios. A breve excursão começou com a visita ao Museu de Stuttgart38; chegando em Esslingen, onde Agassiz conheceu dois botânicos; passou pelos vales do rio Neckar até alcançar a cidade de Göeppingen. Passaram por Ulm, seguindo a !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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Uma comparação entre as ciências de observação no campo e as ciências de laboratórios pode ser lida em: STERGERS, Isabelle. A invenção das ciências modernas. São Paulo: Editora 34. 2002, p.170-176. Alexander von Humboldt (1769-1859), para uma recente biografia, ver: WULF, Andrea. The Invention of Nature: Alexander von Humboldt's new world. United States of America: Knopf, 2015. Para uma análise feita sobre a ciência de Humboldt nos estudos de pesquisadores brasileiros, destaco o estudo da crítica literária Lúcia Ricotta, ver: RICOTTA, Lúcia. Natureza, ciência e estética em Alexander von Humboldt. Rio de Janeiro: Editora Muad: 2003. Lúcia Ricotta parte da arqueologia do contexto de origem e diálogo que Humboldt estabeleceu no período romântico junto às influências de Goethe e Schelling. Sua análise destaca a centralidade epistemológica da obra humboldtiana no projeto de ciência que converge os campos da especulação filosófica, da comunicação estética e a concepção holística da natureza.
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Carta de Louis Agassiz ao irmão Auguste Agassiz, 5 de novembro de 1827. In: AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p. 51. 1v. Transcrição inglesa: Elizabeth Cary Agassiz. Tradução desta autora. 38
Augsburg, retornaram no domingo, dia 4 de novembro do ano de 1827. Um dia depois da chegada, já restabelecido em Munique, Agassiz enviou a carta para Auguste.39
Além de explorar a natureza, as pequenas viagens de campo também possibilitavam visitas aos espaços que promoviam a causa da ciência no século XIX, como os museus de história natural. Nessa carta, Agassiz conduziu o irmão, por meio de sua narrativa, ao Museu de Stuttgart. Listou os objetos do acervo e animais em estado fóssil, em esqueletos ou empalhados: uma lhama, um búfalo, dois elefantes, numerosas gazelas, veados, gatos, cachorros, esqueletos de um hipopótamo, um elefante e, por último, um fóssil de mamute.40 É bastante provável que o irmão de Agassiz pudesse, na leitura da carta, imaginar os gatos, cachorros e cervos descritos – animais pertencentes à fauna doméstica europeia. Mas havia os animais exóticos, oriundos de terras distantes, como o lhama da América do Sul e outros de eras distantes, como o mamute glacial. Como descrevê-los ao irmão, como compartilhar com ele a experiência da visita ao Museu e fazê-lo imaginar o que lhe era desconhecido?
Sobre os gatos, cachorros e cervos, Agassiz escreveu sem se aprofundar em simulações pormenorizadas. Quanto ao lhama e ao fóssil de mamute seria muito improvável que, sem um relato singularizado, Auguste pudesse visualizar na leitura os animais do Museu, a ponto de se entusiasmar com a narrativa do irmão. Louis Agassiz estava consciente disso, além de possuir a sensibilidade de aprendiz naturalista curioso pelo impacto que a novidade lhe causara. Na carta, ele enfatizou os traços desses animais detalhando de onde vinham; para que eram usados; seus tamanhos, inclusive estabelecendo comparações e classificações entre eles, como se estivesse ensaiando suas primeiras histórias naturais, ele próprio experimentando a narrativa de um naturalista em plena atividade da retórica científica:
A partir de Karlsruhe41, viajamos para Stuttgart, passamos a maior parte do dia no Museu, onde vi muitas coisas, novidades para mim; um lhama, por exemplo, quase tão grande quanto um burro. Você sabe que este animal, que é do gênero Camelus, vive na América do Sul, onde é, aos nativos de lá, o que o camelo é para o árabe; ou seja, fornece a eles o leite, a lã, a carne e é usado, além disso, como condução e na equitação. Havia um búfalo norte- americano de tamanho imenso; e também um elefante da África e um da Ásia; além desses, um prodigioso número de gazelas, veados, gatos e cães; esqueletos de um hipopótamo e um elefante; e, por último, os ossos fossilizados de um mamute. Você sabe que o mamute não é mais encontrado vivo, e que os restos mortais descobertos até agora levam à crença que se tratava de uma espécie de elefante carnívoro. É um fato singular, !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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Carta de Louis Agassiz ao irmão Auguste Agassiz, 5 de novembro de 1827. In: AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p. 46-52. 1v. Transcrição inglesa: Elizabeth Cary Agassiz. Tradução desta autora. 40
Carta de Louis Agassiz ao irmão Auguste Agassiz, 5 de novembro de 1827. In: AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p.47. 1v. Transcrição inglesa: Elizabeth Cary Agassiz. Tradução desta autora. 41
Cidade próxima a Stuttgart, assim como todas as demais cidades citadas especificamente nessa carta: Esslingen, Göeppingen, Ulm e Augsburg.
recentemente, alguns pescadores cavando nas fronteiras do Obi, na Sibéria, encontraram a uma profundidade de 60 pés um destes animais congelados em uma massa de gelo, tão bem preservado que ainda estava coberto de pelos, como em vida. Derreteram o gelo para remover o animal, mas o esqueleto manteve-se intacto; o couro estragou no contato com o ar, e apenas algumas peças foram mantidas, uma das quais está no Museu em Stuttgart. Os pelos em cima dele são tão grosseiros quanto um fio de barbante […].v42 O lhama foi comparado aos camelos, que dão nome à família de mamíferos ruminantes camelídeos (Camelidae). Para explicar o fóssil de mamute, animal pré-histórico extinto, Agassiz comparou-o a seu parente moderno, o elefante. Correta do ponto de vista da história natural, a classificação desses animais no reino da natureza funcionou na escrita epistolar como estímulo para o imaginário de Auguste Agassiz, que não era naturalista, e recebia as notícias do mundo natural. A escrita da carta respeitava os limites da relação entre os irmãos Agassiz, sem no entanto deixar de lado a narrativa científica dos animais. Esses limites da relação familiar não impediram que Agassiz escrevesse sobre os conhecimentos da história natural ao classificar a natureza a partir das representações dos animais.
A visita ao Museu de Stuttgart possui esse aspecto interessante. Era, senão a primeira, uma das primeiras cartas ao lar dirigidas ao irmão. Agassiz curioso, questionador, observou a natureza como um naturalista de campo, capaz de explorar um museu como lugar privilegiado de aprendizado, arriscar classificações e sugerir teorias. Louis Agassiz não só descreveu ao irmão passagens da história natural sobre os animais, como levantou questões interessantes sobre o próprio acervo que observara. Na mesma carta, ele ainda colocou um problema científico em relação ao mamute:
O esqueleto completo está no Museu em St. Petersburg e é maior do que o próprio elefante. Pode-se julgar a destruição que tal animal deve ter feito, se foi, como seus dentes mostram que possa ter sido, um carnívoro. Mas o que eu gostaria de saber é como esse animal pôde vagar tão ao norte, e em seguida, de que maneira ele morreu, para ser congelado dessa forma, e permanecer intacto, sem se decompor, talvez por incontáveis eras. Por isso, deve ter pertencido a uma antiga criação, uma vez que tal espécie não se encontra viva em mais nenhum lugar e não temos nenhum caso do desaparecimento de qualquer tipo de animal dentro do nosso período histórico.vi43
Particularmente nessa missiva, uma incerteza marcava a narrativa de Agassiz. No campo – neste caso, no Museu de Stuttgart – o jovem naturalista fez suas primeiras interrogações sobre os objetos naturais. Tratavam-se de indagações científicas que !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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Carta de Louis Agassiz ao irmão Auguste Agassiz, 5 de novembro de 1827. In: AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p.47-48. 1v. Transcrição inglesa: Elizabeth Cary Agassiz. Tradução desta autora.! 43
Carta de Louis Agassiz ao irmão Auguste Agassiz, 5 de novembro de 1827. In: AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p.48. 1v. Transcrição inglesa: Elizabeth Cary Agassiz. Tradução desta autora.
entrelaçavam o passado fóssil do mamute e o presente geológico da história da terra. Ali, enfrentavam-se códigos preexistentes, capazes de serem decifrados e descritos somente por práticas intuitivas. Talvez caindo propositalmente em uma ilusão biográfica, arrisco o recurso vantajoso que compartilhamos como historiadores para seguir a análise do caso do mamute. Já conhecemos parte do futuro do passado que investigamos e é irresistível notar que essa carta apontava para o horizonte de pesquisa científica de Agassiz, sem que ele soubesse, obviamente. O animal desconhecido, semelhante ao elefante, foi para ele mais do que um fóssil. O objeto possuía uma temporalidade e um sentido na natureza. Na verdade, a experiência no Museu de Stuttgart com o impacto da imagem do mamute não teve nada a ver com os estudos dos glaciais, realizados por Agassiz, mais tarde.44
A carta menciona ainda a interpretação teórica que Agassiz tomou para desdobrar a questão, indicando que o episódio do desaparecimento dos animais em eras passadas faria parte da história da criação. É possível que o jovem ensaiasse seus primeiros passos para familiarizar-se com o catastrofismo de Cuvier. Nesse caminho rumo ao domínio dos saberes da história natural, Agassiz abandonou o mamute e dedicou sua ciência a outro objeto científico peculiar, extremamente relevante, e que tem muito interesse aqui por ter ocupado as questões centrais nas missivas ao lar. Refiro-me à história natural dos peixes.