2.2. Kozmetik Ürünlerin Tarihsel Gelişimi
2.2.1. Dünya Tarihinde Kozmetik Sektörünün Gelişimi
A Carta de 1988, anunciada como a Constituição Cidadã, restaurou a democracia, e instaurou o Estado Democrático de Direito, caracterizando-se como uma constituição analítica, dirigente e programática. A ordem social destacou-se da econômica e ganhou espaço próprio. Como assenta José Afonso da Silva, a Constituição de 1988
[...] abre as perspectivas de realização social profunda pela prática dos direitos sociais que ela inscreve e pelo exercício dos instrumentos que oferece à cidadania e que possibilita concretizar as exigências de um Estado de justiça social, fundado na dignidade da pessoa humana. 77
A importância dos direitos fundamentais sociais na Constituição Federal transparece já no início da sua leitura. No preâmbulo, a Assembleia Nacional Constituinte indica que o Estado Democrático tem como objetivo a garantia do “[...] exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos [...]” da sociedade brasileira, que se firma sobre a fraternidade e o pluralismo.
Para a análise do objeto deste estudo, merecem destaque, dentre os princípios fundamentais da República (art. 1º), o Estado Democrático de Direito, a dignidade da pessoa humana e o valor social do trabalho. O princípio da separação de poderes, estampado no art. 2º da Carta Maior, também tem especial relevo para o exame das tarefas que incumbem a cada um dos poderes da União. Fundada nesses preceitos, a Constituição da República busca, dentre seus objetivos primordiais (art. 3º), a construção de uma sociedade livre, justa e solidária; a garantia do desenvolvimento nacional; a erradicação da pobreza e da marginalização; a redução das desigualdades sociais e regionais; e a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Esses objetivos constituem ponto decisivo para a compreensão dos direitos sociais. O que se pretende, na democracia social brasileira, é garantir a dignidade de todos, por meio da melhoria de sua qualidade de vida, sem discriminações ou marginalizações, e diminuir as desigualdades sociais. É, pois, fundamental compreender o contexto sociológico no qual foram e ainda são construídas essas desigualdades, a fim de se averiguar a necessidade de se concretizarem determinadas medidas de políticas públicas.
A segurança jurídica vem albergada explicitamente no artigo 5º, caput, e decorre também da interpretação de outros princípios, como os inscritos no artigo 5º, incisos XXXV, LIV, e até mesmo em princípios implícitos como o duplo grau de jurisdição. Está prevista também como direito social (CF, art. 6º, caput). O Poder Judiciário, na Constituição de 1988, ganhou um papel de destaque em relação à concretização dos direitos fundamentais sociais e à garantia da segurança jurídica, princípios esses que devem ser harmonizados na solução de controvérsias nas quais está em jogo a dignidade da pessoa humana.
A Constituição trata dos direitos sociais no Capítulo II do Título II (Dos Direitos e Garantias Fundamentais). Explicita, no artigo 6º, caput, a saúde, a previdência e a assistência social. Entretanto, o detalhamento desses direitos é feito nos artigos 194 a 204. O art. 7º da Constituição iguala os trabalhadores urbanos e rurais em relação aos direitos estabelecidos em seus incisos e deixa aberta a proteção constitucional em relação a outros direitos necessários para a melhoria de sua condição social. Essa abertura constitucional não pode deixar de ter significado para a compreensão dos direitos fundamentais. O princípio da justiça social (art. 170, caput, e art. 193) é um princípio da ordem econômica e social que indica a abertura constitucional para a realização da democracia social.
Há uma grande quantidade de cidadãos em situação de vulnerabilidade. Esses cidadãos são aqueles que estão em condições de miséria, sem acesso aos bens sociais mais indispensáveis, como educação, trabalho digno, saúde, moradia etc. No Brasil, o Governo Federal identificou 16,2 milhões de pessoas situação de pobreza extrema, que vivem com menos de R$ 70,00 por mês, dos quais 7,6 milhões vivem em áreas rurais.78 No intuito de erradicar a pobreza, o Governo Federal tem lançado mão de planos como o Fome Zero, o Bolsa Família e o Brasil Sem Miséria.
Além da tarefa de eliminar a miséria no país, impõe-se que sejam efetivadas medidas para aumentar a renda dos brasileiros em geral. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),79 em 2010, 25% das pessoas tinham rendimento médio nominal mensal domiciliar per capita de até R$ 188,00 e metade da população recebia até R$
78 Sobre o assunto, vejam-se as notícias em: MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL. MDS prorroga prazo de edital para compra de sementes crioulas de agricultores familiares. 24 nov. 2011.
Disponível em <http://www.fomezero.gov.br/noticias/mds-prorroga-prazo-de-edital-para-compra-de- sementes-crioulas-de-agricultores-familiares>. Acesso em: 5 abr. 2013; Id. Plano Brasil sem Miséria. Disponível em: <http://www.mds.gov.br/falemds/perguntas-frequentes/superacao-da-extrema-pobreza%20/ plano-brasil-sem-miseria-1/plano-brasil-sem-miseria. Acesso em: 5 ago. 2013.
79 INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Indicadores Sociais Municipais 2010.
2011b. Disponível em: <http://saladeimprensa.ibge.gov.br/noticias?view=noticia&id= 1&busca=1 &idnoticia=2019>. Acesso em: 5 abr. 2013.
375,00, valor esse inferior ao salário mínimo da época (R$ 510,00). A necessidade de maior proteção à população rural é ainda mais evidente, uma vez que, enquanto cerca da metade da população urbana recebia, em média, até R$ 415,00, esse valor, nas áreas rurais, era em torno de R$ 170,00. É certo que a garantia de salário digno é tarefa a ser cumprida pela política salarial. Entretanto, não se pode olvidar que a solidariedade traz como uma das metas da seguridade social a diminuição das desigualdades sociais.
A Constituição Federal não garantiu direitos desnecessários. É crucial que esses direitos sejam realizados da forma mais ampla possível e, para que isso ocorra, “[...] é necessário que a lei, por força da ação dos operadores do direito, seja convertida em um instrumento de ação concreta do Estado Democrático de Direito.”80
A seguridade é uma técnica de ampla proteção social, custeada por toda a sociedade, que compreende um plano de benefícios mais abrangente que o seguro social, incluindo, ao lado dos benefícios e serviços previdenciários, prestações assistenciais e serviços sociais.81 Não se confunde com o seguro social, técnica específica da seguridade destinada à proteção de clientela definida, de caráter contributivo e submetida a diretrizes atuariais. Conhecido no Brasil como previdência social, o seguro social é um seguro obrigatório, organizado e regulamentado pelo Estado. A seguridade, por sua vez, é um sistema mais amplo, que assegura a qualquer pessoa as condições mínimas para uma existência digna e deve contemplar, pelo menos, a previdência e a assistência social.
O Brasil caminhou rumo a uma seguridade social de acordo com as premissas elaboradas pelo Plano Beveridge,82 com o Estado arcando com os custos dos benefícios sociais, inclusive para os não contribuintes, a partir da Constituição de 1988,83 pelo menos em relação à saúde e à assistência social, já que a previdência ainda socorre somente àqueles que contribuem.
80 ROCHA, Daniel Machado da. O direito fundamental à previdência social na perspectiva dos princípios constitucionais diretivos do sistema constitucional brasileiro. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004. p. 72. 81 MARTINEZ, Wladimir Novaes. A seguridade social na Constituição Federal. 2. ed. São Paulo: LTr, 1992. p. 55. 82 Em 1941, William Beveridge, incumbido pelo governo britânico de presidir uma comissão responsável pelo
estudo sobre a seguridade social naquele país, apresentou uma nova proposta, que recebeu influências das ideias de Roosevelt e Keynes e buscava suprir todas as necessidades humanas por meio do combate à miséria e promover uma distribuição de renda mais igualitária. As conclusões dessa comissão resultaram em dois relatórios: o primeiro, Social Insurance and Allied Services, publicado em 1942, e o segundo intitulado Full
Employment in a Free Society, de 1944. Essas propostas ficaram conhecidas como Plano Beveridge e instituíram um novo modelo de política social. Seus fundamentos se espalharam com rapidez e influenciaram as reformas implantadas em diversos países nos anos seguintes.
83 PEREIRA NETTO, Juliana Presotto. A previdência social em reforma: o desafio da inclusão de um maior
Atualmente, a previdência social, a saúde e a assistência social são direitos sociais fundamentais (CF, art. 6º) compreendidos na seguridade social, que é definida no art. 194, caput, da Constituição Federal como “[...] um conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social.”
Embora a Carta Magna não defina o que é a saúde, dispõe que se trata de um “[...] direito de todos e dever do Estado [...].” Compreende um conjunto de ações públicas e privadas voltadas à prevenção e ao tratamento de doenças garantido por meio de políticas sociais e econômicas que busquem a redução do risco de doença e de outros agravos e o acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação (CF, art. 196).
As ações e serviços públicos de saúde constituem um sistema único que integra uma rede regionalizada e hierarquizada. Juntamente com a assistência e a previdência social, a saúde faz parte da seguridade social e constitui um direito fundamental cuja efetivação cabe aos poderes do Estado, sempre da forma mais ampla possível dentro das limitações econômicas do país.
A assistência social é uma política pública não contributiva, complementar à previdência, que tem como função atender às necessidades básicas dos indivíduos sem condições de prover o próprio sustento não amparados pela previdência social. Compreende, assinala Wladimir Novaes Martinez,
[...] um conjunto de atividades particulares e estatais direcionadas para o atendimento dos hipossuficientes, consistindo os bens oferecidos em pequenos benefícios em dinheiro, assistência à saúde, fornecimento de alimentos e outras pequenas prestações.84
A Constituição de 1988 disciplinou que a saúde e a assistência social são asseguradas a toda a população, indistinta e independentemente de contribuições. Assim, os serviços de saúde e assistenciais não exigem contraprestação ou mesmo filiação dos beneficiários. O direito surge quando verificada a situação de hipossuficiência que irá determinar o fornecimento de dinheiro, alimentos, serviços de saúde etc.
Quanto à previdência social, no Brasil, foi inicialmente prestada por meio de restritas a certas categorias de trabalhadores, ora com características mutualistas, ora com os contornos de entidade civil. Merecem ser citados o Montepio dos Órfãos e Viúvas dos
Oficiais da Marinha (1795), e a Sociedade de Socorros Mútuos Brasileiros (1828) e o Montepio Geral de Economia dos Servidores do Estado (Mongeral), de 1835.
A Constituição de 1891 foi a primeira a utilizar a palavra aposentadoria, no art. 75, que assegurou a aposentadoria aos funcionários públicos em caso de invalidez a serviço da nação.85 Entretanto, não havia a previsão de qualquer contribuição para o financiamento desse benefício.
A Lei n. 3.724/1919 instituiu a obrigatoriedade do pagamento pelos empregadores de indenização em decorrência dos acidentes de trabalho que seus empregados viessem a sofrer.
Anteriormente a 1923, a proteção previdenciária tinha como nota característica a previsão de cobertura para os servidores públicos.86 O marco inicial da Previdência Social no Brasil é considerado o Decreto n. 4.682, de 24 de janeiro de 1923, conhecido como Lei Eloy Chaves,87 que determinou a criação de caixas de aposentadoria e pensões para os empregados de cada uma das empresas de estradas de ferro existentes no país. Esse decreto previa assistência médica, fornecimento de medicamentos, aposentadoria ordinária (equivalente à aposentadoria por tempo de serviço), aposentadoria por invalidez e pensão por morte. O custeio era feito pelos ferroviários e pelos usuários.
O Decreto Legislativo n. 5.109/1926 estendeu os benefícios da Lei Eloy Chaves aos empregados portuários e marítimos.88 Em seguida, foram criadas diversas caixas de aposentadorias e pensões, as quais, desde o início, apresentavam inconvenientes, em razão da dificuldade de se obter um funcionamento adequado para instituições pulverizadas. Além disso, um grande número de trabalhadores não tinha acesso à proteção previdenciária.
85 BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 24 de fevereiro de 1891. Diário Oficial, Poder Legislativo, Rio de Janeiro, 24 fev. 1891. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao91.htm>. Acesso em: 11 jun. 2013.
86 PEREIRA NETTO, Juliana Presotto. A previdência social em reforma: o desafio da inclusão de um maior
número de trabalhadores. São Paulo: LTr, 2002. p. 51.
87 BRASIL. Decreto n. 4.682, de 24 de janeiro de 1923. Crea, em cada uma das emprezas de estradas de ferro
existentes no paiz, uma caixa de aposentadoria e pensões para os respectivos empregados [sic]. Coleção das
Leis do Brasil, Rio de Janeiro, 1923. v. 1. p. 126. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/Historicos/DPL/DPL4682.htm>. Acesso em: 8 jun. 2013. Nesse sentido, MARTINEZ, Wladimir Novaes. Curso de direito previdenciário. 2. ed. São Paulo: LTr: 2001a. p. 22. Impõe registrar que a Lei n. 3.724, de 15 de janeiro de 1919, foi precursora em cuidar da matéria previdenciária ao tornar obrigatório o seguro contra acidentes do trabalho em algumas atividades.
88 BRASIL. Decreto n. 5.109, de 20 de dezembro de 1926. Estende o regimen do decreto legislativo n. 4.682, de
24 de janeiro de 1923, a outras emprezas [sic]. Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, 30 dez. 1926. Seção 1. p. 24113. Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1920-1929/decreto-5109-20- dezembro-1926-564656-publicacaooriginal-88603-pl.html>. Acesso em: 8 jun. 2013.
Na década de 1930, a previdência deixou de ser estruturada por empresa e passou a ser organizada por entidades de âmbito nacional, que abrangeram trabalhadores de uma mesma atividade ou de atividades afins. Enquanto o seguro dos servidores públicos e dos ferroviários permaneceu no sistema de caixas, para as demais categorias profissionais foram criados diversos institutos de aposentadoria e pensões que compreendiam os empregados de categorias como os marítimos, os bancários, os comerciários os servidores do Estado e os empregados em transporte e cargas. Essas entidades passaram a ser organizadas como autarquias administradas pelo Estado. O sistema era financiado de forma tripartite pelos empregados, pelas empresas e pelo governo.
A Constituição de 1934 foi pioneira ao dispor de forma significativa sobre o direito social (art. 121, § 1º, h).89 Influenciada pelo constitucionalismo social, notadamente pela Constituição de Weimar, a Carta de 1934 trouxe para seu texto a previsão do financiamento tripartite da Previdência Social pela União, pelos empregadores e pelos empregados. Previa a cobertura para os casos de velhice, invalidez, maternidade, acidentes de trabalho ou morte. Foi a primeira constituição a se referir de modo expresso à previdência, embora sem qualificá-la de social.
James Malloy ressalta que a extensão da proteção previdência social foi associada ao modelo de economia agroexportador primário adotado no Brasil, pois sua expansão começou pelos trabalhadores das atividades de infraestrutura como as estradas de ferro, docas, serviços públicos e frota mercante, estendendo-se depois aos trabalhadores do comércio e dos bancos e, por fim, aos da indústria, setor menos desenvolvido da economia.90 Apesar de baseada nesse modelo, entretanto, os trabalhadores rurais permaneceram excluídos da proteção previdenciária até a década de 1960.
A Constituição de 1937 representou um retrocesso em matéria de direitos sociais.91 Essa Carta consagrou o trabalho como um dever social (art. 136) e utilizou a expressão seguro social em lugar de previdência.92 Marcou um período em que houve repressão ao movimento operário. Apesar da liberdade sindical, apenas um sindicato de cada
89 BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 16 de julho de 1934. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Rio de Janeiro, 16 jul. 1934. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constitui%C3%A7ao34.htm>. Acesso em: 12 jun. 2013.
90 MALLOY, James M. Política de previdência social no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1986. p. 75.
91 MARTINEZ, Wladimir Novaes. A seguridade social na Constituição Federal. 2. ed. São Paulo: LTr, 1992. p. 21. 92 BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 10 de novembro de 1937. Diário
Oficial da União, Poder Legislativo, Rio de Janeiro, 10 nov. 1937. Disponível em:
categoria foi oficialmente reconhecido, substituindo-se os seus líderes por outros de confiança do governo.
As iniciativas de reforma da previdência encontraram grande resistência de diversas categorias, líderes sindicais e políticos que de certa forma dependiam das várias instituições de previdência. A Lei Orgânica dos Serviços Sociais do Brasil (Decreto-lei n. 7.526/1945) buscou a unificação do direito previdenciário, mas não alcançou eficácia jurídica.93 A referida lei criou o Instituto de Serviços Sociais do Brasil (ISSB), que não chegou a ser instituído.
A Constituição de 1946 restaurou os direitos sociais fixados na Carta de 1934. Designou a Previdência Social com esse nome pela primeira vez num texto constitucional e fixou a competência da União para legislar sobre normas gerais de previdência social. Pautou a organização da ordem econômica consoante os princípios da justiça social (art. 145) e instituiu, no artigo 157, inciso XVI, a “[...] previdência, mediante contribuição da União, do empregador e do empregado, em favor da maternidade e contra as consequências da doença, da velhice, da invalidez e da morte.”94 É de destacar a Emenda Constitucional n. 11/1965, que acrescentou um parágrafo único ao artigo 157, estabelecendo a obrigatoriedade da precedência do custeio.95
Os institutos de aposentadoria e pensões, cada um com uma organização administrativa própria, passavam por uma crise financeira e a cada ano crescia a dívida da União com a Previdência Social. Entretanto, antes de 1960, o maior progresso legislativo no sentido da unificação da previdência ocorreu em 1953, quando as diversas caixas foram reunidas na Caixa de Aposentadorias e Pensões dos Ferroviários e Empregados em Serviços Públicos (Capfesp).
Em 1954, o governo Vargas instituiu um plano de reforma, por meio do Regulamento Geral dos Institutos de Aposentadorias e Pensões, o qual, embora não houvesse cuidado da unificação administrativa dos diversos institutos, estabelecia normas gerais previdenciárias. Esse regulamento, entretanto, foi revogado por Café Filho, sob o argumento de que era inconstitucional legislar por meio de decreto.
93 MARTINEZ, Wladimir Novaes. Curso de direito previdenciário. 2. ed. São Paulo: LTr: 2001a. p. 43 94 BRASIL. Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 18 de setembro de 1946. Diário Oficial da União,
Poder Legislativo, Rio de Janeiro, 18 set. 1946. p. 1. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao46.htm>. Acesso em: 12 jun. 2013.
95 Id. Emenda Constitucional n. 11, de 1965. Acrescenta parágrafo ao art. 157 da Constituição. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 abr. 1965. Seção 1. p. 3393. Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/emecon/1960-1969/emendaconstitucional-11-31-marco-1965-364966- publicacaooriginal-1-pl.html>. Acesso em: 8 jun. 2013.
Um grande passo legislativo foi a criação da Lei n. 3.807/1960, a Lei Orgânica da Previdência Social (Lops), que unificou a legislação previdenciária e padronizou os procedimentos administrativos.96 Contudo, os diversos IAPs continuaram atuando. Subsistiam a desigualdade, a ineficiência e outras mazelas de um sistema do qual a maior parcela dos necessitados (dentre eles os trabalhadores rurais, as domésticas e os urbanos em ocupações informais) estava excluída.
Durante o governo Goulart foram feitas concessões na área social. Em 1962, reintroduziu-se a aposentadoria por tempo, após 35 anos de serviço; em 1963, foi concedida a gratificação natalina e nesse mesmo ano foi estendida a previdência ao trabalhador rural. As políticas adotadas pelo governo provocaram a reação da direita, que resultou na revolução de 1964. Com o regime autoritário introduzido pelo governo militar, foi possível a realização de reformas no sistema previdenciário. O Decreto-Lei n. 72/1966 criou o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) e procedeu à unificação administrativa dos antigos IAPs, a qual, todavia, não foi total, pois subsistiram o Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Ferroviários e Servidores Públicos (Iapfesp), o Instituto da Previdência e Assistência dos Servidores do Estado (Ipase),que abrangia os funcionários públicos federais, e o Serviço de Assistência e Seguro Social dos Economiários (Sasse), que contemplava os empregados das caixas econômicas federais.97
A Lops teve a importância de uniformizar as contribuições e os benefícios dos diversos institutos. O Estado foi encarregado do pagamento de pessoal, dos custos da administração do sistema e também da cobertura de eventuais insuficiência de recursos financeiros, o que significou, “[...] em termos de regime de financiamento, o traspasso de regime de capitalização coletiva para regime de repartição simples.”98
96 BRASIL. Lei n. 3.807, de 26 de agosto de 1960. Dispõe sobre a lei orgânica da previdência social. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 5 set. 1960. p. 12157. Disponível em: