Nos dizeres transcritos do Dicionário Mini Aurélio, definindo Missão, temos como sendo: “Função ou poder que se confere a alguém para fazer algo; encargo”; e também, “Obrigação, dever” 125.
Faremos a abordagem, neste tópico, da definição de “Dever e Obrigação”, uma vez que está em consonância com a Constituição Federal, quando esta define a segurança pública como sendo “dever” do Estado.
A Resolução Nº. 34/169 – Assembléia Geral das Nações Unidas salienta acerca da necessidade de três características fundamentais, de qualquer instituição policial, que afeta profundamente sua missão. Deve, portanto:
1- Ser representativo da comunidade a que serve;
2- Correspondente às necessidades e expectativas da comunidade; e 3- Responsável perante as comunidades.
Araújo126 estabelece acerca de tais características fundamentais que:
1- O policiamento representativo: é a certificação de que os policiais sejam suficientemente representativos da comunidade a que servem baseados no princípio de que todas as pessoas são iguais perante a lei e têm direito, sem discriminação, a igual proteção.
2- A polícia deve ser consciente das necessidades e expectativas da população e corresponder a elas, uma vez que a crescente insatisfação experimentada pela sociedade ocasiona a mudança das organizações policiais.
124
Idem, p. 35.
125
FERREIRA, Aurélio Buarque de H. Miniaurélio Século XXI Escolar: o minidicionário da língua portuguesa. 4. ed. Ver. Ampliada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 465.
126
3- A polícia é responsável pelo modo pelo qual utiliza os recursos que lhe são alocados, devendo envidar todos os esforços para que sua utilização se faça de maneira coerente com as expectativas da sociedade, de modo que não se faça qualquer ação de discriminação social, proporcionando seus produtos, a sensação de segurança, a todos os segmentos da sociedade. 127
Para tanto, deve adotar estudos e planejamentos com o intuito de verificar a satisfação de sua clientela, buscando avaliar se sua produtividade está correspondendo às expectativas das comunidades. Em caso negativo, implementar novas medidas táticas e técnicas com a finalidade de manter os níveis de criminalidade em níveis aceitáveis.
Araújo complementa afirmando que
[...] as ações e operações policiais devem ser concebidas tendo como alvo principal a população ordeira e não infratores da lei, passando, portanto, a priorizar a atuação pró-ativa da Polícia como atenuante de seu emprego repressivo. Tanto quanto possível, deve-se buscar a presença permanente do policial junto a uma determinada localidade, dando-se preferência pelo emprego do policiamento preventivo, mais próximo e em contato mais estreito com as pessoas, tornando-o mais visível e de mais fácil acesso. 128
Para levar a efeito as três características fundamentais do policiamento, atuando no caráter pró-ativo e reativo, em perfeita sintonia e contato com as comunidades, a Polícia Militar, segundo Magalhães apud Mesquita129, lança mão de seus planejamentos em
[...] três níveis institucionais”: a- Estratégico;
b- Tático; e c- Operacional.
Mesquita130 discorre acerca deles no sentido de que:
127 Às organizações urge a capacidade de responder de forma pró-ativa e reativa às demandas da
sociedade. Para David H. Bayley, (2001, 36): “A ação policial é proativa quando é iniciada pela própria polícia ou pelos próprios policiais, independentemente da demanda dos cidadãos e até mesmo em conflito com uma demanda de cidadãos. A ação policial é reativa quando é iniciada e direcionada por uma solicitação dos cidadãos”.
128
ARAÚJO, opus cit, p. 81-82.
129
MESQUITA, opus cit, p. 39
130
a- No nível estratégico em conformidade com o § 5º do art. 144 da Constituição Federal, segundo o qual “[...] cabe a polícia ostensiva a preservação da ordem pública”, também em consonância com a Constituição Estadual do Estado do Espírito Santo.
b- No nível tático, embasado pelo Decreto 667/69, alterado pelo Decreto-Lei 2010 de 12 de Janeiro de 1985, estabelecendo a manutenção da ordem pública e segurança interna nos Estados, Territórios e Distrito Federal, procedendo a “[...] execução exclusiva (ressalvadas as missões peculiares das Forças Armadas) do policiamento ostensivo, fardado, planejado por autoridades competentes a fim de assegurar o cumprimento da lei, a manutenção da ordem pública e o exercício dos poderes constituídos”.
c- E no nível operacional, temos o mesmo dispositivo que ampara o nível tático, antevendo três quadros de empenho operacional:
1- Quando o quadro é de normalidade: policiamento ordinário – escala de policiamento ostensivo, escalas de radiopatrulhamento, policiamento em eventos desportivos, etc.;
2- Quando o quadro é de perturbação da ordem – reprimir manifestações, dispersar turbas, guarnecer instalações públicas contra grevistas, etc.; e
3- Quando o quadro é de convocação pelo Governo Federal – requer os guarnecimentos e ocupações de instalações vitais, locais sensíveis e pontos críticos (estações de energia, água, telefone [...]). 131
Alie-se a tantas atribuições, no quadro operacional, as observações feitas por Anjos132, quando trata da questão assistencial a que as polícias se prestam, justamente no que tange à polícia correspondente às necessidades e expectativas da comunidade no atendimento a chamadas de serviços.
Bayley133 reporta acerca de tal fato, considerando que a atividade de polícia sofre influências de demandas feitas pela sociedade, mesmo que estas demandas sejam relacionadas com o não-crime, processando modificações no modo de atuar da organização. Esta passa a se envolver em questões comunitárias, não se restringindo apenas a promover o puro e simples enfrentamento das questões violentas e criminais.
131
Ibidem.
132
ANJOS, opus cit, p. 104.
133
Complementa Mesquita134 seus estudos, concluindo que “[...] as missões atuais da Polícia Militar do Estado do Espírito Santo são:
Expressas: - exercício da Polícia Ostensiva: aí incluídas as táticas e técnicas para sua execução – policiamento rodoviário, ambiental, radiopatrulhamento, etc.
- manutenção da ordem pública.
Tácitas: o que não está escrito, mas se traduz no cerne da ação diária da Polícia Militar do Estado do Espírito Santo – mediação de conflitos, atuação assistencial onde o Estado não chega ou não se faz presente (condução de enfermos para hospitais, gestantes, etc.)
Para atingir o estado de segurança pública, o objetivo final de todo o trabalho policial, diversas ações são desencadeadas. Tal operacionalização da missão ocorre:
- Via ação do Policiamento Ostensivo;
- Via atuação preventiva no caso de iminente perturbação da ordem; - Via atuação repressiva nos casos de perturbação da ordem; e
- Via operações do tipo polícia, nos casos de guerra externa, grave perturbação da ordem ou ameaça de sua irrupção.
Como órgão de Segurança Púbica, as Polícias não podem fugir de seu compromisso com o bem estar social com a mais absoluta obediência às prescrições técnicas no emprego da força e, sobretudo, com a segurança de seus componentes, que desempenham tão relevante ofício, e dando vital importância à vida de terceiros, sejam eles possíveis meliantes ou potenciais inocentes.
Acerca disso Araújo135 se pronuncia no sentido de que o Estado Democrático de Direito moderno possui, dentre outros, o monopólio legítimo que detém da força, da coação física, com isso procurando evitar os perigos para a convivência social que resultam da multiplicação de poderes armados privados.
Não obstante toda a primazia do Estado em fazer uso legítimo desta força, Costa destaca que:
[...] o exercício do poder por parte de servidores eleitos deve seguir os limites e os critérios impostos pela sociedade na forma da lei. O restabelecimento das
134
MESQUITA, opus cit, p. 40.
135
eleições democráticas e, com elas a ampliação da participação política, por si só, não preenchem todos os requisitos do regime democrático. É necessário também que o poder seja exercido dentro dos limites da lei. Para a realização desse ideal democrático, portanto, tornam-se fundamentais a existência e a efetividade de mecanismos de controle da atividade estatal. 136
Resta, então, saber como se deu a formulação e implantação “dos limites e critérios impostos pela sociedade na forma de lei”, estudando o processo da Constituinte de 1987/1988, através das análises das propostas referentes ao tema Segurança Pública apresentadas pelos cidadãos e discutidas pelos constituintes.
Através da análise historiográfica de José Murilo de Carvalho137, temos que o povo busca a conquista de seus direitos, mesmo que “de forma incipiente”, marcando sua atuação na condução de suas demandas.
Afirma o historiador que “[...] O exercício do voto não garante a existência de governos atentos aos problemas básicos da população”. Com isso, deixa transparecer a necessidade de uma participação mais efetiva na condução de suas demandas.
Se não se faz suficiente a compreensão interna dos integrantes das corporações de que “[...] ser PM é fácil, é só ter o poder, a farda e a truculência. Ser Polícia é difícil, tem que trabalhar, ser idealista e honesto [...]”, resta à participação popular, quando lhe couber, chamar a atenção, pelos poderes constitucionais que lhes é conferido, de que sua atividade requer a obediência à lei, a qual foi proposta pela própria sociedade da qual o policial faz parte.
136
COSTA, opus cit, p. 61.
137