BÖLÜM II: ARAġTIRMANIN KURAMSAL ÇERÇEVESĠ VE ĠLGĠLĠ ARAġTIRMALAR
2. 2 FORMAL VE ĠNFORMAL EĞĠTĠM
2.4 FEN ÖĞRETĠMĠNDE OKUL DIġI ÖĞRENME ORTAMLARI
2.4.2 Botanik Bahçeler
Bakhtin já afirmava, no inicio do século XX, que nossas realidades estavam essencialmente ligadas ao horizonte social mais próximo de nós mesmos. Iniciando essa próxima série de pensamentos, vejamos um pensamento do mestre russo:
Se algumas vezes temos a pretensão de pensar e de exprimir-nos urbi et orbi, na realidade é claro que vemos ‘a cidade e mundo’ através do prisma do meio social concreto que nos engloba. Na maior parte dos casos, é preciso supor além disso um certo horizonte social definido e estabelecido que determina a criação ideológica do grupo social e da época a que pertencemos, um horizonte contemporâneo da nossa literatura, da nossa ciência, da nossa moral, do nosso direito (Bakhtin, 1997:112).
Pensar essa cidade e esse mundo numa realidade mais próxima de nós mesmos é o que conseguimos inferir dessas construções de futuros limpos e organizados, coerentes e padronizados, vendo-nos numa realidade boa e perfeita, mas com os mesmos problemas de sempre. Mesmo em um filme de ficção científica como o recém-lançado Eu sou a Lenda (2007), o nosso maior temor aconteceu e fomos extintos, à exceção de poucos sobreviventes, ou intocados pelo vírus devastador ou modificado por ele e assim deixando de ser humanos como nos conhecemos, a limpeza das imagens e essa assepsia marcam uma tentativa de maquiar um problema ainda maior desse futuro sem problemas. Que ele carrega em si todos os antigos problemas.
Pode ser parte da estética do filme ter algo para solucionar, um problema posto e feito para um herói resolver, mas vemos que no fundo, mesmo os futuros mais idílicos contêm em si uma pequena parte de todos os problemas que vivemos hoje. Diferentemente dos futuros sujos onde estes problemas são maximizados, no futuro limpo eles advêm do nosso horizonte social mais próximo e como que diluído nas imagens e nas linguagens cinematográficas, volta e meia percebe-se o problema.
Numa imagem de um futuro limpo podem-se pressupor muitas dessas nuances da linguagem cinematográfica. Para Bakhtin, os enunciados (e aqui estamos correlacionando uma imagem fílmica ou um diálogo pertencente à linguagem cinematográfica como enunciado) sempre partem do criado a partir de algo dado pelo mundo. Em nosso caso, se o espectador tem diante de si um dado do cinema, a língua ali funcionando em interação com as linguagens e os sentidos, aí sim existirá uma correlação correta a se fazer entre a imagem no cinema e a construção do futuro na mente do público. Conforme Bakhtin:
O enunciado nunca é simples reflexo ou expressão de algo que lhe preexistisse, fora dele, dado e pronto. O enunciado sempre cria algo que, antes dele, nunca existira, algo novo e irreproduzível, algo que está sempre relacionado com um valor (a verdade, o bem, a beleza, etc.). Entretanto, qualquer coisa criada se cria sempre a partir de uma coisa que é dada (a língua, o fenômeno observado na realidade, o sentimento vivido, o próprio sujeito falante, o que é já concluído em sua visão do mundo, etc.). O dado se transfigura no criado. (Bakhtin, 2000: 348).
Dessa maneira, se damos uma seqüência de imagens, é de se pressupor que ali estão dados do mundo que são acessíveis ao leitor/locutor daquelas imagens para que ele crie o seu sentido desse futuro limpo e transfigure esse dado num algo criado.
Somente a imagem sem o que Bakhtin chamaria de contexto extraverbal em Discurso na vida e Discurso na Arte não poderia criar nada. Entretanto, com as imagens anteriores sabemos que ali estão dois sujeitos que na imagem são iguais naquela realidade imagética, mas absolutamente diferentes na realidade social em que cada um deles estão inseridos. São parte de um futuro limpo onde os novos seres humanos são praticamente produzidos pelo que cada um tem de melhor em si em matéria de genética, porém este é o inicio dos problemas do futuro limpo neste ínterim.
Ao Tratar do filme Idiocracia (2006) percebemos outro modo como esse futuro limpo pode ser caracterizado em cinema. Aqui pela sátira e pelo riso. Como dissera Bakhtin (2000:413) “De minha parte, em todas as coisas, ouço as vozes e sua relação dialógica. No tocante ao princípio de complementaridade, também o entendo de maneira dialógica”. Para que nosso trabalho tivesse uma relação dialógica esperada, precisávamos observar essa nova forma de futuro que se apresentou a nós durante as pesquisas e recolhimento de material. E aqui estamos.
Esse futuro limpo apresenta-se diferente do outro apresentado porque reúne em si as duas realidades, sujo e limpo, mas une a si também os elementos do riso e do grotesco. Se até agora no cinema o futuro fora trabalhado de uma forma ou decadente ou desenvolvimentista problematizada pelo passado, neste filme o futuro apresenta-se ainda mais estarrecedor. Nenhuma catástrofe aconteceu, não fomos extintos, nem invadidos e nem estamos à mercê da manipulação genética. O futuro ignóbil aconteceu porque houve uma declinação das teorias darwinistas. Ao invés de se selecionar os melhores de cada espécie, no caso do filme a humana, ocorreu o contrário. As pessoas de menos inteligência passaram a se reproduzir mais e suplantar as inteligentes. Resultado, um futuro onde um homem de inteligência nada expressiva do século XXI é o maior gênio da terra no século XVI. O cômico e o riso dão o tom a esse futuro. Em contraponto a uma cultura oficial de futuros negros ou arrumadinhos. Nisso encontramos em Bakhtin uma possível explicação para essa extrapolação repentina contida na linguagem cinematográfica atual. Afirmara ele que “O riso deve desembaraçar a alegre verdade sobre o
mundo das capas da mentira sinistra que a mascaram, tecidas pela seriedade que engendra o medo, o sofrimento e a violência” (Bakhtin, 1996, p. 150). Para isso, observemos uma cena do filme:
O simples observar demonstra a que ponto chegou a sociedade humana retratada nesse filme. Não conseguimos nem ao menos manter um edifício em pé. A imagem desoladora em qualquer situação dá lugar ao riso descrito por Bakhtin para sobrepujar aos que tentam mascarar a sociedade. E então? Os futuros de sempre estão sendo ridicularizados para uma nova concepção de se pensar o homem? É o que tentaremos ao menos correlacionar com as análises de que trataremos neste trabalho, dos filmes Inteligência Artificial e o já citado Idiocracia.
8.1 Inteligência artificial (AI): o futuro recontando histórias de um passado muito
A história de A.I. (Inteligência Artificial) começa num futuro próximo, de recursos naturais escassos e rígido controle de natalidade. Grande parte do planeta está submersa, em virtude do derretimento das calotas polares provocado pelo efeito estufa. Robôs (Mecas) de todos os tipos garantem o equilíbrio econômico e convivem com os humanos (Orgas) em seu dia-a-dia.
Como o controle da natalidade tornou-se obrigatório, a Cybertronics Manufacturing, uma fábrica de robôs, desenvolve o protótipo de uma máquina-criança, programada para amar incondicionalmente. É assim que o menino-robô David é fabricado e “adotado” por um funcionário da Cybertronics e sua mulher, cujo único filho, portador de uma doença terminal, está criogenicamente preservado há cinco anos. Quando o filho real é curado e retorna ao lar, a convivência “em família” fica tumultuada. Após um mal-explicado acidente numa piscina, envolvendo os dois “irmãos”, a mãe resolve abandonar David numa floresta.
Programado para amar, ele parte junto com Teddy, seu urso de pelúcia futurista, e Gigolô Joe, um amante mecânico, em busca de sua natureza humana para também ter o direito de ser amado. As aventuras, pontuadas por efeitos especiais realistas e algumas vezes arrepiantes, levam o trio para Rouge City, uma espécie de caricatura de Las Vegas, e Flesh Fair, uma feira de variedades onde, entre outros prazeres, Orgas fundamentalistas se divertem em torturar e destruir Mecas, como num circo romano. O filme termina num futuro ainda mais remoto. Depois de descobrir a Fada Azul da história de Pinóquio, num parque de diversões da submersa Manhattan, e ficar por dois mil anos aprisionado no fundo das águas congeladas que cobrem o planeta, David é encontrado por evoluidíssimos seres. Os humanos estão extintos e são os evoluídos Mecas que tentam realizar o desejo do menino-mecânico, trazendo de volta sua mãe, através de uma clonagem. Seria um final feliz para uma fábula negra, não fosse o fato de que a Felicidade do reencontro tem prazo de duração pré-fixado: 24 horas. O resto é Sonho e ilusão.
8.1.1 Adentrando e entendendo uma Inteligência Artificial
O que é um Homo Sapiens? Um ser com alta capacidade de pensar lógica e inteligentemente? Será esta a característica fundamental na definição de um ser Humano? A derrota de Garry Kasparov, campeão mundial de xadrez, para um computador IBM chamado Deep Blue, em 1997, assinalou a superação da Inteligência Humana pela Artificial, abrindo caminho para máquinas superiores aos humanos? Ou será que é justamente aquilo de irracional que trazemos em nós, aquilo que está para aquém (ou além?) da inteligência, nossos sentimentos, nossos medos, nossas paixões que nos fazem verdadeiramente humanos? Uma Máquina pode ser programada para o Amor perfeito? O Amor é um aprendizado? Ou amar e suscitar no Outro o sentimento de Amor é um atributo exclusivo do Homem, uma qualidade inata, parte de nossa constituição do ser? Para ser realmente Humano é necessário boiar por nove meses num mar de líquido amniótico? Nascer de ventre materno e carnal?
No mundo onde decorre a ação de Inteligência Artificial, as principais cidades estão submersas e o filme abre com uma tomada por sobre o oceano, símbolo do feminino, da criação, das águas primordiais das quais saímos, enquanto indivíduos e enquanto espécie. E será depois de dois mil anos aprisionado nas águas que cobrem a maior parte do planeta que David, o menino-robô, “nascerá” ao final do filme para reencontrar sua “mãe”. Esse reencontro não se dá sem uma grande aventura por um planeta Terra já um tanto devastado pelo homem, onde a intolerância surge disfarçada no ódio de alguns pelos robôs. Muitas premissas que advêm do nosso cotidiano, do nosso hoje, e do nosso passado. O filme apenas relata uma das muitas histórias de futuro que poderiam ser contadas a partir dos nossos problemas não resolvidos da atualidade.
“Uma espécie de conto de fadas do futuro sobre Inteligência Artificial8”, foi assim que Stanley Kubrick definiu o projeto de levar ao cinema uma história inspirada no conto “SuperToys last all Summer long” (“Super-brinquedos duram o Verão todo”) de Brian Aldiss, o mais premiado autor inglês de ficção-científica.
A história da produção do filme é longa e o roteiro final é apenas vagamente inspirado no conto. Kubrick comprou os direitos de filmar a história em 1982 e até sua morte esteve envolvido com o projeto. Inicialmente, reelaborou o enredo, junto com o próprio Aldiss, inserindo David no mundo dos contos de fadas, como uma versão futurista de Pinóquio, o boneco de madeira que queria ser um “menino de verdade”, criado pelo italiano Carlo Collodi, em 1881.
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O Site Oficial do Filme está em http://aimovie.warnerbros.com Além de se ter acesso a muita informação técnica, fotos, trailers, etc., pode-se ter acesso às entrevistas dos produtores e diretores assim como do idealizador da história na qual está baseado o filme. Muitas das informações retiradas para este tópico foram extraídas dos extras do DVD chamado Construindo IA.
Sendo estruturado como um conto de fadas, Inteligência Artificial compartilha com esse gênero literário a característica de situar a ação de seus personagens entre a fantasia mais doce e o puro terror, entre o feérico e o sombrio. Quem não se lembra da madrasta que manda enterrar viva a enteada “por um figo da figueira que o passarinho bicou”? Quem não se lembra da Branca de Neve, que escapou por pouco de ter seu coração arrancado, também a mando de uma madrasta malvada? Ou das agruras de João e Maria, abandonados na floresta pelos próprios pais? E haverá conto de terror mais horripilante que Chapeuzinho Vermelho (“vovó, para quê essa boca tão grande?”), contado para crianças da mais tenra idade, justamente quando se preparam para dormir? Em Inteligência Artificial predomina esse lado sombrio e assustador dos contos de fadas, que fornece abundante material para interpretações literárias, psicanalíticas, antropológicas, lingüísticas, feministas, etc.
O medo de crescer, de deixar de ser criança e perder o amor dos pais, permeado pela insegurança de nossa inserção no mundo adulto, pela descoberta do sexo, da violência e da morte, e pela necessidade da busca por uma identidade própria, independente, estão universalmente associados à experiência da Infância e Adolescência. A estrutura dos contos de fadas alicerça-se fortemente nesses sentimentos e vivências e envolve, muito freqüentemente, culpa, separações, traições, castigos, provações, aprendizados, purificações. O Pinóquio do futuro de Inteligência Artificial, porém, nem sequer é mentiroso, como seu primo de madeira do século XIX. As atribulações a que será submetido, ao longo do filme, não podem ser descritas como “um castigo”. Sua odisséia está mais próxima de uma “provação”, ao final da qual o “herói” vai emergir “humanizado”.
De certa maneira o filme inverte o argumento original de Pinóquio. Em Inteligência Artificial não é a máquina que se mostra incapaz de amar: não é Pinóquio que abandona seu “pai” Gepeto para seguir seus amigos “desviantes”, sem dar ouvido à sua consciência (representada na história de Collodi pelo Grilo Falante) e virando as costas à Fada Azul. Ao contrário, David padece de um “excesso” de amor e fidelidade, que não são correspondidos por seus “pais” humanos.
O amigo desviante (Gigolô Joe) será o auxiliar de David na busca de sua humanidade, juntamente com Teddy (o urso de pelúcia), o personagem mais leve e o único com senso de humor em toda a trama, que acaba sendo o “super-herói” da história, pois é ele que torna possível o reencontro, ainda que breve, de David com sua “mãe”.
Kubrick já havia tratado o tema da Inteligência Artificial anteriormente e produzido um clássico do Cinema: 2001: Uma Odisséia no Espaço. O filme, realizado em 1968, tem como uma de suas temáticas o confronto entre a Inteligência altamente complexa e fria de Hal 9000, o computador de bordo de uma espaçonave (com sua voz agradável, mas com um quê de malévola) e a inteligência humana, personificada em David Bowman, o capitão da nave. Hal, em tese, não poderia errar nem mentir. Ele erra e mente. A seqüência do desligamento progressivo dos circuitos (ou “assassinato”) de Hal por David é antológica: ele parece se tornar cada vez mais humano, na medida em que vai tendo sua capacidade mental reduzida.
A relação ao mesmo tempo complementar e substitutiva entre Homem e Máquina começa num longínquo momento da Pré-História, recriado na seqüência de abertura de 2001, quando um Hominídeo usa um pedaço de osso como arma e cria a primeira clava, a primeira ferramenta. A superação do Homem pela Máquina, no plano físico, vem se processando há milênios. Cada nova ferramenta inventada e incorporada aos processos produtivos representou um avanço nessa direção, um crescente e incessante desenvolvimento do engenho humano. A máquina nada mais é senão uma combinação de ferramentas, e a palavra tem sua origem num verbo grego (machặna) que significa “um meio engenhoso de conseguir um fim”. A estação espacial de 2001, que orbita graciosamente ao som do Danúbio Azul, é apenas um desdobramento e uma continuidade, quase que uma decorrência lógica inevitável do osso- clava, daquela primeira e ancestral ferramenta, como Kubrick cinematograficamente nos ensina na seqüência inicial do filme. Nessa visão, a Tecnogênese (o nascimento da Técnica) e a Antropogênese (o nascimento do Homem) confundem-se num único fenômeno: antes do Homem, não há Técnica; antes da Técnica, não há Homem.
Em Inteligência Artificial a relação entre homem e natureza é retratada como distópica e catastrófica. Em lugar da utopia de um futuro de bonança e superação das necessidades básicas pelo uso da ciência e da tecnologia, promessa central do iluminismo e da modernidade, temos um planeta devastado, onde o derretimento das calotas polares submergiu todas as cidades costeiras e grande parte da Humanidade já se extinguiu pela fome. O meio ambiente, modificado ao extremo pelo Homem, volta-se contra ele. É nesse ponto que levantamos um contraponto entre um futuro limpo, demonstrado pelas imagens e um futuro sujo demonstrado por idéias.
Na distopia de Inteligência Artificial o Homem tornou-se cada vez mais dependente das máquinas, inclusive no plano emocional. Gigolô Joe, o companheiro de David em suas aventuras, é um andróide concebido como “um amante perfeito”, solução ideal para os problemas de solidão, sem necessidade de acessórios complicados como fidelidade, reciprocidade, constância, cumplicidade, etc., que fazem tão complexas, difíceis e instáveis as relações amorosas e sentimentais entre seres humanos. Gigolô Joe, como qualquer outra Máquina, pode ser ligado e desligado ao bel prazer de sua usuária.
Se a substituição da força física do Homem pelo trabalho das Máquinas ainda suscita temores, conflitos e contradições, a criação de mecanismos inteligentes gera ainda mais controvérsias e reservas. Criando uma civilização baseada em Máquinas pensantes não estaremos correndo o risco de sermos por elas dominados, superados? Depois de substituir a força física do Homem, a Máquina ameaça tomar seu lugar também enquanto ser pensante e sensitivo? A visão distópica de Inteligência Artificial inclui o pior dos desfechos nesse sentido: as Máquinas substituem totalmente os Humanos. Quando David é resgatado do fundo do mar, depois de dois mil anos de espera, o Homem já é uma espécie extinta. O mundo está povoado por Mecas altamente evoluídos que, paradoxalmente, exibem as esguias formas de primitivas esculturas africanas.
A ambigüidade da relação Homem-Máquina é explorada em muitas seqüências e situações do filme. Quando o filho real de Monica e Henry é descongelado e volta para casa, a disputa que se estabelece entre os dois “irmãos” (como na clássica história de Abel e Caim?) leva-nos a uma identificação inevitável com David, a Máquina, e não com Martin, o Humano. David é o menino ideal. Martin é o provocador, sarcástico, manipulador, o ciumento, o que não aceita compartilhar com seu “irmão” o amor dos pais, o que pede à mãe para ler Pinóquio para eles antes de dormir (“David vai adorar a história...”). Enfim, Martin é uma criança real, com os defeitos, maiores ou menores, das crianças reais. Ao inclinarmos nossa simpatia em direção a David, em direção à Máquina, estamos, de alguma forma, abdicando de nossa Humanidade? Ou, dadas as circunstâncias, estamos apenas reafirmando-a, optando pelo idealizado, fugindo do real, identificando-nos com a perfeição, sonhando?
Inteligência Artificial está longe de ter inaugurado a temática das Máquinas sensitivas no Cinema. O pioneirismo cabe a Fritz Lang que, em Metrópolis (1927), criou Maria, a primeira andróide cinematográfica com sentimentos humanos. Mas, para a maioria dos cinéfilos, o já trabalhado nessa dissertação, Blade Runner, o Caçador de Andróides (Ridley Scott, 1982) continua a ser a mais importante referência no gênero, um verdadeiro cult, com abundantes sites na Internet, listas de discussão, fanzines eletrônicos, etc. Com sua ação localizada em Los Angeles, ao redor do ano 2019, Blade Runner conta a história de Rachel (Sean Young), uma replicante de última geração tão perfeita que tinha até lembranças de uma infância que nunca vivera, e que se apaixona por um Humano, o policial aposentado Rick Deckard (Harrison Ford), cujo trabalho é caçar e eliminar andróides fugitivos. No caso de Rachel, a característica Humana acrescentada à Máquina é a imprevisibilidade. Todos os Replicantes, por questões de segurança, eram fabricados com uma durabilidade, uma vida útil
pré-determinada. Além de pensar e sentir como um ser Humano, Rachel era a primeira Replicante com duração indeterminada e totalmente ignorante de sua condição de Andróide. Blade Runner, com o romance de Rachael e Deckard, inverte a questão e pergunta: “Pode um humano amar verdadeiramente uma máquina?”
Uma visão inteligente em Inteligência Artificial talvez seja sugerir, como fator distintivo de Humanidade, não a capacidade de pensar logicamente (que o IBM Deep Blue já demonstrou, em 1997), nem tampouco a capacidade de amar e ser amado (que a Rachel de Blade Runner já tematizou, em 1982), mas algo muito mais singelo: a capacidade de adormecer, almejar e sonhar. Este é o propósito de David nesse filme. Um Davi que luta contra os gigantes da sua restrição conceitual. Um robô feito para fazer algo tipicamente humano. E isso é um remetimento à falta de sentimentos de alteridade, compaixão e amor ao próximo vividos no hoje. Precisamos de robôs para nos amar e respeitar já que não