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O primeiro passo foi a realização dos contatos e esclarecimentos com: a Associação, para a permissão das filmagens em suas dependências (ANEXO 1); os pais, para a permissão do uso da imagem e dados de seus filhos; e a professora especializada (ANEXO 2), para a permissão do uso da imagem e divulgação dos dados da pesquisa (ANEXO 3). A Associação, os responsáveis pelas crianças e a professora especializada receberam Termos de Consentimento Livre e Esclarecido e, somente após as assinaturas, foram colhidas informações por meio de leitura dos prontuários (notas de prontuário), arquivados na Associação e iniciadas as filmagens e análises.

4.3.3.1 Participantes

A caracterização dos participantes contou com informações fornecidas pelos pais e/ou responsáveis, presentes em prontuários, fornecidas pela Associação, ao iniciar os atendimentos (notas de prontuário), e das informações registradas, a partir das observações realizadas antes e durante a coleta de dados (notas de observações):

S1

Notas de prontuário: sexo masculino, dois anos e quatro meses de idade (05/11/2010), nasceu prematuro. Apresentou icterícia neonatal e ficou três meses internado na UTI. Iniciou atendimento na Associação em 09/04/2013. Apresenta perda auditiva bilateral (CID H90) e utiliza aparelho auditivo em ambas as orelhas. A mãe não soube relatar detalhes sobre a perda auditiva do filho. Em relação à

46 acuidade visual, esta é reduzida (baixa visão e ainda não confirmada a acuidade) e com presença de nistagmos em alguns momentos. A mãe relata que o filho tem intolerância a som alto e batidas. De acordo com a avaliação da Associação, S1 parece apresentar maior entrada de informações do lado esquerdo do corpo, utiliza o pé esquerdo como maior meio de exploração e utiliza a mão para a autoestimulação. Apresenta movimentos repetitivos. Utiliza o tato como maior meio para receber informações. Foi encaminhado para avaliação auditiva e visual, principalmente por haver a hipótese de S1 apresentar deficiência visual cortical.

Notas de observações da pesquisadora: apresentou como formas de comunicação mais frequentes tato e movimentos corporais, utilizados também como respostas e para chamar a atenção. Apresentou vocalizações. Reagiu defensivamente ao tato – reação ao toque da professora, e à mudança de posição postural. Quando tocado, movimentava o corpo e começa a vocalizar. Pareceu compreender as pistas por meio do toque da professora e toque/vibração de objetos. Durante as observações iniciais, não foi detectado um comportamento de intenção comunicativa, apenas poucas respostas de S1 à fala ou toques da professora. Durante a realização das atividades, preferiu ficar deitado e, quando alterada a sua postura, vocalizava e começava a chorar. Não anda. Com o passar do tempo, não apresentou reação negativa ao toque, aceitou o contato com a professora, estabeleceu potenciais comportamentos de atenção ao objeto, atenção à professora e atenção conjunta, momentos de interação e de potencial comunicação.

S2

Notas de prontuário: sexo feminino, quatro anos e seis meses de idade (08/10/2008), nasceu prematura. No segundo dia de vida, apresentou quadro de hipoglicemia, convulsão e apneia. Foi entubada e apresentou mais uma convulsão. Esteve internada por três meses. Apresenta como Hipótese Diagnóstica: encefalopatia crônica não evolutiva, espástica e baixa visão. Iniciou atendimento na Associação em 08/12/2009. Foi avaliada pelo Serviço de Ortóptica e lhe foi receitado o uso de óculos diário. Exame de motilidade ocular: não

47 mantém fixação ocular. Fez provável uso da visão e do tato como canais de aprendizagem. Tolerou a interação. Necessitou de apoio constante para realizar atividades. Utilizou comunicação não verbal, por meio de movimentos corporais, murmúrio e choro. Respondeu às ações por meio de movimentos corporais, como um meio de comunicação expressiva. Quanto ao aspecto visual, respondeu para contrastes (preto e branco) e listrado (preto e branco). Quanto ao aspecto gustativo, não apresentou preferência por sabores e aceita todo tipo de alimento. Apresentou preferência por temperatura morna. Na área motora, apresenta hipotonia. Não anda. Apresenta defesa tátil nas mãos, pés e rosto. No que diz respeito às Atividades de Vida Autônoma e Social: não utiliza o banheiro sozinha, precisa de ajuda constante, não tem controle de esfíncter e não se alimenta sozinha. Quanto à mastigação e deglutição, a mãe não apresentou queixa. Apresenta um sono tranquilo. Brinca com o irmão. Foi encaminhada para uma nova avaliação auditiva e visual.

Notas de observações da pesquisadora: é uma aluna que fica a maior parte do tempo sentada em sua cadeira adaptada, devido às condições de sua postura corporal. Não sustentou a cabeça sem as adaptações da cadeira. Suas condições motoras e visuais dificultam seu desenvolvimento e suas respostas, durante as atividades em sala de aula. Sua forma de comunicação se restringiu ao olhar, movimentos corporais, de cabeça (não considerando os movimentos do próprio quadro motor) e algumas vocalizações. Suas preferências são interpretadas pela família, em contextos, por movimentos específicos.

Professora

A terceira participante é formada em Pedagogia, especializada na área da surdocegueira e deficiência múltipla, e está há 13 anos na Associação. No início, trabalhava com adultos e há oito anos apenas com crianças, no Grupo de Atendimento Infantil (GAI).

48 4.3.3.2 Registro das observações das interações

Como forma de coleta de dados foi observada a interação entre a professora e cada uma das crianças (S1 e S2). Esse tipo de método é denominado observação participante (QUEIROZ et al., 2007).

A interação entre S1/professora e S2/professora foi observada durante as atividades escolares, em períodos diferentes e em dias consecutivos. Tais atividades foram observadas, em sala de aula, do modo como são realizadas no dia a dia e sem interferência da pesquisadora. Os atendimentos, tanto na sala de S1 quanto na de S2 ocorriam em grupo de três alunos, em média, e, em alguns dias, os participantes desta pesquisa foram atendidos individualmente, em consequência das faltas dos demais colegas. Os demais alunos apresentam surdocegueira, deficiência múltipla e outras deficiências e estão entre a faixa etária de dois e sete anos. A filmagem focalizou, todo o tempo, apenas a interação entre professora e S1 e S2, mesmo com a presença de outros alunos em sala de aula.

As atividades de interação participante/professora utilizadas para as filmagens foram selecionadas de acordo com a programação das aulas.

Cinco atividades e cinco observações foram filmadas e analisadas: − atividade com contato corporal;

− brincar com bola; − canto e ritmo;

− brincar com instrumentos musicais;

49 Quadro 1 – Descrição da relação entre as atividades em sala de aula e as observações das sessões realizadas pela pesquisadora.

Participantes Atividades Nº das sessões

S1

Atividade com contato corporal 1 e 7

Brincar com bola 6

Canto e ritmo 1,2, 3,4, 5 e 6

Brincar com instrumentos musicais 4

Brincar com outros brinquedos/instrumentos musicais 5 S2

Atividade com contato corporal 3

Brincar com bola 1

Canto e ritmo 1,2, 4,5 e 6

Brincar com instrumentos musicais 2

Brincar com outros brinquedos/instrumentos musicais 5 e 6

Optou-se, neste estudo, pela utilização de gravação audiovisual, um meio de observação direta. É um instrumento utilizado nas esferas internacionais, com alto grau de confiabilidade, como prática de observação, desenvolvimento de estratégias (POPICH, 2003), intervenção pessoal e para possível melhora na qualidade de interação (HOSTYN, 2011) e descrição dos complexos processos e padrões de interação entre os participantes da pesquisa e a professora (YIN, 1994), principalmente em crianças que apresentam comportamentos não verbais. Os resultados da revisão de literatura dos estudos de HOSTYN (2011) confirmam que a observação de vídeo é o método mais utilizado para analisar as interações com grupo de pessoas com deficiência múltipla.

Essas observações sistemáticas e concomitantes filmagens ocorreram no período de abril a outubro de 2013, e registrou-se a interação entre cada criança e a professora, com objetivo de obter dados detalhados da própria interação e potenciais formas de comunicação. Tais observações foram registradas de acordo com: a atividade realizada, como contato corporal, brincar com bola, canto e ritmo, brincar com instrumentos musicais e brincar com outros brinquedos/instrumentos musicais; a comunicação utilizada pela professora durante as atividades (verbal, toque, auditiva, visual, língua de sinais) e a forma de comunicação/resposta apresentada tanto por S1 quanto por S2. Cabe ressaltar que as filmagens foram realizadas em pequenas tomadas, pois em vários momentos houve interrupções, quando S1 ou S2 choravam, quando outros alunos choravam, outra pessoa

50 entrava na sala, entre outras ocorrências, o que diferenciou o tempo em cada vídeo. Utilizou-se uma filmadora da marca Samsung, modelo SMX-C10, digital.

As observações diretas foram filmadas e gravadas em cartão de memória. O tempo das filmagens foi codificado para a identificação dos momentos relevantes, de acordo com o objetivo da pesquisa, por meio do programa

ATLAS.TI – The Qualitative Data Analysis & Research Softwares3 (ANEXO 4). Para S1, foi contabilizado um total de 119:04 minutos de filmagem, com observações que variaram entre mínimo de 01 minuto e máximo de 25 minutos. Para S2, foi contabilizado um total de 93:27 minutos de filmagem, com observações que variaram entre mínimo de 01 minuto e máximo de 24 minutos. Os vídeos foram transcritos e os tempos das gravações codificados, o que possibilitou a marcação e localização de comportamentos, sempre que necessários assisti-los. Notas de campo, com observações voltadas para a pesquisa e algumas perguntas relacionadas às atividades, nos momentos das filmagens, foram realizadas.