• Sonuç bulunamadı

A educação pode mesmo vencer a barbárie? Se a desbarbarização tornou-se a questão mais urgente da educação nos dias de hoje, há que se tentar descobrir, efetivamente, o que pode a educação contra as forças produtoras e reprodutoras da barbárie. Por barbárie, Adorno entende não apenas o fato de que as pessoas estão atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação à sua própria civilização, mas também que se encontram tomadas por uma agressividade primitiva, um ódio primitivo e um impulso de destruição capaz de fazer explodir esta civilização. A superação da barbárie aparece como algo decisivo não somente para que, enfim, possamos viver em um mundo melhor, mas para que a humanidade possa ter assegurada a sua sobrevivência.

A educação começará a operar transformações significativas em relação à barbárie a partir do momento em que a desbarbarização for colocada como sua meta central. Interessante notar que, apesar de sua aversão à violência, Adorno não imagina a desbarbarização como simples exercício de moderação e restrição das afeições fortes e nem mesmo no sentido da eliminação de toda forma de agressão. Em sua opinião, desde que estamos todos inseridos no mesmo sistema que perpetua a barbárie, cada um de nós apresenta seus traços, e o que realmente podemos e devemos fazer é orientá-los [esses traços] contra si mesmos ao invés de permitir que sigam livremente seu curso.

Quando Adorno afirma que “a barbárie existe em toda parte em que há uma regressão à violência física primitiva, sem que haja uma vinculação transparente com objetivos racionais na sociedade” (ADORNO, 2006f, p. 159), ele pretende dirigir nossa atenção para as diferenças entre as chamadas erupções primitivas de violência e os modos de agir politicamente refletidos. É claro que se pode argumentar que toda reflexão tanto pode servir à emancipação quanto ao seu oposto, à dominação, e nesse sentido, Adorno assevera que tais reflexões – que por fim resultarão em alguma forma de práxis –, precisam ser absolutamente transparentes em sua finalidade humana. Mas, enfim, por que Adorno discorda da ideia de que uma educação que tenha por objetivo a desbarbarização deva exaltar a moderação e eliminar a agressão? Sua opinião é simples e muito clara: a conversão dos homens em seres inofensivos e passivos constituiria somente mais uma expressão da barbárie, na medida em que os tornaria aptos a contemplar o horror resignadamente.

No entanto, apesar de não propor a passividade e tampouco a omissão em momentos que possam requerer medidas mais enérgicas, Adorno faz questão de dizer que esses momentos devem representar apenas raras exceções e que, portanto, antes de determo-

nos sobre a dialética existente nos escassos momentos em que a antibarbárie requer o seu oposto, é muito mais urgente que se indique a necessidade de que, por meio da educação, as pessoas sejam tomadas pela aversão à violência física e seja desperto em cada uma delas um sentimento de vergonha acerca da brutalidade existente no princípio da cultura. Para além dos fatores subjetivos capazes de explicar a tendência à barbárie já analisados por Freud, Adorno destaca uma razão objetiva em especial para justificar essa tendência, a saber, a falência da cultura.

A cultura, que conforme sua própria natureza promete tantas coisas, não cumpriu a sua promessa. Ela dividiu os homens. A divisão mais importante é aquela entre trabalho físico e intelectual. Deste modo ela subtraiu aos homens a confiança em si e na própria cultura. E como costuma acontecer nas coisas humanas, a conseqüência disto foi que a raiva dos homens não se dirigiu contra o não-cumprimento da situação pacífica que se encontra propriamente no conceito de cultura. Em vez disto, a raiva se voltou contra a própria promessa ela mesma, expressando-se na forma fatal de que essa promessa não deveria existir. (ADORNO, 2006f, p. 164).

Durante o debate entre Adorno e Hellmut Becker surge ainda o tema da competição entre indivíduos e grupos como princípio pedagógico em geral promovido e estimulado nas escolas e demais instituições educacionais como algo saudável, produtivo e eficaz. Ambos concordam, em desacordo com a opinião (talvez predominante entre educadores), que a competição é um princípio contrário a uma educação humana e que o importante para que mereça ser assim chamada é, acima de tudo, que ela esteja apta a formar indivíduos realmente capazes de realizar o que foi estudado e, consequentemente, de refletir acerca de suas debilidades e das exigências postas para si mesmos.

Segundo Adorno e Becker, o combate a uma pedagogia que se utiliza da competição como instrumento para aumentar a eficiência individual dos alunos é indispensável na construção de uma educação realmente desbarbarizada. Adorno diz que é preciso “desacostumar as pessoas de se darem cotoveladas”, pois “cotoveladas constituem sem dúvida uma expressão da barbárie.” (ADORNO, 2006f, p. 162).

Também nesse debate é salientada a importância da educação na primeira infância. Um dos pressupostos mais importantes para a desbarbarização seria a dissolução – especialmente nessa fase da vida – de qualquer forma de autoridade não esclarecida. A grande dificuldade de se obter resultados positivos nessa área é que os pais, que deviam ser capazes de promover o acesso de seus filhos a tal educação são, eles mesmos, produtos da cultura bárbara da qual ninguém está inteiramente livre. Vale ressaltar, por fim, que levantar-se contra toda forma de autoridade não esclarecida não é a mesma coisa que levantar-se contra

toda forma de autoridade. Adorno complementa seu pensamento declarando que determinadas manifestações de autoridade – especificamente aquelas não originadas do princípio da violência e que tenham um momento de esclarecimento para quem está a ela submetido – podem trazer grandes contribuições no sentido da desbarbarização.

Benzer Belgeler