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3.2. Halkla İlişkilere Sosyo-Kültürel Yaklaşım

4.5.1. Cumhuriyet Bayramı Kutlamalarına İlişkin Yasal Düzenlemeler

4.5.1.1. Cumhuriyetin İlanı ve Birinci Yıldönümü

Encontrei, por acaso, em um espaço social de lazer da cidade de Assis, uma amiga com a qual tenho pouco contato, Helena – que já havia participado de uma ou duas reuniões do Projeto Café com bolachas. Marina, sua namorada, foi-me apresentada por ela e conversamos um pouco. Encontrava-a ocasionalmente com Helena nos espaços de lazer e decidi convidá-la para uma entrevista, ao que ela concordou. Assim como Eduarda, ao propor os locais para a ocorrência da entrevista, Marina “entortou o nariz”, dizendo que preferia que fosse realizada em sua residência ou na minha. Pensando em seu conforto, para que não precisasse locomover-se, de forma que pudéssemos conversar sem interrupções por pelo menos uma hora e meia (período aproximado que levou a primeira entrevista com Eduarda), perguntei-lhe se haveria uma sala reservada em sua casa, e ela me disse que não, por causa dos dois irmãos que moram com ela, que poderiam atrapalhar. Assim, combinamos que a entrevista ocorreria em minha casa, nos mesmos moldes em que ocorreu a de Eduarda.

A entrevista com Marina foi realizada em minha casa. Ela tem 23 anos e pareceu ser uma pessoa muito agitada e ansiosa. Falava rápido, gesticulava bastante e se mostrava muito simpática. Naquele momento, ela não estava estudando nem trabalhando. Pretende prestar algum concurso para trabalhar e, no momento, ocupa-se arrumando a casa onde mora com dois irmãos e o pai – a mãe já é falecida. Ela tem mais um irmão que mora fora de Assis. Marina disse que estava namorando uma mulher havia seis meses; não moravam juntas, mas se viam todos os dias e dormiam juntas quase todas as noites.

Para Marina, a infância é uma fase longa, que ela considera ser egocêntrica, sem responsabilidades e malícias. Nesse período, ela sabia que existiam pessoas que se relacionavam com pessoas do mesmo sexo por conta do ex-marido de uma tia, que veio a ter um namorado – motivo da separação com a tia. Marina freqüentava a casa dos “tios” e achava uma relação como outra qualquer e inclusive chamava o outro de tio também. Não sabia que as relações tinham uma (hetero)norma. Marina não se lembrava de ter ouvido muito a respeito da homossexualidade na infância e acha que era porque, na época, os homossexuais tinham pouca visibilidade; também acha que hoje se escuta falar mais sobre essas pessoas porque gays ou lésbicas estão se assumindo publicamente.

Para Marina, a adolescência começa quando se passa a fazer parte de uma comunidade e o desejo sexual começa ser sentido e vivido. É quando se iniciam as descobertas da orientação do desejo sexual; é, ainda, um período de muita vulnerabilidade perante os modelos sociais, pelo pouco questionamento que se faz, especialmente em relação às

sexualidades diferentes: “A maioria [dos adolescentes] fala da boca pra fora, pega pensamentos dos outros e tomam pra eles, falando fala prontas”, o que potencializa a difusão de preconceitos e homofobia. Tais modelos atravessaram Marina de certa forma, de modo que ela já se afastou de pessoas ditas homossexuais durante sua adolescência devido ao modo como poderia ser vista em seu grupo heterossexual. Ou seja, poderia ser identificada como lésbica pelo fato de ser amiga de uma mulher que era vista ou assumia-se como tal. Todavia, mesmo afastando-se, disse que não participava de brincadeiras homofóbicas que colegas seus proferiam. Assim, mesmo sem verbalizar uma homofobia, admitir ter contato com a homossexualidade alheia foi processual.

Com o passar do tempo, ela começou a se permitir ser amiga de pessoas homossexuais, contestando o posicionamento dos colegas: “Eu vou lá, vou conversar com ela e é isso, se não quiser você não vem”. Achava que se assumir homossexual era uma postura autêntica, verdadeira, de alguém que se legitima e se impõe. Assim, fez amizade com meninas homossexuais, quando ainda não se identificava como lésbica, chegando até a ir a uma Parada do Orgulho LGBTT na cidade de São Paulo. Marina acha que era possível que já fosse lésbica “no inconsciente”, mas o processo de aceitar-se desejando outra mulher foi mais difícil e sofrido do que lidar com a homofobia das outras pessoas. Isso ocorreu especialmente a partir do momento em que teve a primeira experiência homossexual, quando ela chegou a esfolar os braços para tirar o cheiro da pessoa com quem esteve junto, para não se lembrar dela; ou desligar o som do carro enquanto ficavam juntas, para não ouvir as músicas que tocavam, para não ouvi-las depois e recordar.

Marina falou que, após sua primeira experiência com uma mulher, sentiu dificuldade e ambigüidade em relação a esses desejos:

Aí foi passando o sábado, a gente [ela e a primeira ‘ficante’] saiu junto e, na volta, eu fiquei no carro com ela. Ela pegou na minha mão, não sei o quê... Aí eu falei pra ela que eu não queria, que não era o que eu queria pra mim, que eu queria ficar com homem. E ela falou: ‘É? Então o que você tá fazendo aqui faz uma hora? Então entra e vai dormir’. [...] [Mas você queria ficar?] Eu queria, né? Eu queria, mas não queria. Assim, eu queria, mas eu não podia na minha cabeça.

Marina ainda foi atravessada pela religiosidade que compactua com a heteronormatividade. Disse que sua mãe tinha o costume de rezar um “terço da libertação” que dizia: “Jesus cura, salva, me liberta [risos] se o senhor me libertar, vou ser livre, lá lá lá... verdadeiramente livre”. Quando Marina ainda não aceitava sua lesbianidade, mas já tinha

tido sua primeira experiência com uma mulher, um dia a garota com quem ela havia ficado lhe telefonou, e ela, com saudade da menina, após desligar o telefone, foi “salvar-se” rezando o terço: “Meu Deus, não sou lésbica, me salva me liberta... vou ser verdadeiramente livre...”. E Marina disse que ficava: “morrendo de fazer o terço, mas não adiantou. [risos]. Mas eu ficava de chorar, me fazia mal. Na hora de ficar com ela era ótimo, mas depois ficava assim”.

Marina namorou homens durante a adolescência, o que ela hoje considera ter sido como “amigo que beija na boca”. Não chegou a acontecer uma relação sexual. Disse que nunca se apaixonou por um homem como se apaixonou por uma mulher. Também afirmou que ainda tentou continuar com o último namorado após ter ficado com a primeira garota, mas que, a partir daí, começou a achar defeito em todos os homens:

Eu chegava perto da Fá e uuuu parecia uma flor! [risos] e ele chegava perto de mim, eu murchava... [risos].[...] Um era peludo, o outro falava errado, o outro beijava mal, sabe? Então assim, era muitos defeitos, não era possível. Cadê? Mulher que tinha defeito eu achava só qualidade! E meu irmão até falava: ‘Que que cê fala aí da Fá, como se ela fosse linda...’. E eu falava: ‘Meu, ela é linda!’. [risos].

O processo de aceitação pessoal de Marina foi “da noite pro dia”. Ela disse que foi o sentir-se apaixonada e o não parar de pensar na garota com quem estava se relacionando que a fez compreender que realmente sentia desejo sexual por mulheres. Depois que terminou o primeiro affair, se assumiu publicamente: “e num dia só eu saí contando pra todo mundo”. Assim, considera-se uma pessoa assumida e seus amigos mais íntimos são, em sua maioria, gays ou lésbicas. Disse que teve mais amigos(as) heterossexuais até os 18 anos, mas, a partir disso, a tendência foi, cada vez mais, ter amigos(as) homossexuais. Dos(as) amigos(as) heterossexuais, os/as que ela considerava importantes, alguns(as) mostraram resistência em aceitar sua lesbianidade, utilizando discursos religiosos ou não querendo tocar no assunto, enquanto outros não se abalaram. Ela colocou ainda: “Pode ter tido uns que se afastaram por isso, mas que eu nem tenha percebido, mas que também não devia ser ninguém importante”.

Na sua família, antes de assumir-se como lésbica, não havia conflitos com os pais em relação à homossexualidade. Não se discutia muito sobre o tema, mas não era uma temática totalmente velada. Seus amigos gays ou lésbicas freqüentavam sua casa, e a preocupação maior de sua família era que ela se relacionasse com uma mulher por imitação de outrem, não por seu próprio desejo. Um dos seus irmãos era bastante homofóbico; falava, por exemplo, do “problema” da homossexualidade masculina de “dar o cu” (relação sexual anal), e da

possibilidade de Marina ser lésbica por ter amigas lésbicas. Ela disse, ainda, que, nesses casos, sua mãe chegava a defendê-la do irmão, lembrando-o de amigos gays que ele próprio tinha.

Em relação aos familiares mais distantes, houve tanto discursos religiosos homofóbicos: “isso é coisa do capeta”, disse uma tia; quanto a aceitação imediata, como o caso de uma prima: “Nossa, eu não acredito, era só isso que faltava pra eu te amar mais! Só faltava ser. Era o que faltava na sua personalidade. Eu sabia que faltava alguma coisa”.

O coming out de Marina em sua família foi se dando por processos de descobertas e denúncias do irmão, e também pelo fato de ela se assumir. Inicialmente, apenas como um experimento, depois como uma bissexualidade e, posteriormente, como lésbica. Marina disse que ocorreu assim “Porque você tem que começar a contar devagar, né?”. A mãe lidou inicialmente com a lesbianidade de Marina de forma negativa, mas passou a aceitar a situação, ainda utilizando alguns discursos heteronormativos, questionando a possibilidade de Marina voltar a ficar com homens. Ela contou ao irmão mais velho, que a aconselhou a ter estrutura para lidar com essa vivência. O irmão que se mostrava bastante homofóbico a surpreendeu quando, numa madrugada, a acordou para conversar sobre como ela sentia-se. O pai dela “foi um anjo”. Falou:

Quem sou eu, com a idade que eu tenho, pra falar o que você deve ou o que você não deve fazer? Daqui a vinte anos provavelmente eu não vou estar aqui. Será que você vai ter que esperar vinte anos pra fazer o que você tem vontade? Já que você vai fazer mesmo, vai seguir o seu caminho.

Com o irmão mais novo, Marina sempre falou sobre o assunto, desde que passou a se aceitar como uma mulher com desejos por mulheres.

Em relação à sua sexualidade, algo marcante foi o fato não ter podido dividir mais de sua vida com a mãe, por conta de seu falecimento. Marina desejava que a mãe pudesse ver como está feliz consigo mesma e em sua relação com Helena. Assim, compreenderia que não foi impulsividade de sua parte, quando se assumiu; que suas ações (“o lance de chocar ela, assim de usar bermudão e tal” [...] “do jeito que eu me assumi pra ela. O jeito que foi que ela descobriu...”) foram momentâneas e mais para que ela própria se compreendesse. Disse que gostaria que a mãe tivesse tido a oportunidade de ver como é o tipo de relacionamento que ela tem e que isso a faz feliz: que se sente feliz sendo como é.

Marina disse que gosta de ser lésbica e que não se sente diferente, mas diferenciada. Sente-se empoderada para discutir com as pessoas sobre a diversidade sexual, enfrentar discursos homofóbicos e reclamar seus direitos: “não abaixar a cabeça e sair chorando...”.

Ela afirmou que, vez ou outra, até enseja o surgimento de tais discursos apenas para questioná-los. Para ela, especialmente após o falecimento de sua mãe, a vida passou a ser vista como única e frágil, por isso deve ser vivida intensamente e com responsabilidade. Ela disse que não gostaria de deixar de viver um desejo, principalmente porque estava se relacionando e amando uma mulher, com a qual ela queria planejar e construir uma vida junto.

Seus planos futuros eram casar (o que, no universo lésbico, seria equivalente a morar junto), arrumar emprego, fazer faculdade e ser feliz na profissão, em seu relacionamento e com sua família. Conforme ela colocou:

[...] não deixar passar nada [...] fazer o que eu gosto, ficar com quem eu gosto, do jeito que eu quiser, na hora que eu quiser, sem ninguém vir e... ter isso, ter estrutura pra falar: ‘Aqui não, porque isso, eu pago minha luz, eu pago minha água e vai enfiar o dedo na relação de outro’.