A noção de singularidade engaja-se numa compreensão que abrange cada corpo-dançante como matéria singular, composta de sua bagagem técnica, sua morfologia, sua história corporal, psicológica, sociológica... É isso que Michel Bernard exprime sob o conceito de “corporeidade dançante”.
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Tradução nossa: “(...) uma rede plástica instável, ao mesmo tempo sensorial, motora, pulsional, imaginária e simbólica que resulta de uma interferência de uma dupla história: de uma parte, aquela coletiva da cultura a qual pertencemos e que forjamos nos primeiros hábitos de nutrição, de higiene, do andar, de contatos, etc., e aquela, essencialmente individual e contingente, de nossa história libidinal que modelou a singularidade de nossos fantasmas e de nossos desejos”.
66
Tradução nossa: “jogo quiasmático instável de forças intensivas ou de vetores heterogêneos”.
1.3.1. Porosidade e instabilidade da “corporeidade dançante”
A tonalidade própria do corpo-dançante contemporâneo não emana de uma matéria corporal vista como uma substância, mas, ao contrário, é resultado de sua porosidade, ou seja, de sua faculdade de captar as forças. A corporeidade dançante é instável, produz fissuras, abre espaços para outros modos de relação. Em outros termos, ela é “viva” – algo que traduz as palavras de Merce Cunningham: “la personne qui danse est comme tout le monde, quelqu’un qui a des ennuis, des problèmes quotidiens, une taille plus ou moins grande, la possibilité de sauter plus ou moins haut, etc.67”. (1980, p. 28-29). Fatigado, feliz, machucado, o corpo-dançante muda sem cessar, a tal ponto que ele não faz jamais a mesma dança. De fato, “tout cela affecte la
vision plus que les gens ne l’imaginent68”, observa Cunningham.
Eventualmente, conclui ele, “on ira voir la même chose, ce sera peut-être le même danseur, mais ce sera peut-être aussi très différent69”. (Id. Ibid., p. 29). A matéria coreográfica do corpo-dançante é resolutamente “viva”. O corpo- dançante da dança contemporânea é, portanto, flexível e precário, poroso e intensivo. É essa idéia que Merce Cunningham desenvolve: “les danseurs travaillent avec leur propre corps, et chaque danseur est particulier70”, diz ele. “C’est pour cela que vous ne pouvez décrire une danse qu’en parlant de qui la
danse71”. Com efeito, indaga Cunningham, “comment pourrait-on faire
l’expérience de la danse sauf par le danseur lui-même?72”. (Id. Ibid., p. 27).
67
Tradução nossa: “a pessoa que dança é como todo mundo, alguém que tem aborrecimentos, problemas cotidianos, um tamanho mais ou menos grande, a possibilidade de saltar mais ou menos alto, etc.”.
68
Tradução nossa: “tudo isso afeta a visão mais do que as pessoas imaginam”.
69
Tradução nossa: “iremos ver a mesma coisa, será talvez o mesmo dançarino, mas será talvez também muito diferente”.
70
Tradução nossa: “os dançarinos trabalham com seus próprios corpos, e cada dançarino é particular”.
71
Tradução nossa: “É por isso que não podemos descrever uma dança senão falando de quem a dança”.
72
Tradução nossa: “como podemos fazer a experiência da dança senão pelo dançarino ele mesmo?”
1.3.2. Singularidade corporal: o lugar de criação da dança contemporânea
Nessa perspectiva, a produção do corpo-dançante contemporâneo necessita de uma “subversion esthétique de la catégorie traditionnelle de corps73”, para tomar as palavras de Michel Bernard74. (2001, p. 20). No agenciamento da dança contemporânea o corpo conjuga os seus pontos relevantes com os do espaço, que o engendra numa relação mútua. Ele estabelece o princípio de um movimento que não é mais o mesmo, que compreende continuamente o outro – sendo ele próprio – que encerra em si, portanto, a diferença. De um gesto a outro, ele transporta esta diferença pelo espaço assim constituído. Em tal agenciamento, diz Michel Bernard:
L’acte créateur n’est pas le fait du pouvoir inhérent à un corps comme structure organique permanente et signifiante. Bien au contraire, un tel acte résulte du travaille d’un réseau matériel et énergétique mobile, instable, de forces pulsionnelles et d’interférences d’intensités disparates et croisées75. (2001, p. 20).
Falar do corpo-dançante é, portanto, falar de uma “corporeidade” dançante, uma singularidade que inicia a criação em dança. Quais são os desafios de conceber o corpo-dançante como uma singularidade? De um lado, o corpo dançante não é considerado como um meio exterior à dança. Ele já traz, nele mesmo, as marcas da criação em dança, uma tonalidade. De outro lado, considerar que o corpo-dançante contemporâneo traz nele já, como a priori, uma “cor”, nos traz também algumas questões, como nos mostra Laurence Louppe:
73
Tradução nossa: “subversão estética da categoria tradicional de corpo”.
74
Ver o titulo de um de seus artigos “De la corporéité comme anticorps ou de la subversion
de la catégorie traditionnelle de corps”, no primeiro capitulo de sua obra De La création chorégraphique.
75
Tradução nossa: “O ato criador não é feito de um poder inerente a um corpo como estrutura orgânica permanente e significante. Bem ao contrário, um tal ato resulta do trabalho de uma rede material e energética móvel, instável, de forças pulsionais e de interferências de intensidades díspares e cruzadas”.
Supposer un corps neutre à partir de quoi pourrait s’articuler n’importe quel motif chorégraphique va à l’encontre de tout le projet de la danse contemporaine. Et pire: contribue à entretenir un fond occulté qui condamne toute approche à l’aveuglement. Aveuglement idéologique, autant qu’esthétique76. (2000, p. 70).
Há aí, portanto, uma distinção na maneira de entender esse corpo singular. Para a dança contemporânea, o corpo-dançante é uma matéria matizada que constitui, nela mesma, estados de corpos que ela poderá conjugar. Nesse sentido, podemos dizer que numa perspectiva contemporânea uma coreografia começa, antes de qualquer escrita da dança, a partir da escolha dos bailarinos. Um corpo-dançante “singular” não é, com efeito, um corpo-dançante “particular” – o particular sendo o corolário de uma generalidade. A relação do corpo-dançante a um “geral”, quer dizer, a uma referência, é mais encontrado na dança clássica. Nesta, há a tendência a conceber o corpo-dançante como executor particular de um “fouetté”, de um “arabesque”, ou outro passo do código da dança clássica. O desempenho de cada um em particular pode ser comparado a uma execução ideal, que é, de alguma maneira, em geral. Ao contrário, conceber o corpo-dançante como uma singularidade é apreender cada corpo que dança em sua “diferença pura”, fora de qualquer escala de comparação. Com efeito, tomar em sua singularidade o corpo-dançante é o primeiro ato de criação em dança contemporânea. É por essa razão que no agenciamento da dança contemporânea o corpo-dançante é um lugar de criação.
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Tradução nossa: “Supor um corpo neutro a partir do qual poderia se articular não importa que motivo coreográfico vai contra todo o projeto da dança contemporânea. E pior: contribui para manter um fundo oculto, condenando toda abordagem às cegas. Cegueira ideológica, tanto quanto estética”.