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2. SİNEMADA  MÜZİKAL  FİLMLER  VE  TARİHSEL  GELİŞİM SÜREÇLERİ

2.3. Arthur  Freed  Dönemi  ve  Vincent Minelli, Gene Kelly, Stanley Donen gibi

Se o materialismo histórico se propõe como explicação universal como poderia sua objetividade científica se isentar de qualquer vínculo social, classista, de qualquer determinação social e histórica? Como ficam suas implicações cognitivas e epistemológicas?

Em Marx25, o problema da objetividade científica e seu conteúdo político-ideológico aparece na relação entre ciência e luta de classes, entre conhecimento teórico e filosofia engajada, entre ciência e interesses de classes antagônicas. Para o marxismo, a ciência, a teoria política se constitui como instrumento de desocultação das relações sociais e como meio de luta, como arma de enfrentamento social e político do proletariado frente ao capital. A tradição marxista seguida por Lenin, Trotski, Rosa Luxemburgo, Lukács, Korsch e Gramsci, vai se constituir como a referência principal e radical da dialética revolucionária do marxismo. Em Lukács, particularmente, essa visão de mundo se constitui como o ponto de vista que corresponde racionalmente aos interesses históricos e objetivos do proletariado (Löwy, 1973, p.217)

Entretanto, conforme Löwy (2007, p.99), aquele dilema inicialmente colocado foi enfrentado por alguns teóricos marxistas de influência positivista, pois acreditavam resolver a problemática da aplicação do materialismo histórico

24Science et révolution: objectivité et point de vue de classe dans les sciences sociales. In: Löwy, Michael. Dialectique et Révolution, essais de sociologie et d'histoire du marxisme. Editions Anthropos, 1973, p. 201-236.

39 a si mesmo justificando o marxismo como a ciência da sociedade (ou da história). Assim, o marxismo estaria imune à crítica que ele próprio desenvolve no interior das ciências humanas e sociais.

Ou seja, a corrente de tendência positivista que surgiu nos quadros do marxismo contrariou a idéia de ciência engajada, partidária de uma visão de mundo e de interesses de classe. Esta corrente foi representada, sobretudo, por Bernstein e Kautsky26. O primeiro desejou uma separação absoluta entre os juízos de fato (Comte) e os juízos de valor (Kant) e o segundo trouxe uma concepção ortodoxa ao marxismo. Desta última, a objetividade é como um momento exclusivo do processo histórico constituído por um movimento mecânico, linear, determinável, independente da ação e da consciência humana. Ambos apresentaram dentro do marxismo influências, senão determinações, do pensamento positivista. Tanto Bernstein como Kautsky não abordaram o ponto de vista de classe na compreensão que fazem, cada um a seu modo, do marxismo como campo científico, embora discutiram sua dimensão ética e moral. Kautsky, embora no campo de oposição ortodoxa, procurou distinguir o ideal socialista dos estudos científicos de leis de evolução do organismo social.

Le problème est relativement embrouillé chez Bernstein et Kautsky, parce qu'ils n'abordent la discussion sur le point de vue de classe que par le biais de l'éthique et de l'idéal moral. Mais il s'agit bien de la même question: l'éthique n'est qu'un aspect de la vision du monde qui constitue le point de vue particulier, la perspective d'une classe sociale, perspective qui conditionne (à des degrès divers), à travers des médiations complexes, la “tendance” de toute science sociale. (Löwy, 1973, p.218)

A abordagem coerente deste problema terá uma fundamentação historicista, sobretudo, a partir de Rosa Luxemburgo (Reforma e Revolução, 1947), e depois pela corrente marxista-historicista. É neste campo que o marxismo pode explicar-se, cientificamente, a si mesmo e encontrar sua coerência teórico-metodológica, ou seja, a relação epistemológica entre a ciência marxista e o ponto de vista do proletariado.

40 relativismo na ordem explicativa das visões de mundo, de sua relação com as classes sociais e das condições mais favoráveis (à verdade) de conhecimento do real. Isto é, sua explicação científica de construção do conhecimento social mais próximo da realidade histórica. Sobre o caráter relativo desta dinâmica, afirma Löwy (1973):

Relative, parce que le degré d'engagement idéologique n'est pas le même dans toutes les sciences sociales (ni celui de “neutralité idéologique” dans toutes les sciences naturelles) et que, d'autre part, à l'intérieur d'une même science, certains problèmes sont plus “sensibles” que d'autres (...) c'est le rapport inverse entre la science et le normatif: les valeurs qui orientent, influencent et conditionnent les jugements de fait. Rapport qui, lui, n'est pas

logique mais sociologique: c'est le point de vue de classe

(impliquant des éléments normatifs) qui définit, dans une large mesure, le champ de visibilité d'une théorie sociale, ce qu'elle “voit” et ce qu'elle ne voit pas, ses “vues” et ses “bévues”, sa lumière et son aveuglement, sa myopie et son hypermétropie. (Löwy, 1973, p. 211-212)

Historicamente, o ápice e o vigor revolucionário do pensamento em Lukács, situado em sua obra máxima de 1923, não só retoma como também vislumbra brilhantemente a problemática em questão. A saber:

Neste nível, como obra político-filosófica e revolucionária,

História e consciência de classe continua a ser em nossos dias

uma obra prima incomparável porque realiza uma notável síntese dialética (Aufhebung) entre ser e dever ser, valores e realidade, ética e política, tendências profundas e fatos empíricos, objetivo final e dados imediatos, vontade e condições materiais, presente e futuro, sujeito e objeto. Esta unidade coerente e harmoniosa, que não é um “meio termo” mas uma

superação dos contrários, é uma estrutura significativa de História e consciência de classe, e o que faz a sua superioridade

em relação aos escritos anteriores e posteriores de Lukács. (Löwy, 1998, p. 206)

No prosseguimento político-filosófico e na mesma preocupação histórica desta tradição marxista, eis a questão recolocada por Löwy (2007, p. 100): “(...) por que a visão de mundo proletária será mais favorável ao conhecimento social 26 A afirmação de Kautski a respeito do materialismo histórico como uma teoria puramente científica e, por esta razão, sem vínculo com o proletariado ocorre de maneira mais coerente na sua obra La Conception matérialiste de l'histoire (1927).

41 que a visão de mundo das outras classes?” Inicialmente, nosso autor ressalta a distinção histórica do marxismo como visão de mundo: em Estados capitalistas o marxismo como visão de mundo assume o caráter de uma utopia revolucionária, ao passo que nas realidades pós-capitalistas a sua existência filosófica toma um caráter ideológico (a exemplo do stalinismo).

Então, para explorar o conteúdo marxista, de visão de mundo, cabe retomar o conceito de ideologia em Marx na obra O Dezoito Brumário que, segundo Löwy (2007, p. 101), tem sua forma mais acabada, sua definição mais precisa e concreta sobre as ideologias e visões de mundo enquanto expressão das classes sociais. Neste célebre trabalho científico Marx afirma e demonstra que a visão social de mundo ideológica ou utópica corresponde não somente aos interesses materiais de classe (economicamente determinados) mas, também, à sua situação social. Ou melhor, o conteúdo filosófico correspondente à uma determinada realidade social é desenvolvido por ideólogos ou utopistas, por 'representantes políticos e literários', intelectuais, os quais são relativamente autônomos com relação à classe que representam. A situação social e cultural destes intelectuais, necessariamente, não representa a mesma da classe cuja a ideologia ou utopia eles correspondem. A definição da ideologia ou utopia se constitui pelo seu modo ser e de pensar frente a uma certa problemática, um certo horizonte intelectual, compreendendo-os como limites da razão numa determinada sociedade e num determinado campo histórico.

Desse modo, como ficaria esta relação (ou contradição) com os representantes do campo científico? Se constituíria necessariamente destas mesmas determinações e mediações sociais? Para Löwy, a crítica marxista da economia política burguesa introduz a problemática da autonomia relativa da ciência como complemento essencial (e implícito) à sua crítica das limitações ideológicas desta ordem no campo científico.

Em Marx a diferença entre os “clássicos” e os “vulgares” da economia política está na autenticidade, em certa medida, que atribuem ou não à dimensão científica da (e sobre a) realidade social. Enquanto que nos clássicos (Adam Smith e, sobretudo, Ricardo) há um valor científico na medida em que procuravam descobrir a conexão interna das relações burguesas (sem no entanto buscar a questão-chave da produção do capital), nos economistas dito “vulgares” a ordem (pseudo) científica se valeu das aparências das coisas, da

42 superfície imediata das relações de produção no capitalismo - a defesa obstinada de que o capital é a fonte dos juros, a terra fonte de renda e o trabalho fonte do salário. Assim, de acordo com Löwy (2007), em Marx o caráter de classe de uma determinada elaboração da economia política não é uma indicação suficiente de seu valor (ou não) científico. Em outras palavras, embora com certas pressuposições ideológicas de ordem burguesa há uma certa diferenciação, distinção na configuração de sua importância científica.

Uma primeira explicação em Marx para tal diferença no seio da economia política burguesa é de ordem psicológica e moral. Uma outra explicação, mais avançada em seus estudos, situa a relação do desenvolvimento da economia política e da luta de classes para compreensão da distinção científica no âmbito da teoria burguesa. Para Löwy (2007), estas duas explicações em Marx não são contraditórias, mas se constituem como momentos necessários e compreensíveis desta relação, se concebidas dialeticamente.

Com efeito, a argumentação psicológica, moral, da boa ou má-fé dos cientistas burgueses é enriquecida pela explicação sociológica de conteúdo inerente aos posicionamentos científicos. É na análise sócio-histórica das contradições entre as classes sociais que se pode desvendar e compreender a tendência ou regressão de uma determinada ciência social, em particular, da economia política.

O período no qual a burguesia é revolucionária ou no qual ela não é ameaçada 'por baixo', isto é, pelo proletariado, é o que favorece – ou ao menos que permite – a honestidade científica. Pelo contrário, uma vez no poder, a burguesia se torna conservadora e sente a necessidade, ou melhor, ela exige uma apologética vulgar em defesa de suas novas posições conquistadas, face ao perigo que representa o avanço do movimento operário e do socialismo. A ciência 'imparcial' dos clássicos, não submetida de forma direta a um interesse exterior, exprime o grau elevado de autonomia da ciência econômica, possível em uma época na qual a burguesia não é contestada por uma força revolucionária nova; a doutrina 'venal' dos vulgares, diretamente a serviço de um interesse exterior à ciência, corresponde a um período no qual a burguesia se viu diante de um questionamento, tanto na teoria como na prática, da exploração capitalista. (Löwy, 2007, p.105-106)

Os pressupostos positivistas são de implicações conservadoras, reacionárias e contra-revolucionárias, visto que isentam ou afastam das ciências

43 do homem e da sociedade qualquer influência ou caracterização ideológica, qualquer relação ideo-política que o conhecimento possa manifestar (Löwy, 1973). Da mesma forma, a dimensão transformadora e revolucionária da realidade histórica seria inexistente porque as leis da sociedade são como leis naturais, invariáveis e independentes da ação humana.

O positivismo comtiano contribuiu cientificamente27 para a ordem do mundo burguês, para a resignação e passividade humana frente ao processo de industrialização e de exploração da força de trabalho. Dissimular e ocultar tal conhecimento implicou também em retirar as possibilidades de ruptura e de superação com o sistema e com o modo de vida capitalista. Dessa forma, as pesquisas e as explicações científicas pelo positivismo buscaram agregar forças e meios para abolir qualquer tentativa de alcance social das teorias críticas, de cunho subversivo, enfim, de caráter revolucionário.

A condução filosófica e política burguesa, e os seus limites científicos, é do ponto de vista do marxismo uma orientação histórica de sua própria visão de mundo – da sua problemática e do seu horizonte intelectual -, momentos particulares que se condicionam e que se constituem de uma mesma totalidade social. O sistema de questões colocado cientificamente para a realidade é que define o caráter cognitivo, moral, ético e histórico de uma determinada postura metodológica, teórica, filosófica e epistemológica.

Na relação entre a problemática científica e seu horizonte intelectual é possível afirmar que o papel da ideologia circunscreve os limites do saber científico (Löwy, 2007, p.108). Assim, é irrelevante para a ciência burguesa não só colocar determinadas questões para a explicação da sociedade capitalista como também impossível para ela ir além de determinadas investigações e explicações, cujo o horizonte e a visão de mundo não permitem.

Neste sentido, há uma impossibilidade histórica e cognitiva de apreeensão de certos aspectos da realidade. Prisioneiros de uma ideologia burguesa os economistas clássicos não podiam conceber as contradições da sociedade capitalista como contradições históricas, isto é, entre classes sociais distintas, mas as compreendiam como expressões das leis naturais da

27 Na ciência moderna, o positivismo clássico foi substituído pelo behavorismo e pelo funcionalismo, sobretudo, nas instituições acadêmicas americanas.

44 sociedade. Ou, conforme Löwy (p.109), “a ideologia burguesa não implica a negação de toda ciência, mas a existência de barreiras que restringem o campo de visibilidade cognitiva”.

De acordo com Löwy (1973), o que faz com que o método nas ciências sociais seja distinto da metodologia utilizada nas ciências naturais é um conjunto de elementos teóricos, históricos e filosóficos caracterizados por distintas visões de mundo. Assim, o conhecimento da verdade objetiva nas ciências sociais pode ter influência direta sobre a luta de classes e influenciar no discurso e na ação dos sujeitos diante dos conflitos históricos.

Da dimensão teórica, histórica, filosófica, metodológica e política acima esboçada, cabe-nos retomar a categoria social que inicialmente sistematizamos e que procuramos desenvolver parte de sua complexidade: a totalidade como fundamento e como instrumental metodológico da ciência marxista revolucionária.

A ação humana é um eterno processo de transformação da totalidade: por isso, para apreender a realidade, o homem procede por totalizações relativas sem jamais alcançar a objetividade pura e cristalina. Ele próprio é história. E é por esse processo, que consiste em atingir certa coerência estrutural, que o homem destrói as totalidades antigas para criar novas. “Só existe totalização na medida em que há destotalização”.

Portanto, a totalidade é processo histórico contínuo. Ela é regida

pelo princípio de variação interna, não de fixação das partes. A relação entre o conteúdo e a forma é consequentemente uma relação dialética, no sentido em que a forma é o resultado indireto do conteúdo. O que quer dizer que a forma procede igualmente do movimento de transformação do conteúdo. Não há linearidade de efeitos do conteúdo sobre a forma, mas principalmente interdependência, ação e retroação, movimento biunívoco entre um e outro. Esse princípio, magistralmente demonstrado por Hegel em “A ciência da lógica”, é sempre retomado por Goldmann. Se a totalidade é submetida então a um processo de variação, as estruturas internas – o que se convencionou chamar de “as partes” - jamais existem de maneira absoluta, elas próprias estão sempre em processo de transformação e de mutação. Esse processo é o de superação da quantidade pela qualidade, da mutação de uma estrutura para outra. E nessa problemática, o status da estrutura (da parte) é determinado em última instância pela totalidade, e não o inverso. (Löwy, 2008, p. 25)

45 1.5 Intelectuais e trabalho na sociedade capitalista: a (nova) face de um (velho) problema.

No quinto e último item de nosso primeiro capítulo trataremos sobre a proletarização do trabalho intelectual de forma a exercitar os fundamentos teóricos e críticos necessários na compreensão de sua atualidade histórica. Em particular, para substanciar o problema de pesquisa que nos defrontamos na realidade: as condições de precarização e intensificação do trabalho docente no ensino superior do Brasil no contexto de mundialização do capital e, por extensão, de mercantilização da educação.

De acordo com Löwy (1998), certas transformações e tendências estruturais de desenvolvimento do capitalismo contemporâneo, bem como as transformações políticas e culturais que norteiam a situação dos intelectuais após 1960 explicam, de certa forma, a proletarização e a radicalização dos intelectuais. Para o autor os intelectuais são criadores de produtos ideológicos-culturais em sentido estrito.

Mas, em que consiste a proletarização? Como muito bem demonstrou Mandel, sua essência é, em primeiro lugar, a transformação da força de trabalho em mercadoria: 'A proletarização do trabalho intelectual implica o aparecimento de um mercado de trabalho intelectual. Neste mercado, a força de trabalho intelectual é comprada e vendida como qualquer outra mercadoria, da mesma forma como ocorre com a força de trabalho braçal desde as origens do capitalismo. A força de trabalho intelectual ganha um preço de mercado que flutua segundo as leis do mercado, ou seja, segundo as leis da oferta e da procura...'. “A inteligência”, “a cultura” ou a “competência” deixam de ser qualidades individuais (reais ou supostas) e incomensuráveis, transformando-se em força de trabalho intelectual, tornam-se mensuráveis, quantificáveis e passíveis de redução a um valor de troca. Por outro lado, enquanto o vendedor de serviços continua sendo o proprietário de sua capacidade de trabalho e guarda uma considerável margem de liberdade, o vendedor da força de trabalho está submetido ao comprador da mercadoria que dispõe dela a seu bel-prazer. A força de trabalho já não pertence ao proletário intelectual que deve obedecer a seu novo proprietário.”(1998, p. 268)

Mesmo que predomine uma grande fração em torno da produção e reprodução da ideologia dominante é expressiva a adesão dos intelectuais aos movimentos de esquerda, ao movimento sindical, incluindo setores produtivos e

46 terciários. Essa adesão atual dos intelectuais nas novas estruturas políticas e sociais ganhou um caráter de massa, muito diferente do período histórico que contextualizou a evolução política de Lukács e de seus amigos intelectuais nos círculos que compartilhavam a “recusa apaixonada e vaidosa” ao modo de vida capitalista que insurgia.

Para os intelectuais do Círculo de Max Weber de Heidelberg e do Círculo do Domingo em Budapeste, a predominânica dos valores mercantis sobre os valores éticos e morais, culturais e sociais autênticos como a poesia, a arte, o humanismo, a solidariedade, a amizade, os aborrecia profundamente, tanto que numa aparente aspiração realista desejavam um retorno ao passado pré-capitalista. De outro lado, os que tomavam um partido mais radical à epoca, de acordo com posições ou idéias, eram tidos como utópicos até que concretamente tivessem como referência o movimento operário.

Na contemporaneidade, a relação entre utopia e realismo diante do mundo capitalista muda o conteúdo. Hoje, o desejo da volta às antigas formas de produção e de relações sociais do passado é que se caracteriza como uma concepção utópica do mundo conforme argumenta Löwy:

Mas o essencial é que o realismo e a utopia mudaram de campo: enquanto, desde as Revoluções russa, iugoslava, chinesa, vietnamita e cubana, a transição para o socialismo é um processo real, desigual e contraditório, a volta atrás, a volta à comunidade pré-capitalista “natural” e “orgânica” tornou-se um sonho utópico. (1998, p.261)

Obviamente, por serem produtores ideológico-culturais, as características resultantes destas transformações são distintas daquelas encontradas no seio do trabalho produtor de mercadoria propriamente dito, ou seja, o trabalhador da fábrica, da indústria, da produção. Ainda assim, as diferenças entre condições de salário, de trabalho e de concorrência no mercado capitalista tendem a desaperecer, senão se tornarem quase insignificantes no conjunto dos trabalhadores explorados na sua força de trabalho.

No que diz respeito ao conceito de proletarização do trabalho intelectual, Löwy (1998) polemiza com Nicos Poulantzas (Les classes sociales dans le capitalisme aujourd'hui, 1974) visto que para este autor as transformações do trabalho dos intelectuais caracterizam sua participação e pertencimento no

47 campo de uma “nova pequena burguesia”. Poulantzas reconheceu as perdas e a exploração do trabalho intelectual sem, contudo, identificá-lo no conjunto das classes trabalhadoras.

Em conclusão, parece-nos que os setores tão habilmente descritos por Poulantzas, e definidos por ele como “polarizados pela classe operária”, são, por seu lugar nas relações econômicas, sua posição no campo da luta de classes e sua ideologia, camadas muito mais próximas do “proletariado tradicional” que da pequena burguesia tradicional. Portanto, parece-nos mais correto denominá-las de “nova classe operária”, “novo proletariado” ou “proletariado intelectual” que de “nova