Depois de recenseadas as novidades trazidas pela CMC, importa introduzir um elemento de desconfiança. Todos estes conceitos – o de espaço público e o da sua relação com certos media que dinamizarão as suas possibilidades de intervenção cívica – merecem uma relativização e uma cautela que, no limite, não deixa espaço para respostas fixas e definitivas.
A conversação que flui na Web e a relação entre espaço público, blogs e jornalismo figura-se mais problemática do que parece. No que respeita à ideologia neo-iluminista que perpassa pela Internet ela já é hoje objeto de uma reflexão crítica que relativiza algumas das suas possibilidades e identifica a incubação desta ideologia num espaço capitalista centralizador que só aparentemente acolhe a diversidade. Para Herbert Schiller, um dos mais importantes autores que navega nestas águas, citado por Tânia Soares (1999), “o reconhecimento da existência de um novo tipo de sociedade assente no valor da comunicação e da informação não é necessariamente benéfico”. Schiller vê os imperativos da economia de mercado a reforçarem o seu determinismo nas transformações ocorridas nas esferas tecnológica e informacional. Na verdade, “o tipo de sociedade que fomenta as transformações nas áreas da informação e da comunicação é a sociedade do capitalismo corporativo, ou seja, o capitalismo contemporâneo é dominado pelas grandes oligopólios concentrados nas instituições corporativas que comandam a economia e a sociedade a nível nacional e internacional”. Esta realidade é oculta por conceitos fetiches que visam fazer esquecer os mecanismos inerentes ao modelo de desenvolvimento em que se funda a sociedade da informação:
A batalha pelo acesso às tecnologias de informação e comunicação surge assim no discurso político enquanto nova bandeira do progresso, fazendo- nos por vezes lembrar - não sem uma certa comicidade anacrônica, os famosos slogans da revolução russa em que progresso era associado à fórmula ‘Sovietes+Electricidade=Progresso, substituídos agora pela idéia de ‘Democracia+ Internet=Progresso’. (CARDOSO, 1999, on-line)
Desse modo Cardoso no relembra que o discurso tecnocultural é um tipo de discurso situado numa perspectiva da história das tecnologias, que vê o mundo
enquanto fruto da sucessão de tecnologias desligadas do contexto social onde as mesmas nascem e atuam, assim se foca os potenciais existentes nestas tecnologias mas não se faz referência às suas limitações.
O papel hoje desempenhado pelas comunidades virtuais, inseridas aqui as comunidades dos bloggers e leitores, no eventual desenvolvimento de um espaço público é, sobretudo, um papel de catarse, de substituto do verdadeiro sentido de comunidade e de participação. Finalmente os traços encontrados nos elementos respeitantes ao jornalismo - velocidade e abundância de informação, personalização, interatividade - operam de acordo com um princípio solidamente entrincheirado na retórica das utopias interativas: quanto mais informação melhor. O objetivo dos blogs anteriormente mencionados é tornar o último bit de informação relevante para a comunicação e deliberação política na perspectiva de que ele produza uma cidadania mais bem informado. A verdade é que, desde logo não existe evidência de que a disponibilização de uma maior quantidade de informação produza melhores cidadãos. Alguns estudos e possibilidades teóricas apontam mesmo para o contrário. Com efeito, parece ser possível relançar a hipótese levantada por Robert King Merton e Paul Lazersfeld, em 1948 em “Comunicação, Gosto Pessoal e Acção social organizada” a propósito da rádio e estendê-la ao jornalismo on-line. A hipótese de Merton e Lazersfeld consistia na existência de uma disfunção narcotizante da comunicação a qual se traduz no fato de as audiências se enganarem acerca da sua participação cívica, pensando que, pelo fato de estarem informadas, estarem politicamente intervenientes (MER|TON e LAZERSFELD, 1987). No limite, graças a esta disfunção, podia haver uma relação inversa entre o aumento da informação e o aumento da participação cívica. A superabundância de volume noticioso que circula na Web dá origem a uma corrente teórica segundo a qual quanto mais quantidade de informação existe, menos sentido e compreensão obtêm-se acerca dos fatos relatados.
Ora, é evidente que o jornalismo on-line, reforça esta aceleração na distribuição momentânea de notícias. Assim tal lógica baseada na idéia de que o público tem o “direito de saber” para poder tomar suas decisões, sugere-se que o público “precisa saber” cada vez mais rápido, porque esse é o ritmo do mundo. A qualidade é aí identificada com a rapidez na transmissão da informação.
No webjornalismo, a velocidade passa a ser o principal “valor notícia”: antes de tudo, importa chegar na frente do concorrente, e alimentar o sistema com dados
novos, num continuum vertiginoso a pautar o trabalho nas grandes redações, que, além dos tradicionais produtos impressos diários, oferecem simultaneamente serviços de informação em ‘tempo real’ no suporte on-line.
O homo cibernauticus conta muitas imagens, muitas opiniões, muitos factos, muitos fragmentos de cultura, muitos fragmentos de saber. Só que este é um contacto muitas vezes caótico. O excesso de informação anestesia, produz efeitos de habituação. Anula. Tal como a aceleração excessiva tende a produzir cegueira e esquecimento. O que sobra em aceleração e abundância falta em distanciamento crítico, pausa reflexiva, em exercício analítico e em memória. (SANTOS, 2002, p. 22).
Do mesmo modo, não é claro que a personalização e a interatividade se traduzam necessariamente numa vantajosa dinamização da cidadania. Para muitos, enquanto os jornais de ontem serviram para integrar as comunidades nacionais, os jornais futuros, tão servirão para integrar especialmente comunidades de consumidores, já que tais meios servirão essencialmente para os anunciantes e os fornecedores de conteúdos desenvolverem informação direcionada e segmentada em função dos seus interesses comerciais. Os indivíduos isolar-se-ão do mundo que os rodeia. De certo modo, cada um construirá a sua prisão informativa. Deste modo, diversos autores têm vindo a preocupar-se com o que classificam de ‘casulagem’ de massa e autismo em linha (Rheingold, 1993 apud Correia, 1998), referindo-se deste modo a uma percepção contextualizada do mundo onde a capacidade de seleção e a comunidade interpretativa se reduzem à presença de uma única pessoa individualizada.
A resposta a estas dúvidas só pode ser encontrada, pensando num modo diverso de espaço público e das suas relações com a CMC (Comunicação Mediada por Computador). Hoje, a esfera pública é mais complexa e multifacetada, tornando- se a arena privilegiada de uma luta simbólica pela definição das realidades sociais.
Por outro lado, o funcionamento das novas formas de cidadania e, consequentemente, os resultados desta luta simbólica está cada vez mais relacionado com os media, sendo que a opinião pública não tem necessariamente de se fazer apesar da presença dos media, mas com recurso a eles . A dinamização de uma instância independente das lógicas do poder e da economia exige a presença de uma sociedade civil que é cada vez mais uma sociedade de comunicação. Esta noção implica assumir que muitos dos conflitos que se desenvolvem na sociedade ocidental já não são apenas dependentes apenas das esferas de reprodução material, mobilizando-se também em torno das questões
relacionadas com a reprodução cultural, pela socialização e pelos direitos individuais. O jornalismo feito na Web e em particular nos blogs corresponde decerto às necessidades levantadas por muitas destas transformações. A sua lógica participada pode corresponder ao caráter mais fragmentado e pluralista do espaço público contemporâneo. Porém, também pode corresponder à indução de uma entropia que desafia a idéia de deliberação racional. Como assinala Luís Nogueira (2002) o jornalismo é uma das formas de tratar, organizar e difundir informação, pelo que “tem as suas regras, constrangimentos e objetivos específicos. Tem uma morfologia, uma linguagem, uma ética e se quisermos uma epistemologia própria”. Tem os seus esquemas de funcionamento. O que o OSJ (Open Source Journalism) vem fazer é instabilizar esse edifício que desde há dois ou três séculos tem vindo a ser construído.
Desde logo, o jornalismo poderá retomar pelo menos alguns dos seus aspectos enquanto jornalismo de causas. Não é por caso que os entusiastas dos weblogs consideram o self publishing o futuro da Internet: ou seja, há, de certo modo, um regresso ao publicismo e ao jornalismo de opinião. O século XIX terminou, graças à publicidade, com o jornalismo de opinião. Surgiram um conjunto de gêneros (a notícia, a reportagem), que implicaram a formação de normas organizacionais, convenções narrativas, modelos de gestão industrial e o aparecimento de profissionais especializados. O advento deste modo de jornalismo, à qual não pode deixar de estar associada a idéia nova de objetividade, matou o jornalismo de opinião, o publicismo. A industrialização do jornalismo criou as condições para que a notícia se tornasse uma mercadoria e Simmel melhor do que ninguém já compreendera no século XIX como o dinheiro criava desenraizamento e descontextualização. O jornalismo on-line pode, pelas condições técnicas de que já falamos anteriormente, dar origem a uma nova forma de jornalismo, ligado aos movimentos sociais, à democratização e à afirmação cívica das comunidades, que alguns chamam de jornalismo cívico. (CORREIA, 1998).
Uma análise da história da imprensa radical, começando com os panfletários dos sucessivos períodos revolucionários, demonstra que, apesar do seu formato reduzido e da sua ausência quase generalizada das histórias do jornalismo, os media alternativos desempenharam papéis significativos na história das respectivas comunidades políticas, designadamente dando voz a perspectivas centradas na defesa dos direitos humanos e das minorias: abolicionistas, feministas, defensores
dos direitos civis, etc. Hoje,muitas destas possibilidades são exploradas ao nível dos novos media. Com efeito, devemos admitir que as novas configurações do capitalismo têm uma relação profunda com a dimensão simbólica e comunicacional mas os utilizadores da Internet não são meros consumidores e produtores de informação mas seres eminentemente sociais que como tal procuram também, através do uso dos serviços telemáticos, pertencer a um grupo, afirmar as suas convicções políticas, culturais, religiosas, etc., bem como, apoio para as suas dificuldades pessoais ou grupais. Nessa medida parece-nos altamente significativo afirmar a propósito do open source journalism que este permite que várias pessoas (que não apenas os jornalistas) escrevam e, sem a castração da imparcialidade, dêem a sua opinião, impedindo assim a proliferação de um pensamento único, como o pode ser aquele difundido pela maioria dos jornais, cuja objetividade e imparcialidade são muitas vezes máscaras de um qualquer ponto de vista que serve interesses mais particulares que apenas o de informar com honestidade e isenção o público que os lê.
Provavelmente, este registro em que a abertura à causa e à opinião dos públicos é balanceada pela existência de uma tematização, de uma ética e de formas de mediação mínimas, poderá dar origem a um eventual novo formato jornalístico: em vez do jornal, a comunidade noticiosa, hipermidiática, centrada em causas ou temas que constituem a razão de ser da sua existência, extremamente aberta à participação dos públicos que podem mesmo participar na elaboração do material editado, mas com critérios que têm a ver com a própria razão de ser da comunidade noticiosa. Como afirmou Tocqueville, sem jornais não há atividade comum: o jornal, consequentemente, representa uma associação, mais ou menos restrita que é composta pelos seus leitores habituais. Nesse sentido, a comunidade noticiosa é uma associação da sociedade civil que explora algumas potencialidades do jornalismo que foram esquecidas e inibidas pelo modelo clássico da “comunicação de massa”.
Assim concluímos que os blogs podem ser este espaço que transforma tal lógica, mas podemos perceber que tudo isso ainda é sinalizado de forma incipiente, num contexto no qual não há uma suposta ruptura e sim repetições de modelos, valores em readequações que vão dando espaço a uso de algumas ferramentas que paulatinamente reconfiguram tais interfaces, dentro de uma interseção híbrida expressa entre a lógica do continuum e o degradé ou em outras palavras, o
crescimento dos blogs remete à multiplicidade específica da hipermídia; multiplicidade de emissores, de trajetos, de opiniões. Sob o formato, cabe tanto ao ‘proprietário’ do blog publicar informações e opiniões quanto ao visitante/ leitor concordar, discordar, reclamar, rebater o que foi publicado, mas é possível afirmar que na prática jornalística nestes blogs predominam gêneros jornalísticos que aproximam as formas discursivas do jornalismo das subjetividades sociais, que servem como recursos narrativos a fim de ultrapassar os limites de compreensão das formas sociais impostos pela linguagem pretendida referencial e instrumental do jornalismo estritamente formal narrativo.
Nos três blogs analisados, vimos que o discurso é mais explícito, mais do que um produtor de informação, o jornalista é um gestor: recorre a outros veículos, incorpora, algumas vezes beirando o plágio, outros discursos ao seu discurso. A interdiscursividade é inerente a tais blogs ela é a sua força, a sua diferença e isso se dá através do recurso da personalização narrativa aliada ao potencial conversacional presente na relação agora horizontalizada entre o blogger e o ‘leitor imersivo’. Noutras palavras concluindo:
Uma das características dos blogs é a personalização da informação. Aqui, falamos em personalização no sentido de que a informação encontra-se imbuída da persona de seu autor, daquele que a divulga. Esta personalização é presente não apenas no conteúdo e na assinatura do autor, mas também no formato gráfico (cores, formato do site, fontes etc.) do blog, nos links colocados ali, na foto do autor, ou mesmo nos’clicks’. Aquilo que é veiculado num blog não tem a pretensão de ser uma informação neutra. Ao contrário, existe o pressuposto claro de que alguém escreve e que a informação corresponde ao relato, à visão ou à opinião deste alguém sobre o evento. São discursos pessoais. (RECUERO, 2003).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
“Toda gente vive apressada, e sai-se no momento em que se devia chegar” Marcel Proust
A análise do modelo de comunicação possibilitado pela rede mundial de computadores nos permite defender a revitalização do projeto habermasiano de uma esfera pública autônoma, edificada por meio da troca pública de opiniões, alimentada por uma racionalidade comunicativa. Essa afirmação seria comprovada pela análise empírica dos formatos midiáticos encontrados na Internet, cuja categorização nos leva a verificar que a sociedade civil conta, agora, não apenas com os Meios de Comunicação de Massa (MCM), mas, também, com Plataformas Comunicativas Multimidiáticas Ciberespaciais (PCMC). As habilidades inerentes ao meio digital (como sincronia, hipertextualidade, entre outras) propiciam o surgimento de competências comunicativas que favorecem um processo de construção de opinião, minimizando interferências.
Conquanto a observação analítica de alguns espaços de interlocução como os blogs que são proporcionados pelas convergências tecnológicas anunciam a possibilidade do surgimento de embrionárias esferas públicas ciberespaciais.
Elas constituem espaços de formação de opinião que se processam pela troca de argumentos mediados pela comunicação em rede, ou comunicação mediada por computador, como tende-se a denominar o fenômeno. Este papel, outrora desempenhado pela imprensa em seus gêneros literário e opinativo, passando, em uma perspectiva histórica, pelo aparato da indústria cultural, na linguagem frankfurtiana, seguido pela mídia, tem agora mais uma plataforma de materialização: a Internet e todos os canais midiáticos que tem nela seu suporte. Nela tanto os jornais aparecem como formas modificadas de estímulo à esfera pública, quanto fóruns totalmente novos cumprem este papel, permitindo que usuários do mundo todo possam expressar suas opiniões. Aparecem, na rede, como plataformas multimidiáticas, nas quais surgem possibilidades de debates públicos, podendo evoluir para a formação de esferas públicas no ciberespaço.
Sintetizando, seria a idéia de que os novos meios de comunicação, não de massa como a televisão, a rádio e os jornais, mas sim as Plataformas Comunicativas Mulltimidiáticas Ciberespaciais (PCMC) proporcionam o aparecimento da esfera
pública porque retomam “a troca pública de opiniões, alimentada por uma racionalidade comunicativa” (BRITTES, 2003, p.2)
Com a internet, o cidadão passa a ser produtor e consumidor da informação e podem mesmo chegar a recolher essa informação da própria fonte e entrar em discussão de idéias com esta, como é feito nos blogs. Estas esferas públicas espaciais são agora espaços que levam ‘à troca de argumentos mediados pela comunicação em rede’. Estes novos fóruns cumprem o papel de esfera pública, pois possibilitam na rede o debate público que favorece a formação da mesma.
Alguns teóricos em estudos acerca da possibilidade desta esfera surgir no ciberespaço apresentam um conjunto de plataformas onde a argumentação e a discussão podem surgir, que “propiciam formas de interlocução favorecedoras da argumentação pública”. Concluindo que de fato o cidadão comum tem ao seu dispor um meio que lhe permite tecer uma opinião pública com maior liberdade. Contudo, vale reiterar que há ainda um longo caminho a percorrer para que o ciberespaço possa ser dado como um revitalizador da ‘utopia de Habermas quanto à existência de uma esfera pública autônoma’.
Assim vemos surgir com a possibilidade da rede, dois novos fenômenos: as PCMC e as mutações no próprio jornalismo ou no modo de se fazer jornalismo. Este meio proporciona ao jornalismo, caso este queira, uma vertente mais de diálogo, e a prova disso é o surgimento do ‘jornalismo colaborativo’. Ora, é este novo jornalismo associado a estas novas plataformas que vai favorecer “a construção de opiniões públicas sem constrangimento” e os blogs têm este potencial intrínseco a sua própria gênese. É aqui que esta esfera pública autônoma de Jurgen Habermas pode aparecer.
Importa dizer que ao longo dos tempos houve, pelo menos, dois grandes momentos, de conceitos diferentes de esfera pública: o primeiro ligado à antiguidade grega, estudado a fundo por Arendt, onde esta esfera aparece relacionada com a virtude cívica e, precisamente com a recuperação do ideal que está contido no espaço público grego; o segundo, está mais ligado com a modernidade e com as perspectivas de Dewey e Habermas, onde a esfera pública aparece como uma forma emergente de sociabilidade, que aspira ao agir político. Encontramos neste ponto um domínio da vida social onde se pode formar a opinião pública. – ‘Uma porção de esfera pública surge sempre que é constituída uma situação conversacional, na qual se juntam pessoas privadas para formar um público’.
À imagem do século XVIII, este é o espaço onde os cidadãos se juntam livremente e têm conversas de modo aberto sobre as questões de interesse público, tal como faziam os capitalistas e burgueses conforme vimos anteriormente. Notamos também que a dissolução da idéia de espaço público está relacionada com o aparecimento da indústria midiática e com o surgimento da comunicação de massas, onde “o público leitor que prefigurava o público político confronta-se ao longo da obra de Habermas (...) pois o raciocínio tende a converter-se em consumo e o contexto da comunicação pública dissolve-se em atos estereotipados da recepção isolada” (HABERMAS, 1982).
A massificação das idéias e da cultura trouxe supostamente consigo os consumidores passivos e o abandono da opinião pública por parte da imprensa, que foi transformada em instrumento de interesses particulares, essencialmente pelos regimes totalitários que marcaram as cinco décadas iniciais do século XX em toda a Europa. Na qual a imprensa era usada pelos regimes para propagar e difundir os seus ideais, ao jeito de propaganda política, onde o público era encarado como uma massa, sem qualquer possibilidade de resposta ou de argumentação.
Mas, nos finais do século XX, em toda a Europa, começam a surgir dentro desta indústria midiático, novas formas de interação com o público, essencialmente através das CMC, Comunicações Mediadas por Computador, que aparecem numa “espécie de saudosismo daquilo que era a ágora grega ou o espaço público burguês”.
Os novos meios de comunicação, acima de tudo a Internet, alimentam a chegada das comunidades virtuais – (são o veículo por excelência para o discurso livre e para o debate público, onde a noção de limitação geográfica foi ultrapassada, pois a comunidade virtual é composta por indivíduos de interesses comuns, normalmente assentes em laços estabelecidos à distância, sem qualquer proximidade geográfica, que caracterizava os laços estabelecidos nas comunidades ditas clássicas. As virtuais podem assumir agora um papel salvador da interação que a cultura de massa dissolvera) e do webjornalismo.
No cerne do webjornalismo ou do chamado Jornalismo cidadão (3.0) está depositada a esperança, pois o jornalismo que surge na Internet representa uma cisão com a hierarquia que configura os meios de comunicação tradicionais e permite a emergência de um modelo de muitos para muitos, deixando a
centralização do emissor de informação, e os blogs seriam ‘o meio mais nativo originário neste contexto’.
Mas vale salientar que democratizar a informação não é só torná-la acessível, mas também atraente, interessante, polissêmica. É tornar a informação não um