Há mais de meio século, as nações do mundo afirmaram na Declaração Universal dos Direitos Humanos que “toda pessoa tem direito à educação”. Porém, segundo a Declaração Mundial sobre Educação para Todos: satisfação das necessidades básicas de aprendizagem (Declaração de Jomtien de 1990)18 (UNESCO, 1998), não obstante os esforços realizados por países do mundo inteiro para assegurar o direito à educação para todos, persistem as seguintes realidades: mais de 100 milhões de crianças, das quais pelo menos 60 milhões são meninas, não têm acesso às series iniciais do ensino fundamental. Mais de 960 milhões de adultos – dois terços dos quais mulheres – são analfabetos, e o analfabetismo funcional é um problema significativo em todos os países industrializados ou em desenvolvimento. Mais de um terço dos adultos do mundo não têm acesso ao conhecimento impresso, às novas habilidades e tecnologias, que poderiam melhorar a qualidade de vida e ajudá-los a perceber e a adaptar-se às mudanças sociais e culturais. E mais de 100 milhões de crianças e incontáveis adultos não conseguem concluir o ciclo básico, e outros milhões, apesar de concluí-lo, não conseguem adquirir conhecimentos e habilidades essenciais, entre estes, os conhecimentos e habilidades matemáticas.
Sendo construção humana, a Matemática pode ser entendida como uma construção social e, como tal, sujeita à concepção que cada sociedade tem do saber e da ciência. Ao considerarmos em específico a sociedade moderna, percebemos que grande parte das informações veiculadas em seu interior é expressa através da linguagem matemática. Taxas, percentuais, coeficientes multiplicativos, diagramas, gráficos e tabelas estatísticas são apenas alguns exemplos dessas informações que permeiam o mundo em que vivemos.
Para compreendê-las e decifrá-las, é mister que sejamos matematicamente alfabetizados, isto é, que estejamos dentro da faixa de classificação que o Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (INAF) chama de “alfabetismo nível pleno”, com as pessoas cujas habilidades não mais impõem restrições para compreender e interpretar elementos usuais da sociedade letrada. No que se refere especificamente à Matemática, isso implica resolver problemas que exigem maior planejamento e controle, envolvendo percentuais, proporções e cálculo de área, além de interpretar tabelas de dupla entrada, mapas e gráficos, ou seja, possuir tais habilidades básicas preconizadas pelo NCSM. Para tanto, Alves (2002, p. 60) chama à responsabilidade social a escola, alertando que esta
não deve permitir que seus alunos saiam despreparados para atuar como cidadãos conscientes em uma sociedade cada vez mais permeada pela ciência e pela tecnologia. Parte disso consiste em habilitá-los a resolver problemas do nosso contexto, que possam ser formulados matematicamente. Mas essa capacidade operativa deve ser consequência da compreensão das estruturas, das ideias e dos métodos matemáticos pelos alunos, e não de uma simples aplicação de algoritmos e fórmulas.
Os dados do INAF/Brasil19, em sua edição de 2007, confirmam uma evolução positiva de sete por cento, em relação aos dados de 2001, do alfabetismo funcional no país. Saindo de 61% dos funcionalmente alfabetizados em 2001/2002 para 68% em 2007, tal crescimento põe em evidência que a escolarização é, de fato, o principal fator de promoção das habilidades de alfabetismo da população brasileira: quanto maior o nível de escolaridade, maior a chance de atingir bons níveis de alfabetismo. No entanto, os resultados também mostram que nem sempre o grau de escolaridade garante o nível de habilidades esperado, conforme demonstrado no quadro abaixo.
19 Os dados do INAF são coletados anualmente junto a amostras nacionais de 2000 pessoas, representativas da
população brasileira de 15 a 64 anos, residentes em zonas urbanas e rurais em todas as regiões do país. Em entrevistas domiciliares, são aplicados testes e questionários. O intervalo de confiança estimado é de 95% e a margem de erro máxima estimada é de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos sobre os resultados encontrados no total da amostra. O INAF mede habilidades de leitura, escrita e matemática, independentemente do nível de escolaridade. O formato do teste de matemática é, resumidamente, o seguinte: 36 questões de complexidade variada; demandam habilidades de escrita e leitura de números e de representações matemáticas, como gráficos, tabelas etc.; análise de situações-problema com operações aritméticas; raciocínio matemático e cálculo; utilização de calendário, cédulas e moedas, fita métrica, calculadora, régua; questões respondidas oralmente, somente 1 questão escrita. Em ambos os casos são levantadas também as condições econômicas, socioculturais e familiares dos entrevistados. A realização do INAF, bem como a publicação de seus resultados e do livro Letramento no Brasil: Habilidades Matemáticas fizeram com que diversas esferas da sociedade se posicionassem e debatesse a educação e suas conseqüências, tema fundamental para o crescimento e desenvolvimento do Brasil. Disponível em http://www.vivaleitura.com.br/pnll2/mapa_show.asp?proj=47. Acesso em 14/04/2010.
Quadro 1 Percentual dos níveis de alfabetismo por grau de escolaridade 1a a 4a série 5a a 8a série Ensino Médio Ensino Superior
Total Brasil (com alguma escolaridade)
Total Brasil (inclui pessoas sem escolaridade) Analfabeto Rudimentar Básico Pleno 12 52 31 5 1 26 53 20 0 8 45 47 0 2 24 74 4 26 41 29 11 26 37 26 Analfabetos Funcionais 64 27 8 2 30 37 Funcionalmente Alfabetizados 36 73 92 98 70 63 Fonte: INAF (2007)
A esse respeito, os dados dos níveis de alfabetismo por grau de escolaridade apresentam-se reveladores. Se considerarmos apenas o percentual dos alunos que cursaram ou estavam cursando o nível médio, veremos que 8% destes foram enquadrados no nível rudimentar de alfabetismo, ou seja, foram considerados analfabetos funcionais. Embora 92% dos entrevistados dentro dessa faixa de escolaridade fossem avaliados como funcionalmente alfabetizados, percebe-se que 45% desses possuíam nível básico de alfabetismo, enquanto 47% atingem o nível pleno de alfabetismo. Este último nível referido era o desejado e esperado, considerando o grau de escolaridade dos sujeitos pesquisados.
No período compreendido entre 2001 e 2007, os dados do INAF, ao retratar a distribuição dos diferentes níveis de alfabetismo pelo território nacional, evidenciam os contrastes e, por vezes, profundas diferenças regionais, como se vê no quadro a seguir.
Quadro 2 Percentual de alfabetismo por região no período 2001 – 2007
Norte e Centro Oeste
Nordeste Sudeste Sul Total Brasil Analfabeto Rudimentar Básico Pleno 18 23 35 24 15 31 35 19 8 25 38 28 5 24 38 33 11 26 37 26 Analfabetos Funcionais 41 46 33 29 37 Funcionalmente Alfabetizados 59 54 67 71 63 Fonte: INAF (2007)
Tomando como referência os dois resultados extremos, verificamos que a população da região Sul é a que tem níveis mais altos de alfabetismo, com 71% de funcionalmente alfabetizados, sendo 1/3 de forma plena. Na extremidade oposta, o Nordeste é a região que apresenta maior contingente de analfabetos funcionais, correspondentes a 46% da sua população entre 15 e 64 anos, e destes, 15% foram avaliados como analfabetos. Se
observarmos o percentual para o Brasil, vemos que 37% da população pesquisada foram enquadrados como analfabetos funcionais, ou seja, são pessoas que, mesmo sabendo ler e escrever, não possuem as habilidades de leitura, de escrita e de cálculo necessárias para viabilizar seu desenvolvimento pessoal e profissional.
Para melhor dimensionarmos os dados elencados acima, traremos alguns dos resultados em valores absolutos. De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (BRASIL, 2007), a população brasileira de 15 a 64 anos é de aproximadamente 70.900.433 de habitantes. Entre estes, e em conformidade com os índices apresentados pelo INAF (2007), 7.799.048 são considerados analfabetos absolutos e 26.233.160 são considerados analfabetos funcionais. Ao nos reportarmos aos índices apresentados pelo INAF, referentes à região Nordeste do Brasil, que segundo o IBGE tem aproximadamente 24.080.601 de habitantes entre 15 e 64 anos, constatamos que, entre estes, 10.595.464 são considerados analfabetos funcionais e 3.612.090 são considerados analfabetos absolutos.
Diante da magnitude que esses números revelam, podemos perceber que grande parte da população brasileira ainda se encontra sujeita às mais variadas formas de exclusão social. Esta, no entendimento de Castells, trazido por Skovsmose (2007, p. 61), é “o processo pelo qual certos indivíduos e grupos são sistematicamente barrados ao acesso às posições que poderiam capacitá-los a uma vida autônoma dentro dos padrões sociais delimitados pelas instituições e valores em um dado contexto”. E a educação formal de qualidade se constitui uma delas. Desprovido de “letramento e numeramento”20, que possibilitam ao indivíduo atuar em uma sociedade letrada, como também exercer com autonomia seus direitos e responsabilidades, ele fica refém das mais diferentes formas de exploração social, submetido a trabalhos desqualificados e escravos, com elevada carga horária de trabalho, baixa
20 O termo “letramento”, assim como “alfabetismo” foram utilizados no Brasil como correspondentes do termo
inglês literacy , que se refere à condição de pessoas ou grupos sociais que fazem uso da linguagem escrita. No ambiente educacional brasileiro, o termo que se popularizou foi o de letramento, que destaca a capacidade de utilizar a linguagem escrita em diversas práticas sociais, em contraposição a um conhecimento formalizado das regras de funcionamento do código. Posteriormente, por analogia, passou-se também a utilizar o termo numeracy para designar a capacidade de operar, em situações práticas, com informações que envolvem quantificação, medidas, representações espaciais e tratamento de dados. O INAF mantém o uso do termo alfabetismo – contraposto ao de analfabetismo – considerando os dois domínios: letramento (processamento de informação verbal em diversos formatos; compreensão e expressão escrita) e numeramento (capacidade de compreender e operar com noções de representações matemáticas envolvidas em situações cotidianas). As situações cotidianas envolvem operações mais simples ou mais complexas, tanto de leitura e escrita quanto de operações matemáticas; o que as caracteriza é envolver tarefas que não requerem muita especialização, tarefas que qualquer pessoa deveria poder realizar com autonomia, seja executar uma receita culinária, seja compreender os argumentos expressos no editorial de um jornal de grande circulação (INAF, 2007).
remuneração salarial, assistência precária à saúde, condições inadequadas de moradia e de saneamento básico, alimentação com baixo teor nutritivo, entre outras.
Excluído da possibilidade de participar ativamente no governo da sociedade, torna-se vulnerável à manipulação política e muitas vezes desprovido dos direitos fundamentais à vida, à liberdade, à igualdade perante a lei, culminando assim com a impossibilidade de exercer plenamente sua cidadania. A ausência de uma população educada tem sido um dos principais obstáculos à construção da cidadania. Educação aqui é entendida como processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral do ser humano, tento em vista sua integração individual, social, cultural e política. Como um dos principais direitos sociais, a educação tem sido historicamente um pré-requisito para a expansão de outros direitos, como os direitos civis e os direitos políticos, haja vista que é ela que permite às pessoas tomarem conhecimento destes e se organizarem para lutar por eles.
Os direitos civis, políticos e sociais compõem a base do que hoje entendemos por cidadania; no entanto, este termo, principalmente no mundo contemporâneo, tem sido apropriado com sentidos e significados diversos. Aparece no discurso de quem detém o poder, políticos e capitalistas, na produção intelectual e nos meios de comunicação. Segundo Carvalho (2007, p. 7) a palavra cidadania caiu, literalmente, na boca do povo. Mais ainda, também de acordo este autor, ela substituiu o próprio povo na retórica política. Não se diz mais “O povo quer isto ou aquilo”, diz-se “A cidadania quer”. Cidadania virou gente! Nela cabem hoje todos os sonhos e todas as realidades. Por isso, visando a entender melhor sua extensão, passamos neste ponto aos conceitos de cidadania.