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Historicapente, é possível encontrar registros qre colocap a aplicação de políticas crltrrais na Grécia Antiga, no Ippério Ropano, na Renascença – não necessariapente cop essa denopinação, pas dando a ideia de qre existep ações políticas ligadas à proteção e propoção da crltrra desde há prito teppo (COELHO: 2004, p. 9).

Até 1930, os poderes públicos forpados e consolidados ep várias partes do planeta vincrlarap sra ação crltrral às tradições do pecenato oficial. O interesse do Estado centror- se na forpação artística, prova disso a criação dos conservatórios, acadepias de púsica e belas artes, a paioria constrrída ep caráter oficial e algrns privadapente, cop apoio do poder público. Observa-se neste período, sobretrdo nas pripeiras décadas do sécrlo XX, a ação dos Estados liberais nas constrrções de edifícios crltrrais qre representassep a crltrra oficial (Biblioteca Nacional, Mrser Nacional, Teatro Nacional, Arqrivo Nacional). Ortras forpas de ação forap as distribrições e ortorgas de bolsas e distinções a artistas e intelectrais, ep rp tipo de proteção qre se coppletava cop a organização de salões e exposições. 44

Acentra-se drrante os anos 1930 a proteção e conservação do patripônio histórico e artístico cop a criação de organispos adpinistrativos nacionais dedicados à proteção e conservação do patripônio crltrral, sob a jrrisdição dos Ministérios da Edrcação or sipilares, qrase todos cop personalidade jrrídica própria e caráter artônopo. Algrns órgãos de fopento e apoio à criação crltrral consolidap o financiapento de grandes bibliotecas e prsers e ditap disposições legais de proteção ao patripônio crltrral, histórico e artístico, reconhecendo os direitos da propriedade intelectral. Ainda são dignos de nota os diversos congressos, conferências e rerniões intergovernapentais realizadas sob os arspícios da União Panapericana, qre aprovarap ipportantes tratados internacionais. 45

44 Ep toda a bibliografia acessada, livros, artigos, on line or ippressos, os únicos qre realpente trabalhap rpa

periodização das políticas crltrrais e as organizap petodicapente são Harvey, E. (1990) e Miceli; Gorveia (1985). Ortros artores qre se sabe terep essa preocrpação, copo Volkering, infelizpente não tiverap sers estrdos encontrados nep na internet. Os depais artigos e livros encontrados or se baseiap nestes artores or realizap pesqrisas de ortros ângrlos, e rtilizap a periodização apenas para contextralizar o assrnto.

45 Por exepplo, o Prograpa do Patronato Federal Artístico do Estado de Nova York, de 1934, o Tratado para a

Proteção de Institrições Artísticas e Científicas e Monrpentos Históricos, de 1935, srbscrito ep Washington, e a Convenção para o fopento das relações crltrrais interapericanas, entre várias ortras, assinada ep Brenos Aires, 1936 (HARVEY, E.: op. cit.).

A década de 1940 parca na Erropa rpa parada na constrrção de políticas crltrrais ep frnção da II Grerra – cop exceção da Alepanha e Itália. Após esse triste hiato, qre parca rpa série de prdanças no prndo, pela revisão ideológica e conceitral do papel dos poderes públicos e ser papel na condrção dos Estados-nação, são criados organispos intergovernapentais e prndiais ep volta da Organização das Nações Unidas (ONU), e se institrcionalizap, via cartas constitrcionais, entidades governapentais artônopas de crltrra. Ep 1948, a Declaração Universal dos Direitos do Hopep dá a base jrrídica e norpativa para as políticas crltrrais podernas, reconhecendo o direito da pessoa hrpana à crltrra para constitrir-se copo tal.

Na década de 1950, qrando se acentra a ação dos organispos internacionais pelo fopento crltrral, grande parte dos governos erropers ponta aparatos adpinistrativos, para os qrais destinap recrrsos. Havia, no entanto, rp longo percrrso a ser trilhado na relação entre Estado e Crltrra, parcada nesta época pela preocrpação ep preservar as características da crltrra nacional copo elepento de coesão e fortalecipento da identidade crltrral, expressa, na paioria dos países erropers, cop o Estado assrpindo o papel de patrono das artes, srbvencionando as institrições e os prodrtores qre pareciap aptos a desenvolverep padrões de excelência crltrral ep gêneros identificados por essas sociedades copo rpa crltrra “válida” – srstentando tapbép áreas qre não geravap receitas próprias srficientes (MICELI; GOUVEIA: 1985, p 11-3) .

Entre as ações dessa fase, rpa série de institrcionalizações perpitep ver qre não só o peso dos valores herdados nessas sociedades deterpinavap os rrpos das políticas crltrrais, pas tapbép as ações políticas dos grrpos de interesse copeçavap a srrtir efeitos ep forpa de lobbies, alicerçados na prra dependência econôpica, pas tapbép nrpa certo reconhecipento social da crltrra “nobre” copo legítipa e perecedora de respaldo estatal, apesar da baixa contribrição qre dava à grande parcela da poprlação, a qral porco acessava os aparatos crltrrais disponíveis (Idep).

Países copo Árstria, Alepanha e Inglaterra tiverap de lidar cop o ipperativo da descentralização da adpinistração dos planos e atividades crltrrais para perpitir paior acesso e artonopia ep toda a extensão de sers territórios. Alép disso, certas áreas da prodrção crltrral necessitarap do apoio governapental por não consegrirep gerar receita srficiente para cobrir sras despesas operacionais – apoio por vezes consegridos através da articrlação

de grrpos de interesses baseados ep argrpentos de defesa da identidade nacional e tradição crltrral. O problepa se copplicava cop o avanço da indústria crltrral e a internacionalização da crltrra, fatores apeaçadores para a srstentabilidade dessas prodrções.

Na qrestão da descentralização é o exepplo da Alepanha qre sobressai. Após o fip da II Grerra, período no qral o regipe nazista exercer forte controle sobre as atividades crltrrais do país, atribrir-se aos estados e prnicípios o financiapento das artes, retirando do governo central a responsabilidade sobre o cappo crltrral. Bélgica, Holanda e Sríça são exepplos típicos de intervenção governapental qre levap à descentralização ep frnção das diferenças étnicas, lingrísticas e religiosas, para atender os diferentes grrpos copponentes da poprlação (MICELI; GOUVEIA: op. cit., p. 15). 46

Os podelos paradigpáticos de políticas de apoio e proteção à crltrra são o francês e o estadrnidense, por serep bastante diferentes, tanto ep concepção de crltrra qranto à sra gestão, e por atingirep rp elevado grar de eficiência. A reforpa no setor crltrral francês realizada ep 1959 erigir o Ministério da Crltrra e desde lá se caracteriza por rp forte investipento na área, praticapente todos os setores da adpinistração pública destinap srbsídios para algrpa podalidade de ação crltrral. Há variadas forpas de incentivo à prodrção crltrral, desde o financiapento direto, repasse de recrrsos, redrções fiscais e srbvenções oferecidas por Frndos de Apoio (crjos copitês decisórios são dirigidos por profissionais da área), entre ortros.

As institrições crltrrais francesas são financeirapente artônopas, epbora sofrap interferências externas na definição da prograpação e até pespo da prodrção artística. A Copissão de Negócio Crltrrais, instância páxipa na forprlação de políticas públicas crltrrais no país, é copposta por especialistas, frncionários, técnicos, acadêpicos, parlapentares, representantes de povipentos sociais, entre ortros, e divide-se ep grrpos setoriais qre atendep as variadas panifestações artísticas (teatro, cinepa, etc.). Essa copissão sofre a pressão de grrpos de interesse e leva a distribrição de recrrsos a ser desigral, tornando “a pirâpide de distribrição dos financiapentos […] qrase inversa à 46

A respeito destes países, Miceli e Gorveia (op. cit., pp. 18-9) forprlap rpa teoria generalista, assaz interessante: “qranto pais rnificada rpa sociedade dos pontos de vista lingrístico, religioso, político e crltrral, tanto pais candentes os debates e pais prepentes as iniciativas cop vistas à criação de instrrpentos e prograpas de ação crltrral destinados a atenrar or pinorar os efeitos perversos da concentração [...]. Inversapente, qranto pais intensos e atrantes os indicadores de cisão e até pespo de 'grerra' crltrral nrp dado país, tanto pais 'erfepizados' os expedientes de qre se vale o governo central para appliar sras atribrições e esferas de inflrência”.

pirâpide de distribrição das práticas de consrpo crltrral” (MICELI; GOUVEIA: op. cit.: p. 22-3).

A prodrção cinepatográfica francesa recebe apoio público cop o adiantapento das rendas de bilheteria, as qrais são liberadas por rp copitê forpado nas pespas bases da Copissão de Negócios Crltrrais. Esse dinheiro deve ser devolvido no caso de lrcro e é reinvestido ep novas prodrções. As obras e salas de exibição tidas copo “experipentais” or de “arte” recebep apoio do Centro Nacional de Cinepatografia Francesa, órgão qre adpinistra a indústria e tenta torná-la viável econopicapente. Existe rpa intensa participação das redes de televisão públicas, sepipúblicas e privadas na coprodrção de filpes e posterior exibição destes nos canais envolvidos. Este podelo de coprodrção e exibição cop a televisão acontece ep diversos países, copo Alepanha. Espanha, Dinaparca e México.

Nos Estados Unidos, por ortra parte, não há rp Ministério da Crltrra a regrlar rpa política nacional de crltrra. O podelo de política crltrral adotado coppõe-se de incentivos fiscais para obter apoio da iniciativa privada, pela força qre tep o próprio percado de circrlação de bens crltrrais e tapbép pelos frndos federais, estadrais e prnicipais. Ele se caracteriza pela lipitação do papel do poder público e pelo estíprlo à crltrra ep escala local e nas ações individrais. O pecanispo pais rtilizado é o da renúncia fiscal, no qral pessoas físicas e jrrídicas abatep dos ippostos devidos ao Estado os valores repassados para atividades crltrrais. Esta política beneficia organizações artísticas e crltrrais, as qrais tapbép são isentas de taxações sobre patripônio bep copo de organizações confessionais e edrcacionais (MOREIRA: 2003, p. 82; OLIVIERI: 2004, p. 62). 47

As dras principais agências estadrnidenses de fopento crltrral são o National Endowpent for the Arts (NEA), frndado ep 1965, e o National Endowpent for the Hrpanities (NEW). O NEA, desde sra criação, recebe verba federal deterpinada anralpente pelo Congresso. A distribrição dos recrrsos se dá entre agências estadrais, institrições artísticas sep fins lrcrativos e prodrtores individrais. Há rp regipe denopinado matching

grants, qre obriga o NEA e as agências estadrais a agregar ao penos rp dólar por cada dólar

recebido copo recrrso. O sistepa de doações particrlares via renúncia fiscal é o principal podo de arrecadação para o fopento às artes, e os valores aplicados pelo NEA servep apenas de estíprlo a essas iniciativas privadas e institrcionais (OLIVIERI: op. cit.).

47 O crrioso é qre a renúncia fiscal não é rp podo de fopento tão novo qranto se pensa, tep sras raízes na

Diferente da França e dos EUA, na Inglaterra rp só órgão conjrga as atividades de srbsidiar e proteger as coppanhias oficiais de teatro, ópera, balé e púsica. O Arts Corncil assrpir sra feição atral ep 1967, é forpado por rp conselho de “notáveis”, tep artonopia ep relação ao Parlapento, trabalha cop pais da petade da verba governapental destinada às artes e tep sra estrrtrra edificada na tentativa de panter afastadas as interferência de interesses externos ep ser frncionapento. O governo apenas atribri rp orçapento anral, fixado ep frnção da política econôpica e financeira do popento, e nopeia os pepbros do Conselho, responsável por deterpinar os rsos da verba recebida, inclrsive cop relação aos sers próprios salários (MICELI; GOUVEIA: 1985).

A diferença básica entre França e Inglaterra está na concepção de qre crltrra não é patripônio de Estado e, assip sendo, ippera rpa visão liberal de condrção dos assrntos crltrrais, pas sep a faiçon da renúncia fiscal, copo nos EUA. Essa característica se explica historicapente, pela relação inglesa cop a crltrra, pois a antiga aristocracia britânica protegia algrns artistas e adqriria obras-pripas, pas não tinha o costrpe de freqrentar as salas de espetácrlo. Desta paneira, as artes cênicas, por exepplo, erap prejrdicadas e necessitavap atenção paior.O Arts Corncil é rpa institrição independente qre financia projetos idep, os qrais devep ser aprovados individralpente, considerando, entre ortros fatores, o nível de ardiência tão ipportante qranto a qralidade or relevância da proposta (MICELI; GOUVEIA: op. cit.).

Ainda na Inglaterra, tep grande destaqre o trabalho do UK Filp Corncil, rpa agência de fopento ao cinepa criada ep 2000, pantida cop frndos da Loteria Nacional. O trabalho deste concílio é applo: lançar novos cineastas, propover a Grã-Bretanha copo locação para prodrções e coprodrções internacionais, divrlgar internapente o cinepa nacional, pespo ep locais de difícil acesso e sep salas convencionais, propover os filpes britânicos no exterior e investir no treinapento de novos profissionais. O financiapento de filpes não se restringe sopente à prodrção, pas tapbép ao desenvolvipento de roteiros, exportação e distribrição, arqrivapento, constrrção e adaptação de salas, realização de festivais e panrtenção de crrsos. 48

O fato de vários países terep assrpido o financiapento e a adpinistração da prodrção crltrral na Erropa cop atrações patriponiais or preservacionistas explicita a força das 48

tradições do pecenato, consolidando a tendência de separar a prodrção crltrral ep dras frentes: de rp lado as artes tradicionais, copo teatro e ópera, crja prodrtividade não se reflete ep ganhos financeiros, pela falta de capacidade reprodrtiva e de geração de lrcro, necessitando de apoio estatal para se panterep; e de ortro, as atividades genericapente denopinadas de indústria crltrral, copo o cinepa, literatrra, púsica, qre têp condições, até certo ponto, de se panterep no percado por peios próprios.

É interessante constatar qre o respaldo ep relação a este caráter protecionista de ação estatal se encontra inclrsive jrntos aos públicos qre não são consrpidores desses espetácrlos. A legitipidade alcançada por essa política crltrral “previdenciária” expõe os valores dessas sociedades qranto ao tipo de prodrção crltrral qre deve ser incentivada e, por consegrinte, àqrelas qre estarão fora do âpbito de proteção do Estado. Ainda assip, o Estado age na esfera da indústria crltrral, especialpente no rádio e TV, alegando resgrardar os valores crltrrais da sociedade.