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3.2. Halkla İlişkilere Sosyo-Kültürel Yaklaşım

3.2.2. Bir Kültür Aracısı Olarak Halkla İlişkiler

A primeira entrevista foi realizada como entrevista-piloto e, como as informações coletadas são relevantes, foi utilizada. Com este material foi possível avaliar o impacto que a entrevista produziria nas participantes, as dificuldades de compreensão e necessidades de alteração no instrumento de coleta de dados.

Eduarda foi a única entrevistada que havia participado do projeto Café com bolachas. Eu já havia pedido pessoalmente a ela para colaborar com minha pesquisa e ela se dispôs imediatamente, mostrando-se feliz e até orgulhosa. Sobre os locais onde a entrevista poderia ser realizada, dei-lhe como opções a clínica-escola da UNESP ou, então, que escolhesse um local em que se sentisse confortável, como a sua casa ou a minha, por exemplo. Ela respondeu que fazer em sua casa era inviável, porque seus pais não permitiam que recebesse visitas, e que não se sentia confortável em fazer na universidade. Assim, agendamos a entrevista em minha casa. No dia marcado, organizei uma sala com um mínimo de interferências (sem telefone e sem acesso a visitas): um cômodo praticamente vazio, no qual coloquei uma mesa e duas cadeiras (estas, frente a frente); na mesa, uma garrafa de água mineral e um copo; no chão, um tapete multicor.

Eduarda tem 18 anos, vive com a família (pai, mãe e um irmão mais novo). Na entrevista, me pareceu uma pessoa reservada — a mesma percepção que eu havia tido nas reuniões do projeto e, ocasionalmente, em meu cotidiano, quando a encontrava. Entretanto,

sempre fora muito atenta e curiosa. Quando lhe disse que, se quisesse, eu lhe daria uma cópia da entrevista, respondeu que queria e pareceu muito animada. Também concordou com uma segunda entrevista, caso fosse necessário. No início, respondia às perguntas pontualmente, mas, conforme o tempo foi passando, foi se sentindo mais confortável e falou muito mais do que eu esperava. Quando concedeu a entrevista, Eduarda estava estudando para fazer vestibular e não se relacionava com ninguém.

Para Eduarda, a infância é o momento de aprendizagem das coisas mais básicas e primeiro contato com tudo; ela entende, também, que esse “lado criança” pode existir quando se é mais velho. Disse que as crianças pensam menos nas conseqüências de seus atos, são mais espontâneas e abertas a ver a vida em diversas perspectivas. Desde a infância, quando sequer pensava espontaneamente em qualquer tipo de relacionamentos afetivo-sexual (hetero ou homossexual), ela já ouvia comentários homofóbicos pautados na naturalização biológica do sexo: seus pais repudiavam a homossexualidade ou mesmo alguém minimamente suspeito de ser homossexual e proferiam discursos com os quais, na adolescência — quando passou a pensar sobre a questão — ela não concordava.

Em sua opinião, a adolescência tem início quando se começa a pensar em relacionamentos afetivo-sexuais, mas de forma ainda confusa, pela intensidade das sensações que atravessam a pessoa nesse momento. O encontro com as normas sociais a fazem considerá-la (a adolescência) uma “fase meio pessimista”. Por outro lado, a considera um período de descobrimentos e aprendizados de formas de lidar com a realidade. Eduarda relatou que nunca foi capturada por discursos homofóbicos; sempre entendeu que, independente do sexo com que se relacionassem ou das identidades que assumissem, “as pessoas tinham que ser felizes”. Quando ouvia comentários dos pais ou de outras pessoas sobre homossexuais, geralmente de teor homofóbico, percebia que as pessoas podiam ser diferentes uma das outras, mas considerava apenas uma diferença, não desigualdade ou inferioridade.

No entanto, antes de pensar em se relacionar com mulheres, achava-se “meio assexuada”. Essa talvez fosse uma forma de lidar com a homofobia, já que havia, nos discursos enunciados pela família e que a atravessavam desde a infância, e, depois, na adolescência, por colegas de escola e professores, o significado de homossexual(idade) como “errado / mal / piada / problema / crime / sacanagem / falta de vergonha na cara / distúrbio”. Ser “assexuada”, naquela época, pode ter sido uma forma de proteger-se dos discursos que, então, não se sentia capacitada para lidar, especialmente por conta da instituição familiar, mantenedora do discurso hegemônico da heterossexualidade e que detinha poder sobre ela.

Após esse período “assexuado”, como o desejo nem sempre segue o poder normativo, ela “sexualizou-se” homoeroticamente: “Nossa! E desde o começo que eu já tinha isso muito certo, eu acho. Quando eu comecei a pensar em ficar com outra pessoa, eu já queria, eu já sabia que seria uma menina”.

Eduarda disse que sempre escutou comentários negativos sobre gays e lésbicas, os quais não lhe agradavam, mas, por receio dos pais descobrirem seus desejos, não ia contra tais discursos, mesmo querendo brigar com muitas das pessoas que os proferiam: “Porque a minha vontade era conversar com as pessoas, explicar, ou, quando eu estava mais nervosa, já brigar logo de uma vez, porque é muito preconceito, é muito falar sem ser... falar sem ter conhecimento”.

A descoberta do desejo por mulheres ocorreu na escola, na sexta série, quando sentia- se diferente ao ficar perto das “meninas mais bonitinhas”, o que não acontecia perto dos meninos: É muito estranho. Era uma... nossa! Eu tinha vergonha, eu ficava, eu queria morrer, mas eu queria estar ali, perto delas”. Só foi ter consciência de que aquilo era um desejo afetivo-sexual dois anos depois, aos 14 anos, na oitava série: “Daí, na oitava eu realmente quis namorar e beijar meninas, e lembrei dessas coisas, e nossa, era isso que eu sentia!”.

Eduarda nunca contou sobre sua orientação sexual a ninguém de sua família. Apenas quando teve certeza desses desejos, passou a conversar a respeito deles com amigos próximos (todos homossexuais) como sua professora de violão, a namorada dela e, mais recentemente, amigos gays ou outras lésbicas. Evita conversar sobre isso com pessoas heterossexuais (especialmente mulheres) por receio de discriminação:

[...] até hoje eu ainda tenho um pouco, eu acho, receio de falar sobre isso com mulheres hetero, de que elas fiquem [...] com o pé atrás de falar comigo, me evitem. Porque, de tanto que a gente vê as pessoas preconceituosas, [...] por mais que a gente goste da pessoa, da menina que é hetero, como amiga, tudo, é complicado confiar [...] Porque sempre fica uma coisa assim: talvez ela vai achar estranho, ela vai querer se afastar, ela não vai achar legal.

Sua primeira experiência afetivo-sexual com uma mulher aconteceu com uma colega da escola, para a qual ela se declarou escrevendo letras de músicas e uma carta, o que foi compreendido, mas não correspondido de início. Eduarda continuou insistindo, falando do que sentia por meio de cartas e mesmo verbalmente, já que a menina lhe “dava corda”, ou seja, permitia tais avanços, até o dia em que elas, quando foram fazer um trabalho escolar na casa da menina, se beijaram.

A partir desse momento, a relação com sua família ficou caótica, já que, por estar apaixonada, seu comportamento mudou, o que acarretou em desconfiança por parte de sua mãe, ampliada ainda mais por conta de denúncias de professores e do diretor da escola. Então, na família, os comentários homofóbicos que Eduarda ouvia desde a infância se intensificaram, proibiram-na de sair de casa e ter contato com aquela garota. Isso a fez afastar-se cada vez mais dos pais e mentir sobre com quem saía e onde estava. Seus pais chegaram a perguntar- lhe se era lésbica, o que ela negou.

Contudo, em sua casa, Eduarda passou a ter atitudes subversivas, usando roupas mais masculinas e colocando imagens de mulheres nuas na parede de seu quarto. Ela também contou: “Coloquei uma frase, preguei uma frase gigante, ´É preciso trocar a normalidade pela felicidade’, porque eles me diziam que isso não é normal [risos]. [Você queria mostrar pra eles?] De certa forma eu acho que sim! [risos]”.

Ainda ocorrem comentários homofóbicos em sua casa, de forma que ela chega a torcer para que, no período em que ocorrem as paradas do orgulho LGBTT, não apareçam na televisão casais homossexuais, para que não induzam comentários. Porém, agora tenta abstrair os comentários, por não acreditar na mudança dos pais. Ela disse que quando for independente destes, pretende conversar com eles e tentar fazer com que a entendam.

Seu círculo de amizades é GLS, pois, junto aos amigos heterossexuais da escola, via uma “falta de sintonia”, e disse que se afastou deles por: “não poder ser eu mesma com eles, é que eu fui me desencantando. É por isso que eu gosto dos meus amigos gays, é porque eu posso ser eu mesma, porque eles me entendem!”.

Apesar de toda a adversidade do contexto, sente-se muito bem e feliz. Disposta a enfrentar as dificuldades com as quais pode vir a se deparar. Tem orgulho de sua lesbianidade, especialmente pelo fato de ter conseguido perceber-se, compreender-se e aceitar-se: “ter, como eu posso dizer? Me abraçado assim! [Eduarda se envolve com os próprios braços] Eu acho que as pessoas, todos, se fizessem isso em relação à sexualidade de cada um, eu acho que as pessoas seriam mais felizes”.

Eduarda tem planos de encontrar uma garota e, futuramente, morar com ela, “sair com ela, fazer todas as coisas, tudo que um casal heterossexual faz mesmo”. Em relação à homofobia, está “disposta e passar por essas coisas, a enfrentar, porque é pela minha felicidade”.