3. YÖNTEM
4.4. Dördüncü Alt Probleme İlişkin Bulgular
Tendo sido Josué de Castro o fundador do SAPS e seu primeiro diretor, este se viu na obrigação de defender a CPI proposta para este órgão do governo, mesmo sendo esta uma posição distinta da assumida por um dos maiores quadros do PTB no Congresso Nacional, o deputado e amigo Fernando Ferrari.
Manifestaram-se a favor da instauração da CPI os deputados de oposição ao governo, Campos Vergal (PSP) e Ivan Bichara (UDN), demonstrando que essa era uma proposta de bombardeio ao governo JK. Mesmo assim, Castro manifestou sua adesão à criação de uma Comissão de Inquérito para apurar irregularidades no Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS), alegando dois motivos: primeiro, por ser especialista na área de nutrição e segundo, por ter sido o fundador do SAPS e seu primeiro diretor.
Nas palavras de Castro, isto aconteceu durante o governo do "grande presidente Getúlio Vargas", o qual o incumbiu "de elaborar um plano de assistência alimentar para os operários". Com o SAPS Castro desejava "organizar alguma coisa realmente útil à coletividade", mas após desastrosas administrações, este órgão caiu
no descrédito público, gerando sua indignação com este caso particular, assim como com a corrupção em geral. Castro via a corrupção sob um prisma classista, como ―dilapidação do dinheiro arrecadado das classes trabalhadoras‖. Sobre o fenômeno da corrupção, afirmou: "É preciso que se criem comissões de inquérito para julgar a aplicação dos dinheiros públicos... o faço independente de quaisquer sentimentos políticos". (CASTRO, 29 abr. 1955)
E prossegue Josué de Castro em sua primeira denúncia: a missão norteamericana Klein & Sacks veio ao Brasil e cobrou 80 mil dólares do governo para elaborar um relatório "que nada acrescentou ao que se sabia", já contando o país com órgãos competentes para realizar tal diagnóstico, como a Comissão Nacional de Alimentação e o Instituto de Nutrição.
Castro esclareceu que no momento em que foi firmado este contrato ele estava à frente da Comissão Nacional de Alimentação, órgão que coordenava estas atividades, mas que foi contra tal contratação, como declarou: ―Opus-me a essa iniciativa. Achei que não havia a mínima necessidade de se contratar os serviços de uma firma norte-americana para estudar os problemas de alimentação no Brasil...‖. Esta é uma espécie de isenção pública de culpa feita por Castro, o qual alegou: ―Se, no momento em que submetido ao Govêrno, aquêle contrato não foi rejeitado, não nos cabe nenhuma culpa, desde que alertamos bem o governo‖. (CASTRO, 29 abr. 1955)
Assim, passa a ler o seu parecer, datado de 20 de agosto de 1953, no qual ponderava que o governo já realizava tais estudos, além do fato de não haver um projeto nacional mais detalhado do que o apresentado na proposta de trabalho da missão norteamericana. Por fim, sugere que este estudo, se aprovado, seja financiado com recursos da ONU, frente às escassas capacidades do erário público. Aproveitando esta oportunidade da discussão da CPI do SAPS, Josué de Castro deu ciência a todos deste fato e de sua posição diante dele, a fim de denunciar e, ao mesmo tempo, eximir-se de quaisquer responsabilidades sobre o mesmo, afirmando que ―quando ocupei este cargo, tive o cuidado de defender os interesses da Nação, procurando conciliá-los sempre econômica e biológicamente‖. (CASTRO, 29 abr. 1955, grifo nosso)
Nesta sua fala, o mais interessante foi a exposição do seu conceito de ―interesse nacional‖, o qual englobava as dimensões econômica e biológica da sociedade e o que faz a sua interpretação sui generis dentre as demais
apresentadas na época, em que predominavam os debates com ênfase no desenvolvimento técnico-econômico. Certamente, sua concepção advém de seus estudos sobre a fome, que a partir do método geográfico considerava este fenômeno em seus aspectos naturais, demográficos e culturais, ou seja, como um evento de forte conexão entre o biológico e o social.
Por conseguinte, as intervenções de Josué de Castro no campo científico- alimentar corroboram na construção de sua identidade política como sendo uma continuidade de suas atividades intelectuais, fato este plausível, visto que se elegeu sob o slogan de ser ―o cientista brasileiro de maior expressão no mundo‖. Como tinha muito prestígio como cientista, tal superposição hipoteticamente lhe agregaria também prestígio político, fato este apenas parcialmente comprovado, pois sua imagem não o conduziu diretamente ao campo das questões políticas cruciais da nação. Este era um caminho novo que tinha que trilhar.
Iniciando esta caminhada em busca de influenciar nas questões cruciais da nação, Castro realizou sua primeira análise sobre a situação de crise socioeconômica pela qual passava o Brasil, demonstrando alinhamento com a proposta do seu partido (PTB) de defender as classes operárias sem esquecer das classes dirigentes, num governo de união nacional a favor do interesse do povo.
Deste modo, apresentou uma comunicação em plenário na qual exigia que se tomassem providências imediatas em defesa da própria "segurança nacional", frente ao fato dos portuários de Pernambuco estarem, há quatorze meses, esperando o cumprimento da lei que determinou o reajuste do salário mínimo. Alerta Castro que os portuários podem "perder a paciência, o que acarretará graves conseqüências para o País, nesta hora que alguns desejam mais grave do que é na realidade". (CASTRO, 07 out. 1955)
Nesta intervenção, é interessante destacar a dubiedade de seu discurso, pois ao mesmo tempo em que eleva os trabalhadores como pacíficos e ordeiros, aponta para o risco da quebra da ordem, mesclando questões trabalhistas com a ideologia da segurança nacional. Vincular segurança e processo de desenvolvimento era um recurso ideológico bastante adotado na época e, segundo Miriam Limoeiro Cardoso, apresentava-se como essência do desenvolvimentismo juscelinista, o qual compreendia estes fatores numa relação de ―determinação mútua‖.
De acordo com a ideologia desenvolvimentista o estado de miséria, em termos absolutos e relativos, conduz a uma situação potencialmente subversiva... Neste sentido é que a questão da repressão ―é muito mais social do que policial‖35. Há que ser racional
para combater problema tão sério... Assim, a luta contra a miséria (processo de desenvolvimento econômico) é o meio eficaz de conduzir a luta contra a subversão (segurança) e o desenvolvimento se faz em nome da segurança. (CARDOSO, 1977, p. 132)
A ideologia da segurança nacional ganhou força com a ação norteamericana na América Latina nos século XX. Ela preconizava a existência de um conflito global entre os países capitalistas e comunistas, acreditando que os países comunistas investiam em ações subversivas internas para agitar a população ingênua e desesperada. Aproveitando-se do conflito capital/trabalho como elemento impulsionador das revoltas populares, a ação dos comunistas infiltrados dificultaria a desejada cooperação nas relações de classe. Identificando capitalismo com democracia, a ideologia da segurança nacional defendia que os países capitalistas protegessem os países subdesenvolvidos das seduções comunistas, agindo por meio da cooperação técnica e econômica ou por meio de golpes de Estado.
No Brasil, esta ideologia associou-se ao desenvolvimentismo autoritário de Oliveira Vianna e Alberto Torres e ao culto à geopolítica na formação militar, tendo por resultado uma doutrina que incluía a busca de um acelerado desenvolvimento econômico como momento essencial da promoção da segurança nacional. (MIGUEL, 2002)
É pertinente dizer que a conciliação entre as ideologias desenvolvimentistas e de segurança nacional era um fenômeno intrínseco às próprias premissas do desenvolvimentismo de JK, o qual, ao se deparar com a força da luta de classes, sentiu necessidade de mediar as relações sociais para poder viabilizar a manutenção da ordem social.36
Deste modo, ao apresentar a situação de defasagem salarial dos portuários do Estado de Pernambuco, Josué de Castro reforçava a importância de se cumprir a lei do salário mínimo. Além de ser uma questão de justiça social (e por isso de
35 JK- Mensagem, 1956.
36 Com isso, pode-se concluir que nos anos 1950, prin
cipalmente com a criação da SUDENE ―A intervenção do Estado no Nordeste conjurou, de modo muito nítido, uma política de segurança à ideologia burguesa do desenvolvimento, convertendo-se assim numa ideologia burguesa de segurança nacional‖. (ARAÙJO, 2011, p. 149)
segurança nacional), doía em Castro ver que o seu esforço37 e esperanças não
estavam se efetivando, pois para muitos trabalhadores (como era o caso dos portuários de Pernambuco) o mínimo estipulado em lei não estava sendo pago, o que afetava diretamente sua crença na via institucional de reformas sociais.
Em meio a sua denúncia, Josué de Castro não livrou ninguém: governos estaduais, ministro do trabalho, nem sequer o presidente da República (Café Filho). Iniciou sua crítica indicando o imobilismo do governador de Pernambuco e do Ministério do Trabalho, "a quem compete defender os interesses dos trabalhadores, fazendo cumprir a lei do salário mínimo, também não houve as medidas que se fazem esperar para corrigir tal estado de coisas". (CASTRO, 07 out. 1955)
De modo indireto, esta comunicação representou uma resposta de Josué de Castro ao Ministro do Trabalho (Sr. Napoleão de Alencastro Guimarães), o qual declarou no plenário do Congresso Nacional "não haver fome no Brasil e que as agitações sociais dos trabalhadores eram apenas manobras de caráter comunista".
Ao contrário, Castro analisava que os trabalhadores representavam "a classe mais séria, mais honesta, mais tranqüila e mais patriota que vemos no Brasil", que estes não desejam a agitação comunista, mas seu oposto, pois: "é o próprio povo que deseja a garantia da Constituição e da ordem, num país onde lamentavelmente o Govêrno não colabora para manter essa ordem". (CASTRO, 07 out. 1955)
Com isso, Castro também batia de frente com o governo federal, dizendo não ser este um fato menor, localizado em Pernambuco, mas uma questão de ―princípio trabalhista‖ que deve ser mantido para que o pacto entre o povo e as elites possa ser respeitado, ou seja, o perigo comunista está no próprio desleixo com que o Estado trata os seus cidadãos.
Desde o Estado Novo teve início o processo de junção das matrizes do socialismo e da ideologia de segurança nacional dentro do PTB. Este processo se consolidou teoricamente com o desenvolvimento das correntes econômicas que preconizavam uma forte presença do Estado para fins de planejamento econômico do mercado, as quais na maioria tendiam à esquerda.
Politicamente pode-se alinhar este discurso de Josué de Castro com o pensamento do maior teórico do trabalhismo brasileiro, o senador gaúcho (1951-
1955) Alberto Pasqualini38. ―Pregava ele que trabalhismo e capitalismo solidarista
são expressões equivalentes, contrárias tanto à socialização dos meios de produção quanto ao capitalismo como instrumento produtor de lucro‖. (GRIJÓ, 2007, p. 95)
Portando, os trabalhistas que se alinhavam ao pensamento de Pasqualini, em meio ao espectro político-ideológico que dividia o cenário da época, defendiam um tipo diferente de capitalismo, no qual ―a justiça social não seria alcançada pelo conflito entre grupos ou classes nem pelo embate ideológico, mas somente pela conversão dos capitalistas aos princípios humanistas e cristãos do solidarismo‖. (GRIJÓ, 2007, p. 96) Este reformismo idealista era o lastro teórico que necessitava Castro para apoiar suas iniciativas de não alinhamento político e de luta pela paz mundial.
Uma semana após esta discussão Josué votou contra o veto do presidente Café Filho ao Projeto nº 1.583/52, o qual previa a revisão obrigatória dos proventos dos servidores inativos civis da União e das autarquias. Com isto, reafirmou sua postura trabalhista e, na oportunidade, expunha o que considerava ser o verdadeiro desenvolvimento econômico brasileiro, utilizando-se de nomenclaturas médicas: ―quando se quer passar do diagnóstico para a terapêutica, para promover as medidas adequadas a esse desenvolvimento econômico as dúvidas são grandes‖ (CASTRO,14 out. 1955)
Afirmando que o desenvolvimento econômico se assenta na universal e vulgar noção de progresso, Castro vai mais além. Ele esclareceu que, ao contrário da mera industrialização, o progresso é ―em última análise aspiração do homem visando maior felicidade, mais satisfação de viver.‖ Logo, progresso é bem estar social e neste sentido é que deve se firmar o conceito de desenvolvimento econômico.
Esta relação de desenvolvimento econômico com bem-estar social difere a ideologia de Castro daquela propugnada pelo desenvolvimentismo do ISEB exposta posteriormente no governo JK, pois:
As propostas específicas deste governo são no sentido do crescimento econômico acelerado, através da industrialização, com especial atenção para as necessidades infra-estruturais. Claro que o crescimento econômico tem efeitos sociais, com a elevação do nível
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Seus discursos e pensamentos estão condensados na obra Bases e sugestões para uma política
de vida, mas para Juscelino esta elevação é conseqüência do progresso econômico. (CARDOSO, 1977, p. 132)
Seguindo a linha desenvolvimentista, com suas particularidades, Castro analisou que a renda per capita consistia num índice falho para se conhecer o desenvolvimento de um país, pois ―traduz apenas a força econômica, mas não a prosperidade e, muito menos, a felicidade...‖. Assim, ele considerou que a
prosperidade só poderia ser encontrada com a justa distribuição das riquezas
nacionais, conforme expõe no raciocínio a seguir: ―um País é tanto mais forte, quanto mais elevada a sua renda; mas é tanto mais feliz quanto melhor distribuída essa renda. É tanto mais próspero, quanto mais acelerado o crescimento dessa renda‖. (CASTRO,14 out. 1955)
Na seqüência, indicou que o seu conceito de desenvolvimento se apoiava nas idéias do padre economista francês Joseph Lebret (fundador do movimento Economia e Humanismo, que atuou muito no Brasil entre os anos de 1940 e 1960) e sua noção de desenvolvimento como crescimento harmônico: ―pior do que um País subdesenvolvido é um País desequilibrado, em que o desenvolvimento econômico não é harmônico‖. (CASTRO,14 out. 1955)
Assim, indicou que ―o que nos interessa, realmente, é o desenvolvimento social, porque a economia é apenas o instrumento que deve utilizar o Estado para propiciar o desenvolvimento social ao maior número de indivíduos‖. (CASTRO, 14 out. 1955) Com isso indica sua posição estatista, a favor do planejamento da economia em prol da equidade econômica e de um sólido desenvolvimento social.
Segue Castro, criticando o desequilíbrio existente entre São Paulo e o resto do Brasil e afirmando que se todo o país fosse mais rico, São Paulo também seria, sendo preciso ―multiplicar a riqueza nacional para multiplicar a capacidade de produção de São Paulo, que não encontra mercado suficiente no Brasil, pelos baixos níveis e pela baixa capacidade aquisitiva do Norte e do Nordeste, neste trágico ciclo de subdesenvolvimento econômico‖. Tese esta inspirada nas categorias de desequilíbrio estrutural e desenvolvimento do mercado interno, discutidas pela Cepal.
Expõe assim sua proposta de um enriquecimento nacional equânime, baseado na idéia de redução da desigualdade regional e na suspeita de que ―da solução dos nossos problema econômicos poderá resultar a paz e a tranqüilidade,
ou a inquietação, o desassossêgo, a perturbação social do nosso País‖. E qual política econômica seria mais indicada para resolver os problemas brasileiros? Ao responder esta indagação Josué deixa entrever a influência das formulações cepalinas sobre seu pensamento, principalmente com relação ao papel do consumo na dinâmica de um mercado interno pujante:
Sentimos necessidade de uma economia que atende mais para o consumo do que para a produção. A crise brasileira é crise de subconsumo dessas massas marginais. Criem-se possibilidades para que essas massas possam satisfazer as suas necessidades. Precisamos de uma economia de necessidades, de uma economia de subsistência: dar a cada um o mínimo indispensável. (CASTRO, 02 dez. 1955)
Sobre o caminho para o incremento do consumo nacional, Castro sugere:
O direito dos brasileiros, entretanto, é de receber sua parte e esta se encontra numa melhor distribuição de possibilidade, em melhor aplicação dos capitais, principalmente na aplicação do que chamo "capital social" para propiciar desenvolvimento à agricultura, meios de transporte para facilitar o escoamento das utilidades; meios de educação, de saúde para dar um mível mínimo de vida a nossas populações: para incrementar o aspecto qualitativo da população, aumentar sua capacidade produtiva [...] (CASTRO, 02 dez. 1955)
Sobre as políticas sociais brasileiras, Josué de Castro afirmou que as mesmas ―tem tido uma orientação sentimentalista ou humanitarista, mas nunca realista nem econômica‖. Contudo, percebeu que há uma aurora no cenário político brasileiro, sentindo um otimismo quando pensava nos meios de enfrentar a crise nacional, detectou haver ―um desejo unânime‖ entre os ―homens de responsabilidade‖ de ―extirpar essas ervas daninhas que consomem e asfixiam a economia nacional‖, identificando tais ervas-daninhas com o capital estrangeiro que sugava as riquezas locais. Com a eliminação deste obstáculo, seu ideal de harmonia entre as classes emerge, ―para ligar novamente o povo à elite‖ fazendo com que ele participe da vida econômica e política do país.(CASTRO, 02 dez. 1955)
Sua esperança se assentava na expectativa da posse de Juscelino, pois como declarou em seu discurso: ―Assim me expresso, aliás, porque discuti com esse candidato sua plataforma, acompanhei-o em sua campanha eleitoral...‖. Para Castro, a coragem de Juscelino é essencial para quebrar o ciclo de subdesenvolvimento
assim concebido: ―miséria econômica gera a miséria biológica e a miséria biológica gera a miséria social‖. (CASTRO, 02 dez. 1955)
Deste modo, Josué de Castro votou, em nome da bancada do PTB, favoravelmente à criação do Ministério da Economia, ressaltando que o interesse do partido não era por ministério, mas pelo bem estar do povo brasileiro. Neste ensejo, acrescentou que não haveria como realizar uma pujante política trabalhista enquanto a economia nacional fosse ―uma economia primária, semicolonial, de estrutura feudal, arcaica e subdesenvolvida‖. (CASTRO, 02 dez. 1955)
Quando fez sua declaração de voto, Josué de Castro advertiu que a criação do Ministério da Economia devia ser acompanhada por outras medidas paralelas, pois apenas sua existência em nada concorria para resolver o problema da economia nacional. Deste modo, declarou que ―os fatores capazes de promover o verdadeiro desenvolvimento econômico-social [...] são de três ordens‖:
a) Fatores demográficos: distribuição da massa populacional no território;
b) Fator Técnico: aplicação da máquina e da ciência no campo da produtividade; c) Fator de Capital: reserva capitalística necessária aos investimentos que
promovam o desenvolvimento.
Segundo Castro estes fatores devem ser pensados a fim de se reduzir as disparidades socioeconômicas e promover um desenvolvimento ―harmônico‖ da sociedade brasileira. Os mesmos transcendem a esfera meramente econômica e deslocam-se para uma perspectiva política mais ampla, a qual traz severas dificuldades devido à falta de um planejamento de longo prazo para o país.
Aliás, a questão do planejamento integrado, social, econômico e geoambiental fazia parte do olhar sistêmico de Castro sobre as questões sociais, para o qual apenas o planejamento seria a ferramenta racional que poderia salvar a política de ser um mero embate ideológico. Segundo Mindlin, foi no período de 1956 a 1961 que o planejamento governamental recebeu destaque no Brasil, com a adoção do Plano de Metas de JK. Nesta época, a decisão de planejar foi uma resposta oriunda da própria dinâmica do sistema político, o qual deveria absorver os desafios resultantes da ampliação da participação política da sociedade brasileira, fato esse que ―provocou um dilema que não se resolvia no contexto das premissas existentes e a solução aventada para enfrentar esse dilema foi o planejamento‖. (MINDLIN, 2003, p. 34)
Cada um dos três fatores que foram apresentados por Josué de Castro como sendo de crucial importância para o novo Ministério da Economia planejar suas ações e, com isso, viabilizar o desenvolvimento econômico-social do país, tinha suas especificidades, as quais foram analisadas por ele didaticamente.
O primeiro fator, referente à política demográfica, foi apresentado como um problema de colonização territorial. Segundo Castro, o subpovoamento do Brasil demandava uma política demográfica que acelerasse o crescimento populacional e que seria estruturada em dois movimentos: uma política de imigração menos restritiva e uma política de redução das altas taxas de mortalidade da população. Castro explicou que a alta taxa de mortalidade criava problemas administrativos, pois gerava "uma curva demográfica chamada do tipo anti-econômico, onde se despejam, a rôdo, recursos para alimentar, educar e formar indivíduos que nada produzem porque morrem, em 40% da sua totalidade, antes de chegar a idade adulta". (CASTRO, 02 dez. 1955)
A técnica é outro fator chave para o desenvolvimento nacional, contudo ela deve ser gerada a partir da realidade nacional e não importada dos países ricos, pois a técnica importada, para além de ser ineficiente, pode gerar um ―desenvolvimento desarmônico‖, não sendo a forma de intervenção mais adequada ao caso local, conforme analisou Castro em seu discurso. Para ele, o simples