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3. Yöntem

3.3. Veri Toplama Araçları

Analisando, nesse contexto histórico, o que nomeou de ―a estrutura política de poder do capital multinacional e seus interesses associados‖ na sociedade civil-burguesa brasileira, o historiador uruguaio René Dreifuss identificou sua corporificação classista ―numa

intelligentsia empresarial‖, justamente em 1962, composta de ―agentes sociais modernizante- conservadores, todos eles verdadeiros intelectuais orgânicos do novo bloco em formação‖137.

No sentido gramsciano, perfilhado e avançado pelo uruguaio:

Todo grupo social que passa a existir no terreno originário de uma função essencial no mundo da produção econômica traz consigo, organicamente, uma ou mais camadas de intelectuais que proporcionam homogeneidade ao grupo, bem como a conscientização de sua própria função, não somente no campo econômico mas também nos campos social e político. O empresário capitalista cria consigo o técnico industrial, o especialista em economia política, os organizadores de uma nova cultura, de um novo sistema legal, etc.138

Ideologia, ademais, compreendida como ―um instrumento social de tomada de consciência e de combate de conflitos do presente‖139, donde a pertinência de ideólogos ou

intelectuais orgânicos da autocracia burguesa do capital atrófico na caracterização dos juristas e tecnoempresários ipesianos. A despeito das abordagens particulares, no caso de Lukács e Gramsci, por exemplo, sobre ideólogos orgânicos da autocracia do capital, convergem, fundamentalmente, para a análise da função social dos complexos ideológicos e da organicidade dos intelectuais com os donos do poder e da economia política.

Nesse sentido, o historiador Antonio Rago Filho pontua que, ―acerca da natureza histórico-social dos intelectuais, o marxista italiano Antonio Gramsci (1891-1937) tematiza sobre a questão, ainda que na forma de apontamentos, nos Cadernos do Cárcere, inscritos no de número 12, de 1932, questionando se‖140: ―Os intelectuais são um grupo autônomo e

independente, ou cada grupo social tem uma sua própria categoria especializada de intelectuais? O problema é complexo por causa de várias formas que assumiu até agora o processo histórico real de formação das diversas categorias intelectuais‖141.

137 DREIFUSS, René Armand. 1964: A conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis:

Vozes, 1981, p 71.

138 GRAMSCI, Antonio apud DREIFUSS, René Armand. 1964: A conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis: Vozes, 1981, p. 107.

139 LUKÁCS, György. Prolegômenos para uma ontologia do ser social: questões de princípios para uma ontologia hoje tornada possível. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 110.

140 RAGO FILHO, Antonio. Análise de textos. Santo André: Centro Universitário Fundação Santo André

Colegiado de Ciências Sociais. 2015.

141 GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Vol. 2. Os Intelectuais. O Princípio Educativo. Jornalismo. Rio

53 ―Para este autor a chave da questão reside em saber‖142, extrai Rago Filho dos Cadernos do Cárcere de Gramsci, ―a distinção entre intelectuais como categoria orgânica de cada grupo social fundamental e intelectuais como categoria tradicional, distinção da qual decorre toda uma série de problemas e de possíveis pesquisas históricas‖143. ―Em seus

escritos, sob as difíceis condições materiais, por conta do controle, vigilância e limitação impostos no interior de uma cela do cárcere, Gramsci analisa duas formas essenciais de intelectuais, insistindo que sua categorização se põe na própria organização da produção social‖144. Conforme o historiador brasileiro, portanto, Gramsci abordou a questão da

ideologia e dos intelectuais ―na sua vinculação com a sociabilidade, especificando as diversas formas e funções que assumem no evolver histórico, haja vista que ‗esta formação e elaboração seguem caminhos e modos que é preciso estudar concretamente‘, porque‖145:

1) Todo grupo social, nascendo no terreno originário de uma função essencial no mundo da produção econômica, cria para si, ao mesmo tempo, organicamente, uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não apenas no campo econômico, mas também no social e político: o empresário capitalista cria consigo o técnico da indústria, o cientista da economia política, o organizador de uma nova cultura, de um novo direito, etc., etc. Deve-se observar o fato de que o empresário representa uma elaboração social superior, já caracterizada por uma certa capacidade dirigente e técnica (isto é, intelectual): ele deve possuir uma certa capacidade técnica, não somente na esfera restrita da sua atividade e de sua iniciativa, mas também em outras esferas; pelo menos nas mais próximas da produção econômica (deve ser um organizador de massa de homens, deve ser um organizador da ‗confiança‘ dos que investem em sua empresa, dos compradores de sua mercadoria, etc.). Se não todos os empresários, pelo menos uma elite deles deve possuir a capacidade de organizar a sociedade em geral, em todo o seu complexo organismo de serviços, até o organismo estatal, tendo em vista a necessidade de criar as condições mais favoráveis à expansão da própria classe; ou, pelo menos, deve possuir a capacidade de escolher os ‗prepostos‘ (empregados especializados) a quem confiar esta atividade organizativa das relações gerais exteriores à empresa. Pode-se observar que os intelectuais ‗orgânicos‘ que cada nova classe cria consigo e elabora em seu desenvolvimento progressivo são, na maioria dos casos, ‗especializações‘ de aspectos parciais da atividade primitiva do tipo social novo que a nova classe deu à luz146

Enfim, ainda na leitura de Rago Filho da fragmentária obra do italiano, ―ao lado desta formação dos ―intelectuais orgânicos‖, que se desenvolve no mundo capitalista moderno, o segundo tipo que ele analisa são os ‗intelectuais tradicionais‘, assim‖147:

2) Todo grupo social ‗essencial‘, contudo, emergindo na história a partir da estrutura econômica anterior e como expressão do desenvolvimento desta estrutura, encontrou – pelo

142 RAGO FILHO, Antonio. Análise de textos. Santo André: Centro Universitário Fundação Santo A ndré

Colegiado de Ciências Sociais. 2015.

143 GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Vol. 2. Os Intelectuais. O Princípio Educativo. Jornalismo. Rio

de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 23.

144 RAGO FILHO, Antonio. Análise de textos. Santo André: Centro Universitário Fundação Santo André

Colegiado de Ciências Sociais. 2015.

145 Ibid.

146 GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Vol. 2. Os Intelectuais. O Princípio Educativo. Jornalismo. Rio

de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, pp. 15-16.

147 RAGO FILHO, Antonio. Análise de textos. Santo André: Centro Universitário Fundação Santo André

54 menos na história que se desenrolou até nossos diais – categorias intelectuais preexistentes, as quais apareciam, aliás, como representantes de uma continuidade histórica que não foi interrompida nem mesmo pelas mais complicadas e radicais modificações das formas sociais e políticas148

Registre-se, ainda, que ―Gramsci identificou essa tipificação de intelectuais em diferentes formações sociais‖ e, ―na América do Sul, referindo-se em particular ao Brasil, o filósofo italiano ressaltava o predomínio do tipo tradicional, herança da colonização portuguesa‖149. Conforme mais um extrato de análise avançado pelo historiador brasileiro,

―com sua forma didática de apresentar os problemas, na forma de pergunta e a resposta mais apurada, Antonio Gramsci nos esclarece ao responder a si mesmo‖150 sobre ―Quais são os

limites ‗máximos‘ da acepção de ‗intelectual‘? É possível encontrar um critério unitário para caracterizar igualmente todas as diversas e variadas atividades intelectuais e para distingui- las, ao mesmo tempo e de modo essencial, das atividades dos outros agrupamentos sociais?‖151, afiançado Gramsci que:

O erro metodológico mais difundido, ao que me parece, é ter buscado este critério de distinção no que é intrínseco às atividades intelectuais, em vez de buscá-lo no conjunto do sistema de relações no qual estas atividades (e, portanto, os grupos que as personificam) se encontram no conjunto geral das relações sociais‖152

―Seguindo o seu raciocínio, Gramsci desenvolve a tese que não existe atividade humana que não seja conduzida por uma finalidade ideada‖153 e, ―por isso, seria possível dizer

que todos os homens são intelectuais, mas nem todos os homens têm na sociedade a função de intelectuais (assim, o fato de que alguém possa, em determinado momento, fritar dois ovos ou costurar um rasgão no paletó não significa que todos sejam cozinheiros ou alfaiates)‖154.

Formam-se assim, historicamente, categorias especializadas para o exercício da função intelectual; formam-se em conexão com os grupos sociais mais importantes, e sofrem elaborações mais amplas e complexas em ligação com o grupo social dominante. Uma das características mais marcantes de todo grupo que se desenvolve no sentido do domínio é sua luta pela assimilação e pela conquista ‗ideológica‘ dos intelectuais tradicionais, assimilação e conquista que são tão mais rápidas e eficazes quanto mais o grupo em questão for capaz de elaborar simultaneamente seus próprios intelectuais orgânicos155

148 GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Vol. 2. Os Intelectuais. O Princípio Educativo. Jornalismo. Rio

de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, pp. 16-17.

149 RAGO FILHO, Antonio. Análise de textos. Santo André: Centro Universitário Fundação Santo André

Colegiado de Ciências Sociais. 2015.

150 Ibid.

151 GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Vol. 2. Os Intelectuais. O Princípio Educativo. Jornalismo. Rio

de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 18.

152 Ibid.

153 RAGO FILHO, Antonio. Análise de textos. Santo André: Centro Universitário Fundação Santo André

Colegiado de Ciências Sociais. 2015.

154 GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Vol. 2. Os Intelectuais. O Princípio Educativo. Jornalismo. Rio

de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 18.

55 ―Na verdade, o operário ou proletariado, por exemplo, não se caracteriza especificamente pelo trabalho manual ou instrumental, mas por este trabalho em determinadas condições e em determinadas relações sociais‖156. ―E já se observou que o empresário, pela

sua própria função, deve possuir em certa medida algumas qualificações de caráter intelectual, embora sua figura social seja determinada não por elas, mas pelas relações sociais gerais que caracterizam efetivamente a posição do empresário na indústria‖157.

―Ora, chegamos aqui ao ponto que mais nos interessa, face ao sujeito histórico que estamos reconstituindo sua atuação na vida política nacional regida por uma estrutura ideológica que lhe permitiu, uma vez apeado ao poder, exercer funções extremamente coerentes aos seus desígnios e estratégias políticas‖158:

A relação entre os intelectuais e o mundo da produção não é imediata, como ocorre no caso dos grupos sociais fundamentais, mas é ‗mediatizada‘, em diversos graus, por todo o tecido social, pelo conjunto das superestruturas, do qual os intelectuais são precisamente os ‗funcionários‘. /.../ Por enquanto, podem-se fixar dois grandes ‗planos‘ superestruturais: o que pode ser chamado de ‗sociedade civil‘ (isto é, o conjunto de organismos designados vulgarmente como ‗privados‘) e o da ‗sociedade política ou Estado‘, planos que correspondem, respectivamente, à função de ‗hegemonia‘ que o grupo dominante exerce em toda a sociedade e àquela de ‗domínio direto‘ ou de comando, que se expressa no Estado e no governo ‗jurídico‘. Estas funções são precisamente organizativas e conectivas159

―Os intelectuais são os ‗prepostos‘ do grupo dominante para o exercício das funções subalternas da hegemonia social e do governo político, isto é: 1) do consenso ‗espontâneo‘ dado pelas grandes massas da população à orientação impressa pelo grupo fundamental dominante à vida social, consenso que nasce ‗historicamente‘ do prestígio (e, portanto, da confiança) obtido pelo grupo dominante por causa de sua posição e de sua função no modo de produção; 2) do aparelho de coerção estatal que assegura ‗legalmente‘ a disciplina dos grupos que não ‗consentem‘, nem ativa nem passivamente, mas que é constituído para toda a sociedade na previsão dos momentos de crise no comando e na direção, nos quais desaparece o consenso espontâneo. Esta colocação do problema tem como resultado uma ampliação muito grande do conceito de intelectual, mas só assim se torna possível chegar a uma aproximação concreta à realidade‖160, arrematava Gramsci.

―Seguindo, portanto, este fio condutor do filósofo italiano, que acreditamos estar próximo às posições delineadas por Marx e Engels na obra A Ideologia Alemã, a categoria dos intelectuais não surge, dessa maneira, como uma espécie de ‗indivíduos sem liame social‘; ao contrário, a emergência dos intelectuais se põe nas múltiplas formas de atividades sociais

156 Ibid. 157 Ibid. 158 Ibid., p. 20. 159 Ibid. 160 Ibid., pp. 20-21.

56 configurando um campo de mediações na vida cotidiana historicamente determinada, que se busca reconhecer por meio da pesquisa genética‖161, ou seja, ―devemos tentar pesquisar as

relações nas suas formas fenomênicas iniciais e ver em que condições estas formas fenomênicas podem tornar-se cada vez mais complexas e mediatizadas‖162.

Também ―Lukács, ao tematizar sobre os dois significados que a palavra ideologia comporta, reafirmava acerca da vinculação entre os indivíduos concretos, em sua trama de relações sociais que lhes dão existência, e a produção de idéias‖, ―respondendo a Köfler‖163

que:

Na sociedade cada homem existe numa determinada cultura de seu tempo; não pode haver nenhum conteúdo de consciência que não seja determinado pelo ‗hic et nunc‘ da situação atual. Por outro lado, originam-se desta posição certas deformações, razão pela qual nos habituamos a entender a ideologia também como reação deformada da realidade. /.../ O homem constrói os problemas a serem resolvidos e lhes dá respostas com base na sua realidade. Mas, a consciência pretensamente livre dos liames sociais, que trabalha por si mesma, puramente a partir do interior, não existe e ninguém jamais conseguiu demonstrar sua existência164

―Marx na Ideologia Alemã dispunha‖, ainda seguindo nos extratos comentados por Rago Filho, que ―a classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe com isso simultaneamente sobre os meios para a produção espiritual, de maneira que com isso lhe estão ao mesmo tempo submetidos em média os pensamentos daqueles aos quais faltam os meios para a produção espiritual.‖. Não deixando de ressalvar o historiador, ademais, que ―a divisão do trabalho acima expressa também se externa na classe dominante‖165, conforme

Marx, ―como divisão entre trabalho material e intelectual, de maneira que dentro dessa classe uma parte entra em cena como os pensadores dessa classe (os ideólogos que a projetam ativamente em pensamento, que fazem da elaboração da ilusão dessa classe sobre si mesma o ramo principal da sua subsistência), ao passo que os outros se comportam mais passivamente e receptivamente diante destes pensamentos e ilusões por serem, na realidade efetiva, os membros ativos dessa classe e por disporem de menos tempo para ter ilusões e pensamentos sobre si mesmos‖166.

Os indivíduos que constituem a classe dominante têm, entre outras coisas, também consciência e, por conseguinte pensam; logo, na medida em que dominam como classe e

161 RAGO FILHO, Antonio. Análise de textos. Santo André: Centro Universitário Fundação Santo André

Colegiado de Ciências Sociais. 2015.

162 LUKÁCS, Georg apud RAGO FILHO, Antonio. Análise de textos. Santo André: Centro Universitário

Fundação Santo André – Colegiado de Ciências Sociais. 2015.

163 RAGO FILHO, Antonio. Análise de textos. Santo André: Centro Universitário Fundação Santo André

Colegiado de Ciências Sociais. 2015.

164 Lukács, Georg apud RAGO FILHO, Antonio. Análise de textos. Santo André: Centro Universitário Fundação

Santo André – Colegiado de Ciências Sociais. 2015.

165 MARX, Karl apud RAGO FILHO, Antonio. Análise de textos. Santo André: Centro Universitário Fundação

Santo André – Colegiado de Ciências Sociais. 2015.

57 determinam o âmbito inteiro de uma época histórica, compreende-se por si mesmo que fazem isso em toda sua extensão, portanto entre outras coisas também dominam como /seres/ pensantes, como produtores de pensamentos, regulam a produção e a distribuição dos pensamentos de seu tempo; que portanto os seus pensamentos são os pensamentos dominantes da época167

No caso em tela versando sobre ideologia e intelectuais orgânicas do capital atrófico, isto é, no contexto das Arcadas do Largo São Francisco operando e funcionando, organicamente, por meio de seus principais docentes, como parte integrante da conspiração e elaboração ideológica ipesiana em São Paulo, articuladamente ao núcleo da FDUSP, ―para dar assistência política, econômica e mesmo técnica a seus associados, as associações de classe estabeleceram suas próprias agências técnicas‖168.

Entre elas, no resgate de Dreifuss, ―a Federação do Comércio do Estado de São Paulo estabeleceu o seu próprio Conselho Técnico de Economia, Sociologia e Política (CTESP), forum de debate da organização empresarial‖169.

Em 1962, esse conselho da hoje chamada Fecomércio era formado pelos economistas Roberto Campos, Antonio Delfim Netto, Ary Frederico Torres, pelos juristas Alfredo Buzaid, Miguel Reale, José Frederico Marques, Vicente Marotta Rangel e Washington de Barros Monteiro, pelo engenheiro Ruy Aguiar da Silva Leme, pelo médico e empresário Antonio Carlos Pacheco e Silva e pelo político Lucas Nogueira Garcez. ―O seu presidente era o tecnoempresário Brasílio Machado Neto da Fundação Getúlio Vargas‖170.

Esses juristas da FDUSP integraram, assim, um universo que se caracterizou de

tecnoempresário ―para enfatizar suas funções empresariais nos papeis ‗neutros‘ mas abrangentes que eles desempenhavam‖171. Alguns desses juristas tecnoempresários,

consequentemente, ―tornar-se-iam figuras centrais da reação burguesa contra o renascimento das forças populares do início da década de sessenta, assim como articuladores-chave de sua classe na luta pelo poder do Estado‖172.

Enumerando os principais juristas tecnoempresários ipesianos e os respectivos grupos econômicos com os quais se ligaram, Gama e Silva, por exemplo, futuro redator do Ato Institucional n.º 5, chegou a compor no pré-1964 a Diretoria do CIESP (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), ―que compartilhava membros, funções e objetivos com a

167 Ibid.

168 DREIFUSS, René Armand. 1964: A conquista do Estado. Ação política, poder e golpe d e classe. Petrópolis:

Vozes, 1981, p. 95.

169 Ibid. 170 Ibid. 171 Ibid., p. 72. 172 Ibid., p. 73.

58 FIESP, [e] apoiava-se na capacidade de atuação de um número destacado de empresários‖, participando Gaminha nos dividendos do capital da Cia. Prada Indústria e Comércio173.

Vicente Rao, a seu turno, ligou-se ao Banco Francês e Italiano para a América do Sul174, Ernesto Leme ao Moinho Santista e Bunge & Born175, Miguel Reale ao Banco Finasa de Investimento, do Grupo Morgan/Dresdner, e à Indústria Metalúrgica Kardap AG Suisse176, e Buzaid, como veremos mais abaixo, alugou por muitos anos seus serviços técnico-jurídicos ao grupo político-econômico Fuad Lutfalla–Paulo Maluf177.

Uma assertiva de Dreifuss, pelo menos, explicitou-se cabalmente na atividade social da figura histórica de Alfredo Buzaid, sujeito que congregou em si o técnico em direito burguês, o expert legista e projetista de códigos e leis reformadas mas, simultaneamente, o reacionário ultraconservador engajado na sedição ao governo Goulart, consagrando-se futuramente como um intransigente jurisconsulto a serviço da ditadura militar subsequente.

Assim que, referindo-se precisamente a essa ―intelligentsia empresarial‖ da qual Buzaid fazia parte como técnico e ideólogo de direito, locada na CTESP da Fecomércio, congregando economistas, juristas, engenheiros, médicos e políticos paulistas, esclareceu Dreifuss que ―muitos desses intelectuais orgânicos do bloco multinacional e associado‖178

em cheio, também o caso de Buzaid:

Seriam em 1962 membros dos órgãos políticos estabelecidos para promover tanto os interesses modernizante-conservadores quanto a derrubada do governo nacional-reformista de João Goulart179

No início de 1963, o ativo núcleo conspiratório e também profícuo formulador político de propostas jurídicas das classes proprietárias aglutinados nas Arcadas, agindo a todo vapor em prédio ao lado do Largo São Francisco, precisamente em janeiro daquele ano, reuniu na FDUSP o mais acabado e rigoroso congresso de posicionamento ideológico autocrático-burguês do bloco orgânico anti-trabalhista e anticomunista.

O chamado Congresso Brasileiro para a Definição das Reformas de Base, versando sobre os interesses particulares concernentes às reformas na ordem social, política, econômica e jurídica, teve seus resultados ―universalizados‖ e endereçados à totalidade da sociedade nacional, reunidos, de modo apócrifo, em position paper intitulado Reformas de Base.

Posição do Ipês. 173 Ibid., p. 94. 174 Ibid., p. 92. 175 Ibid., p. 537. 176 Ibid., p. 558. 177 Ibid.¸ p. 541. 178 Ibid. 179 Ibid.

59 ―Com aura de formulação tecnocrática de diretrizes políticas, o Congresso propiciou a base lógica para a intervenção empresarial direta e pública na política brasileira, um verdadeiro programa de governo em potencial‖. ―Com um público estimado em vinte e duas mil pessoas, durante sete dias de sessões‖180, definiu-se explicitamente, sob as Arcadas da