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6. SONUÇ ve ÖNERİLER

6.2. Öneriler

6.2.1. Araştırmaya Yönelik Öneriler

Localizada no centro-oeste mineiro, a cidade de Lagoa da Prata conta com mais de 40.000 habitantes que vivem basicamente da agropecuária, da produção de cana-de-açúcar, da indústria e do comércio. Sua origem remonta a meados do século XIX e se justifica pela busca do ouro próximo às águas do Rio São Francisco. O crescimento populacional conquistado com a progressiva aquisição de terras fez com que a região se elevasse de povoado a distrito e, finalmente, a município, em 27 de dezembro de 1938.

O início da produção industrial da cana-de-açúcar em Lagoa da Prata, assim como em praticamente todo o país, foi articulado politicamente e se concretizou através da aliança entre empresários, proprietários de terra e o governo federal, representado por programas que incentivavam esse setor produtivo.

O mentor da criação, instalação e funcionamento da usina foi José Mendes Macedo, o primeiro prefeito de Lagoa da Prata. Em relato recolhido pelo historiador Silvério Rocha de Oliveira, declara o prefeito:

Corria o ano de 1945 quando eu mantinha negócios na capital federal. Desde que me mudei de Lagoa da Prata, em 1940 – quando deixei de ser prefeito – e já residia em Belo Horizonte, de vez em quando ia lá para tratar de assuntos da empresa de que participava no Rio. Certo dia, via-me numa lanchonete carioca, na Barra da Tijuca, quando me encontrei com dois amigos bem conhecidos - de certa influência no Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). Nesse contato, conscientizei-me da disponibilidade de cotas viáveis à instalação de usinas açucareiras bem como de destilarias de álcool, no país. Era um incentivo raro e interessante. Lutei pela causa, no IAA [...] Comentei as qualidades de terras existentes aqui e falei do engenho existente na Olaria que já produzia aguardente deste 1920. Eram só terras boas. Das melhores da região. Falei que minha sogra era proprietária de muitos mil hectares de terras férteis aproveitáveis àquele fim. E que eu também que era dono da fazenda dos Coqueiros – herdada do meu sogro - que era continuação dessas mesmas faixas produtivas. Ficaram de estudar o caso e ordenaram a vinda de uma comissão do IAA a estudá-lo. Surpreendendo-me, tudo veio rápido e a conversa acabou gerando frutos muito importantes. Pois, vieram logo. Aqui chegando, visitaram as fazendas indicadas, principalmente a Capoeira da Cana (onde hoje existe a usina). O assunto teve seguimento. Resultado: até aquelas cotas destinadas ao endereço inicial mudaram-se de rumo - vieram para Lagoa da Prata que obteve também igual número perfazendo 100.000, como início da participação na idéia. Confirmada a criação da usina com esse recurso inicial, procurei pessoas talvez interessadas e fui logo ao maior líder industrial conhecido na região: Jovelino Rabelo (e este trouxe um seu genro engenheiro para a orientação de tudo no começo desse mister: o Dr. Francisco Botelho Martins Vieira). Junto dele, fomos em busca de alguém ligado à questão e fomos convidando quem pudesse participar. Primeiro, trouxemos um dos maiores usineiros do nordeste – o pernambucano

Fileno de Miranda – que veio e trouxe o Dr. Edgar Piereck (seu genro – que acabou tornando- se seu porta voz) que era uma das maiores autoridades em usinas de açúcar e álcool; trouxemos o Deputado Dr. Djalma Pinheiro Chagas, porque precisávamos de apoio político também (e ele além de aderir ao movimento, pôde indicar um seu sobrinho para prefeito – Dr. Geraldo Pinheiro Chagas, o qual dirigiu este município num curto período: de 26/11/45 a 11/02/46); então, recursando, valemo-nos de empresários e banqueiros belorizontinos onde encontramos José Caetano Drumond, Lauro Mourão Guimarães, Pacífico Pinto da Fonseca, Joaquim Afonso Rodrigues, Raul Guimarães, Domingos Ribeiro de Oliveira e Silva, Pedro Teixeira de Menezes Júnior e Érico de Paula além dos fortes participantes locais: a minha sogra Maria Bernardes Lobato a Dª Naná – (que era dona das melhores terras destinadas àquele fim), Carlos Bernardes Lobato e José Teotônio de Castro (o Zé Vital), os quais se tornaram nos primeiros membros de diretoria e do conselho fiscal. Houve uma sucessão de acontecimentos e muitas reuniões principalmente no Clube Recreativo. E, finalmente, coroando o trabalho dos primeiros passos dados – no seguimento da idéia surgida no primeiro semestre do ano anterior - foi constituída a Companhia Industrial e Agrícola Oeste de Minas (CIAOM) para a exploração de suas atividades cujo objetivo era a instalação de uma usina açucareira com um anexo destinado à destilaria de álcool. Formalizou-se a sua constituição e logo foi registrada a empresa na Junta Comercial do Estado de Minas Gerais onde recebeu o número 29770, de 8 de agosto de 1946, dizendo-se criada no dia 3 desse mês e ano. O fato se deu nos primeiros dias do 2º semestre do ano de 1946. Criada e instalada, veio a produzir após ser autorizada pelo IAA e assim funcionou durante longo tempo ostentando o nome fantasia de "Usina São Francisco. Para consolidar o objetivo e chegar-se a tanto, uma firma francesa, sediada em Paris – a Fives Lilly, encarregou-se do fornecimento e da montagem do primeiro engenho destinado ao fabrico de açúcar (a usina propriamente dita), cujo trabalho ficou por conta de um técnico, vindo de lá, de nome Mr. León Cousar, enquanto o setor de instalação e produção de álcool (a destilaria) era dirigido por um encarregado da CODIQ – uma empresa paulistana, dirigida pelo seu encarregado conhecido pela alcunha de "Japão", visto parecer-se japonês (não tendo me inteirado do seu nome). Veio também, para dar início à produção, um prático experiente na produção de açúcar encontrado numa das usinas já existentes: o sêo Borges que era até chamado de Doutor. Desse jeito, foi-se indo até acontecer a primeira safra em outubro de 1948. Logo após iniciada a produção, a CIAOM foi transferida aos domínios do grupo financeiro do Dr. Antônio Luciano Pereira Filho, ora sob a direção do seu pai: Cel. Antônio Luciano Pereira, que dela se tornou Diretor Presidente. Isto aconteceu em 26 de fevereiro de 1949 (conforme ata registrada na JCEMG – nº 30.075 – em 19 de março de 1949.5

Em obra dedicada ao resgate histórico de Lagoa da Prata, Oliveira (1998) apresenta a produção açucareira nesta cidade em dois capítulos: “Indústrias – fonte de progresso” e “Acontecimentos marcantes – fatos e pessoas”. No primeiro capítulo mencionado, o autor descreve o surgimento da usina açucareira, cuja principal fonte de pesquisa foi o depoimento do prefeito José Mendes Macedo, aqui reproduzido.

Ainda no capítulo “Indústrias – fonte de progresso”, Oliveira (1998) expõe as transformações ocorridas na indústria, seus diferentes proprietários e nomes, suas adaptações quanto à

estrutura física, seu progressivo crescimento econômico e os consequentes benefícios para o município.

Dentre as transformações na estrutura física da indústria, o historiador ressalta as vilas destinadas para a moradia de alguns trabalhadores da usina. Segundo Oliveira (1998), tratava- se de um “excelente lugar para se morar. Tinha de tudo que numa sociedade moderna é aspirado ou se impõe” (p. 285).

O autor ressalta que havia, nesse povoado, rede de esgoto, energia elétrica e água potável, além de um centro comercial que contava com supermercado, farmácia, padaria, bar, barbearia, centro médico e até cinema. As vilas contavam, ainda, com uma capela, uma escola que oferecia o primeiro grau completo e uma praça de esportes.

Oliveira (1998) afirma que a empresa sempre buscava melhorar a condição de vida dos trabalhadores e lamenta o fim do povoado, “onde tanta gente, por tanto tempo, viveu tão bem” (p. 285). As causas desse fim foram os atritos entre os trabalhadores e a empresa, que tiveram o seu auge “na violência do motim de 14 de junho de 1989 – de repercussão nacional –, de incalculáveis prejuízos” (p. 286), quando, então, foi acordado que as vilas não mais existiriam e os trabalhadores iriam morar na cidade.

No capítulo “Acontecimentos marcantes – fatos e pessoas”, Oliveira (1998) lembra de uma medida tomada pela empresa para driblar suas dificuldades financeiras: a implantação da “in natura” e do “boró”.

A “in natura” era a cobrança de uma taxa de 10% sobre o salário do trabalhador, destinada ao aluguel das casas do povoado. Esse recurso é referido pelo autor como um estranho posicionamento administrativo, já que o salário do trabalhador já era muito baixo, embora “correspondente ao serviço que presta” (p. 415).

O “boró”, por sua vez, começou devido a um adiantamento salarial realizado pela empresa em forma de vales que serviriam para as compras no comércio das vilas. Entretanto, esses vales acabaram por se tornar uma moeda paralela – o boró – que circulava no recinto empresarial e em alguns pontos comerciais da cidade de Lagoa da Prata.

oA história da usina de Lagoa da Prata, apresentada por Oliveira (1998), evidencia uma versão que se dedica, em um primeiro momento, às articulações políticas e econômicas e enfatiza os eventos protagonizados pelo poder. A referência do autor aos trabalhadores é sempre realizada nos âmbitos administrativos, ou seja, fala-se do trabalhador a partir dos acontecimentos da empresa e não por ele mesmo, por sua vida, sua trajetória. Como nos lembra Lejeune (2008), “o vivido das classes dominadas não está em suas próprias mãos”, pois “seu vivido é estudado de cima, de um ponto de vista econômico e político.” (p. 133)

Por isso, dedicamos a parte que se segue neste estudo às histórias de vida de D. Alzira e de Dimas e que, protagonizadas e contadas por eles mesmos, compõem a história concreta da produção da cana-de-açúcar na cidade de Lagoa da Prata.