Ao iniciar a pesquisa bibliográfica, percebi que apesar de muito ter sido escrito sobre os Karajá, as pesquisas basearam-se fundamentalmente na análise de aspectos da cultura Karajá, conforme identificamos nos trabalhos etnológicos ou da política indigenista, no contexto mais amplo da política goiana imposta ao grupo. Donahue (1982) observa que na realidade os Karajá foram muito mais visitados do que estudados. Da mesma maneira, a temática indígena é ainda inexpressiva na historiografia goiana, especialmente quando se aborda o período posterior à colônia. Quanto aos Karajá de Aruanã, há de se destacar que não existem trabalhos historiográficos específicos sobre a comunidade.
Os primeiros estudos sobre os Karajá são os de Coudreau ([1891] 1977), Krause ([1908] 1940), e Baldus, Ehrenreich e Lipkind (ambos publicados em 1948). Trazendo alguns elementos da cultura e organização social Karajá, segundo Santos (2001: p. 7) “esses primeiros etnólogos tornaram-se figuras emblemáticas do trabalho de campo realizado no Brasil no final do século XIX e no começo do século XX, e muito colaboraram para os estudos da etnologia brasileira”.
Henri Coudreau empreende viagem pelo Rio Araguaia em 1891, descrevendo aspectos culturais de várias etnias e destacando os conflitos entre indígenas e as populações dos povoados vizinhos. Ressalta o desejo demonstrado pelos regionais de que se “solucionasse” o problema da presença indígena nas proximidades. Fritz Krause foi enviado ao Brasil em 1908 com o objetivo de constituir uma coleção etnográfica para o Museu Etnográfico de Leipzig, momento em que passa um mês entre os Karajá. Em sua
45 viagem pelo Rio Araguaia, faz referência à atual Aldeia Buridina (por ele identificada como Xixamãndo). O relatório de sua viagem foi publicado em revistas do Museu Paulista com edições entre 1940 e 1943. Pela dificuldade de se consultar tantos volumes, é geralmente utilizado pelos pesquisadores, somente o relatório da expedição intitulado “Nos sertões do Brasil”.
Também publicado na Revista do Museu Paulista, o texto de Herbert Baldus “Tribos da Bacia Amazônica e o Serviço de Proteção ao Índio”, fornece informações importantes acerca dos Karajá, fazendo inclusive uma descrição detalhada da condição de vida dos Karajá de Leopoldina, com fotos da época e destaque à condição de “aculturação” dos índios desta aldeia. É considerada preocupante a situação de saúde da comunidade, assolada por grande quantidade de doenças contagiosas. Nessa mesma edição, foi publicado o trabalho de Ehrenreich (1948) “As tribos Karajá do Araguaia (Goiás)”, também fornecendo informações etnológicas interessantes acerca dos Karajá. Com estudos realizados na década de 1890, este é considerado o primeiro trabalho de relevância antropológica acerca dos Karajá. Os resultados da pesquisa de Lipkind, publicados nos Estados Unidos e ainda sem tradução, datam deste mesmo ano, reunindo informações sobre diversas sociedades indígenas da América do Sul, com um capítulo dedicado aos Karajá.
Análises antropológicas mais recentes sobre a cultura Karajá podem ser encontradas em Donahue (1982), e nas dissertações de mestrado de Toral (1992) e Lima Filho (1994). Schiel (2001: p. 30) considera que após os trabalhos dos primeiros etnólogos (acima citados), os Karajá foram relegados a um “abandono” acadêmico, sendo que somente com Donahue assinala-se “uma espécie de ressurgimento do interesse etnográfico nos Karajá”. A pesquisa de Toral (1992) é rica em informações acerca dos aspectos sociais da vida Karajá, revelando uma fecunda apreensão de dados antropológicos em suas pesquisas de campo. O trabalho de Lima Filho (1994) é importante contribuição acerca dos rituais tradicionais Karajá, evidenciando a relevância social desses ritos para a etnia. Esses três trabalhos foram realizados a partir de pesquisas de campo nas aldeias da Ilha do Bananal.
46 Em relação à arte, os trabalhos de Costa (1968) “A arte e o artista Karajá” e Taveira (1978) “Etnografia da cesta Karajá”, são considerados textos fundamentais acerca das concepções artísticas dos Karajá, e além disso, fornecem alguns subsídios acerca da história das principais aldeias. Mais recentemente, as dissertações de Whan (1998) e Santos (2001), buscaram problematizar a ressignificação da cultura Karajá, observando-a a partir das inovações artísticas introduzidas à vivência cotidiana. O primeiro trabalho analisa a utilização do reru (figuras feitas com cordões) como instrumento de fortalecimento da cultura tradicional e o segundo, observa a incorporação das novas demandas comerciais que trouxeram nova significância ao papel do artista Karajá.
A temática da educação indígena tem sido bastante debatida em encontros que reúnem professores indígenas e pesquisadores. Sob este enfoque foi produzida a dissertação de mestrado de Leitão (1998), intitulada “Educação e Tradição: o significado da educação escolar para o povo Karajá de Santa Isabel do Morro, Ilha do Bananal, TO". Além de alguns artigos da mesma autora, diversos textos discutem as experiências de educação indígena entre os Karajá, podendo ser encontradas essas análises em anais de encontros sobre o tema.
Na linguística, destacam-se: a dissertação de mestrado de Silva (1995), com o título “A situação sociolinguística dos Karajá de Santa Isabel do Morro e Fontoura: uma abordagem funcionalista”, e os trabalhos de Ribeiro (1996) “Morfologia do verbo Karajá” e de Borges (1997) “As falas feminina e masculina no Karajá”. Esses trabalhos evidenciam a preocupação crescente com uma perspectiva sócio-histórica de análise lingüística, demonstrando o quanto a manutenção e dinamização da língua indígena são fundamentais para a afirmação da identidade étnica.
No que se refere à política indigenista em Goiás, temos o artigo de Karasch (2001), “Catequese e Cativeiro: política indigenista em Goiás- 1780-1889”, publicado na coletânea organizada por Cunha (2001), História dos índios no Brasil. Também os trabalhos de Rocha (1998, 2003) “O Estado e os Índios: Goiás- 1850/1889” e “A Política Indigenista: 1930-1964”. Tangenciando o debate sobre a história indígena em Goiás, temos o trabalho
47 de Chaim (1974) sobre os aldeamentos indígenas em Goiás, Doles (1973) acerca da navegação fluvial, Salles (1992) tratando da escravidão em Goiás no período colonial, e o de Chaul (1999) quando trata da idéia de decadência em Goiás, além de algumas dissertações de mestrado na mesma linha de análise. Os textos mais conhecidos de Palacin (1982, 1983, 1986, 1994) também abordam secundariamente o tema e um artigo intitulado “A ausência do índio na memória goiana” indica caminhos para se pensar o imaginário acerca dos índios na sociedade goiana. Apesar de não se aprofundar no debate proposto, este pequeno texto de Palacin (1992) merece destaque por perceber o índio sob uma ótica diferente dos demais trabalhos da historiografia goiana.
No que tange à produção específica sobre os Karajá de Aruanã, temos a tese doutoral de Silva (2001), “A função social do mito na revitalização cultural da língua Karajá”, onde é analisada a situação sociolingüística das aldeias de Santa Isabel do Morro, Tỹtema e Buridina. Também a dissertação de mestrado de Santos (2001), “A estética Karajá e a ótica ocidental”, onde são tratados aspectos da re-significação do comércio de artesanato pelos Karajá de Buridina. Na realidade, este trabalho toma a Aldeia Buridina como locus da pesquisa, mas não há uma problematização do contexto histórico em que vivem, já que o enfoque é a redefinição da arte Karajá.
Em texto apresentado na Renuião da Associação Brasileira de Antropologia em 1993, Lima Filho propõe uma comparação entre as situações territoriais das Aldeias de Santa Isabel do Morro e Buridina. Os dados, no entanto, são preliminares e não parece ter sido concluída uma pesquisa comparativa nesse sentido. Em uma coletânea que discute a experiência dos antropólogos na elaboração de laudos antropológicos de terras indígenas, Lima Filho (2005) apresenta os impasses enfrentados durante a sua participação no processo de demarcação das terras Karajá de Aruanã.
Em 2006, este antropólogo publicou um artigo sobre os Karajá de Aruanã, como parte de uma coletânea que busca apresentar a situação das três sociedades indígenas de Goiás (LIMA FILHO, 2006). É interessante a iniciativa de demonstrar esses três processos históricos de maneira articulada, entretanto, o texto sobre a comunidade de Buridina padece
48 de dados atualizados, e reproduz características antropológicas da etnia à maneira clássica da antropologia, aproximando-se do que Oliveira Filho (1998) chama de “etnologia das perdas”, mostrando o que os Karajá “foram” um dia, numa análise que desconsidera a especificidade em que a Aldeia Buridina vive na contemporaneidade.
Motta (2004) defendeu uma dissertação de mestrado em Geografia, onde propõe um debate sobre a concepção de territorialidade para os Karajá de Aruanã e a relação com o turismo na cidade. É um tema extremamente relevante por demonstrar conflitos em relação ao território, que geralmente são ocultados. Porém, o debate não parece ser bem resolvido, sendo a problemática tratada de maneira superficial. Existem também dois trabalhos de graduação em Antropologia, onde foram discutidos: a importância da demarcação das terras Karajá em Aruanã e a percepção da etnicidade pela comunidade de Buridina sob um enfoque estruturalista (BRAGA, 2002; SCHIEL, 2002). Em 2003, apresentei uma monografia de Graduação em História, onde discuti a auto-identificação étnica da comunidade Karajá de Buridina (PORTELA, 2003).