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Outra tensão sobre o fazer literário que está na base das aspirações oulipianas é entre o metatextual de Magné e as obras de Calvino e Perec, as quais nunca se adequaram completamente a uma concepção tão programática e dogmática, pois falam também, como diria Compagnon, “do mundo”, o que já era salientado pelo discurso sobre o Oulipo pelo menos desde o fim dos anos 1980. Podemos trazer o texto de Philippe Lejeune, La mémoire et l’oblique (1991a), em que o traço autobiográfico é identificado como central na obra de Perec, sendo as lembranças da infância marcadas pelo signo do falso e do erro. Anteriormente, Claude Burgelin (1988) já havia escrito uma biografia de Perec em que, a todo o momento, certas obsessões temáticas, como o desaparecimento, a ausência, as enumerações e as listas são postas em diálogo com dados biográficos, sem que a história da vida se transforme em um relato do que Perec fez como escritor nem que a sua obra seja vista só ou majoritariamente do ponto de vista autobiográfico, configurando um estudo caracterizado por aquilo que Compagnon sugeriu como “ponderação”.

Houve ainda quem afirmasse que a única leitura possível da obra de Perec fosse através da sua história pessoal. É o caso de La Lettre fantôme, de Ali Magoudi (1996), para quem os textos de Perec emergem de um mundo onde o cerco das palavras é natural, em que “ni une ni deux” se transforma em “ni six moins cinq, ni cinq moins trois148 como ocorreria em La disparition (PEREC, 2009a, p. 252). O

148Considerando interdita a letra “a” em português, “nem uma nem duas” vira “nem seis menos cinco,

autor é mais do que responsável por todas as metamorfoses linguísticas do processo de escrita, cabendo ao leitor desvendá-las, nunca as criar, pois tudo já estaria predisposto:

Apostamos que eles [os críticos literários] foram muito mais numerosos satisfazendo-se com uma leitura no primeiro nível, na superfície, com um comentário estritamente centrado sobre a proeza lipogramática. A soma romanesca em sua totalidade somente é compreensível se diretamente ligada aos eventos históricos vividos pelo autor, sua família e com o povo judeu. Uma leitura anti-histórica cala simplesmente a significação interna da obra.149 (MAGOUDI, 1996, p. 27, tradução nossa)

A contrainte revela um exagero, estando o valor literário das obras saídas da prática dependentes de um jogo que somente considerações autobiográficas poderiam justificar. Ainda há o exemplo do estudo que mais claramente atrelou a realidade como leitura de mundo, abarcando, mas não se limitando, a autobiografia, a análise de Manet van Montfrans em La contrainte du réel (1999). Ali, demonstra-se que os textos de Perec, mesmo aqueles com as restrições mais rígidas, nunca deixam de remeter a seu projeto realista, que o acompanharia desde o início da carreira literária. Surgido no momento em que o Novo Romance categoricamente renunciava o realismo, Perec representaria uma “terceira via”. A partir de seus escritos críticos iniciais, sobretudo L.G., Montfrans destaca que o autor teve um primeiro momento caracterizado por um “realismo crítico”, ligado a Lukács e à concepção sartreana de linguagem, o que lhe permitiu não relegar um “real” para ele muito presente ou importante para ser ignorado, não o deixando cair em um anti- historicismo que Perec desaprovava em seus contemporâneos. No que se refere aos autores realistas do século XIX, o romancista prendeu-se às convicções de Lukács, apreciando-os sem as implicações de seus contemporâneos.

Ainda de acordo com Montfrans, em nenhum momento a obra de Perec aproxima-se da possibilidade de uma linguagem transparente. Seu mote, neste primeiro momento, o qual termina quando de sua entrada no Oulipo, em 1967, é que sua noção de linguagem aproxima-se da ideia de Sartre, para quem os problemas que ela impõe são de natureza ética, social ou política, mas jamais metafísica. Embora muito próximo a Barthes, sobretudo em As coisas, intimamente relacionado

149 “Gageons qu’ils furent beaucoup plus nombreux à s’être contentés d’une lecture au premier degré,

à plat, d’un commentaire strictement centré sur la prouesse lipogrammatique. La somme romanesque dans sa totalité n’est compréhensible qu’en liaison étroite avec les événements historiques vécus par l’auteur, sa famille et avec le peuple juif. Une lecture anhistorique passe simplement sous silence la signification interne de l’oeuvre.”

a Mitologias150, Perec recusa-se a seguir as trilhas do autor ligadas à semiologia ou referentes a uma linguagem neutra, de grau zero (cf. 1999, p. 17-48). Após a obra de 1965, Perec teria passado de um “realismo crítico” a um “realismo citacional”, conceito extraído das entrevistas do autor. De Acordo com Montfrans, sua obra não representaria nem um engajamento que negaria os problemas da escrita ao se esconder atrás de uma ideologia ortodoxa, nem se prenderia à forma e à linguagem de tal modo a privar um acesso ao mundo (cf. 1999, p. 49-72).

Como exemplo de uma proposta um tanto filosófica, fiquemos com a quilométrica Tese de doutorado de Jean-Luc Joly “Connaissement du monde: Multiplicité, exhaustivité, totalité dans l'oeuvre de Georges Perec”, cujo conceito de totalidade é emprestado de Christian Godin (1997). Conforme Joly (2004)151, se o pensamento dito moderno defende o vazio e o horror da totalidade e boa parte de suas produções não pretenderam ser mais do que fragmentárias, lacunares, abertas, diferenciais, relativas ou “rizomáticas”, a obra de Perec pretende-se absolutamente totalizante. Os textos de Perec permitem uma leitura através de oposições por vezes contraditórias, quais sejam: sua obra é homogênea ou heterogênea? Tende a ser plena ou vazia? Vai em direção à completude ou à incompletude? Trata-se de uma produção melancólica de um órfão da História diante do inevitável e do irrecuperável ou é a elaboração de um colecionador obstinado em montar puzzles? Estamos lidando com Beaux présents ou Belles absentes? Sob a “tutela” de Jules Verne ou Franz Kafka? De Barnabooth ou Bartleby? Para Joly, a obra de Perec seria naturalmente dual, dialética, como um palíndromo, e conteria sinteticamente o todo e o seu contrário. É a fenda e a sutura, o desalinho e o religamento, o buraco e a cobertura, o defectivo e o exaustivo de Magné (2004, p. 9). Perec mesmo se vê defronte desse dilema na necessidade/dever de enumerar:

Há em toda enumeração duas tentações contraditórias; a primeira é arrolar de tudo, a segunda esquecer alguma coisa; a primeira desejaria encerrar definitivamente a questão, a segunda a deixar aberta; entre o exaustivo e o inacabado, a enumeração parece-me assim ser, antes de qualquer pensamento (e antes de qualquer classificação), a marca mesma dessa necessidade de nomear e de reunir, sem a qual o mundo (“a vida”) ficaria para nós sem pontos de referências: há coisas diferentes que são,

150 Basicamente, Perec se inspirou nos seminários de Barthes e no livro Mitologias para escrever As coisas. Para mais infromações, ver o texto de Andrew Leak “Phago-citations: Barthes, Perec, and the Transformation of Literature” (1993).

151 Faremos referência ao número de páginas das citações de Joly de acordo com o arquivo

eletrônico da versão definitiva do texto não completamente diagramada, a qual nos foi enviada pelo próprio autor.

entretanto, um pouco semelhantes; podemos reuni-las em séries no interior das quais será possível distingui-las.152 (PEREC, 2003, p. 164, tradução

nossa)

Seguindo essa linha de raciocínio, Joly traz alguns exemplos dessa dualidade. À disforia ligada à vida de uma personagem e à criação de um mundo alegórico de W vem como resposta a euforia megalômana de A vida modo de usar, confecção de muitos “romances”, como aponta o subtítulo, preenchedores de todas as ausências possíveis. As tentativas de esgotamento de um lugar parisiense teriam como contraparte os saltos expansivos e sucessivos de Espèces d’espaces. Ao romance La disparition, em que não há a principal vogal da língua francesa, sucede naturalmente Les Revenentes, no qual o “e” é soberano. O gosto mesmo do autor pelo lipograma revela-nos o gozo lúdico e a melancolia profunda, sendo simultaneamente a formalização da ausência e a sua exaustão. Podemos afirmar que La disparition é caracterizada por uma ausência enorme, o que é compensado pela produção alegre de uma totalidade possível, o paradigma das palavras da língua francesa contendo “e”. Dividida e complementar, seja por meio das relações de um texto com outro, seja por meio das relações de um mesmo texto, a obra de Perec possui, de acordo com Joly, uma contemporaneidade trágica (JOLY, 2004, p. 10). Ao mesmo tempo, não deixa de enfatizar a organização do mundo pela organização da escrita:

Escrever: tentar meticulosamente reter alguma coisa, fazer com que alguma coisa sobreviva: extrair algumas migalhas precisas do vazio que se cava, deixar em alguma parte um sulco, um rastro, uma marca ou alguns sinais.153

(PEREC, 2007, p. 180, tradução nossa)

No fundo, estamos de frente com o dilema fundacional de toda prática artística moderna posterior à experiência da catástrofe da Segunda Guerra Mundial, entre a experiência do vazio e a nostalgia do pleno, entre o silêncio e a produção. A obra de Perec superaria tal dilema em um jogo que se caracteriza pela

152“Il y a dans toute énumération deux tentations contradictoires ; la première est de TOUT recenser,

la seconde d’oublier tout de même quelque chose ; la première voudrait clôturer définitivement la question, la seconde la laisser ouverte; entre l’exhaustif et l’inachevé, l’énumération me semble ainsi être, avant toute pensée (et avant tout classement), la marque même de ce besoin de nommer et de réunir sans lequel le monde (‘la vie’) resterait pour nous sans repères: il y a des choses différentes qui sont pourtant un peu pareilles; on peut les assembler dans des séries à l’intérieur desquelles il sera possible de les distinguer.”

153

“Ecrire: essayer méticuleusement de retenir quelque chose, de faire survivre quelque chose : arracher quelques bribes précises au vide qui se creuse, laisser, quelque part, un sillon, une trace, une marque ou quelques signes.”

[…] exibição dos ocos e a magia das descobertas, a menos que essa ambivalência não resulte na impossibilidade de lidar com o nada (escolha do vazio) ou, pelo contrário, em levar-se muito a sério na sua vontade de potência (escolha do pleno).154 (JOLY, 2004, p. 10, tradução nossa).

O esgotamento e a reunião remetem a uma utopia da totalidade e à vontade de atribuir ao texto alguma forma de eficácia, no mínimo material, na qual a língua, ao reinventar-se, enfim atinge o real, erigindo algo inconcebível sem o jogo paradoxal. Joly está falando de uma representação simbolicamente completa, mesmo que por um conjunto de fragmentos. Perec seria, então, um construtor. Mesmo saindo do nada, do vazio155, o que ocorre em sua obra é a edificação do real, entendido como tudo, como a totalidade, no qual a escrita tem um papel conservador, de recuperação.

Benzer Belgeler