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CUMHURİYET ROMASI VE POLYBİUS

Mas a tele-realidade, além de escutar, também fala ao indivíduo comum.

Ao mesmo tempo que o indivíduo se expressa, a mediatização da publicidade operada pelos dispositivos tecnológicos de mediação simbólica configura-os como profissionais do conselho prático, difundindo cada vez mais receitas acerca de “como viver”. A televisão não foi alheia a esta corrente e recolhe uma legitimidade pública para dar conselhos de vida aos espectadores. Assim, o modo como ela promove as individualizações não tem apenas a ver com a responsabilização de si que a desocultação da intimidade representa, como também com um espaço onde os indivíduos trabalham a sua própria subjectividade (cf. Erenhberg, 2005: 222). “Seja feliz”, desfrute de mais tempo para si”, “ como fazer os outros gostar de si”,“como ser uma boa profissional”, são temas alvo de conselhos práticos emitidos pela tele-realidade feitos num tom

prescritivo que pretende revelar as leis da vida para que cada indivíduo possa melhor fruir dela.

Espécie de treinadora pessoal (coacher), a tele-realidade contribui para a reflexão individual ao afirmar a força interior de cada pessoa, e os efeitos que a sua vontade própria podem ter na melhoria do seu bem-estar. Em Dr. Phil, é evidente esta exortação das capacidades pessoais e a sua importância para o indivíduo comum assumir o seu próprio destino. “(…)A televisão encontrou a oportunidade de formular uma ambição nova: a de converter-se num meio capaz de restabelecer a comunicação entre os indivíduos ao mesmo tempo que expõe e resolve os seus problemas” (Castañares, 1995: 84). Mas trata-se de um destino que tem de ser construído pelo indivíduo na sua relação com os outros, depende sempre do modo ele se posiciona face às expectativas dos que o rodeiam insistindo no diálogo e na comunicação televisivas como vias de acesso ao bem-estar pessoal.

Na tele-realidade, a televisão não é, então, apenas um intermediário do que se passa no mundo, ela é um divã gigante onde os indivíduos aliviam as suas angústias; ela é redentora enquanto cuida dos espectadores, ouvindo-lhes as mágoas ou aconselhando-os a como lidar com os desgostos. “Ela intervém na vida mental dos nossos cidadãos, transcende o seu papel de receptáculo e de vulgarizadora, em suma, a sua função mediadora. Ela torna-se, ela própria, psicóloga amadora” (Mehl, 1992: 40).

Com efeito, antes da tele-realidade um casal com dificuldades conjugais dirigia-se a um especialista clínico ou aconselhava-se junto de uma terapeuta. Agora, os espectadores dirigem-se à sua televisão reclamando o exercício de uma acção curativa. Isto pode ser explicado pelo abrandamento económico das sociedades ocidentais e a necessidade de poupar o dinheiro de uma consulta; mas estará sobretudo relacionado com a proximidade que a tele-realidade trouxe entre espectadores e programas de realidade. É como se eles sentissem uma familiaridade extra que os faça de imediato sentirem-se à vontade para recorrer ao plateau televisivo. Como se vendo e proferindo-se perante uma audiência de indivíduos comuns, os espectadores se sentissem à-vontade para se dirigir ao grande divã da tele-realidade. “A televisão (…) dá-se de boa vontade como intermediário da solução para os conflitos de carácter amoroso, e oferece

um espaço público para o confessar das próprias falhas, as quais podem ser perdoadas, sendo em última análise, um espelho onde todos se podem ver e aprender” (Castanãres, 1995: 85).

Dr. Oz Show, The Biggest Loser, Shalom in the Home, Tool Academy, e

especialmente Dr. Phil, desempenham exactamente esse papel de apoio médico e aconselhamento psicológico. Nestes últimos discutem-se, por exemplo, o que é o amor abusivo ou como enfrentar as situações que se perde a confiança nos outros. Mas tal é feito não apenas apresentando o ponto de vista do médico e terapeuta, mas do ponto de vista do indivíduo comum, dando alguns minutos ao espectador anónimo para contar aquilo que sente, mas também dando o tempo para falar, e de modo a que as associações livres aí emergentes revelem o seu inconsciente profundo.

Neste sentido, este tipo de programação de realidade traduz aquilo que Dovey (2000: 22) denominou de “televisão traumática” (trauma tv), uma exposição das tragédias pessoais que outrora se confinavam às memórias íntimas e que agora invadem a cena pública. Esta expressão aponta, não para uma televisão que seja apreendida de forma traumática mas uma televisão que traz à publicidade todas as ansiedades e inseguranças que antigamente se restringiam à privacidade. O espaço doméstico deixou de ser o local predominante dos dramas familiares e pessoais, é toda a sociedade que agora tem oportunidade de os testemunhar. E não só testemunhar: ela pode contribuir monetariamente, através de doações televisivas ou chamadas telefónicas para, por exemplo, comprar uma cadeira de rodas, ou construir uma casa adequada para pacientes como doenças mentais incapacitantes.

Mas a grande inspiração para este deslocamento dos traumas da privacidade para a publicidade é a possibilidade de identificação que eles contêm: ao serem desabafados e arejados na mediatização da publicidade, eles dão o alento a quem está a passar pelas mesmas experiências ao mesmo tempo que são sublinhados os pormenores necessários para se evitar que os espectadores passem, alguma vez, pela mesma situação. Eles asseguram ao tele-espectador que o seu problema é partilhado por milhares de outras pessoas, que somos todos semelhantes nas nossas dificuldades e medos secretos unindo de forma muito particular a singularidade individual e o comum partilhado pelos indivíduos.

Dispositivo de comunicação pública, a tele-realidade pode não dirigir-se a nenhum espectador em particular mas possibilita que qualquer um nela se reconheça (Ehrenberg, 2005: 251). Ao comprometer-se com as desgraças e embaraços individuais, a tele-realidade oferece, assim, abundantes oportunidades de identificação. Programas como Trisha, Oprah ou The John Walsh Show assentam nesse pressuposto de que as emoções violentas devem ser exteriorizadas, que os traumas devem ser combatidos pelas emoções que suscitam e só depois pelas palavras (Biressi and Nunn, 2005: 111). Eles repousam na ideia de que há algumas experiências demasiado “reais” para serem expressas somente por palavras pelo que incentivam os convidados a desfazer-se em lágrimas, a mostrar sinais de stress ou a exibir sinais de incapacidade física com vista à catarse dos traumas que ali são partilhados.