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3.3. Afganistan'da BarıĢ Sağlama Sürecinde KarĢılaĢılan Engeller

3.4.2. Bölgesel Aktörler

Para Weick, psicólogo social americano, o processo de interpretação nas organizações não é nem simples nem bem compreendido. Interpretação é o processo de traduzir o que ocorre, desenvolver modelos de compreensão, constituir significado e reunir esquemas conceituais entre os atores que participam e compartilham da organização (WEICK, 2001, p. 244).

Weick afirma que o ato de criar um conceito faz com que como conseqüência o fenômeno seja criado. Portanto, o ato de uma organização analisar o seu ”ambiente”, implica em que o fenômeno ”ambiente” se crie e o que se vê do ambiente é conseqüência de como se buscou a informação sobre o mesmo. De acordo com Weick, o ato de criar um conceito como ”organização”, por exemplo, faz com que o fenômeno ”organização” seja criado. Para Weick, a forma como se busca estabelece o que se busca, isto é, pode estabelecer uma linguagem de leitura daquilo que se busca (WEICK, 2001, p. 179).

[…] Mencionei, em outro lugar, que ‘a realidade é uma metáfora’ (Weick, 1969a). Com isso eu quis dizer que falar de ‘uma realidade’ é simplesmente uma maneira que as pessoas tentam para encontrar sentido no fluxo de experiências que corre ao seu redor. Dizer que existe uma realidade, um ambiente, e a partir daí procurar e descobrir padrões subjacentes nas estruturas sobrepostas é uma maneira de dar sentido àquele fluxo. […] No sentido literal, inserir uma ação (to enact) em um ambiente pode significar ‘criar a aparecimento de um ambiente’ ou ‘estimular um ambiente como conseqüência da representação. (WEICK, 2001, p. 188, tradução nossa).

Esse processo pode gerar a reificação (do latim, res, coisa) ou “coisificação” do objeto estudado, trazendo uma sensação de que este é “real” e ”está lá”. O fato de se falar e agir sobre uma ”realidade” é o que a torna ”real”’. A isso, o autor chamou de enactment, e deve ser entendido como um conceito fundamental na sua teoria, que estuda a origem subjetiva da realidade social. Enactment é de difícil tradução para o português. Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (HOUAISS, 2001, p.1129), o prefixo en - é uma variante do prefixo latino in, que indica introdução, transformação, no interior de, etc. Portanto enactment pode significar uma espécie de ”inserção da ação” no ambiente.

Weick apresentou a teoria de enactment em 1969, no livro The Social Psychology of

Organizing. Sucederam-se vários artigos nos anos seguintes, até que em Making Sense of the Organization (2001) reserva todo um capítulo sobre interpretações, cujo

título é Towards a Model of Organizations as Interpretation Systems (p. 241), em que constrói os pressupostos que sustentam uma teoria que propõe compreender como organizações interpretam coletivamente. Segundo o autor, ao interpretarem, os membros de uma cultura definem padrões e significados que depois são assumidos como que fossem uma realidade objetiva, à parte das suas próprias interpretações, e passam a agir a partir dessas interpretações.

Esse fenômeno descrito por Weick tem algumas características. O processo de reificação tem o poder de fazer com que o fenômeno ”seja visto” - por exemplo, no caso do ambiente, este se torna ”tangível” e ”real” para aqueles que o criaram, sem que tenham consciência disso. Além disso, o fenômeno não é individual e, sim, coletivo, havendo uma espécie de acordo tácito compartilhado pelo grupo. Dessa forma, pode-se explicar o fato de organizações em um mesmo setor, com ambientes similares, terem percepções de ambiente distintas e até opostas. O aspecto coletivo gerado a partir do compartilhamento cria a ”realidade”, ao passo que, quando esse fenômeno ocorre individualmente, parece aos outros uma espécie de anormalidade do indivíduo (WEICK, 2001, p. 241; HATCH, 1997, p. 41).

Como conseqüência desse processo, a partir do campo de percepção construído, são geradas as decisões e originadas as ações, em perfeita correlação com a percepção criada-gerada, reforçando esta, propiciando uma espécie de confirmação da “‘realidade”, que Weick relaciona com a conhecida expressão ”profecia auto- realizável” (WEICK, 2001, p. 170).

Para construir um modelo de ”organizações como sistemas interpretativos”, Weick parte de um conjunto de pressupostos:

a) Organizações são sistemas sociais abertos e complexos (ele também recorre à escala de Boulding, vide quadro 4), que processam dados do

ambiente, desenvolvem padrões de interpretação de tais dados e, como decorrência, tomam decisões;

b) Organizações têm seus sistemas cognitivos, isto é, embora seja no indivíduo que se dá o processo de receber dados, interpretar, transmitir e compartilhar as interpretações, a passagem para a dimensão organizacional vai além da dimensão individual; organizações têm seus mecanismos e sistemas de memória que registram e preservam conhecimento, comportamentos, mapas mentais, normas, valores. O compartilhamento é o fenômeno coletivo que sustenta esse mecanismo organizacional, permitindo que ele transcenda a dimensão individual, isto é, pessoas podem ser admitidas ou demitidas, quadros podem aumentar ou reduzir, mas as características coletivas tendem a permanecer. Isso não significa que haja unanimidade em tudo que se interpreta, mas há coerência que permite uma lógica interpretativa coletiva;

c) O nível de gerenciamento estratégico da organização tende a gerar as interpretações, que depois se espalham por outros níveis, bem como nichos da organização que se inter-relacionam com diferentes aspectos do ambiente fazem suas interpretações específicas. A direção da organização exerce o papel de integrar todas essas interpretações;

d) As tomadas de decisão são diferentes, pois organizações têm modos diferentes de processar os dados do ambiente e, por conseguinte, gerar interpretações, cada uma desenvolvendo seus próprios estilos e mecanismos para compreender a ambiência onde está inserida. Esse processo, que não é randômico, está baseado nas características da organização e do ambiente, influenciando a estratégia, a estrutura e a tomada de decisão.

Weick propõe a existência de um processo de absorção, processamento e feedback de dados, de forma coletiva, organizacional, que se dá em três estágios:

a) Scanning é o processo de coleta de dados do ambiente que pode ser formal ou através de contactos pessoais dos gestores;

b) Interpretação é o ato de dar significado aos dados coletados, traduzindo as observações e os eventos em entendimento compartilhado;

c) Aprendizagem é expressa pelas ações tomadas em resposta às interpretações geradas. O processo de aprendizagem, traduzido em ações, gera resultados que definirão novas informações para serem interpretadas, fechando, assim, um circuito que tende a se reforçar, seguindo uma lógica própria e especifica da organização.

Os modos de interpretar o ambiente podem variar de acordo com as crenças que as organizações possuem, e influenciam o nível de intrusividade em relação ao ambiente. Weick (2001, p. 248) define duas variáveis para estabelecer como as organizações interpretam e se relacionam com o ambiente, conforme pode ser visto no Esquema 6.

Eixo horizontal: mostra o nível de intrusividade, ou seja, o quanto a organização tem uma postura ativa ou passiva em relação ao ambiente.

Eixo vertical: são os pressupostos a respeito do ambiente, se a organização percebe que este é analisável ou não analisável.

Esquema 6 – Modelo dos Modos de Interpretação Organizacional Fonte: Weick (2001, p. 248)

Os quadrantes são assim definidos por Weick (2001, p. 248):

a) Enacting: representa uma estratégia ativa de se relacionar com o ambiente e a crença de que o ambiente não é analisável. Estas organizações constroem seus ambientes pelo fato de desenvolverem novos comportamentos, novos experimentos, testes, ignorando regras passadas. Operam na crença de que precisam ser altamente ativas para serem bem sucedidas e constroem mercados ao invés de esperar pela demanda;

b) Descobrindo: também representa uma forma ativa de se relacionar com o ambiente, mas buscando a resposta correta em vez de modelar a resposta, através de análises de dados obtidos por pesquisas de mercado, projeções, análises de problemas, visando identificação de oportunidades. Utilizam procedimentos de pesquisa conhecidos e formais, realizados por analistas; c) Visão Condicionada: este modo representa organizações que assumem

que o ambiente é analisável, com uma postura passiva. A interpretação do ambiente fica circunscrita às fronteiras tradicionais da experiência que têm no setor. A organização percebe o ambiente como objetivo e benevolente e não empreende esforços no sentido de aprender sobre ele. Restringem-se aos procedimentos e fontes de informação já estabelecidos;

DESCOBERTA Busca formal, questionamento, pesquisa, coleta de dados, detecção ativa. VISÃO CONDICIONADA Interpreta dentro de fronteiras tradicionais. Detecção passiva. Dados formais, rotineiros. VISÃO INDIRETA Interpretações limitadas. Dados informais, não rotineiros. Oportunidades por chance, rumores, sentimentos. ‘ENACTMENT’ Experimentação, teste, invenção do ambiente. Aprender fazendo. PRESSUPOSTOS SOBRE O AMBIENTE Não-analisável INTRUSIVIDADE ORGANIZACIONAL Ativa Passiva Analisável

d) Visão Indireta: trata-se de um modo com postura passiva e crença de que o ambiente não é analisável. Portanto, estas organizações não se fundamentam em dados objetivos e informações tradicionais, tendo suas fontes de informação assistemáticas e baseadas em contatos pessoais, chance e oportunidade.

A obra de Weick, embora fundamental para a compreensão do processo de significação da organização e da linguagem organizacional, não se refere explicitamente à interpretação dos símbolos na vida organizacional, embora aponte sua contribuição de forma indireta (WEICK, 1995, p.61).

Concluindo a seção 7, pode-se considerar que a inserção da perspectiva interpretativa nos estudos organizacionais veio incluir toda uma rica geração de teóricos que, com enfoques ou ênfases diferentes, seja nos aspectos simbólicos, seja na compreensão de significados coletivos mais complexos, permitiu abrir caminho para este trabalho, trazendo um conjunto de referências que permitirá uma compreensão de inovação como fenômeno organizacional.