F) Gayri Müslim Devlet Görevlileri
3. ĐKTĐSADĐ HAYAT
Figura 08: Foto da parte externa da EEF Nemésio Bezerra
Fonte: acervo da autora
Figura 09: Foto da parte interna da EEF Nemésio Bezerra
A Escola Estadual de Ensino Fundamental (EEF) Nemésio Bezerra foi fundada em 1965, na Avenida Presidente Vargas, no. 453, no bairro Putiú/Campo Novo25, em Quixadá. Oferece a modalidade regular de ensino referente ao Fundamental II (6º ao 9º anos) e EJA (Educação de Jovens e Adultos) também referente ao Ensino Fundamental II, ambos nos turnos manhã e tarde. No ano de 2008, tinha em média 400 alunos matriculados ao todo.
Conforme o documento da GIDE da escola, a comunidade em que a escola está inserida “apresenta um baixo nível aquisitivo e sérios problemas sócio-culturais acarretados pelo alto índice de analfabetismo, desemprego e violência.” (p. 01). Podemos ter uma idéia desta questão na figura 08, em que há um homem utilizando como meio de transporte e de trabalho uma carroça, aliás, muito comum na periferia da zona urbana de Quixadá.
O prédio dessa escola é pequeno (apesar de ter muito terreno livre), com 08 salas de aula, uma quadra de esporte, 03 banheiros, uma sala dos professores, uma pequena sala denominada “Banco do Livro”, uma sala de multimeios junto com a biblioteca e um laboratório de informática. Por ser um prédio antigo, está visivelmente deteriorado, e há grades em quase todos os espaços, como podemos perceber na figura 09, que, segundo a coordenadora pedagógica foi necessário colocar em virtude da localidade ser bastante perigosa e dos assaltos constantes que estavam ocorrendo na escola, levando o pouco do material que tinha. A questão é que os alunos ficam de certa forma presos em dois corredores divididos por um pátio coberto junto à cantina.
Quanto ao material didático, tem 3.276 livros, 06 mapas, 100 jogos educativos, 10 fantoches e 56 filmes e/ou documentários em DVD. De material permanente tem 03 televisores, 01 aparelho de DVD, 02 retroprojetores e 10 computadores.
O grupo gestor da escola no período da pesquisa era composto por uma diretora formada em Pedagogia e com 16 anos de experiência na função e uma coordenadora pedagógica formada em História e Especialista em Educação com menos de dois anos de experiência na função. Ambas promoveram reuniões com pais uma vez por mês e organizaram planejamento pedagógico mensal. Na equipe docente, havia 14 professores, sendo 05 efetivos e 09 temporários. Os três professores de História da escola, somente um era formado na área. Na equipe técnicoadministrativa, havia um secretário, 03 auxiliares administrativos e uma datilógrafa. Nos serviços gerais, 02 merendeiras e 06 serventes. A escola conta ainda, segundo a coordenadora pedagógica, com um Conselho Escolar atuante.
No que diz respeito às disciplinas escolares, a GIDE destaca que “o currículo está organizado tendo como referência os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e os Referências Curriculares Básicos dos Ciclos de Formação...” (p. 9). Entretanto, não foi isso que percebemos nas aulas de história durante todo o ano letivo. No aspecto metodológico, ressalta-se a “ênfase à leitura...” (p. 2) e o trabalho com projetos partindo de problematização de uma temática, pesquisa e execução coletiva, acreditando na avaliação como “um processo contínuo do desempenho do aluno” (p. 9). Quanto à disciplina de História, o documento ressalta que “é uma disciplina que proporciona uma leitura e interpretação crítica da realidade...” (p. 10), elencando alguns conteúdos a serem trabalhados em cada série do Ensino Fundamental II. De acordo com a GIDE, a escola ainda se empenha para baixar a taxa de abandono, que chega a 9,8% e a taxa de reprovação em 2,9%.
A sala de aula não era tão grande, mas tinha um tamanho suficiente para acomodar bem todos os alunos. Era bem iluminada, mas pouco ventilada. Tinha um armário para a professora guardar o material escolar e um birô. As carteiras geralmente eram dispostas em círculo. No prédio vizinho à escola (parede e meia com a sala de aula da turma do 6º ano observada), funciona uma serraria e havia momentos em que não se escutava direito a explicação da professora devido ao barulho das máquinas.
Essa turma tinha poucos alunos, 21 regularmente matriculados, mas em geral apenas uma média de 15 frenquentava, na faixa etária entre 10 e 14 anos. Alguns iam de chinelos e sem a blusa da farda. Esta questão do fardamento é um dos diferenciais que percebemos com relação às escolas de Fortaleza, pois enquanto na capital há uma ênfase, até mesmo de política pública, para favorecer com que todos os alunos tenham o uniforme escolar, nas escolas de Quixadá esta realidade ainda é difícil de concretizar, pois fica por conta dos pais dos alunos comprarem a blusa da farda, e muitos realmente não têm condições financeiras26.
Um terço dessa turma não sabia ler27 e tinha muita dificuldade em fazer as atividades propostas no livro didático, situação que consideramos grave, tendo em vista estarem cursando o 6º ano do Ensino Fundamental. Porém, de acordo com a professora os alunos que não sabiam ler precisavam ficar nessa turma em virtude da idade. Ademais a maioria dos alunos era repetente, envolvida com drogas, pequenos furtos, já tinha passagem pela polícia e estava na escola a pedido do Conselho Tutelar; alguns já haviam sido expulsos
26 Apesar da EEF Nemésio Bezerra (Quixadá) ter feito até um projeto interno para que todos os alunos pudessem
ter e usar a farda, mas até o final do ano vimos poucos alunos de farda em sala de aula da turma do 6º ano A.
27 Alguns dias antes do início da aula nós tentamos ensinar, em separado, a um aluno a ler pequenas palavras
de outras escolas. Supomos que, por isso, nessa turma, em geral, a aula era bem tumultuada, com os estudantes querendo “medir forças” com a professora, desrespeitando-a com frequência, por muitas vezes ela perdia a paciência e gritava. Talvez em virtude da aula de História ser após o recreio a situação se agravava, pois muitos voltavam bem mais agitados28. Situação difícil também para nós, na condição de observadores.
A condição que a maioria dos alunos da turma vivia, portanto, era, de acordo, com a professora lamentável, o que incluía ausência de carinho e atenção e fazia com que os mesmos agissem de forma grosseira e desrespeitosa com as pessoas mais próximas. Mas, lembramos, cada aluno traz consigo uma história de vida, permeada de diferentes experiências que necessitam ser consideradas e trabalhadas, caso contrário, o desafio para despertá-lo para algo da educação formal a ser aprendido será ainda maior.
Certo dia, logo que chegamos à sala de aula, um grupo de alunos veio até nós para mostrar uma reportagem do jornal que tinha uma foto de quatro traficantes de drogas em Quixadá que foram presos. E alguns alunos comentavam com certo prazer que conheciam alguns deles, inclusive um deles era irmão de um aluno da turma. Nesse exemplo, é visível uma inversão de valores, tendo em vista que muitos alunos dessa turma faziam parte de uma realidade social comprometida.
Outro dia, ao chamar à atenção de um dos alunos, a professora comentou que “quem não quer nada com a vida tá tudo morrendo ou preso” e o aluno retroncou “e eu nun tou preso não?” Ela respondeu “não meu filho, aqui você tem liberdade de pensar e fazer outras coisas boas”. Mas o clima na sala de aula ficou tumultuado por alguns instantes. E o aluno chegou a ameaçá-la.
Diante desse cenário, regularmente, a professora tentava refletir junto com os alunos alguns valores, pautados principalmente na religião católica. Aliás, a marca do catolicismo é muito presente em Quixadá, tendo em vista o Santuário da Rainha do Sertão, que fica na localidade e recebe muitos visitantes no decorrer do ano, e, além disso, a Paróquia faz muita atividade religiosa, como procissões e festas religiosas, na comunidade.
Outras vezes, a professora inseria na explicação dos conteúdos responsabilidades sociais, como o respeito ao meio ambiente e explicou sobre um projeto de reciclagem de que participava. Um dia, a professora comentou conosco, na frente de todos os alunos, que fez um passeio ciclístico com alguns alunos dessa turma e da turma do 7º ano, pelo pólo de lazer de Quixadá, como atividade extraclasse, para observarem a poluição do açude e seu uso. E
ressaltou que não levou a turma toda porque muitos não obedeciam nem em sala de aula, tanto menos na rua. Aqui percebemos que eram excluídos de algumas atividades aqueles que mais precisavam de uma atenção especial.
A vaidade também se revelava no cotidiano dessa turma a seu modo, como alguns alunos que se tatuavam de caneta e exibiam uns para os outros o que faziam no corpo em plena a aula de história. E algumas meninas pintavam as unhas com corretivo escolar.
Então, durante um ano de observação na íntegra das aulas de História, foram perceptíveis muitos conflitos e acordos entre professora e alguns alunos para que a aula pudesse acontecer da melhor forma. Além disso, observamos algumas estratégias, como atribuir ponto positivo ou negativo, ou dizer que mandaria chamar as mães, ou que os deixaria sair mais tarde, como também a estratégia de parar a explicação para chamar a atenção de quem estava brincando dando lição de moral. Entretanto, como lembra Certeau, “... a cultura apresenta-se como o campo de um luta multiforme entre o rígido e o flexíve” (1995, p. 235), já que:
A escola não é mais o centro distribuidor da ortodoxia em matéria de prática social. Ao menos, sob essa forma, talvez ela seja um dos pontos onde se põe em ação uma articulação entre o saber técnico e a relação social e onde se efetua, graças a uma prática coletiva, o reajustamento necessário entre modelos culturais contraditórios. É uma tarefa limitada, mas faz com que a escola participe do trabalho, muito mais vasto, que designa hoje a „cultura‟. (CERTEAU, 1995, p. 129-130)
Também nessa turma, as aulas de história foram com frequência preterida a frente a outras atividades, como duas semanas sem aulas em virtude de uma reforma na estrutura física da escola; terminar a aula 30 minutos antes por conta de uma reunião com a direção da escola com os professores; outra vez, não houve aula porque era dia de assinaturas dos boletins pelas mães; e depois os alunos ficaram sem aulas de história durante quatro semanas consecutivas pelos seguintes motivos: a realização da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP)29; foram liberados para assistirem à marcha das escolas municipais de Quixadá; e participação das professoras da escola em um curso30. A professora de história informou que, para os alunos não ficarem muito atrasados no conteúdo, cada semana foi entregando folhas de conteúdo em separado para os alunos estudarem para a prova bimestral.
29 Essa turma participou fazendo a prova de matemática para nível 1. Estávamos presentes e observamos um
pouco o desempenho dos alunos e vimos o quanto tinham dificuldade de leitura para entender o que se estava pedindo em cada questão problema de matemática.
1.4. Escola Municipal de Ensino Fundamental e Médio (EMEFM) Raimundo