5. Sonuç, Tartışma ve Öneriler
5.3. Öneriler
5.3.4. Araştırmacılara yönelik öneriler
Conferindo o tom dessa radicalidade ultradireitista de retorno às origens da contrarrevolução burguesa de 1964 para salvá-la de seus inimigos figadais, o Ministério da Justiça sob a gestão Gaminha, institucionalizando o incontido anticomunismo de extrema- direita no aparelho do Estado bonapartista brasileiro, gestado por fração de seu grupo na FDUSP e nas delegacias de polícia e porões militares, aparelhou-se de elementos paramilitares do Comando de Caça aos Comunistas, o CCC, que adentrariam, consequentemente, a Pasta da Justiça gerida por Alfredo Buzaid, que não deixou de ser o mais
íntimo colaborador de Gama e Silva.
Originariamente, foi Dreifuss quem destacou, versando sobre o eminentemente político Ministério da Justiça de Estado, que ―o sucessor do Senador Mem de Sá na presidência de Costa e Silva foi o líder do Ipês, Luiz Antônio da Gama e Silva. Ele levou consigo para o Ministério da Justiça, como assessores, uma série de elementos pertencentes ao Comando de Caça aos Comunistas – CCC, um Grupo paramilitar que incorporava elementos do MAC (Movimento Anticomunista) e do GAP (Grupo de Ação Patriótica). Gama e Silva foi substituído durante o governo Médici por Alfredo Buzaid, consultor jurídico do líder do Ipês Fuad Lutfalla‖349.
―Organização paramilitar idealizada por Luís Antonio Gama e Silva‖350, conforme
recente consolidação historiográfica para a qual contribuiu, fundamentalmente, a investigação jornalística de ponta, ―o CCC agia ostensivamente, sob a complacência de professores e diretores, porque a todos intimidava, já que mantinha ligações estreitas com o Dops e o DOI- Codi‖351.
Um dos fundadores do CCC em 1964, o advogado paulista João Marcos Flaquer ―não era do Mackenzie – estava no último ano de Direito na USP – e dividia o comando dos combates com Raul Nogueira de Lima, o Raul Careca, ‗tira‘ do DOPS, subordinado a Bonchristiano‖352.
349 DREIFUSS, René Armand. 1964: A conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis:
Vozes, 1981, p. 466. Dreifuss não flagrou, por falta da documentação referente ao Ipês paulista, a destacada posição de Buzaid no Conselho Orientador daquela instituição.
350 AMARAL, Marina. Conversas com Mr. DOPS. 09.02.2012. In: Agência Pública de Reportagem e Jornalismo Investigativo.
351 SOUZA, Percival de. Autópsia do Medo. Vida e Morte do Delegado Sérgio Paranhos Fleury. Rio de Janeiro:
Globo, p. 165.
352 AMARAL, Marina. Conversas com Mr. DOPS. 09.02.2012. In: Agência Pública de Reportagem e Jornalismo Investigativo.
96 ―Raul Careca, foi antes de Fleury o maior símbolo que o Dops teve‖, despontando como ―o terror da classe estudantil, superligado ao CCC e tinha um enorme prazer de perseguir os ‗vermelhos‘‖353.
Segundo o próprio Raul Nogueira Careca, em entrevista a Percival de Souza, ―o CCC foi criado na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco para enfrentar a esquerda organizada. Foi idealizada por mim, pelo João Marcos Monteiro Flaquer e pelo Otavinho‖, arrematando que ―o núcleo inicial era de uns quinze estudantes, só ali no Largo de São Francisco‖ mas, acima de tudo, ―o CCC era um estado de espírito‖354. Raul Careca alegou,
ainda, que ―minha mãe era prima do Gamão [pai de Gaminha, o redator do AI-5]‖355.
Também o ―envolvimento de militares em organizações paramilitares (CCC- Comando de Caça aos Comunistas)‖, para Eliézer Rizzo de Oliveira, ―evidencia a existência de setores que escapam ao controle dos altos escalões‖, mas, na medida em que ―todos estes aspectos se relacionam diretamente à política repressiva, a violação constante dos direitos humanos passa a significar uma ação organizada e dirigida pelas Forças Armadas como instituição‖356.
―A Igreja também conhece uma radicalização de seus setores e uma grande movimentação de seus grupos de direita‖, como ―é o caso da TFP – Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade – que denuncia sistematicamente a politização do clero, a ‗secularização‘ da Igreja e a renovação teológica‖. No acirramento ditatorial, propriamente nos ―anos de chumbo‖, ―nesta etapa parece que ela adotou (ou incrementou) aspectos paramilitares, após ganhar destaque com o desfile ‗medieval‘ de seus adeptos em busca de assinaturas de populares contra a ‗infiltração comunista no clero‘‖357.
―Conforme se verifica pelo levantamento de Flavio Deckes, os atentados terroristas de direita com autoria oculta atingem o pico em 1968, decaem bruscamente em 1969 e desaparecem, de todo, entre 1971 e 1975‖.
Isso porque, de acordo com Jacob Gorender, ―consumado o fechamento ditatorial, não era mais necessária a atuação provocadora das organizações paramilitares‖358.
O terrorismo de direita se oficializou. Tornou-se terrorismo de Estado, diretamente praticado pelas organizações institucionais359
353 SOUZA, Percival de. Autópsia do Medo. Vida e Morte do Delegado Sérgio Paranhos Fleury. Rio de Janeiro:
Globo, 2000, p. 379.
354 NOGUEIRA, RAUL in SOUZA, Percival de. Autópsia do Medo. Vida e Morte do Delegado Sérgio Paranhos Fleury. Rio de Janeiro: Globo, 2000, p. 380.
355 Ibid.
356 OLIVEIRA, Eliézer Rizzo de. As Forças Armadas: Política e Ideologia no Brasil (1964 -1969). Petrópolis:
Vozes, 1976, p. 105.
357 Ibid., p. 97.
358 GORENDER, Jacob. Combate nas trevas. A esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada. São
97 Exemplo vivo dessa articulação paramilitar urdida no Largo São Francisco, ―o ―delegado de Polícia Otávio Gonçalves Moreira Júnior – ‗Varejeira‘ ou ‗Otavinho‘‖, assassinado em 1973 pela esquerda armada em Copacabana, Rio de Janeiro, ―foi sepultado vestindo uma batina da Ordem Terceira do Carmo. Tinha sido da TFP e do CCC, convicto radical de direita‖360.
Desde 1975, Otavinho foi publicamente denunciado como torturador reconhecido em
„Bagulhão‟: A voz dos presos políticos contra os torturadores361. ―Antes de entrar na polícia
como delegado substituto, trabalhou na Construtora Adolfo Lindenberg S.A. e na Engenharia e Construções Otto Meinberg‖362, ligadas a TFP e aos atuais vestais do finado arauto Plínio
Correia de Oliveira, mantendo Otavinho permanentemente consigo, conforme se revelou com a competente escavação jornalística de Percival de Souza, ―entre os documentos pessoais, na fase mais crítica dos anos de chumbo, uma carteira que ao ser exibida abria qualquer porta: a de identificação do Serviço Secreto do II Exército, ‗a serviço do 1º Centro de Operações de Defesa Interna (Operação Bandeirante)‖363.
―Otavinho estava na Casa da Vovó desde a sua fundação em 1º de setembro de 1969, dia que teve ato solene (...) com a presença do general José Canavarro Pereira, comandante do II Exército, do governador Roberto Costa de Abreu Sodré, do secretário de Justiça Hely Lopes Meirelles e dos comandantes do VI Distrito Naval e da IV Zona Aérea‖364.
Quanto a Otavinho, ―chamavam-no de ‗Caronte‘, em referência ao barqueiro que transportava as almas para o inferno‖365, destacando-se este sobrinho de Gaminha como um
dos homens fortes da Casa da Vovó, codinome do Destacamento de Operações de Informações (DOI)366. ―Quando ia ao Rio, hospedava-se [Otavinho] na casa do tio, o médico
359 Ibid.
360 SOUZA, Percival de. Autópsia do Medo. Vida e Morte do Delegado Sérgio Paranhos Fleury. Rio de Janeiro:
Globo, p. 67.
361 „Bagulhão‟: A voz dos presos políticos contra os torturadores. O documento de 1975 que foi a primeira denúncia pública contra os agentes da ditadura militar. São Paulo: Comissão da Verdade do Estado de São Paulo ‗Rubens Paiva‘, 2014, p. 21.
362 SOUZA, Percival de. Autópsia do Medo. Vida e Morte do Delegado Sérgio Paranhos Fleury. Rio de Janeiro:
Globo, 2000, p. 165.
363 Ibid., p. 161. 364 Ibid., p. 162.
365 GODOY, Marcelo. A Casa da Vovó. Uma biografia do DOI-Codi (1969-1991), o centro de sequestro, tortura e morte da ditadura militar. Histórias, documentos e depoimentos inéditos dos agentes do regime. São Paulo: Alameda, 2014, p. 346.
366 ―Símbolo do arbítrio e dos crimes de um regime, o Destacamento de Operações de Informações (DOI)
ganhou de seus integrantes um codinome. Chamavam-no de Casa da Vovó. Ali militares e policiais trabalharam lado a lado durante os anos que muitos deles hoje consideram memoráveis. Oficiais transformavam-se em ‗doutores‘ e delegados em ‗capitães‘. (...) Criada em São Paulo, seu modelo se espalhou pelo país. Na capital paulista ele ocupava um terreno entre as Ruas Tutoia e Tomás Carvalhal, no bairro do Pa raíso. Primeiro foi conhecido como Operação Bandeirante, a Oban; depois, resolveram batizá-lo com a sigla que o tornou famoso:
98 Matias Gama e Silva, irmão do ministro da Justiça do general Costa e Silva‖367. Destacado
―pela perseguição implacável às organizações clandestinas‖, Jacob Gorender afiançou sobre
Otavinho: ―Caçador maldito, devia esperar que um dia fosse o da caça. A direita está no seu
papel ao lhe tributar homenagens. A esquerda não tem por que lamentá-lo‖368.
Outro integrante do CCC, o advogado João Marcos Flaquer, a seu turno, era ―filho de pais ricos, aluno da USP‖: ―era figurinha fácil não só entre os estudantes de perfil anticomunista, mas nos gabinetes da repressão‖369.
Flaquer foi apontado como um dos elementos do CCC que espancou o professor de Introdução à Ciência do Direito, Rocha Barros, em frente ao Largo São Francisco. ―Na noite de 16 de outubro de 1968, o professor Alberto Moniz da Rocha Barros, da Faculdade de Direito da USP, foi atacado e agredido por integrantes do CCC, alunos daquela instituição, que o derrubaram e lhe deram pontapés. Rocha Barros, que já vinha sofrendo ameaças e insultos por suas posições de esquerda, passou a viver em estado de grande tensão e morreu de infarto menos de dois meses depois‖370.
Dois anos depois do atentado do CCC ao professor Rocha Barros, ―em 27 de setembro de 1970, foram indiciados pelo DOPS três estudantes da FD acusados de participar do que, no inquérito, foi denominado ‗agitação no meio estudantil no mês de outubro de 1968‘, conflito entre estudantes de esquerda e de direita, que resultou na morte do secundarista José Guimarães. Dois dos indiciados nesse inquérito são apontados como suspeitos de terem participado da agressão a Rocha Barros: João Marcos Monteiro Flaquer, já falecido, e Fernando Forte [formado em 1969 na FDUSP]‖371.
―‗Ninguém se metia nisso, porque esses eram grupos paramilitares‘, afirmou o professor Leonel Itaussu sobre os autores da agressão‖372, conforme registro de Luiza Sansão
acerca do então aluno próximo ao professor Rocha Barros que, a seu turno, perfilhara o trotskismo no Brasil, ao lado de Hermínio Sacchetta, nutrindo relações pessoais com Mario Schenberg, Sergio Buarque de Holanda, entre outros intelectuais de peso em suas respectivas áreas.
DOI. Até hoje muitos do que trabalharam lá preferem chamá-la de Casa da Vovó, pois, como explicou um de seus agentes, ‗lá é que era bom‘‖ (ibid., p. 19).
367 Ibid., p. 344.
368 GORENDER, Jacob. Combate nas trevas. A esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada. São
Paulo: Ática, 1987, p. 237.
369 CENTENO, Ayrton. Os vencedores: a volta por cima da geração esmagada pela ditadura de 1964. São
Paulo: Geração Editorial, 2014, p. 557.
370 SANSÃO, Luiza. Ameaças e agressão do CCC a Rocha Barros causaram a sua morte. Ditadura na USP. In:
Revista Adusp, Maio de 2013, p. 38.
371 Ibid., p. 43. 372 Ibid.
99 ―A Congregação da faculdade abriu uma sindicância, cujo resultado jamais foi dado a conhecer‖373, tendo sido Rocha Barros ―um dos poucos docentes da Faculdade de Direito‖
que se colocava ―ao lado dos estudantes em passeatas e manifestações, lutando pelas reivindicações estudantis‖, mesmo quando da ―ocupação da faculdade pelo Centro Acadêmico XI de Agosto [que] durou cerca de um mês e acabou reprimida pelo DOPS‖374.
―A congregação da FD abriu sindicância para apurar a agressão sofrida pelo Rocha Barros. Em depoimento para a Revista Adusp, Ovídio Rocha Barros Sandoval, sobrinho do professor Rocha Barros‖, relembrou que, quando se propôs uma sindicância à Congregação das Arcadas para apurar o espancamento do professor Rocha Barros, ―um jovem e recente professor, que depois foi ministro do STF, afirmou que deveria ponderar o fato de que meu querido tio ‗havia sido agredido fora da faculdade‘‖375.
―O ‗jovem e recente professor‘ que tentou empanar a investigação do crime cometido contra Rocha Barros era José Carlos Moreira Alves, que mais tarde prestaria serviços à Ditadura Militar como procurador-geral da República, nomeado pelo ditador Garrastazu Médici (1972) e ministro do STF nomeado pelo ditador Ernesto Geisel (1975)‖, presidindo ―o STF em 1981-1982 e 1985-1987‖376. Quanto à família do professor Rocha Barros, ―‗nunca soubemos do resultado desta apuração. Acho que nada fizeram. Nem mesmo, creio eu, soubemos da existência desta sindicância‘‖377.
Antes do atentado ao professor Rocha Barros ocorrido em outubro, entretanto, Flaquer também organizara e liderara a agressão aos atores e público da peça Roda Viva de Chico Buarque, dirigida por José Celso Martinez, em 18 de julho de 1968.
Em depoimento concedido ao jornalista Luís Antônio Giron, asseverando que ―é hora de contar a história da injustiçada direita brasileira‖, Flaquer alegou que o ataque ao Teatro Ruth Escobar, onde todos apanharam nus, teve como objetivo ―realizar uma ação de propaganda para chamar a atenção das autoridades sobre a iminência da luta armada, que visava a instauração de uma ditadura marxista no Brasil‖. ―O orgulho continua hoje: ‗Foi a ação maior do CCC‘. José Celso reconhece: ‗O CCC venceu. Uma geração inteira do teatro foi tragada‘‖378. 373 Ibid., p. 38. 374 Ibid., p. 40. 375 Ibid., p. 42. 376 Ibid. 377 Ibid.
378 GIRON, Luís Antônio. Comando de Caça aos Comunistas diz como atacou „Roda Viva‟ em 68. Líder do CCC revela identidade e detalhes sobre agressão à peça de Chico Buarque há 25 anos. In: Folha de São Paulo.
100 ―Citado na lista de torturadores elencada pelo projeto Brasil Nunca Mais, Flaquer, no ano seguinte ao ataque à Roda Viva, seria nomeado oficial-de-gabinete do então ministro da Justiça, Alfredo Buzaid‖379.
Mais precisamente, conforme registro de Veja, ―entre 1969 e 1971, Flaquer foi o oficial-de-gabinete do então ministro da Justiça, Alfredo Buzaid‖380, denotando que não
apenas Gama e Silva, idealizador do CCC ao lado de seus aparentados Otavinho e Raul
Careca, levou consigo elementos dessa organização paramilitar para o Ministério da Justiça do Executivo Federal.
Ainda, no caso da chamada ―batalha da Maria Antônia‖ entre a Universidade Mackenzie e a Filosofia da USP, que terminou com a morte do secundarista José Guimarães, ―oficialmente, a polícia só entrou no campus no segundo dia de conflitos, depois que um tiro, atribuído a um membro do CCC, Ricardo Osni, atingiu um estudante secundarista‖381. ―O
Ricardo Osni da Silva Pinto, amigão do Gaminha [os dois voltaram juntos de Brasília depois que foi decretado o AI-5], era do CCC‖382 e, ainda de acordo com Raul Careca entrevistado
por Percival de Souza, versando sobre a razão da impunidade de mais esse crime dos agentes e parceiros de extrema-direita civis da ditadura militar:
A sindicância não deu em nada porque nós nos reunimos na Operação Bandeirante e de lá um de nós telefonou para a Secretaria de Segurança para deixar um recado ao secretário Hely Meirelles. Ao mesmo tempo, os motores das viaturas foram ligados e ficamos acelerando ao máximo. Aquele ronco era um recado. Ao telefone, o aviso: ‗Depende do senhor...‘383
Denunciando o CCC como o ―Terror Nacional‖ e sua corporificação histórica nas ―falanges [que] atacam a cultura‖, há tempos Flavio Deckes destacou, em seu Radiografia do
Terrorismo no Brasil (1966-1980), que ―a Universidade mereceu tratamento todo especial da
extrema direita no Brasil‖384.
―No caso do movimento estudantil, surgem algumas organizações – formalmente compostas por estudantes – identificadas com a ‗Revolução‘ e que se propunham enfrentar a UNE, UEE, etc. Citamos apenas o exemplo da Vanguarda Revolucionária, que surge na Faculdade de Direito do Largo São Francisco como uma movimento anticomunista e
379 CENTENO, Ayrton. Os vencedores: a volta por cima da geração esmagada pela ditadura de 1964. São
Paulo: Geração Editorial, 2014, p. 557.
380 VEJA. Edição 1596. 05.05.1999, p. 131. 381 Ibid.
382 NOGUEIRA, RAUL in SOUZA, Percival de. Autópsia do Medo. Vida e Morte do Delegado Sérgio Paranhos Fleury. Rio de Janeiro: Globo, 2000, p. 380.
383 Ibid., p. 381.
101 revolucionário‖385, anotou, também há tempos, Eliézer R. de Oliveira, transcrevendo valioso
Manifesto da Vanguarda Revolucionária, de 20 de outubro de 1968:
Somos revolucionários e com isso queremos dizer que tendo cerrado fileiras em 1964 para o advento de uma Revolução Democrática, malgrado reconhecendo os inúmeros erros em que incorreu o Movimento de 31 de Março, em especial no campo da educação, que mais diretamente nos diz respeito, nem por isso voltamos agora nossas costas a essa Revolução e nos transformamos num bando de anarquistas a agitar a vida ordeira e pacífica do povo de São Paulo e do Brasil em arruaças e depredações inconsequentes, em ‗tomadas de faculdades‘ e em guerrilhas urbanas sem nenhum resultado sadio, as quais já começam a produzir as primeiras vítimas386
Desse modo, durante o governo do marechal-presidente Costa e Silva, ―à época, o esquema para a repressão em S. Paulo era perfeito‖. ―Como ministro da Justiça estava Gama e Silva, reitor licenciado da USP. Inimigo do governador Abreu Sodré, mantinha perfeita sintonia com Mario Guimarães Ferri na reitoria da USP e Ester de Figueiredo Ferraz e Osvaldo Müller na Universidade Mackenzie‖. Além dos já citados anticomunistas, outros militantes do CCC à época são hoje eminentes em suas respectivas áreas, como o doutrinador civilista Silvio Salvo Venosa e o atualmente consagrado jornalista Boris Casoy, bem como João Parisi Filho, Roberto Ulhoa Cintra e o advogado-patrão Cassio Scatena (responsável pelo assassinato de Nélson Pereira de Jesus, de 22 anos, na Metalúrgica Alfa, diante da reivindicação do jovem operário pelo pagamento de horas extras não constantes em seu holerite)387.
Finalmente, em recente entrevista concedida pelo delegado Paulo Bonchristiano, Marina Amaral obteve o tento de registrar de um orgulhoso delegado com seu epíteto Mister
DOPS que o advogado Flaquer e Ricardo Osni, ―bem como o mentor [do CCC] Gama e Silva,
também participavam de encontros que reuniam policiais da CIA e do DOPS‖388.
―Então trabalhávamos juntos, viajávamos juntos em muitos casos, mas nossas reuniões eram fora do DOPS, na happy hour de bares de hotéis como o Jandaia e o Jaraguá, no centro de São Paulo‖389.
O Fleury também ia, o Flaquer, o Gama e Silva e até o Carlos Lacerda (ex-governador do Rio, que conspirou pelo golpe e acabou sendo cassado em 1968). O Niles Bond era chefe lá deles, sujeito bacana, conhecia bem o Brasil, e gostava muito de mim. Me chamava de Mr.
385 OLIVEIRA, Eliézer Rizzo de. As Forças Armadas: Política e Ideologia no Brasil (1964-1969). Petrópolis:
Vozes, 1976, p. 97.
386 MANIFESTO DA VANGUARDA REVOLUCIONÁRIA, 20 de out. de 1968 apud OLIVEIRA, Eliézer
Rizzo de. As Forças Armadas: Política e Ideologia no Brasil (1964-1969). Petrópolis: Vozes, 1976, p. 97.
387 DECKES, Flavio. Radiografia do Terrorismo no Brasil. 1966/1980. São Paulo: Editora Ícone, 1985, pp. 50-
51.
388 AMARAL, Marina. Conversas com Mr. DOPS. 09.02.2012. In: Agência Pública de Reportagem e Jornalismo
Investigativo.
102 Dops, porque eu sempre o atendia em tudo que precisava e era ele que me mandava para Langley390
Os elos entre o professor da FDUSP e Ministro da Justiça de seu primo Costa e Silva com os porões de extermínio e tortura dos ―inimigos‖ da repressão militar e policial na arquitetura do terrorismo de Estado nos ―anos de chumbo‖ foram, anteriormente, registrados por Percival de Souza, em entrevista que lhe concedera, também, o delegado Paulo Bonchristiano. Segundo este, ―fizemos cursos com gente de fora‖, afirmou-lhe então o delegado, e os ―nossos primeiros professores foram o Peter Costelo, do Ponto IV391, e o
Richard Helena, do FBI, especialista em ordem política e social. Aprendemos a fazer prevenção em casos de agitação‖392 e ―o Dops, na verdade, estava em toda parte, com muitas
infiltrações‖393:
O Gama e Silva tinha ex-alunos trabalhando no Dops. Ele ia ao prédio conversar com eles, sempre recebido como mestre. Avisou-nos com antecedência que o Ato Institucional n.º 5 ia sair. Costumava dizer no Dops: ‗Vocês são a melhor polícia do Brasil‘. Analisando a situação política no país, dizia: ‗Não é hora ainda de ficar na mão do socialismo, o Brasil não pode ser vassalo da Rússia‘. Gaminha era primo do presidente da República. Quando o general Artur da Costa e Silva vinha a São Paulo, só o Dops é que fazia a segurança394
390 Ibid. ―Com o tempo, descobri que quando o doutor Paulo se referia a Langley, significava que estava em
treinamento em instalações na CIA, não apenas na sede, mas ‗em muitos outros lugares, até na Flórida‘, como confirmou depois. As informações sobre a CIA foram reveladas por doutor Paulo quando o inquiri sobre sua transferência, em 1ª de setembro de 1964, para o Ministério da Guerra, lotado no II Exército. Ele diz que foi transferido porque havia sido encarregado (com mais três delegados) de montar um plano de estrutura ção da Polícia Federal pelo general Riograndino Kruel, irmão do comandante do II Exército, Amaury Kruel (ambos também treinados nos Estados Unidos): ‗O Edgar Hoover (fundador do FBI) é um cara que admiro muito, e os americanos achavam muito importante montar uma polícia como essa no Brasil – o DOPS paulista já atuava como polícia federal, mas era subordinado à secretaria de segurança estadual, o que atrapalhava nossos