II. BÖLÜM: KENTSEL MEKÂN-MÜLKİYET İLİŞKİSİNE İLİŞKİN
2.2. Kent Tasarımlarına Tarihsel Bir Bakış
2.2.3. Dünya’da ve Türkiye’de Bahçe Kentler
Após a descrição figurativizada do bairro operário, o espaço na obra recebe um tratamento mais poético, com imagens e sinestesias. Isso porque esse espaço não é mais o geral, ele agora é um espaço em que circula, particularmente, a personagem principal. Em torno de Pelaguéia, o espaço é descrito de modo a dialogar com o enredo. Nem sempre o narrador faz menção ao espaço, então, ele torna-se relevante quando entrelaça-se com a cena e as personagens:
A chuva suspirava e batia nas paredes da casa, zumbia nas calhas, e algo se arrastava debaixo do solo. A água gotejava desde o telhado da casa e o melancólico sonido de seu cair se mesclava estranhamente com o ruído do relógio. Parecia que a casa se movia lentamente e tudo ao redor parecia inútil e mórbido de tristeza... (2009: 135).
O narrador apresenta um espaço que se configura a partir das impressões da personagem. Essas impressões agem sobre a descrição. Dessa forma, o estado psicológico da mãe percebe a chuva batendo nas paredes da casa, o som melancólico mesclando-se ao do relógio, como extensões de seus sentimentos, parecendo-lhe tudo apagado e triste. Esse estado de ausência de vida entre as personagens é muitas vezes relacionado dialeticamente ao espaço,
As nuvens flutuavam em forma de escuras massas, sobrepondo-se umas sobre as outras. Havia silêncio, tudo estava sombrio e tristonho; parecia inteiramente que a vida se havia escondido (...) em algum lugar. (2009: 324).
A atmosfera sombria, silenciosa, triste, as nuvens escuras, é engendrada a partir de uma sensação de que “a vida se havia escondido”. O espaço é descrito dessa forma porque o estado psicológico da personagem encontra-se fragilizado e abatido. Existe aí um entrelaçamento, o espaço não gera o estado psicológico e vice-versa, ambos completam-se; e é por essa razão que o narrador descreve esse espaço, já que nem sempre o espaço é descrito na narrativa de maneira relevante.
Em outro momento da narrativa, o espaço desempenha o mesmo papel,
As copas dos tilos detrás das janelas se assemelhavam às nuvens que haviam caído consideravelmente, surpreendendo com sua melancólica negrura. Tudo havia ficado estranhamente petrificado na sombria quietude da abatida espera da noite. (2009: 298).
A escuridão da tarde olhava pela janela, e o frio opaco pesava sobre os olhos, tudo havia se embaçado estranhamente; o rosto do enfermo havia escurecido. (2009: 299).
O local é um quarto de hospital e a cena é de tristeza, o espaço enquadra a cena melancólica de doença e morte, contribuindo para essa atmosfera – o que explica a negrura, o frio opaco, o embaçado que se estende desde o espaço exterior para o corpo da personagem enferma transformando-se em escuridão.
No decorrer da narrativa, observa-se a presença da janela como fronteira entre um espaço exterior e outro interior, “A escuridão da tarde olhava pela janela”. Esse elemento é apresentado em vários trechos da obra, como componente relevante do espaço:
A espessa penumbra balançava imóvel sobre as janelas como se hostilmente esperasse algo.9 (2009: 84).
Por trás da janela centelhavam os pesados e cinzas copos de neve outonal. Batendo suavemente aos vidros, resvalavam até abaixo sem fazer ruído e se derretiam deixando a seu passo uma trilha molhada. Pensava em seu filho...10 (2009: 141).
As copas dos tilos detrás das janelas se assemelhavam às nuvens.
No silêncio, por trás da janela, suspiravam cansadamente o ruído vespertino da cidade. (2009: 300).
O espaço exterior ao lugar em que a personagem se encontra “encostou-se” р janela e se relaciona ao espaço interior, a janela é o elo entre o exterior e o interior. Pelos trechos citados, observamos que o espaço exterior é o espaço natural, físico, a neve que cai, a penumbra, os ruídos, o vento. Todo esse espaço natural interfere e é interferido pelo espaço interior que é o estado psicológico das personagens. Com a antropomorfização desse espaço natural, dando a ele características humanas, Górki marca a importância que o espaço exterior possui. Isso fica mais explícito quando o narrador, por exemplo, diz: a penumbra encostou-se à janela, a escuridão da tarde olhava pela janela. A janela marca o limite entre eles, entre o natural que enquadra a cena e o psicológico que a compõe, criando o diálogo entre eles. Como nos lembra Lotman, muitos “modelos do mundo sociais, religiosos, políticos, morais (...) encontram-se invariavelmente providos de características espaciais” (1978: 361) e os conceitos espaciais (alto-baixo, direito-esquerdo etc.), por sua vez, ganham significados culturais, sociais etc.
No caso da oposição aberto-fechado, na qual a fronteira desempenha uma função substancial, os significados mais atribuídos são de liberdade-prisão, estrangeiro-natal, frio- quente. No romance de Górki, o espaço exterior estende-se ao interior e a fronteira, a janela, cumpre uma função de limite e de intermédio, na qual o exterior une-se ao interior. Esse
9 Em uma tradução literal, teríamos: a penumbra se encostou sobre os vidros da janela. 10 Em russo: grudavam suavemente.
ponto revela uma perspectiva dialética do autor, que verificamos na base dos outros elementos do romance. As personagens vivem a partir de sua relação com o exterior, com o meio, com a realidade que as circunda. Como o narrador acompanha a mãe, o espaço exterior é descrito como circunstância, pois o foco está com a personagem naquilo que ela experimenta da relação entre exterior e interior.
Observamos ainda a presença muito forte da estação do ano, o outono, com todas as imagens que ela proporciona, “Por trпs da janela centelhavam os pesados e cinzas copos de neve outonal” (2009: 141), “O céu olhava luminoso para a rua” (2009: 306). Essa utilização contribui na construção sinestésica do espaço exterior,
A água gotejava desde o telhado da casa e o melancólico sonido de seu cair se mesclava estranhamente com o ruído do relógio
O céu empalidecia, as sombras se derretiam e as folhas se estremeciam esperando o sol (2009: 277)
No silêncio, por trás da janela, suspiravam cansadamente o ruído vespertino da cidade. (2009: 300).
O som da chuva, dos ruídos, da neve, as sombras que se derretem, compõem uma cena que atende a mais de um sentido, criando um tom de poesia e transfigurando a natureza através de figuras antropomórficas, como o cotejo com o russo nos mostrou. Esse tom é construído a partir do terceiro capítulo, quando o narrador passa do geral para a vida da personagem a mãe. O espaço passa a relacionar-se com a personagem, que é o fulcro da unidade narrativa. Nos contos, o espaço recebe uma descrição sinestésica mais pesada, pois o objetivo é criar um enquadre para a realidade. Em comparação com os contos, o romance A mãe apresenta descrições menos pesadas e mais dosadas, até porque o teor da narrativa é outro – utiliza-se menos exageros e “lantejoulas”. O enquadre para a realidade, no romance,
torna-se mais poetizado pela presença da personagem cujo ser é pintado com tintas mais suaves. No romance, Górki privilegia a narração, procedimento mais adequado para traduzir o processo de desenvolvimento humano da personagem principal. Tolstói sempre falava a Górki que ele narrava muito bem, e é principalmente esse aspecto que o escritor vai desenvolver no romance.