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O ciclo de governos militares, novamente reinando no cenário político-nacional moldou a atual estrutura vigente, servindo as Polícias como braços repressores para “combate” à contrariedade das ideologias governantes111.

As modificações ocorridas no cenário mundial afetaram sobremaneira as relações governamentais em solo nacional, uma vez que a disputa entre o bloco capitalista e o socialista contribuiu com a eclosão do golpe de 1964 pelas Forças Armadas do Brasil. Para Pedroso “[...] o comunismo, [...] serviu de pressuposto para a execução de uma política autoritária e injusta com relação às classes sociais mais baixas. [...]”. 112

Pinheiro apud Pedroso113 também se pronuncia neste sentido em que “[...] atenta para o caráter abrangente da perseguição imposta pelo aparelho ao movimento operário, às classes populares, ao criminoso comum [...]”.

Para fazer impor os novos ditames do Estado repressivo, para Araújo “[...] imperiosa se tornava a utilização de instrumentos fortes e que servissem para a contenção de quaisquer desvios políticos e ideológicos que colocassem em perigo a segurança nacional”. 114

Em virtude de tal necessidade, as forças policiais estaduais foram duramente empenhadas com o Exército para impedir qualquer manifestação de caráter popular que tivesse o intuito de se contrapor contra o governo ditatorial, continuando a serem forças “[...] manietadas,

110

PEDROSO, opus cit, p. 90-93.

111

MESQUITA, opus cit, p. 26.

112

PEDROSO, opus cit, p. 130.

113

Idem, p. 130.

114

despersonalizadas e sem comando próprio [...]” 115 não atuando na segurança da população, mas sim, para a segurança de uma elite fardada e interessada na manutenção do poder.

Pedroso enfoca a atuação deste aparato repressor político, o qual teria sido estruturado de forma ideológica e militar já nos idos das primeiras décadas do século XX. Aponta a autora à diferenciação básica entre o estado autoritário getulista e os governos militares. Segundo ela:

O que diferenciou a atuação repressiva durante a ditadura militar da dos governos das primeiras décadas do século XX foi que a ditadura utilizou o Exército como principal força repressiva, enquanto que o DEOPS116 serviu de coadjuvante no cenário político-repressivo, invertendo a preponderância que a polícia teve ao longo das primeiras décadas, como órgão monopolizador e centralizador da ordem pública. 117

4) TRANSITORIEDADE (1984 - ...) E CONSOLIDAÇÃO DA “POLÍCIA

CIDADÔ?

Com a promulgação da Constituição Federal de 1988, conhecida como Constituição Cidadã, procura se formatar uma polícia mais cônscia de suas responsabilidades para com a segurança pública, atribuindo a responsabilidade de tal função como sendo de todos e dever do Estado, conforme se denota na Constituição Federal de 1988118: “Art. 144. A Segurança Pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos: [...]”. Pedroso119 ressalta um novo paradigma surgido com o início da (re) democratização que seria a “[...] discussão acerca dos direitos humanos [...]”, o que estaria forçando uma mudança de olhar para o caráter do crime. Inicia-se uma abordagem do trato da criminalidade tendo por objeto os problemas sociais que assolam a sociedade, principalmente consumo de drogas e desagregação social.

Pablos de Molina apud Pedroso atesta que:

O crime [...] é um problema da comunidade, que surge na comunidade que deve encontrar fórmulas de solução no âmbito da mesma. Porque o delinqüente não

115

Idem.

116

Delegacia Especial de Ordem Política e Social.

117

PEDROSO, opus cit, p. 148.

118

CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Texto constitucional promulgado em 5 de outubro de 1988, com as alterações adotadas pelas Emendas Constitucionais 1/92 a 35/2001 e pelas

Emendas Constitucionais de Revisão 1 a 6/94. Brasília: Senado Federal, Subsecretaria de Edições Técnicas, 2002.

119

é um estranho – o outro -, senão um membro ativo da comunidade, que além do mais, retornará a ela uma vez cumprido o castigo. E a vítima também forma parte de uma comunidade solidária que não pode sentir-se alheia ao que lhe corresponde. O delito não é só o problema do delinqüente, nem a resposta legal ao crime afeta ou deve afetar somente ao infrator. 120

Apesar de ser conhecida como sendo uma Constituição Cidadã, Araújo121 critica a permanência de atitudes processadas em seu bojo uma vez que tal ordenamento manteve a “vinculação das instituições dentro do título reservado à Defesa do Estado e das Instituições Democráticas”, ficando ainda considerada como força auxiliar e reserva do Exército, soando contraditória a destinação civil da polícia militar com investidura e treinamentos com características militares. Crítica também professada por Anjos122.

Abordando a atuação das polícias na atualidade, mesmo com todas as suas permanências, denota-se que a polícia como promotora e mantenedora da segurança e da ordem pública, buscando um contato com a sociedade com vistas a perceber seus desejos e intenções, na busca de uma sociedade mais tranqüila e pacífica, tem origem remota, podendo-se adotar a década de 80 como o “novo gênesis” da polícia brasileira, com missões mais detalhadas e objetivas, mais humanizantes, com fulcro no cidadão, abandonando a dominação por parte dos dirigentes do poder.

Araújo faz uma avaliação do que foi tal força em épocas remotas:

[...] historicamente serviçal dos mandatários do poder, sem diretrizes profissionalizantes na área de segurança pública, que deveria ter sido sempre o seu mister, foi e continua sendo co-responsável pelas mazelas da insegurança pública neste país, haja vista que a sua utilização real não é compatível com a sua destinação legal [...].123

Urge proceder a modificações estruturais e institucionais e uma “reengenharia” no modus operandi institucional destes corpos de controle social, buscando cada vez mais uma interatividade social, uma vez que a polícia é a sociedade e a sociedade é a polícia.

120

Ibidem.

121

ARAÚJO, opus cit, p. 31-32.

122

ANJOS, Erly Euzébio dos. Ordem, Compreensão, transformação social e a violência hoje. Vitória: CEG/Edufes, 1999, p. 95-97.

123

Ainda citando Araújo124, este faz um alerta de vital importância que deve ser levado em consideração: “[...] Nenhuma organização policial no mundo, conseguiu resultados contra a criminalidade, sem antes voltar-se para uma remodelação sistêmica, envolvendo os conceitos filosóficos, estratégicos, táticos e técnicos que as nortearam [...]”.