Para os defensores do discurso psiquiátrico do século XX, a homossexualidade sempre foi designada como inversão sexual, isto é, como anomalia psíquica, mental ou de natureza constitutiva e, em quaisquer circunstâncias, como a expressão de um distúrbio de identidade ou de personalidade, podendo levar até à psicose e frequentemente ao suicídio.
As variantes do comportamento sexual que se afastam da heteronormatividade, como a homossexualidade e a bissexualidade, frequentemente se inscrevem no imaginário coletivo como evidência de desvio, doença, perversão ou falha de caráter. Além disso, ainda povoam o imaginário popular representações que associam a diversidade sexual a vivências de solidão, isolamento e segregação social (SANTOS; BROCHADO-JUNIOR; MOSCHETA, 2007).
Freud não classificava a homossexualidade na categoria das práticas sexuais perversas (zoofilia, fetichismo, coprofilia, exibicionismo etc), pois distinguia a perversão, estrutura psíquica comum aos dois sexos, dos atos sexuais praticados sobretudo pelos homens e às vezes pelas mulheres, fossem ou não homossexuais. Roudinesco considera que “o homossexual freudiano encarna um ideal sublimado
da civilização” (2003, p. 184). Além disso, ela observa que Freud, apesar de não ter superado os limites conceituais de sua época, que atrelavam a homossexualidade aos padrões heteronormativos, não lançou um olhar reducionista sobre o fenômeno da homossexualidade, diferentemente de alguns de seus seguidores. Para fundamentar tal análise, Roudinesco recorre à clássica resposta de Freud a uma mãe que se preocupava com a possível homossexualidade de seu filho. A respeito de tal indagação Freud defendeu em 1935 que a homossexualidade não é evidentemente uma vantagem, mas nada nela deve ser motivo de vergonha, pois não pode ser considerada nem como um vício, nem como um aviltamento, tornando- se impossível classificá-la como doença. Segundo o idealizador da psicanálise, tal
manifestação do comportamento humano deve ser considerada como uma variação da função sexual.
Para Roudinesco (2003), somente com os trabalhos de Foucault e John Boswell, na década de 1970, e com os grandes movimentos de liberação sexual é que se enfraqueceu a associação mecanicista entre homossexualidade e doença. Para esses autores, a prática sexual assume uma peculiar conotação, marcada também pela diversidade. A partir de então, começa-se a falar não mais de homossexualidade e sim das homossexualidades, para significar que esta não era mais uma estrutura imutável, mas um componente multiforme da sexualidade humana.
Apesar das mudanças no campo teórico, persistem ainda hoje mitos e preconceitos em torno das práticas homoeróticas. Para Santos; Brochado-Junior; Moscheta, (2007), os mitos e preconceitos são alimentados pela desinformação e, socialmente construídos, fazem com que a sexualidade dos indivíduos com orientação sexual divergente da heteronormativa seja vivida com culpa, vergonha e constrangimento, desencadeando angústia e sofrimento.
Segundo Teixeira-filho; Toledo; Godinho (2007), O conceito de homofobia foi formulado primeiramente pelo psicólogo Joahn Smith na década de 1970. Na atualidade representa qualquer sentimento de ódio, repulsa, aversão, descrédito e desprezo em relação à pessoa homossexual (ou àquela que aparenta ser) ou a tudo que faça referência à homossexualidade no outro ou em si próprio. A base da homofobia é o heterocentrismo - conectado que está ao modo de pensar, agir e sentir, pautados na arbitrariedade do sexo biológico usado como premissa ‘verdadeira’ sobre os sexos, que posiciona a heterossexualidade como referência primeira dos desejos, ideais, princípios e valores. Assim, o que se associa à heterossexualidade “[...] produz, por sua vez, um sentimento de superioridade em relação a todas as outras manifestações de orientação e/ou identidade sexual [...] que basicamente define a orientação heterossexual, como ‘normal [...] compulsória a todas as outras orientações sexuais”. (TEIXEIRA-FILHO; TOLEDO; GODINHO, 2007, p. 304).
A palavra homofobia conquistou maior visibilidade, porém, no século XXI,
também impulsionada pelos movimentos sociais. O termo adquire maior inserção social e passa a ser utilizado para dar visibilidade à aversão sofrida pelos homossexuais no entorno social, tornando-os sujeitos de segunda classe ou de
cidadania inferior, bem como para intensificar campanhas de combate à violência que incide sobre estes grupos destoantes da heteronormatividade.
De acordo com Daniel Borrillo (2010), a diferença homo/hétero é constatada, mas serve também para ordenar um regime de sexualidades em que os elementos heterossexuais são os que merecem qualificação de modelo social e de referência para qualquer outra sexualidade. Nesta ordem sexual, o sexo biológico (macho/fêmea) produz um comportamento sexual único (hétero), balizado na diferenciação masculino e feminino. A associação entre sexismo e homofobia aparece como elemento necessário ao regime binário das sexualidades. Desse modo, a divisão dos gêneros e do comportamento heterossexual funciona, de preferência, como um dispositivo de reprodução da ordem social. Tomada por tais referências, a homofobia assume um caráter vigilante, responsável pela manutenção das fronteiras tanto sexuais (hétero/homo), quanto de gênero (masculino/feminino).
No Brasil, a noção de homofobia adquiriu uma dimensão política para chamar atenção para todos os tipos de violência que envolvem a população LGBTTT. A Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) utiliza a palavra homofobia para qualificar o medo, a aversão ou o ódio
irracional aos homossexuais e, por extensão, a todos os que manifestem orientação sexual ou identidade de gênero diferente dos padrões heteronormativos. A homofobia está relacionada, portanto, à discriminação e à opressão baseadas na orientação sexual. Por meio do heterossexismo, a heterossexualidade subordina a homossexualidade aos seus padrões, tornando-a inferior; a ideologia sexista a impõe como modelo único e compulsório, que varia de intensidade e frequência, de sociedade para sociedade. A homofobia, conforme a ABGLT, se manifesta em diferentes contextos sociais, como, por exemplo, família, local de trabalho, escola, igreja. A falta de políticas afirmativas e a inserção midiática pejorativa do tema podem potencializar os efeitos dessa aversão, intensificando o sofrimento psíquico.
Assim, há de pensar em como ocorre esse afetamento e quais as linhas de fuga possíveis no processo de subjetivação e construção das famílias. Estariam as pessoas que sofrem homofobia equipadas minimamente para enfrentar os sofrimentos desencadeados pela orientação sexual tida como desviante? Dessas consequências podem se desdobrar dois processos: autopunição e/ou isolamento; ou a recusa de si mesmo e do semelhante quando identifica supostos graus de desvios respaldados pelo crivo da homofobia que coloca o comportamento
heterossexual como o único aceitável. Um círculo vicioso pode ser instalado com a internalização da homofobia e sua perpetuação nas relações sociais e no âmbito privado. O sujeito homossexual passa a compartilhar sentimentos homofóbicos e, por mecanismo defensivo, a desqualificar seu semelhante. Ao analisar esse fenômeno, deve-se ter cuidado para não responsabilizar apenas o sujeito que se torna seu agente, desconsiderando-se as influências sociais e históricas que contribuem para sua formação.
Miskolci (2011), em um artigo intitulado Desejo e solidão, também aborda os
efeitos da homofobia na produção de subjetividades. De acordo com o autor, a política da vergonha opera de forma ativa, seja por meio de ações como a perseguição sistemática, a violência simbólica e física, seja pela ignorância proposital da existência do desejo homoerótico. Esta ignorância do sofrimento perpetrado em quem vem a expressá-lo ou senti-lo em segredo é reveladora ao contribuir para uma política que se vale da ameaça da vergonha pública e da desqualificação moral. Portanto, o terror do estigma cria desigualdades, isolamento, em suma, relega o desejo socialmente proscrito ao segredo, criando subjetividades marcadas pelo temor de si mesmas e da exposição do que as tornaria a encarnação do abjeto diante da suposta maioria das pessoas “normais”. Assim, paradoxalmente a sexualidade se constrói em uma dinâmica de conhecimento e ignorância, entre o que pode ser visível e o que é relegado ao segredo remetido ao campo do privado.
A heteronormatividade, segundo Miskolci (2011), privilegia subjetivações normalizadas, vigiadas e sob constante pressão. Incitadas a apagar seu desejo do convívio cotidiano e – ao mesmo tempo – a compreenderem a si mesmos como produto dele, constituem um aparente paradoxo que se dissolve ao compreendermos que compõe uma dinâmica em que a aceitação do desejo como verdade gera o segredo da abjeção, da impureza da qual o próprio sujeito quer se livrar. Daí não se estranhar que o medo e o nojo pelo próprio desejo levem muitos a se identificarem com a cultura dominante que repele com asco sua “verdade”.
Muitos são os que buscam contato com pessoas do mesmo sexo, mas temem em si próprios - e no possível parceiro - tudo o que possa denunciar um erotismo que afrontaria a crença na heterossexualidade como a própria ordem natural do sexo. São sujeitos moldados por violências heterossexistas que os tornam homofóbicos, interiormente acossados pelo medo de serem descobertos, de se tornarem vítimas de seu desejo, de serem traídos por aqueles que amam. O cerne
destes medos, no caso dos homens, é de que o desejo homoerótico os leve a confrontar a ordem social, perdendo o privilégio do gênero masculino, o que, de certa forma, os exporia a serem humilhados e (mal) tratados como mulheres.
É sobre essa base que Welzer-Lang (2009) afirma que a homofobia está diretamente associada à dominação masculina, pois as relações sociais de sexo são exercidas de maneira transversal ao conjunto da sociedade, fazendo com que homens e mulheres sejam perpassados por ela. Desse modo, a homofobia é definida como a discriminação contra pessoas que mostram, ou a quem se atribuem algumas características próprias do outro gênero. Em razão disso, demarcam-se rigidamente as fronteiras entre os gêneros, refutando-se até mesmo a noção de uma bissexualidade fundadora do desenvolvimento psíquico, também preconizada por Freud. Welzer-Lang acrescenta ainda que o paradigma naturalista da dominação masculina divide homens e mulheres em grupos hierárquicos, dá privilégios aos homens à custa das mulheres. Os homens que são tentados, por diversas razões, a não reproduzir, ou mesmo a recusar em si próprios esse ideal de machismo que lhes concede privilégios são ameaçados por reações homofóbicas, havendo uma pressão social para que retomem suas aspirações de seguir as normas da virilidade. Assim, o heterocentrismo cria categorias e produz diferenças entre os dominantes, homens ativos, penetrantes, e os outros, aqueles que são penetrados, logo, dominados. Claramente, a homofobia se aplica aos homossexuais, bissexuais, travestis e transexuais, desvalorizando-os por não adotarem, ou serem suspeitos de não adotar, as figurações sexuais ditas naturais.
Observando-se os efeitos da homofobia nos homossexuais, podem-se pressupor suas consequências também nas famílias homoafetivas com filhos adotivos, embora não tenhamos conhecimento de dados empíricos que fundamentem tal assertiva. Inclusive, em nosso levantamento sobre as adoções por casais homossexuais nas Comarcas do interior do Estado de São Paulo, apresentado no capítulo 4, constatamos que não houvera até aquele momento nenhuma recusa de adoção a casais homoafetivos por parte do Judiciário, no universo pesquisado. Conforme já ressaltado na introdução deste trabalho, até o momento não ocorreram institucionalmente discussões mais aprofundadas sobre o tema, o que nos faz presumir uma possível dificuldade em lidar com ele. Também não se consolidaram referências para atuação das demandas oriundas das famílias homoafetivas, o que deixa os sujeitos demandantes dos serviços de adoção à mercê
de interpretações individuais dos operadores do Direito e demais profissionais envolvidos.
Butler (2003) discute no artigo O parentesco é sempre tido como heterossexual que as variações no parentesco que se afastam das formas diádicas
das famílias heterossexuais, garantidas pelo casamento monogâmico e heterossexual, além de serem consideradas perigosas para as crianças, colocam em risco as leis consideradas naturais e culturais que supostamente amparam a inteligibilidade humana.
Para a autora, alguns dilemas se instalam quando se busca a reivindicação do casamento e da parentalidade por parte da comunidade gay e lésbica. Nesse sentido, ela argumenta que viver sem normas de reconhecimento provoca um sofrimento significativo e formas de desempoderamento que frustram as próprias distinções psíquicas, culturais e materiais que marcam os interesses da comunidade gay e lésbica. No entanto, a demanda por reconhecimento, que é politicamente poderosa, pode levar a novas e rígidas formas de hierarquia social e a novas maneiras de apoiar e ampliar o poder do Estado, se não se institui um desafio crítico às próprias normas de reconhecimento fornecidas e exigidas pela legitimação do Estado. Ou seja, ao delegar somente ao Estado o reconhecimento, restringem-se as questões políticas atinentes ao campo da parentalidade e da conjugalidade ao domínio das normas carregadas de ideologia, que acabam por excluir subgrupos que não atendem aos padrões morais vigentes.
Quais seriam as possibilidades existenciais da família homoafetiva tendo em vista as implicações do heterossexismo na cultura, os efeitos da homofobia no processo de subjetivação e seus desdobramentos no pensamento e no comportamento preconceituoso? A família homoafetiva conseguiria superar o determinismo biológico que engendra um binarismo essencialista e aprofunda a separação entre o masculino e o feminino? Haveria espaço para um parentesco que
questionasse as imposições simbólicas sempre referendadas em matriz heterossexual, sem capturá-lo em novos e rígidos padrões normativos, como alerta Butler?
As famílias homoafetivas ousam reivindicar sua existência em um campo de regras e valores incorporados historicamente. Resta saber como elas se constituirão frente às influências da tradição, das contradições e das divergências que afetam sua própria formação e existência.
O percurso teórico até aqui adotado procurou contemplar as especificidades de nosso estudo, pois a adoção por casais homoafetivos, por agregar fenômenos sociais e psíquicos, se mostra um fenômeno complexo e multideterminado.
Devido a essa complexidade, retomamos as variações sociais, políticas e legais que interferiram e ainda interferem na constituição e na dinâmica da família. Procurou-se dar destaque aos aspectos emocionais presentes na formação do par conjugal e na vivência de parentalidade. A essa discussão foram agregados o tema dos novos arranjos familiares e a questão do preconceito e da homofobia, tendo em vista serem esses subsídios importantes na delimitação de nosso objeto e, ainda, na formulação da questão central de nosso estudo.
Como já dito, a questão central se liga aos processos subjetivos presentes nas famílias formadas por casais homoafetivos, cujo estudo nos leva a questionar se esse arranjo familiar tão diferenciado organiza-se por meio de referências e valores que rompem com as práticas e vivências de parentalidade atualmente encontradas nas famílias tradicionais, ou por meio de valores e conteúdos psíquicos já delimitados e historicamente incorporados no campo social.
Com base nessas reflexões e articulações teóricas, apresenta-se o contexto no qual foram levantados os dados junto aos participantes, dando continuidade ao delineamento do estudo de caso.
5 CAPÍTULO 4 MÉTODO