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Ao ser interrogadas sobre a história da criação da Casa de Saúde Santa Teresa, a maioria das pessoas que estiveram diretamente ligadas àquela instituição ou que acompanharam de longe a sua fundação em 1970 trouxe à tona a situação de crise econômica atual do hospital, sobrevivendo com os parcos recursos recebidos pelo SUS. Antes mesmo de pretender investigar essa instituição identifiquei o boato corrente na cidade de Crato, que dizia que o Santa Teresa de Crato estaria prestes a fechar suas portas por falta de recursos.

Na década de 1980, ocorria o processo de reestruturação da assistência psiquiátrica no país, um movimento que ficou conhecido como a Reforma Psiquiátrica. Embora em meu trabalho não tenha mencionado esse período, por se tratar de um momento posterior ao de meu recorte temporal, observei que desde 1960 os psiquiatras brasileiros discutiam no âmbito da academia as propostas de reformulação e renovação da assistência dada aos pacientes mentais, primando pelos serviços externos e pelo fim da ênfase no tratamento nosocomial. É sabido que por conta desse movimento de reforma diversas casas de saúde e clínicas psiquiátricas tiveram suas portas definitivamente fechadas, em razão da visibilidade que ganhou as propostas em defesa da paulatina desinstitucionalização da psiquiatria.

A Casa de Saúde Santa Teresa, fundada em 1970 e instalada no prédio do noviciado da Congregação das Filhas de Santa Teresa, inaugurou sua sede própria em 1986, onde funciona até hoje. O hospital foi transferido para as acomodações próprias antes que fosse finalizada a obra de sua construção, de modo que sua estrutura física ficou muito aquém da pretendida por seus sócios. De acordo com um dos relatos colhidos para essa pesquisa, isso ocorreu porque no mesmo momento em que estava sendo construída a sede própria da casa de saúde, o governo federal teria estabelecido uma portaria que determinava uma drástica diminuição do número de leitos em hospitais psiquiátricos credenciados pela previdência social.

O incerto destino desta casa de saúde talvez se assemelhe ao de tantas outras que foram fundadas no mesmo período, quando a política de saúde previdenciária para a especialidade psiquiátrica favorecia a construção de instituições privadas, mantidas pelo credenciamento com a previdência social, isto é, o INPS. Embora representem

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empreendimentos privados, o destino dessas casas de saúde e clínicas psiquiátricas particulares se encontrou e se encontra ainda à mercê das diretrizes governamentais produzidas para esta área pelo próprio órgão com que era credenciado, uma vez que esta sempre foi a principal veia de irrigação desses hospitais.

Como apresentei no primeiro capítulo, a maioria dessas casas de saúde foram criadas no final da década de 1960 e início dos anos 1970. A historiografia que dedicou ao período passou a identifica-lo como sendo o momento da indústria da loucura, quando os serviços psiquiátricos passaram a ser considerados como mercadoria, e a loucura teria se tornado uma indústria bastante lucrativa.

Em contrapartida, observei que o debate acadêmico especializado girava mais em torno da eficácia terapêutica dos serviços psiquiátricos sejam filantrópicos, lucrativos ou oficiais. Nesse debate os psiquiatras contemporâneos aos anos de desenvolvimento do serviço psiquiátrico previdenciário estavam militando muito mais a favor dos ambulatórios, hospitais dia, e demais serviços extra-hospitalares do que contra a assistência prestada pelo dono da clínica psiquiátrica. Muito embora a questão do lucro por meio dos serviços psiquiátricos também não tenha passado despercebido pelo professor Luiz Cerqueira e demais psiquiatras, que estavam envolvidos com os rumos da assistência no país. Esses psiquiatras também divulgavam as experiências positivas de propostas inovadoras ofertadas no âmbito das próprias clínicas particulares credenciadas pela previdência social, sobretudo, pelo IPASE. Soluções eficazes e um modelo assistencial que se encaixasse aos limites orçamentários da INPS e à realidade brasileira à época; reformulação da legislação psiquiátrica; bem como as propostas de uma assistência psiquiátrica em moldes comunitários conformaram a pauta principal dos psiquiatras que publicavam nas revistas especializadas e participavam de congressos de sua área.

Tanto os psiquiatras contemporâneos de fins de 1960 e início de 1970, quanto os demais pesquisadores que posteriormente se debruçaram sobre esse período atestam para o grande crescimento de oferta dos serviços psiquiátricos particulares. Isto significa dizer que sem dúvida a psiquiatria passou a ser um novo ramo do empreendimento médico privado, dotando o país de diversas clínicas psiquiátricas e casas de saúde. Com toda certeza a Casa de Saúde Santa Teresa foi produto desse período, quando as diretrizes do governo federal para a oferta da assistência psiquiátrica previdenciária apresentavam condições favoráveis à criação de instituições privadas para credenciamento junto ao INPS.

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Compreendido o debate sobre a assistência psiquiátrica nacional daquela época, e como esse período foi retratado pela historiografia optei, entretanto, contar outra história sobre a Casa de Saúde Santa Teresa, elegendo outra trama para tecer a compreensão sobre o porquê e o como de uma instituição como essa ter sido criada em Crato de 1970.

No segundo capítulo busquei compreender a trajetória do desenvolvimento dos serviços de saúde na cidade de Crato, respaldada pela a bibliografia que se dedicou ao tema – produzido, sobretudo, por médicos nativos da região do Cariri – em correspondência com a história da saúde e da psiquiatria no estado do Ceará. A cidade de Crato demonstrou ter uma centralidade na promoção dos serviços de saúde naquela região: era a cidade com maior número de médicos formados, construiu o primeiro estabelecimento de assistência à saúde na região, que atendia a diversas cidades até de outros estados, congregou o maior número dos serviços públicos de saúde até, pelo menos a década de 1970. Além disso, foi observado que à expressão do que ocorreu em todo o Ceará, o desenvolvimento do primeiro hospital para a cidade obedeceu à lógica de envolvimento da igreja católica com o cuidado à saúde do desvalido, sobretudo, na ausência de medidas governamentais efetivas para a saúde naquele estado.

Ainda no capítulo segundo analisei o desenvolvimento dos serviços psiquiátricos no Ceará, por meio tanto da historiografia sobre a psiquiatria quanto da documentação da SNDM (e posteriormente Dinsam), senão inédita ainda pouco explorada. Através dessas fontes primárias pude observar que no âmbito do próprio estado, desde a década de 1940, houve um debate em torno da reformulação da assistência psiquiátrica com ênfase na racionalização dos custos da assistência. Embora não tenha conseguido informações sobre a efetivação do que foi proposto no âmbito do próprio estado cearense, acredito que as diretrizes nacionais propugnadas pelo SNDM, isto é, criação de um hospital colônia, tenham solapado as intenções locais.

Além disso, pela análise dessa documentação ficou constatado que a situação da assistência psiquiátrica no Ceará, no início dos anos 1970, foi marcada pela centralização dos serviços na capital do estado, embora não encontre nenhuma referência sobre serviços existentes no interior, ainda que tenha sido observada uma falha dos órgãos oficiais da psiquiatria em cadastrar todas as instituições de assistência. De modo que a própria casa de saúde que estudo ficou de fora dos relatórios da Dinsam. A documentação da Dinsam relativa ao Estado do Ceará é um campo profícuo que merece ainda ser bastante explorado por historiadores instigados em construir a

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história da psiquiatria do Ceará, na conformação de uma análise qualitativa ou quantitativa.

Após elaborar esses panoramas analíticos passo à investigação sobre o evento de criação da Casa de Saúde Santa Teresa, tentando compreender as redes de relações que foram construídas para que essa instituição pudesse se estabelecer naquela cidade e naquele momento, para além das justificativas apresentadas pela historiografia que retratou sobre esse período.

Como pude perceber, os médicos fundadores da referida instituição faziam parte de boas famílias da cidade, espaço social conquistado desde o nascimento desses personagens que teriam garantido o estreito vínculo com diversos setores da elite cratense. As relações sociais entre os médicos fundadores e a elite local foram importantes para a aceitação social daquela instituição psiquiátrica que, ao ser fundada, teria sido motivo de questionamentos e preconceito social. A criação dessa casa de saúde foi um espaço onde se reproduziu e atualizou as relações sociais daquela localidade, de modo que sua análise ilumina aspectos específicos da própria história local de Crato e de sua região.

Por outro lado, a criação da CSST serviu também para fortalecer um discurso produzido sobre pela elite intelectual da cidade, que a elegia como lócus privilegiado do progresso da modernidade e do vanguardismo, considerada líder entre os demais municípios que conformam a região do Cariri.

Esse trabalho serviu para demonstrar que, na prática, a execução das diretrizes assistenciais assumem feições peculiares e atendem a lógicas específicas, fazendo-se necessário compreender os eventos elementares e singulares que representam uma outra leitura sobre os eventos. Ao contar outra história da assistência psiquiátrica na década de 1970, enfatizando as questões locais e realizando o estudo de caso de uma instituição específica que, como muitas, foi criada em 1970, busquei não refutar ou confirmar o modo como essa história vinha sendo escrita, mas demonstrar que outras tramas podem ser construídas para a compreensão desse evento.

Ao enfatizar a história institucional da psiquiatria em Crato e dos personagens principais que estiveram presentes no processo de sua construção, constituí uma forma bem tradicional de narrativa histórica, muito embora tenha feito uso de um método de pesquisa que foi consagrado por dar voz aos sujeitos excluídos da história: os relatos orais. Os vestígios sobre a história de vida de personagens que tiveram suas experiências cotidianas atreladas à história desse hospital esperam por serem

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garimpados, colhidos e destrinchados em narrativas que possam contemplar a história desses personagens ainda sem história. Os personagens sem os quais seria impossível que essa instituição existisse e, portanto, sem que essa história pudesse ter sido contada, esperam pacientes para serem relembrados e registrados pela história da psiquiatria cratense.

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Anexo 2 – Mapa do Ceará

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REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS