Abordagens para entrevistas dentro de um game online precisam ser cuidadosamente pensadas, mas necessitam também de uma noção de oportunidade (timing) e sensibilidade do entrevistador. Antes de tudo evitando a inconveniência, porque é evidente que muitas pessoas estão ali em busca de uma forma de entretenimento e lazer. Nem sempre aptas à conversação quando na verdade procuram por diversão.
A experiência do pesquisador no jogo e na própria comunidade tem um papel determinante. É preciso saber os princípios que regem aquele grupo de jogadores, as regras do jogo e os valores da comunidade, ter conhecimento dos jargões, para evitar uma comunicação inaceitável ou até originar um desconforto para o entrevistado. Os diálogos com os jogadores podem ocorrer nos momentos mais inusitados, como em uma masmorra cheia de monstros enquanto se desenvolve o diálogo, sendo possível o intercâmbio concomitante entra a interação reativa com um sistema informacional e a interação a nível dialógico com um sistema humano.
No Ragnarök Online, o comando /savechat origina um arquivo TXT que foi utilizado como registro dos diálogos entre jogadores. Infelizmente a conversação em chats dentro do Ragnarök Online tem um limite de linhas a serem digitadas por arquivo, sendo necessário colar os textos a fim de constituir um bloco textual integrado. A conversação em chats também é caracteristicamente fragmentada (ver em Anexos as entrevistas), nota-se um entrecruzamento de falas que torna o discurso emaranhado.
O jogador Kyle_ tem 14 anos, mora em São Paulo e estuda na Escola Estadual Prof. Nicéia Albarello Ferrari. Joga Ragnarök Online desde o episódio Juno – o que seria aproximadamente três anos, já que ele não tem certeza. Ele diz que jogava antes no servidor pago e era membro do mesmo clã que é agora, o Bot Killers. Segundo ele, o clã chamava-se Guardiões das Sombras no servidor Odin, antes da migração de todos os membros para o servidor Thor.
Kyle_ faz parte do clã de Blue48 (conhecido também por Manoblue). Curioso que no decorrer da conversação, ele refere-se ao Blue48 por “pai” várias vezes e concebe ainda um sentido de família ao clã. O Chapéu de Jibóia que ele usava era de Blue48 e ilustra o costume de alguns jogadores emprestarem equipamentos relativamente caros. Naquela época, a “Jibóia” era adquirida por 10.000 ROP (o que custava em torno de R$ 20) e no mercado virtual, em meio a negociações entre jogadores, era cotada a 9.000 zennys
A principio, ele falava sobre uma menina de Brasília que conheceu no Ragnarök Online e faleceu pouco tempo depois. Ela seria seu primeiro relacionamento virtual. O clã aparenta ter dado suporte no momento de crise. Na ocasião da entrevista, ele já se encontrava investindo em outro relacionamento virtual.
Manoblue é casado, tem 50 anos e mora em Maringá, Paraná. É um dos lideres do clã de Kyle_, a quem conheceu desde que começou a jogar. Ele teria começado a jogar Ragnarök Online por conta de seu filho, mas hoje continua enquanto o rapaz migrou para outro game online (MU Online).
Um fato inusitado foi descobrir que apensar da distância os jogadores mantinham contato até por telefone, não apenas por e-mail/MSN como se presumia a princípio. O telefone ainda é reconhecido por muitos como um meio de comunicação mais intimista. Manoblue teria conversado com Kyle_ e com a mãe do rapaz na época do acidente com a jovem de Brasília. Em outra história relatada por ele, um membro do clã estaria com problemas com as notas da escola e a mãe queria que ela deixasse de jogar. A menina conversou com Manoblue e ele intercedeu junto à mãe dela. Na Figura 27 mostra-se o final da entrevista com Manoblue em que ele relata o fato no chat do jogo.
Figura 27 – Entrevista com Manoblue, para quem o jogo ensina conceitos famíliares e amizade.
Para Manoblue o jogo tenta instruir uma relação de familiaridade e de amizade. Ele desabafa dizendo sentir muito em ver jovens serem mal educados dentro do jogo. O jogador acha também que se a empresa Level Up! realmente quisesse teria condições de lidar com os bots e demais problemas nos servidores.
Outra jogadora abordada foi kaillanne, uma estudante de direito de 22 anos que mora em Recife, Pernambuco. Ela joga Ragnarök Online há aproximadamente dois anos e diz já ter conhecido bastante gente dentro do jogo. “Sou super protegida pelo meu clã”, diz kaillane. Ela demonstra certa naturalidade quando questionada sobre relacionamentos virtuais, chegando a afirmar ter várias pessoas adicionadas no MSN e Orkut. Isto evidencia a hipótese das redes sociais formadas em um game online se ampararem em outros programas informacionais.
A maioria dos jogadores abordados teriam iniciado Ragnarök Online após a abertura do servidor gratuito Thor. Enquanto outros como os membros antigos do clã BotKillers haveriam migrado de servidores. É o caso também de Timeloregu que começou a jogar desde o período open beta – praticamente há mais de quatro anos. Ele, um estudante carioca de 18 anos, ainda encontra tempo após o trabalho para se divertir no Ragnarök Online.
Apesar de Timeloregu dizer não ser muito chegado em clãs no jogo, ele pronuncia seu afeto ao clã atual, o G-Unit, por auxiliar seus membros. Neste ponto ele acha importante um clã porque: “só assim quando eu conseguir chegar aonde eu quero, eu fico bem falado e conhecido”. Outro fator que o jogador assinala é a ampliação dos contatos a partir do clã. No clã os jogadores conhecem mais pessoas, afirma. Contudo, ao se levantar o assunto dos relacionamentos virtuais no Ragnarök Online, ele diz que a questão da confiança “é o que mata nesse jogo”.
Já o estudando curitibano de 17 anos Roland Cross não acha possível ter um relacionamento virtual. “Pra você ter um amigo, você precisa mais do que só conversar. Tipo. Via internet, você tem uma ideia de como a pessoa seja, mas é impossível conhece-la por completo. Falta o contato sabe?”
Roland Cross é frequentador de Lan Houses e diz jogar Ragnarök Online há dois anos. Chega a declarar sua afeição pelo jogo, mas na proporção de sua aversão à empresa que o administra. Refere-se à instabilidade dos servidores do BRO ocorridos entre junho e julho de 2009 e ao RollBack no sistema (atitude vista como revoltosa pela grande maioria dos jogadores). Ele teria sido prejudicado com perda de ROP creditados no período em que os servidores oficiais do Ragnarök Online apresentaram instabilidade funcional.
Se há práticas controversas originadas pela empresa em suas intervenções dentro do jogo, também alguns jogadores são causadores de outras curiosas atividades no mundo de Ragnarök Online. É o caso de Mendiga!!, uma jovem estudante do ensino médio também de 17 anos. Ela começou a jogar ainda no open beta, aproximadamente há mais de quatro anos. Mendiga!! representa outras tantas pessoas que curiosamente elegeram a mendicância como principal atividade de captação de recursos em um game online.
Mendiga!! criou mais de uma conta no jogo de forma a colocar online vários personagens simultâneos com chats abertos dizendo “Doa 7z e seja feliz”. A quantia de zennys sugerida é relativamente muito pouca. Quando questionada sobre a eficiência da prática ela diz retirar “em média, em meia hora, dependendo do dia e da hora, uns 100 a 200.000 zenny.” Isso é muito mais que um novato tira em uma hora ou duas de jogo. Apesar de sua disposição preliminar a indigência virtual, em relação aos programas ilegais, especificamente falando sobre os bots, ela demonstra sua crítica. “Até onde sei o jogo foi feito para pessoas jogarem”. De forma comparativa, ela não acha, assim, que esteja fazendo algo errado. Todavia, diferente da sutileza com que Mendiga!! leva a prática da mendicância virtual, foram observados outros jogadores que se deixavam levar ao extremo da humilhação para conseguirem alguma coisa. Como um jogador que dizia aos gritos: “POR FAVOR, ME DÊ POÇÃO”, “SOU POBRE, ME AJUDE”. Parece que algumas pessoas ou esquecem que este é ainda um jogo, ou levam ao limite a interpretação de seus papéis.
De fato, várias práticas determinadas pela empresa de entretenimento interativo responsável pelo Ragnarök Online são controversas e debatidas muitas vezes à exaustão pelos
membros do fórum oficial. O fórum chega a ser produtor de uma memória coletiva dos eventos ocorridos na comunidade BRO. Torna-se assim de fundamental importância o papel dos jogadores e membros do fórum na participação e colaboração de seus conteúdos. Todavia, nem toda colaboração pode ser entendia como favorável na formação de um conteúdo que eleve o espírito comunitário e a própria jogabilidade. No fórum as ofensas (flamme) são tidas como desvio das regras de conduta.
A ocasião da entrevista com Roland Cross, por exemplo, ocorreu após o abuso do item chamado Galho Seco. O uso de uma unidade do item em questão produz o aparecimento de um monstro aleatório, que pode ser até um MVP. Às vezes alguém emprega em excesso o item, utilizando centenas ao mesmo tempo. Os jogadores que abusam do item geralmente se encontram em um estado de revolta pela má conduta de outros jogadores.
No contexto das ambiências virtuais, o desvio de conduta destes indivíduos ilustra bem a qualidade à qual Huizinga (1996, p.227-228) chamou de “puerilismo”, o elemento lúdico em decadência, compreendido pelo autor como mistura de barbárie com civilidade. É um estado semelhante ao que seria uma exacerbação da “paidia” de Caillois (1990, p.47), a predileção por não seguir as regras, acoplado a uma inclinação para a degeneração da “mimicry” (idem, p.39), a que o autor diz se tratar de um caso de alienação (idem, p.70).