5. BULGULAR VE YORUM
5.3. Bireylerin YaĢlılık Dönemlerine ĠliĢkin Beklentileri
18 de Março de 1935. Era noitinha, chuviscava quando cheguei ao internato das enfermeiras, uma casa amarela situada num dos aprazíveis bairros da capital – a Serra. Ia ser inaugurado no dia seguinte, e já se achavam cá D. Laís, e D. Georgina Ottoni Chagas, a Ecônoma – em atividade desde manhã.
Na primeira noite só contava a Diretora, três Chefes, a Ecônoma e eu como única aluna. Nessa mesma noite, tendo todas saído, fiquei eu a tomar conta desse casarão sem luz, pois a luz ainda não havia sido ligada e nós servíamos de velas; [...] percorri de vela na mão os diversos aposentos, sendo as salas de visita e de jantar a únicas mobiliadas; os quartos só tinham camas, mesmo assim sem enxergão. Começou com dificuldade o nosso Internato, e hoje?
Cheguei à janela de um quarto da ala direita, atraída pelo fresco da noite e o murmúrio de um regato que corria (hoje não corre mais) no fundo da chácara. A noite estava mais clara, já não chuviscava. Divisei as palmeiras do quintal, a falada piscina, que me pareceu mais restos de um castelo abandonado (CARDOSO, 1936a, p. 52).
A aluna América Cardoso, em narrativa sobre o “Internato Carlos Chagas – seu histórico”, publicada no primeiro número da revista A Enfermagem em Minas, é quem relata o início do funcionamento do “internato das enfermeiras”, mostrando as primeiras apropriações e demarcações dos seus espaços. Um ano após este relato, essa aluna voltou a falar da luta travada pela Diretora para conseguir a sede para o internato da EECC:
‘Mas com que roupa?’ Removeu céus e terra e graças ao altruísmo do Dr. Antonio Aleixo conseguiu a realização desse ideal, aprovado por Dr. Silva Campos Diretor da Saúde Pública deste Estado, embora choramingando a falta de verba, assunto bem compreendido por nós que vivemos nesta dolorosa experiência.
Mas a dedicação e o heroísmo e a boa vontade do Dr. Aleixo conseguiram organizar o Internato das Enfermeiras que nos proporciona maior conforto luxo e elegância [...] (CARDOSO, 1937, p. 33).
Todas as pessoas que moraram ou que transitaram nas décadas de 1930 a 1950 nas proximidades da Rua do Chumbo, 601, no Bairro da Serra, da cidade de Belo Horizonte, conheceram a Casa Amarela da Serra, assim denominada pelas alunas. Hoje, “uma casa azul”, com fachada do prédio e interiores, no possível, preservados, Rua Professor Estevão Pinto, mesmo número, faz parte do Patrimônio Histórico da cidade e sedia a sua Gerência; naquela época, o Internato da Escola de Enfermagem Carlos Chagas.
A instalação da EECC na modalidade de externato com sede administrativa em salas do Hospital São Vicente de Paulo, cedidas pelo Diretor da Faculdade de Medicina, Professor Alfredo Balena, e pelas Irmãs Vicentinas não era, necessariamente, o que desejava Laís Netto dos Reys. Ela queria que a Escola possuísse uma residência própria com todas as condições necessárias a uma sólida formação da enfermeira. Uma formação moral e intelectual, que ela própria teve como diplomada pioneira da EEAN, em um internato que
possuísse “conforto, luxo e elegância”, enriquecida com os cursos e aperfeiçoamentos realizados nos Estados Unidos e na Europa.
Formar enfermeiras, para Laís Netto dos Reys, era desenvolver-lhes um espírito de serviço; uma cultura intelectual geral e um arsenal técnico específico da enfermagem; era prepará-las para os desafios e os sacrifícios que, segundo ela, a profissão exigia. Uma profissão que “reclama de vós [enfermeiras], ações de almas escolhidas, atitudes da individualidade da elite, impõe grandes e árduos deveres mas nobilíssimos e fecundos”. Ou seja, formar enfermeira, para Laís, era proporcionar à mulher brasileira – aquela que é escolhida – o exercício de uma profissão excepcional que tem como ideal o serviço a Deus, à Pátria e à humanidade (REYS, 1936, p. 67).
Nessa perspectiva de modelo de formação da mulher-enfermeira, Laís Netto dos Reys, na organização da EECC, parecia ter se inspirado na mesma fonte que a maioria das enfermeiras de todo o mundo. O Programa Educativo de Escola de Enfermagem organiza os conhecimentos básicos de um currículo de enfermagem em três classes. A primeira seriam os Princípios, fatos, instrução, denominados Ciência da Enfermagem; a segunda se refere às
Técnicas e Habilidades Especializadas, sob a denominação de Artes de Enfermagem; e a
terceira diz respeito aos Ideais e tratam da atitude social e padrão profissional de conduta, englobados na denominação de Ética de Enfermagem ou Espírito de Serviço. Segundo concepção corrente à época,
a primeira classe de conhecimentos representa o que as enfermeiras devem
saber ou compreender sobre o seu trabalho; a segunda, o que ela deve estar
preparada para fazer; e a terceira, que tipo de pessoa deve ser.[...]. Tal plano pressupõe o desenvolvimento harmonioso de todo o indivíduo, o coração, o cérebro e as mãos, representando respectivamente o lado emotivo, intelectual e prático de sua personalidade (STEWART, 1945, p. 51, grifos da autora).
Assim, para a incorporação desses elementos em sua formação, principalmente aqueles referentes à primeira e terceira classes, a futura enfermeira necessitava de um espaço
apropriado para conviver em comunidade, ou seja, exigia-se dela uma formação na modalidade de internato. Conviver em comunidade significava conviver em família – a diretora-mãe com as alunas-filhas. Em diversos depoimentos que falam do cotidiano vivido na EECC, foi possível apreender elementos que permitiram mostrar que Escola começou a funcionar como “um teto que nos desse a ilusão de ‘home’ familiar”, o que aconteceu somente após a instalação do internato. Por isso, que depois de criada a Escola, “a fundação do Internato tornou-se preocupação constante de nossa incansável Diretora, D. Laís Netto dos Reys, que desejava reunir suas alunas, principalmente, as de fora que viviam em hotéis e pensões” (CARDOSO, 1936a, p. 52).
O internato, já no século XIX, era o locus da educação das meninas/moças em geral e da formação das enfermeiras, em particular. Desde a criação da primeira escola de enfermagem por Florence Nigthingale, exigiu-se o regime de internato visando à formação moral e intelectual da enfermeira. É nessa época que, segundo Muniz (2003), surge a “nova mulher” – aquela que passa a transitar em espaços externos aos das famílias, mas sob estrito controle. É o momento histórico em que ocorrem “novas formas de sociabilidade entre os sexos, com a introdução da convivência nos salões – espaços intermediários entre o lar e a rua –, abertos de tempos em tempos para a realização de saraus noturnos, jantares e festas”. Assim,
cafés, clubes literários, teatros, bailes e outros acontecimentos da vida social tornam-se locais e ocasiões em que a presença das mulheres da elite se faz notar, sob o olhar atento dos pais, maridos ou irmãos. Vigilância que se justificava sob o argumento de sua ‘natureza mais frágil, sensível, emocional e passiva’ e, portanto, presa fácil quanto aos ‘descaminhos da honra’, no sentido de perda da virgindade, atributo que conservava tendo peso de ouro na sociedade brasileira provincial (MUNIZ, 2003, p. 158).
A ocupação dessa “nova mulher” nos “novos espaços” passa a exigir “nova educação”. Como diz Muniz (2003, p. 159), vai exigir “um outro tipo de aprendizagem – além
daquela que as preparava para os cuidados com os filhos e a casa –, a de comportar-se em público, de conviver de maneira polida, recatada e distinta”. Para tanto,
educandários femininos, especialmente internatos dirigidos por religiosas, foram criados para receberem essas jovens bem-nascidas – às vezes nem tanto -, para prepará-las para assumirem, futuramente, o trono de um reino que lhes estava predestinado pela sua condição de gênero. Aulas de civilidade, música, literatura, geografia, história, desenho, pintura e economia doméstica foram acrescentadas aos limitados currículos existentes, de forma a instrumentalizá-las para o exercício desse reinado doméstico, para ocuparem o ‘trono’ que lhes pertencia, com certeza, por prescrição, mas, nem sempre, por desejo ou escolha (MUNIZ, 2003, p. 159- 160).
Pode-se, também, dizer que esta “nova” educação trazia a idéia de educar-se para educar. Nesse sentido, a sociedade e as instituições escolares voltadas para a educação feminina mobilizavam uma série de rituais, de símbolos, de doutrinas e de normas para a produção dessa nova mulher que iria desempenhar novos papéis em “novos” espaços sociais que passaram a lhe ser permitidos por essa mesma sociedade. Um espaço próprio para esse tipo de concepção de educação era, portanto, necessário.
Na enfermagem, o regime de internato, segundo Barreira (1992), favorecia o recrutamento de candidatas ao curso, pois a oferta de residência era essencial, tanto do ponto de vista financeiro como para a obtenção do consentimento das famílias, para as quais “a escola dava a garantia de resguardar a moral de suas filhas, assegurando que sua honra não corria perigo, ou seja, que sua moça não se perderia” (BARREIRA, 1992, p. 189, grifo da autora). Além disso, para a formação da enfermeira em consonância com a concepção de educação da mulher que perpassava na sociedade, o internato era considerado indispensável. Isto é, era concebida a idéia de que a enfermeira necessitava, além da formação técnica, de outra não menos importante, que era a formação do caráter, a disciplina e o desenvolvimento de certas qualidades especiais, só possíveis em um regime de internato (A ENFERMAGEM EM MINAS, 1937e, p. 19).
O internato como dispositivo pedagógico e de socialização, ou seja, como espaço de controle e de vigilância dos tempos e espaços escolares na enfermagem, apresenta certas características que se aproximam das suas origens no catolicismo. De acordo com Ivan A. Manoel, em seu estudo sobre a Igreja e a educação feminina no Brasil, o internato “remonta suas origens aos mosteiros e ao cenobitismo da Alta Idade Média, quando milhares de pessoas se afastaram do mundo para resguardar a sua espiritualidade” (MANOEL, 1996, p.76-77). No século XVI, fundamentalmente, com os jesuítas, o internato passou a desempenhar as funções de preparar homens para exercer a direção da sociedade de acordo com os preceitos do catolicismo tridentino, deixando de significar apenas uma escola de formação de quadros para próprio clero.
A teoria pedagógica que sustentava essa modalidade de ensino partia, em primeiro lugar, da idéia de a criança ser naturalmente inclinada ao mal. Se o batismo apaga o pecado original, ele não fortalece a criança diante do mal, necessitando, para isso de um lugar isolado, seguro, onde a alma infantil fosse ensinada a vencer as suas inclinações pecaminosas. Em segundo lugar e plenamente no século XIX, foi fundamentada na concepção de que o mundo moderno está em permanente crise, ameaçado por todos os lados pelo mal, “revivido pelo humanismo renascentista e alimentado pela ciência materialista e pelo liberalismo”. Assim, para uma educação produtiva, necessariamente, precisava-se isolar a criança de todo contato com esse mundo mau e corruptor. O internato “seria escola e guardião, ensinaria e defenderia as ‘flexíveis almas juvenis’” (MANOEL, 1996, p. 77).
Para a educação em geral, os alunos, ao término dos estudos na escola-internato, estariam fortalecidos, de tal modo que, ao voltarem para o mundo exterior, não seriam corrompidos por ele. Ao contrário, “deveriam ser fortes o bastante para atuarem como focos de recristianização da sociedade”. Para a educação feminina em particular, “o internato católico se tornava mais rigoroso porque, conforme a teoria ultramontana, a mulher, por ser
presa mais fácil do mal, deve estar sob constante vigilância para resguardar sua pureza” (MANOEL, 1996, p. 77-78).
Enquanto recurso pedagógico, o internato fundamentava-se na pedagogia da vigilância: “Vigilância de todos os instantes, de todos os movimentos, de todos os atos públicos ou particulares, de forma que a privacidade fosse desmontada e todas ficassem diante de todas sem características próprias, sem marcas pessoais, sem individualidade”. Nesse sentido, era estabelecido um conjunto de normas e regras para modelar a mulher. Além dos ornamentos culturais, da polidez, ela devia portar a marca indelével da educação conservadora. Por isso, “gestos, comportamentos, linguagem, tudo era vigiado, controlado, moldado” (MANOEL, 1996, p. 78).
Nessa linha de pensamento, é importante destacar que, mesmo utilizando outros espaços institucionais para as atividades administrativas e para o ensino teórico e prático, como a Faculdade de Medicina e as instituições de saúde, o internato aqui estudado era a primordial referência sociocultural para todas as pessoas que transitavam pela Escola. As pessoas que residiam e outras que não residiam no internato, mas que frequentemente participavam das suas atividades, foram consideradas, neste estudo, como as principais idealizadoras e construtoras da EECC. Ademais, cotidianamente, essas pessoas produziam e reproduziam uma cultura escolar a partir de modelos culturais diversos que visavam à incorporação de comportamentos e atitudes hierarquizadas e disciplinares pelas suas alunas, que eram consideradas adequadas para as futuras enfermeiras.
Tratando-se das normas e das medidas estabelecidas para o pleno funcionamento do internato, o Regulamento Interno da EECC trazia com muitos detalhes as prescrições:
1 – A mensalidade será de 130$000 (incluindo a taxa de estudo) 2 – A Escola não se responsabiliza por conta pessoal.
3 – O pedido que não constar do cardápio de cada refeição será considerado extra.
4 – Os telefonemas interurbanos serão passados só mediante autorização da Secretaria da Escola.
6 – Não é permitido sair do refeitório para atender telefonemas. Somente as chefes e as diplomadas por motivo de trabalho.
7 – As pessoas que estiverem de folga deverão atender ao sinal das refeições. Quando em serviço deverão empregar meios para chegarem na hora.
8 – O café pela manhã será servido até as 8 horas.
9 - De 15 em 15 dias uma enfermeira será destacada para tomar conta das doentes da casa. (inclusive empregadas)
10 – As refeições servidas no quarto serão consideradas extraordinárias, salvo em caso de doença a juízo da Diretora.
11 – A enfermeira do serviço da noite deverá comparecer ao jantar. Estando acordada à hora do almoço, deverá descer.
12 – Havendo enfermeiras no serviço da noite, o silencio deverá ser mantido até 17 horas. Todas devem ter em mente que o sono do dia é mais difícil que da noite. Compete à Ecônoma do Internato manter o silêncio. A enfermeira da noite só poderá sair, depois das 17 horas. Antes, só com licença da Diretora, Assistente ou Inspetora.
13 – A hora do Santo Sacrifício da Missa, e do Terço, pedimos o comparecimento de todas que se acharem no Internato.
14 – As sessões do Grêmio ‘9.55’ serão realizadas nas seguintes ocasiões: 19 de Março, 19 de Julho, 22 de Setembro e no mês de Dezembro após o termino das provas finais.
A 1ª sessão inaugural, 19 de Março, da data de aniversario do Internato oferecido às novas alunas.
A 2ª sessão, 19 de Julho, em homenagem à data da inauguração da Escola. A 3ª sessão, 22 de Setembro, aniversário da nossa ex-Diretora, fundadora, D. Lais Netto dos Reys.
A 4ª e última sessão, será por ocasião do encerramento do ano letivo. O Grêmio foi fundado para as alunas, todas devem empregar meios para a boa realização das sessões, dando cada uma o melhor que puder.
MEDIDAS GERAIS PARA AS ALUNAS INTERNAS E EXTERNAS
1 - Todas deverão ser pontuais nas aulas e no serviço.
2 – Sendo o atraso por questão de enfermaria, será verificado antes quem o ocasionou.
3 – com 1/3 de faltas a aluna perde a matéria, perdendo três matérias, perde a série. Não haverá segunda época. Haverá segunda chamada em dias previamente marcados pela Diretoria da Escola.
4 – A aluna não poderá freqüentar as aulas quando em licença de trabalho. A licença será marcada com 5 dias de antecedência no mínimo.
5 – As alunas terão inteira liberdade de fazer suas reclamações que serão atendidas quando justificadas e puder (REGULAMENTO INTERNO, 193-).
Não foram encontrados registros sobre a forma utilizada pela EECC para que todas as moradoras do internato tivessem conhecimento desse regulamento. Contudo, será apresentado, no decorrer deste capítulo e do próximo, as formas diversas e as diferentes estratégias que ela usou para colocar em prática o seu jeito de ser-fazer-enfermeira.
É importante destacar, também, que na sociedade moderna os poderes constituídos visam aplainar as diferenças, uniformizar os indivíduos e harmonizar a vida social. Assim, utilizam de práticas disciplinares com o propósito de produzir e reproduzir corpos dóceis, disciplinados, educados com o mínimo exercício da violência explícita e o máximo exercício da vigilância contínua, implícita e internalizada.
De um lado, observa-se que as prescrições e as interdições institucionais, como recursos pedagógicos, se materializavam nos mecanismos de controle e de vigilância dos tempos e dos espaços escolares: hora de levantar, de deitar, de alimentar, de estudar, de rezar, de lazer, de silenciar, etc. De outro, se tais prescrições permitiam a existência do internato, a convivência nesse espaço apresentava suas particularidades. Isto é, como forma de suavizar ou de mascarar ou de até mesmo de aprender a conviver com os mecanismos opressores, as moradoras da Casa Amarela da Serra adotavam atitudes e comportamentos afetivos e de sociabilidade, criando um espaço de convivência prazerosa que, certamente, atuava como um “respiradouro social”.
Dessa forma, o espaço da sociabilidade, construído e compartilhado pelas moradoras da Casa Amarela da Serra, foi se descortinando e sendo apreendido por meio da sua materialidade no jornal Cinco p’ras Dez, como será apresentado seguir.