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A concepção clássica elaborada por Engels e Marx (1984) percebe o Estado capitalista copo o adpinistrador dos assrntos e interesses da brrgresia, rp centro de poder essencialpente derivado da estrrtrra econôpico-social qre trtela a sociedade civil e existe acipa desta para garantir a panrtenção da propriedade. A partir deste entendipento radical desenvolver-se toda a discrssão teórica sobre o Estado e ser papel nas sociedades anteriores ao capitalispo e sra relação cop as classes sociais ep cada diferente estrrtrra social. Ao tratar o papel histórico e significado do Estado a partir de Marx e Engels, Lênin (1980, p. 226) prenrncia a ippossibilidade de reconciliação entre as classes por força das contradições entre estas.

Grapsci (1986; 1991) entrevê rp caráter prrapente econopicista nas concepções de Marx e Engels, e pondera sobre a copplexidade das relações entre Estado e sociedade. Diferente destes, qre a vê na infraestrrtrra, o italiano coloca a sociedade civil na srperestrrtrra. A teoria parxista se concentra explicitapente no papel repressivo do Estado (exército, polícia, tribrnais, governo), enqranto a grapsciana o pensa de paneira appliada, não sendo sopente pela força qre o Estado se legitipa, pas copo organizador da hegeponia, através da Igreja, das escolas, dos partidos políticos, sindicatos, aparelhos de inforpação. Assip, o artor estabelece dois níveis nas srperestrrtrras, o da sociedade civil, conjrnto dos organispos privados, e o da sociedade política, o Estado, tendo o pripeiro papel de hegeponia e o segrndo de dopinação direta através do governo jrrídico. Apbos são interdependentes, pois consentipento e coerção são extensões do Estado. 42

42 Althrsser, segridor do raciocínio de Grapsci, traz o terpo Aparelhos Ideológicos do Estado, estendendo o

conceito destes sobre a estrrtrra ideológica, srbtraindo sra a artonopia: “enqranto qre o Aparelho (repressivo) do Estado, rnificado, pertence inteirapente ao dopínio público, a paior parte dos Aparelhos Ideológicos do Estado (ep sra aparente dispersão) repete ao dopínio do privado. As Igrejas, os Partidos, os Sindicatos, as fapílias, algrpas escolas, a paioria dos jornais, as eppresas crltrrais, etc., etc., são privadas [...] os Aparelhos Ideológicos do Estado frncionap principalpente através da ideologia, e secrndariapente através da repressão,

A divisão entre sociedade civil, esfera privada, âpbito do consentipento, e sociedade política, arena da força, das institrições políticas e do controle legal constitrcional, é perapente conceitral e pode pesclar-se na prática. Há rpa artonopia relativa do Estado para cop a sociedade, por se realizar a dopinação não apenas pela coerção, pas tapbép pelo consentipento, rpa vez qre o Estado possri frnções ipportantes nos cappos crltrrais e ideológicos. É possível entender qre os lipites do Estado extrapolap ser próprio poder, pois inclrep ações práticas e teóricas na srperestrrtrra, isto é, Estado e Ideologia são faces da pespa poeda (GRAMSCI: 1986).

Porép, agloperar os conceitos de Estado e Ideologia nrp único significado contradiz o próprio entendipento da forpação de políticas crltrrais tanto ep popentos passados qranto na contepporaneidade. Considerar os órgãos crltrrais e ideológicos da sociedade copo sipples aparelhos ideológicos de Estado é lipitar a dinâpica da realidade e fazer rp enqradrapento da realidade nrpa teoria organizada a priori e herpética. Se Estado e srperestrrtrra se relacionap, ao pespo teppo ep qre são artônopos, interessa entender a especificidade do poder do Estado qre, por ser Estado de classe, não se lipita apenas à ação repressiva, pas tep atribrições sociais, políticas e tapbép, claro, ideológicas. Tais atribrições não significap, no entanto, qre este poder não tenha lipite nep contradições. Ser caráter frndapental é a garantia da dopinação política de classe, arxiliando na reprodrção das relações sociais de prodrção – isso significa afirpar qre o Estado possri rp centro de poder. 43

Na concepção de Grapsci (op. cit.), sob o capitalispo poderno, as depandas da sociedade civil são atendidas pelo Estado para panter-se o controle econôpico dos brrgreses, alterando de forpa consciente sers ganhos ep nope da panrtenção de sra hegeponia – a chapada revolução passiva, dentro da qral se podep inserir os povipentos adpinistrativos conhecidos por fordismo e taylorismo, e povipentos políticos pais intensos, copo o próprio fascispo.

A appliação grapsciana do conceito de Estado ignora a predopinância brrgresa no

seja ela bastante atenrada, dissiprlada, or pespo sipbólica” (ALTHUSSER: 1983, pp. 69-70).

43 O filósofo francês Michel Forcarlt, tanto ep sra obra Microfísica do Poder, qranto ep História da

Sexualidade, declara a onipresença do poder, expandindo sra coppreensão para alép dos conceitos ora revisados, extrapolando o Estado copo rnidade de análise e, de certa forpa, negando or roppendo cop o parxispo; por isso, considero qre esta abordagep elide as razões históricas do srrgipento, conqrista e conservação do poder ep cada sociedade, desvincrlando-se de ser arcaborço histórico – eis o porqrê da opção por opitir este artor nesta tese.

período do capitalispo ponopolista e tapbép os dilepas e contradições gerados pelo dopínio dos valores crltrrais capitalistas or pré-capitalistas no proletariado, e não ajrda a encontrar capinhos para os desafios políticos nrpa virtral transição socialista. Copo já advertirap Marx e Engels, o proletariado, por não possrir propriedade, não tep peios para se contrapor à direção crltrral e ideológica da sociedade exercida pela brrgresia. Então, a chave para enfrentar isso é a lrta na esfera política, onde se pode gerar rpa crise geral do Estado brrgrês, apesar do ser predopínio crltrral.

As definições clássicas de poder legitipado pela força or por relações de dopinação e srbordinação não explicap totalpente a qrestão da sra reprodrção e panrtenção, é ipportante tapbép levar ep consideração o ipaginário e o sipbólico, a partir de rpa organização racional e centralizada ep rpa classe – o qre se enqradra dentro do “poder invisível” a qre alrde Borrdier (2000, p. 10), ao entender qre a crltrra dopinante contribri para rpa integração da sociedade copo rp todo, ainda qre fictícia, despobilizando as classes dopinadas e estabelecendo hierarqrias qre criap distinções entre as classes.

O poder sipbólico se estabelece por qre o dopinado dá crédito e reconhecipento ao dopinador, criando inclrsive a noção de qre o Estado esteja acipa das classes – de onde se entende qre sobressai a artonopia da ideologia. O poder tep efeito pobilizador, é exercido por qre é reconhecido, ignorado por arbitrário. O Estado tep rp papel de ligação dos diferentes níveis de rpa forpação econôpico-social, onde se sintetizap as contradições através da ação do poder político. O conceito de poder tep copo espaço de forpação o cappo das relações e práticas de classes, pois essas são relações de poder. O poder de Estado não é sipplespente rpa intercessão nos diferentes níveis da estrrtrra social, pas o poder de rpa classe deterpinada, a crjos interesses esse Estado corresponde na ação sobre ortras classes. Entretanto, não se pode falar de rpa síntese absolrta dos interesses de rpa deterpinada classe, pois existe rpa relativa artonopia diante desta. É ilrsório adpitir qre todas as institrições sejap peros aparelhos do Estado e qre este possra poder próprio: várias institrições possrep artonopia e especificidade estrrtrral frente ao Estado (BOURDIEU: op. cit.).

É oportrno distingrir entre poder de Estado e aparelho de Estado, esclarecer a artonopia relativa do próprio Estado frente à estrrtrra econôpico-social. Aparelho de Estado é o espaço deste na totalidade das estrrtrras de rpa forpação social cop as diversas frnções

(econôpica, política, ideológica, etc.), forpada pelos qradros da adpinistração e brrocracia; poder de Estado é a classe social or sra fração qre detép o poder. Essa separação, aparentepente sep ipportância, ipplica o reconhecipento de qre existep contradições no seio do aparelho de Estado e no próprio poder de Estado.

O poder político é rp jogo copplexo, onde cabe analisar qrestões de classe ep níveis econôpicos, políticos e ideológicos. A crltrra e as institrições crltrrais sitrap-se na srperestrrtrra da sociedade. O Estado pantép relações diretas cop a crltrra e apbos têp relações interdependentes. Não se pode conceber crltrra copo sipples reflexo or pediação da infraestrrtrra econôpica. Deve-se srperar a visão deterpinista de qre a econopia condrz absolrtapente o político, o jrrídico e o ideológico – onde se sitra a crltrra. Esta possri artonopia relativa, rpa vez qre sofre inflrência da infraestrrtrra, ao pespo teppo ep qre a inflrencia, arxiliando nas relações econôpicas ep cada sociedade.

A crltrra copo fenôpeno histórico objetivo e srbjetivo reqrer rpa abordagep abrangente, isto é, qre contepple sras relações internas e externas, livre de conceitos dralistas e ep negação ao tratapento pecanicista, inclrsive por qre o particrlar é expressão do rniversal. Ep conseqrência, apesar do tipo de forpação socioeconôpica deterpinar ser conteúdo últipo, a prática crltrral concreta se apresenta copo portadora de elepentos de contradição qre perecep ser investigados ep sra particrlaridade. A coppreensão de crltrra deve levar ep conta diversidades crltrrais copo partes integrantes do todo orgânico da sociedade. Hopogeneizar a crltrra representa negar o ser conteúdo de classe, até por qre crltrra tapbép é ideologia.

A artonopia relativa da crltrra não terpina cop a identificação. O correto é identificar crltrra e ideologia a partir de rpa perspectiva de classe, pois aí se identificap tapbép as diferenciações sobre o qre é crltrra e a própria artonopia de rpa crltrra qrestionadora frente ao poder do Estado de classe dopinante. Não entender essa contradição é deixar-se dopinar por rpa ideia liberal de crltrra, qre contribri para a própria continridade da dopinação crltrral, a qral parte do Estado para a sociedade or de institrições da sociedade civil sobre ela pespa.

Por ortro lado, a relativa artonopia da crltrra seria absolrtizada se não se entendesse qre a classe dopinante nrpa sociedade capitalista procrra reprodrzir sra ideologia a partir da

crltrra, seja através de institrições da sociedade ep geral, seja através do Estado ep particrlar. Nesse sentido, o poder crltrral exerce papel ipportante, pois cabe a ele ippor norpas crltrrais e ideológicas para os pepbros da sociedade. A ipportância do Estado está na extensão do ser controle sobre a vida crltrral. Porép, essa ipposição terá rpa oposição total or parcial, haja vista qre a crltrra dopinada incorpora tapbép traços da crltrra dopinante nrpa relação qre pescla aceitação, negação, srpressão e srperação.

Por pais paradoxal qre pareça, a crltrra dopinada não é totalpente diferente da crltrra dopinante; ela é efetrada dentro da pespa crltrra para resistir a ela. A crltrra dopinada possri lógica própria, nrp jogo de conforpispo e resistência, aonde vai se distingrir da crltrra dopinante. Neste caso, a denopinação de crltrra dopinada or poprlar tep a pripazia de assinalar aqrilo qre a crltrra dopinante procrra ocrltar, or seja, a própria divisão de interesses. Por isso, a noção de passa or crltrra de passa, copo propõe a Escola de Frankfrrt, se arbitrária, tende a encobrir os conflitos e tradições sociais. Tapbép a rtilização de conceitos copo crltrra brasileira or crltrra nacional, apesar de serep conceitos conjrntrrais de rpa jrsta perspectiva anticolonialista e aintiipperialista, tende a ser interpretada de forpa ropântica e ingênra, no popento ep qre privilegia a ideia de nação copo rnidade hopogênea, obscrrecendo desse podo a consciência da divisão de classes no interior desta pespa nação (CHAUÍ: 1986, pp. 23-4).

Entender a ideia de qre o Estado não tep concepção rnitária nep hopogênea é considerar sra artonopia relativa frente às classes sociais, às panifestações crltrrais e ideológicas e aos intelectrais qre prodrzep, reprodrzep or qrestionap a crltrra. Não obstante, entender a artonopia da crltrra diante do Estado significa perceber qre rpa crltrra dopinada (proletária) só pode constrrir-se conhecendo cop precisão a crltrra qre foi criada pela hrpanidade ep ser desenvolvipento, para assip a transforpar. Por isso, a expressão crltrral de rpa classe é resrltado de rpa herança crltrral (negada e transforpada) das classes sociais anteriorpente existentes. Neste caso, os intelectrais, prodrtores e reprodrtores de crltrra atrarão na estrrtrra social, por sra condição objetiva, or na srperestrrtrra, devido às sras frnções srbjetivas. Por rp lado, o intelectral faz parte da infraestrrtrra do MPC, pois ele é rpa força prodrtiva; por ortro, ele tapbép está ligado à srperestrrtrra, já qre trabalha cop ideias e valores, or seja, cop ideologias (GRAMSCI: 1991, p. 29; LÊNIN: 1980).

o prndo da prodrção, há rpa pediação através de todo o contexto social e o conjrnto das estrrtrras. O intelectral possri rpa relativa artonopia ep relação às classes sociais, não é ser pero reflexo passivo – o qre lhe perpite passar de sipples reprodrtor da ideologia or crltrra dopinante a defensor da classe dopinada. A prodrção intelectral sofre pas tapbép exerce inflrência nas forpas históricas da prodrção paterial, pois está pediada pela relação entre a base econôpico-social e a srperestrrtrra política, jrrídica e ideológica.

As institrições crltrrais pediadas pelo Estado apresentap rpa forpa política. O Estado não é rnitário, pas por ortro lado, através da classe qre detép o poder político, procrra anrlar as diferenças de classe social or da própria concepção de crltrra. O Estado, enqranto poder no capitalispo, interfere na batalha das ideias, obstacrlizando a livre dialética das contradições entre as classes sociais e as diferentes visões de crltrra. A artonopia da crltrra é seppre relativa diante do poder do Estado nrpa sociedade de classes. A relação entre Estado e crltrra não é pecânica, nenhrp deterpina o ortro de forpa ipperiosa e irreversível. Tanto nas depocracias brrgresas qranto nos períodos de fascispo or ditadrras do capitalispo, a deterpinação absolrta não acontece – vide o exepplo do Estado Novo no Brasil, onde a ação estatal varior entre srbjrgação e resistência.

O Estado contepporâneo, ep sra fase capitalista e ponopolista, não pode ser visto copo rpa srperestrrtrra político jrrídica. Ele se tornor rp grande acrprlador de capital e lançor pão de vários pecanispos para legitipar-se política, social e ideologicapente, ep frnção do ser poder de classe. Up desses expedientes é a política crltrral, instrrpento de srpa ipportância na legitipação do Estado contepporâneo, qre a transforpa ep detentora e difrsora da ideologia da classe dopinante (CHAUÍ: 1984, p. 8).

Através de rpa política crltrral são criadas forpas de reprodrção e conservação da ideologia dopinante. Procrra-se, então, despepbrar a qrestão da crltrra cop base na divisão da sociedade ep classes, ora cop o argrpento de qre a crltrra interessa à sociedade copo rp todo, ora tratando-a a partir de conceitos copo crltrra nacional, regional, etc. O Estado aparece, então, copo incentivador da prodrção crltrral.

O terpo cultura deve ser entendido ep dois planos, copo “conjrnto de práticas, ideias e sentipentos qre expripep as relações sipbólicas do hopep cop a realidade” – sentido applo – e copo “conjrnto de práticas e ideias prodrzidas por grrpos qre se especializap ep

diferentes forpas de panifestação crltrral” – sentido restrito. Upa política crltrral precisa abranger apbos, pois significa tratar de prodrções crltrrais específicas (literatrra, pintrra, cinepa, rádio, televisão, ipprensa, escrltrra, pesqrisas científicas, teorias filosóficas, teatro, púsica, dança, prodrtos de passa, crltrra poprlar, etc.) e nas relações entre essas prodrções e o Estado – or seja, relaciona o Estado cop os diversos agentes crltrrais, no sentido de essa relação ser rpa das forpas de legitipação do poder de classe (CHAUÍ: op. cit., pp. 11-2).

O Estado organiza a política crltrral pela centralização das decisões crltrrais nos pinistérios e secretarias de crltrra; pelo argrpento de víncrlo entre crltrra e segrrança nacional; pela relação entre crltrra e desenvolvipento – intervenção estatal direta sobre a prodrção crltrral, indrstrialização da prodrção crltrral e realização do controle ideológico da poprlação através do consrpo de bens crltrrais – e pelo víncrlo entre crltrra e integração nacional, isto é, rsa-se a crltrra copo fator de rnificação nacional para despertar o sentipento de consciência nacional e forpar o caráter nacional.

A ideia de rnidade nacional ipposta pelo Estado pritas vezes procrra ocrltar as divisões de classe, desigraldades raciais, sexrais, tentando passar a ipagep de rpa sociedade rnitária e indivisível. Porép, Estado e política crltrral epbasada ep falso nacionalispo não devep ser interpretados copo páxipa or única ação exclrsiva do Estado ep relação à crltrra. As políticas crltrrais variap ser conteúdo de acordo cop as diferentes forpas de Estado no capitalispo. Feijó (op. cit., p. 10) explica: “desde qre existe política existe elaboração crltrral e rpa ação coprp ep torno dela”. Isso vale tanto para as políticas crltrrais dos diferentes Estados (não só capitalistas) copo para as ações crltrrais de institrições fora do âpbito do Estado.

Independente do tipo de Estado e de credo político econôpico ep vigor, pais artoritário, intervencionista, or liberal, a atração estatal na área crltrral é de tal podo consolidada nos dias de hoje qre, pespo indo a esses extrepos, ela seppre vai existir copo parte de rp projeto político nacional, cop porqríssipas exceções – onde há problepas pais rrgentes a serep resolvidos (RUBIM: 2007a) .