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4.4. Veri Toplama Süreci

4.4.3. Araştırmaya Dayalı Bilim Eğitim Programı’nın Uygulanması

Em relação ao rito de passagem – ou à metáfora do “patinho feio” a que recorremos anteriormente – e levando em conta as duas cenas que projetamos para o “antes” e o “depois”, pode-se perceber, em alguns textos, a ocorrência apenas da primeira cena, ou seja, do quadro de sofrimento que parece ser decorrência do afastamento dos sujeitos do seu meio natural de convivência.

Os textos abaixo (22) e (23) manifestam um DFO e nos deixam com sensação de falta, de desejo de continuidade. Quando os comparamos aos trechos anteriores, perguntamo-nos sobre o segundo momento (o do sucesso):

139 (22) Minha mãe nasceu surda natural fala sobre médico sem doente nada. Mas surdo estar não doente acontecer nada mal saúde bem nunca fumar, CIGARRO, não beber, CERVEJA. Surda natural bem.

Eu estou trabalho problema sobre peoceinto é surda mas porque não conseguir difícil tão não comunicar pessoas gerente ou família. Eu estou pouca sofre. (Texto O na íntegra)

(23) Eu sou surda, mãe nasceu uma filha é surda e minha família não entenderam comuniação menina é surda e minha mãe leve surda na escola e evolução aprende Libras no Ines. Agora minha mãe entendeu comunicação com eu e só isso. (Texto P na íntegra)

Diferentemente do que ocorre nos trechos de (17) a (19), não verificamos nos textos acima a “descoberta” do sentido de ser surdo. Indagados sobre o significado de ser surdo e sobre a sua experiência de vida surda (como consta no item 3 do questionário), os locutores mobilizam a temática do nascimento, demonstrando ou a sua inconformidade por ter nascido surdo (como em 22) ou a inconformidade da sua família (metonimicamente representada pela mãe), diante desse fato (como em 23).

Nessa perspectiva, os discursos acima podem ser considerados como uma manifestação do DFO. Tal filiação se deve ao fato de os sujeitos se mostrarem presos ao sistema de poder que apregoa o modelo de vida ouvinte como supremo, fato que esclarece o motivo pelo qual temos em (22) um locutor que se preocupa em esclarecer os motivos da sua surdez, justificando ter sido um fato natural, que não decorreu, por exemplo, do descuido da sua mãe (nunca fumar, nunca beber). Nesse trecho, a seleção lexical privilegia palavras de um campo semântico negativo, como doente, problema e

sofre.

Em tom de desabafo, o locutor, num salto temporal do seu nascimento ao seu ambiente de trabalho, denuncia o preconceito e a dificuldade de comunicação com o gerente ou com a família, esclarecendo no termo família, o motivo do salto temporal: o fato acontecido anos atrás (o seu nascimento como surdo sem nenhuma razão aparente)

140 o colocou hoje em uma situação de sofrimento – e inconformidade – vivenciada tanto no emprego, quanto na família.

No texto (23), evidencia-se a dificuldade de nascer surdo em um lar ouvinte. O sentimento de não-aceitação pode ser resgatado no texto, uma vez que o primeiro questionamento do item 3 do questionário (sobre o significado de “ser surdo”) parece ter sido negligenciado em prol do último (sobre a “experiência de vida surda”). Narra-se, assim, a experiência da dificuldade e da melhora; uma melhora relativa que não vem do envolvimento com o grupo, mas da aceitação ou da aproximação da figura materna:

agora minha mãe entendeu comunicação com eu e só isso. O último trecho desse enunciado, “só isso”, pode nos indicar que o que interessava ser expresso pelo locutor já o foi, isto é, o silenciamento do sujeito diante de outros fatos pode indicar que a experiência narrada foi tão pungente e importante que dispensa outros relatos. É importante notar ainda que, de acordo com o quadro 2 apresentado no Capítulo II (página 61), o informante do texto P (23) considera-se, ao mesmo tempo, “surdo” e “deficiente auditivo” (as duas opções foram marcadas), revelando, talvez, a indefinição do sujeito diante da surdez.

Em ambos os textos (22 e 23), o resgate temático do nascimento pode indicar que a instalação da surdez, a partir do nascimento, ainda é uma questão pertinente aos sujeitos, quer dizer, ainda é um fato discutível (e preocupante).

Nos trechos acima a surdez é compreendida como uma característica custosa aos sujeitos, que gera inconformidade e desentendimento, que faz da vida uma longa cena desbotada, em preto e branco. A imagem que se constrói, assim, é a imagem da doença.

O corpus revela, ainda, a ocorrência de situações distintas: aquelas em que não há nem a “passagem” de um estado a outro, nem a inconformidade da família ou do

141 próprio sujeito diante da surdez. Os textos abaixo são reveladores de sujeitos nascidos em meio a surdos, que manifestam um discurso de fundamentação surda e demonstram contentamento diante desse fato:

(24) Surdo significado é não ouvir. Eu fico feliz ser surda porque toda minha família é surda

então não fui problema nenhuma pois temos comunicar a LIBRAS mas apenas tem uma problema na sociedade tem muito prenconceito. E também os surdos não combinam nada para estudar dentro da escola inclusiva porque é outra língua. (Texto Q na íntegra; grifos nossos). (25) Uma cidadã. Cumpro meus direitos e deveres como qualquer cidadão. Venho de uma família de mãe e irmãos surdos e a experiência tem sido boa, não pelo fato do meu mundo SER COR DE ROSA e sim um aprendizado muito chique, pois vejo cada dia mais o crescimento que tenho tido (Texto R; grifos do original).

No trecho (24) ocorre o fenômeno da negação – e da polifonia como índice de heterogeneidade –, sendo revelador de um discurso subliminar, pois a partir da negação

(toda a minha família é surda então não fui problema nenhuma, pois temos comunicar a LIBRAS) instaura-se um subentendido: surdo, em família ouvinte, acaba virando um problema, e o motivo relaciona-se ao estabelecimento da comunicação. O “problema” da surdez advém aqui dos não-surdos, que apresentam preconceito, e da problemática da inclusão escolar. Vemos então que o “problema” relativo à surdez, segundo o locutor do texto P, é exterior a ela.

O início do trecho (25) denota reação do sujeito diante da questão proposta no questionário. É como se nos dissesse, com uma tênue ironia, que acima da surdez está a sua condição cívica e humana que o leva a cumprir seus direitos e deveres como

qualquer cidadão. Ser surdo, assim, não faria muita diferença em um mundo onde direitos e deveres cívicos regulam a vida. A ironia, que compõe a noção de heterogeneidade mostrada (mas não marcada), evidencia um ponto de vista que busca afirmar o óbvio como novidade, em uma estratégia que poderíamos qualificar de agressiva para com o interlocutor.

142 No decorrer do fragmento, o fenômeno polifônico se evidencia no trecho em letras maiúsculas: SER COR DE ROSA. Em conformidade com Ducrot (1987), poderíamos dizer que existem pelo menos dois enunciadores distintos no texto acima: um que afirma que o mundo do locutor é cor-de-rosa e outro que nega essa (suposta) afirmação; enunciador com o qual o locutor se identifica. Por que o seu mundo seria “cor de rosa” e por que é preciso negar essa informação com veemência? Os textos analisados até aqui nos indicam que pode não ser fácil para um surdo nascer em meio a ouvintes. Quem tem pais surdos, então, se comparado com quem não os tem, estaria em uma situação privilegiada, estaria em um “mundo cor-de-rosa” – metáfora que simboliza beleza e facilidade, ou ainda, ausência de problemas – esta seria a asserção afirmativa que o locutor se apressa em negar. Construímos aqui a imagem de que nascer em meio a surdos é uma questão, de certa forma, ambicionada pelos sujeitos na comunidade, uma vez que, como vimos, o locutor se adianta em rebater a “acusação” de ser privilegiado, isto é, de ter nascido em um mundo cor-de-rosa, por ser filho de pais surdos. Mas apesar de, segundo ele, seu mundo não ser cor-de-rosa, considera que a experiência de ser surdo, com mãe e irmãos surdos, tem sido boa, pois isso lhe proporciona aprendizado e crescimento.

Da mesma forma que em outras ocorrências do corpus, o locutor estabelece aqui uma relação interdiscursiva com outro discurso justamente para negá-lo (nega-se a afirmação segundo a qual o seu mundo seja cor-de-rosa). No trecho em análise, todavia, não se negam manifestações do discurso contrário (advindo de uma outra FD), mas de um discurso que poderia partir da própria FD do locutor: surdos, filhos de pais ouvintes, filiados ao DFS, poderiam veicular um discurso como esse. Isso nos faz refletir sobre a ocorrência de diferentes vertentes dentro de uma mesma FD, fato previsto e plenamente aceitável, uma vez que, embora uma FD determine a seus falantes o que pode e o que

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deve ser dito, buscando uma homogeneidade discursiva, ela não é um bloco compacto, mas uma realidade heterogênea por si mesma, o que significa que seu fechamento é fundamentalmente instável, deslocando-se em função dos embates da luta ideológica (COURTINE, 1981, p. 49).

Para ilustrar esse fenômeno, podemos pensar, por exemplo, em um partido político, o Partido dos Trabalhadores (PT). Ora, um partido como esse apresenta uma identidade discursiva que apresenta certa regularidade (em meio à dispersão) de sentidos, o que nos permite concebê-lo como uma FD específica. É inegável, no entanto, que existam tendências, vertentes distintas no interior da FD ligada a esse partido, ou seja, ela não é homogênea, tampouco um bloco fechado e compacto. Podemos pensar, por exemplo, na ex-senadora Heloísa Helena, que, partindo da fundamentação discursiva de seu próprio partido, pôde opor-se a ele. Obviamente, tal fenômeno (diferentes vertentes discursivas em uma mesma FD) parece dotado de mais vigor no exemplo político acima do que na ocorrência (25) do corpus deste trabalho. Mas pode- se dizer, no entanto, que o discurso veiculado – e negado – em (25) promove uma nova oposição, isto é, uma hierarquização não mais entre “surdos e ouvintes” ou entre “surdos e deficientes auditivos”, mas entre surdos (com familiares surdos) e surdos (em meio a ouvintes). Criar uma bipolarização entre surdos e surdos (integrantes da mesma FD) poderia ser um fator de identificação de alguma tendência discursiva dita “renovada”, que ostenta uma posição, em alguma medida, distinta de outras. O que temos visto até aqui, portanto, indica para uma necessidade de bipartição, seja entre surdos e ouvintes, entre surdos e deficientes auditivos, ou, como vimos agora, entre surdos e surdos.

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