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1.4.1.4 Üretim Kontrolü
Vou na mesma paisagem reduzida à sua pedra. A vida veste ainda sua mais dura pele “O rio” João Cabral de Melo Neto O caminho de Severino é do interior para o litoral, para a capital. Como diz João Cabral, Recife é o depositário de toda a migração do Nordeste. É para lá que todos os severinos buscam fugir da morte. E o leitor encontra este Severino saindo do sertão, iniciando seu caminho em direção ao Recife, tentando, por cada lugar que passa, ficar, trabalhar, viver. Mas como já dito, todo o caminho é de morte, e ele segue seu curso, acompanhando o Capibaribe, até sua foz: o encontro com o oceano em Recife.
Neste caminho, João Cabral observa e trata das grandes unidades geográficas do Estado do Pernambuco (Figura 02), incorporando este “pano-de- fundo” à trama do poema.
A migração se inicia no sertão, domínio da caatinga e do semi-árido, com baixos índices pluviométricos, população rarefeita e enormes carências sociais. Domina a maior parte do território do Estado, sendo a região que projeta a imagem da paisagem e do povo nordestino.
Segundo Mário Lacerda de Melo, “O vocábulo ‘sertão’, no Nordeste do Brasil, designa o vasto interior onde o relevo é geralmente mais uniforme, o clima mais seco, a caatinga mais rude e a ocupação humana mais rarefeita.” (LACERDA DE MELO, 1958, p.154) É uma expressão que abarca vários sentidos e denomina várias áreas em diferentes períodos, conforme mostra Maria Geralda de
Almeida, contendo ao longo do tempo o sentido do desconhecido, expressão da visão do outro (europeu) diante do novo continente. Tornou-se expressão cultural e ideológica do incerto, do atrasado, do desconhecido, do longínquo e do selvagem, associando-se, com o uso, às “[...] terras ásperas do interior, com matas que não são florestas, o que culminou por, historicamente e socialmente, aproximar os biomas da Caatinga e do Cerrado.” (ALMEIDA, 2003, p.76) O sertão aparece na literatura brasileira a partir destas noções, tanto como espaço e lugar, como em Grande sertão: veredas (LIMA, 1996), quanto como lugar vivido em Pedra do reino e lugar coletivo como em Os sertões. (WANDERLEY e MENEZES, 1996)
Em Pernambuco, o sertão refere-se a toda porção Oeste do Estado, subdivido em sertão do São Francisco (porção sul, drenado pelo rio homônimo) e o sertão, que é a porção norte. É todo recortado e delimitado por elevações, constituindo-se numa “[...] vasta superfície deprimida, bastante plana e bastante homogênea.” (LACERDA DE MELO, 1958, p.153)
Figura 02 – Regiões do Estado de Pernambuco
Do solo à vegetação, das cidades às pessoas, a secura é a principal marca da paisagem. É, como bem denominou João Cabral, uma “paisagem mineral”: árida e sólida. O sertão remete à luta pela sobrevivência, com rios intermitentes, serras “ossudas” e frias. Há uma completa sintonia, portanto, entre lugar-sertão e homem-severino: deprimidos, secos, homogêneos. Esta paridade é recorrente em todo o poema, como fica explícito na fala de Severino, que descreve o seu local de origem em alusão a si próprio:
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia. (MELO NETO, 1994, p.171)
A dureza do sertão aparece muitas vezes e de várias maneiras: “uma terra que não dá nem planta brava”, “terra de pedra a areia lavada”, com “magros lábios de areia” e de “pêlo hirsuto”, região “que o vento vive a esfolar”, “escalavradas pela seca faca solar”, onde “plantas de rapina são tudo o que a terra dá”. A imagem evocada é aquela que humaniza a paisagem ao mesmo tempo em que naturaliza o homem. Ações humanas são aplicadas aos elementos, apontando para o laço indissociável homem-meio.
Quando perguntado acerca de sua profissão, Severino revela ter sido “sempre lavrador, lavrador de terra má”, afirmando no começo do poema que os severinos têm todos a mesma sina:
a de abrandar estas pedras suando-se muito em cima, a de tentar despertar terra sempre mais extinta, a de querer arrancar algum roçado de cinza. (MELO NETO, 1994, p.172)
Neste caminho, até os rios são severinos. A água é, sem dúvida, elemento central que permeia “Morte e vida severina”, não apenas na sua presença, mas principalmente em sua ausência. Nem mesmo os rios no sertão são caminhos seguros. Intermitentes ou semi-intermitentes, podem trazer tanto a morte quanto a vida. Severino, buscando a água, escolhe seguir o rio.
Pensei que seguindo o rio eu jamais me perderia: ele é o caminho mais certo, de todos o melhor guia. (MELO NETO, 1994, p.176)
Mas em certo ponto, vê-se impossibilitado de fazê-lo ao deparar-se com um trecho seco do rio.
Mas como segui-lo agora que interrompeu a descida? Vejo que o Capibaribe, como os rios lá de cima, é tão pobre que nem sempre pode cumprir sua sina e no verão também corta, com pernas que não caminham. (MELO NETO, 1994, p.176)
O caminho das águas leva Severino à segunda unidade de paisagem do Estado de Pernambuco, a partir do interior: o Agreste, área de transição entre a Zona da Mata e o Sertão. Talvez por conter tanto elementos da caatinga sertaneja quanto da área fértil próxima do litoral, João Cabral não a tenha destacado no caminho de Severino. O Agreste é citado apenas nominalmente num trecho posterior, quando Severino já está na Zona da Mata, assinalando que ele não percebeu diferença entre o Agreste, o Sertão e a Zona da Mata, no que se refere às condições de vida da população.
Mas não senti diferença entre o Agreste e a Caatinga, e entre a Caatinga e aqui a Mata a diferença é a mais mínima. (MELO NETO, 1994, p.185-186)
Por outro lado, a passagem sem clara distinção pelo Agreste indica uma alteração da relação entre as regiões-lugares do espaço pernambucano e do espaço narrativo: sertão-litoral, seco-úmido, sertão-cidade, masculino-feminino. Todo o poema está estruturado nesta oposição-complementariedade, comprimindo o espaço percorrido por Severino e pelo Capibaribe. No espaço narrativo de “Morte e vida severina”, não há o Agreste: passa-se do Sertão para a Zona da Mata direto.
Quando o retirante se dá conta de que está deixando o Sertão para trás, ele já está chegando na Zona da Mata, região que originalmente era recoberta pela Mata Atlântica (daí seu nome), com clima mais úmido e solos férteis. Ele percebe na paisagem as alterações que espera que se reflitam na condição de vida.
– Bem me diziam que a terra se faz mais branda e macia quanto mais do litoral a viagem se aproxima. (MELO NETO, 1994, p.182)
Severino se sente chegando, como apontado anteriormente, à terra prometida, uma terra completamente diferente daquela do sertão onde vivia. Ali a terra é doce, os rios têm água vitalícia. A percepção da paisagem de Severino é daquele que busca uma imagem de que apenas ouvira falar. Ele identifica a contrastante paisagem hídrica e vegetal em relação à paisagem mineral do sertão. Esta oposição e contraste da paisagem revelam-se a Severino como uma oposição de gênero: a Caatinga masculina, dura e seca; a Zona da Mata feminina, macia e úmida. Isto enche o retirante de esperança, fazendo-o pensar em interromper a viagem e ali ficar.
Vejo agora que é verdade o que pensei ser mentira Quem sabe se nesta terra não plantarei minha sina? Não tenho medo de terra (cavei pedra toda a vida), e para quem lutou a braço contra a piçarra da Caatinga será fácil amansar
esta aqui, tão feminina.
(MELO NETO, 1994, p.182-183)
Mas sua sina é Severina, e logo ele se dá conta do engano. O entorpecimento do verde fez com que de início o retirante não percebesse a natureza daquela paisagem. Logo o deslumbre diminui e ele se inquieta.
Mas não avisto ninguém, só folhas de cana fina; somente ali à distância aquele bueiro de usina;
somente naquela várzea um bangüê velho em ruína. Por onde andará a gente que tantas canas cultiva? (MELO NETO, 1994, p.183)
Lançada a semente da dúvida, Severino ainda tenta manter a esperança, temendo que sua terra prometida se desmanche diante dos seus olhos.
Feriando: que nesta terra tão fácil, tão doce e rica, não é preciso trabalhar todas as horas do dia, os dias todos do mês, os meses todos da vida. (MELO NETO, 1994, p.183)
A explicação para a ausência de pessoas a trabalhar em terra tão doce, tão rica, logo se revela no funeral de um lavrador. É a representação da morte da classe, daquela forma de viver. A impossibilidade da vida do lavrador naquela paisagem, mesmo com todas as condições para o plantio, inexistentes no sertão, choca Severino, que entende que ali não poderá ficar. A cana tudo tomou, tudo ficou na mão dos latifúndios, tudo voltado para as usinas. Toda a terra com plantas que não se pode comer.
Mário Lacerda de Melo escreve, à época de “Morte e vida severina”, sobre esta alteração da paisagem da Zona da Mata:
[...] depois de quatro séculos de agricultura canavieira, as florestas reduzem-se a pequenos testemunhos situados nos topos e nas encostas altas das colinas. [...] Atualmente a região só é ‘da mata’ no nome. Quem a conhecesse apenas por esse designativo e por ele ajuizasse de seu aspecto fitogeográfico, verificaria com surpresa que já não é o verde-escuro e exuberante da floresta tropical o seu colorido predominante. O colorido predominante, em vez do peculiar à pujança da mata dos climas quentes e úmidos, é o verde-claro dos canaviais e das capoeiras. (LACERDA DE MELO, 1958, p.93)
O autor ressalta ainda que a substituição dos engenhos, em funcionamento há séculos, pelas usinas, contribuiu significativamente para a aceleração e agravamento da situação, já que estas necessitam de muito mais
terras em comparação com aqueles. O resultado foi o aumento dos latifúndios e a diminuição das oportunidades de trabalho. Esta situação também foi apontada pela mulher na janela:
Com a vinda das usinas há poucos engenhos já; (MELO NETO, 1994, p.180)
Com a nova desilusão, Severino chega à conclusão que não importa onde, é sempre a morte que ele encontrará em seu caminho. Seja na secura da caatinga ou na aparente pujança da Zona da Mata, a morte está sempre presente.
Mas não senti diferença entre o Agreste e a Caatinga, e entre a Caatinga e aqui a Mata a diferença é a mais mínima. Está apenas em que a terra é por aqui mais macia; está apenas no pavio, ou melhor, na lamparina: pois é igual o querosene que em toda parte ilumina, e quer nesta terra gorda quer na serra, de caliça, a vida arde sempre com a mesma chama mortiça. (MELO NETO, 1994, p.185-186)
Desta forma, Severino decide apressar o passo para finalmente chegar ao Recife, seu destino final. Ao chegar na cidade ouve a conversa de dois coveiros que estão falando sobre os retirantes que vão para o Recife em busca de esperança e acabam também encontrando a morte. Mas nesta conversa os coveiros apresentam também alguns elementos do modo de vida dessa população de retirantes que vivem na cidade e, por conseqüência, da paisagem das periferias recifenses: o mangue.
essa gente do Sertão
que desce para o litoral, sem razão, fica vivendo no meio da lama, comendo os siris que apanha; (MELO NETO, 1994, p.191)
Na fala dos vizinhos evidenciam-se outros elementos comuns da paisagem do mangue em que a população vive:
a lama ficou encoberta e o mau cheiro não voou [...]
– E a língua seca de esponja que tem no vento terral veio enxugar a umidade do encharcado lamaçal. [...]
– E este rio de água cega, ou baça, de comer terra, que jamais espelha o céu, (MELO NETO, 1994, p.196)
Aqui o mangue é apresentado como um ambiente lúgubre, com mau-cheiro, extremamente úmido, como um rio de águas terrosas.
Cobertos de lama e vivendo dos parcos recursos da pesca de caranguejos, os severinos de todo o Nordeste vivem na periferia do Recife. Lacerda de Melo, ao descrever a paisagem recifense, aponta como traço característico da cidade o quadro de urbanização dos rios, apresentando muitas ruas e avenidas situadas ao longo destes, com edificações de um lado e a água do outro. Para o autor, este é o elemento mais representativo da paisagem da cidade. “Nenhum outro elemento da paisagem urbana fala melhor do Recife do que esses rios, essas pontes e essas ruas. [...] Uma visão panorâmica do Recife surpreende quase por tôda parte a influência da água. [...]” E citando Waldemar de Oliveira, complementa: “ ‘o que não é água, foi água ou lembra água, sendo essa a razão por que a chamam cidade anfíbia.’ ” (LACERDA DE MELO, 1958, p.42)
João Cabral também ressalta a abundância hídrica da cidade quando Severino percebe a perenidade de suas águas, em face à intermitências dos rios do sertão:
(que o rio, aqui no Recife, não seca, vai toda a vida). (MELO NETO, 1994, p.193)
quando a maré está cheia vejo passar muitos barcos, barcaças, alvarengas, muitas de grande calado. (MELO NETO, 1994, p.193)
“Morte e vida severina” é, portanto, um poema-peça-música-filme- manifesto-folclore que representa e revela uma geografia rica para além das paisagens e dos elementos históricos em que foram baseadas. As imagens geográficas, como visto, são inúmeras e ricas, trazendo significados múltiplos para a composição de outras geografias, ressaltando o alcance e a força de tais imagens e representações.
Mas o grande elemento geográfico-telúrico presente em “Morte e vida severina” é o rio. A partir do Capibaribe e da simbologia da água, Cabral explorou um grande número de significados que conseguem abordar o particular e o universal. Isto permite que cheguemos ao último capítulo desta dissertação numa grande foz para onde confluem todos os canais tributários deste trabalho: a vida e a memória de João Cabral, como poeta-diplomata e pernambucano; o poema “Morte e vida severina”, enquanto obra de arte, com sua polifonia e intertextualidade; o universo geográfico de referências de João Cabral, em especial o seu espaço telúrico; e os símbolos e as metáforas de caráter geográfico criadas e manipuladas pelo autor em seus escritos.
A força das imagens e dos símbolos geográficos reside em sua natureza telúrica. Eles possuem elementos essenciais que vão além das mediações culturais e das representações sociais nas quais estamos inseridos. Mas isto não faz deles elementos puros, absolutos, isentos de influência. Antes, esta natureza telúrica dá a eles uma força anterior que, em cada espaço-tempo, poderá ser potencializada ou limitada. Assim como João Cabral recorreu à sua força simbólica para dar materialidade a seus poemas, elas são desconsideradas em boa parte de nossa secularizada cultura e sociedade contemporânea.
As imagens e os símbolos não têm sido devidamente contemplados pelos geógrafos. Seja por serem considerados “pouco científicos” ou por estarem “contaminadas” com a visão subjetiva, uma ampla resistência tem se mantido atenta à incorporação de tais elementos no discurso científico da Geografia. (PHILLIPS, 1993) Curioso é que nem todas as imagens são assim consideradas, pois mapas, fotografias e gráficos são amplamente utilizados pelos geógrafos. A rejeição se concentra nas imagens perceptivas e mentais.
É importante esta consideração pois o que entendemos por imagens muitas vezes é limitado ao campo gráfico. No entanto, se pensarmos na família das imagens, segundo Mitchell (apud PHILLIPS, 1993), teremos um quadro consideravelmente mais amplo destas, notando, inclusive, que os geógrafos se utilizam muito mais do que talvez pensem, de variadas e importantes imagens. (Figura 03)
Figura 03 – A família das imagens
Fonte: The family of images. (MITCHELL apud PHILLIPS, 1993, p.182)
Vemos na família das imagens desde as projeções, tão caras à cartografia, até as descrições, presentes em todas as etapas da história da Geografia. Phillips (1993) alerta que tanto na tradição francesa, com as noções de meio e paisagem, quanto entre geógrafos comportamentalistas da década de 1940, nos Estados Unidos, temos trabalhos que apontam para a importância de todas estas imagens para a Geografia. Mapas mentais, geosofia, saber ambiental e imagens da cidade são apenas alguns exemplos de enfoques e imagens investigadas pelos geógrafos nas últimas décadas.
No nosso caso, uma leitura geográfica de uma obra artística, que tem em sua base um texto-poema, junto às imagens telúricas, às lembranças do autor e às descrições, temos como grande imagem-marca da poética cabralina a metáfora. Imagem verbal capaz de movimentar todas as outras, a metáfora está presente em toda obra de João Cabral, sendo especialmente notável em seus poemas mais telúricos, como aqueles que têm no rio Capibaribe seu grande personagem e eixo estruturador.
Metáforas são utilizadas no pensamento ocidental desde Aristóteles, significando etimologicamente “transporte”, “mudança”, “trânsito”, indicando a transposição de um termo para um campo de significado que não lhe é próprio.
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Ocorre, segundo Seeman (2005, p.06), “[...] uma ‘transferência de significado’ que consiste em dar a uma coisa um nome que pertence a uma outra coisa.”
Seeman afirma que seu uso pode ser múltiplo, sendo aplicada quando o fenômeno ou a situação não possuem um termo próprio ou para reforçar o termo que não tem a conotação desejada. Na sua função simbólica, o autor afirma que a metáfora é utilizada para fazer comparações palpáveis ou para provocar a busca por perspectivas e pensamentos diferentes. Embora esteja entre as imagens mal-vistas pela ciência, é amplamente utilizada por ela, servindo em muitos momentos de recurso cognitivo para clarificar elementos novos ou mesmo para potencializar o entendimento de um determinado assunto. A Geografia sempre esteve, em sua história, ligada às imagens. (KOSEL, 2001)
A poesia de Cabral se vale muito de metáforas, em especial as geográficas. Este uso está associado ao esforço do autor em localizar espaço- temporalmente sua poesia, partindo do próprio espaço telúrico, em especial quando escreve sobre o Nordeste ou a Andaluzia. Por recorrer a tais imagens, Cabral traz para sua poesia elementos simbólicos antigos, manipulando e compondo suas próprias imagens a partir deste material bruto, essencial, recontextualizando-o ao seu próprio intento.
Em vista disso, sua poesia está repleta de imagens e simbolismos geográficos, que não figuram apenas como acessórios ou decoração da narrativa principal. Fiel a seu estilo, tudo o que está em seus versos tem uma razão de ser, e as metáforas e imagens geográficas são parte integrante de sua poética e de seu argumento.
Entre estas imagens de natureza telúrica figuram a água e o rio. Água, elemento primordial da vida, busca incessante dos nordestinos retirantes. Rio, canal que fornece a água e conduz o caminhar de Severino. Rio Capibaribe, que em “Morte e vida severina” é o caminho, mas que de outro ponto de vista, é símbolo maior de toda a estrutura narrativa. Na verdade, este é o fechamento de uma espécie de trilogia de poemas, que ficou conhecida como “tríptico do rio” (BARBOSA, 1996; VERNIERI, 1999), e que tem no rio Capibaribe seu grande protagonista: “O cão sem plumas”, de 1949-1950, “O rio”, de 1953, e “Morte e vida severina”, de 1954-1955.
Se vamos estudar a relação entre rio e homem em “Morte e vida severina” não podemos deixar de lado os elementos e imagens que aparecem nos dois primeiros poemas sobre o rio e que foram retomados em seu fechamento. Em “Morte e vida severina” temos os mesmos elementos dos dois primeiros poemas, mas de forma implícita, já incorporados à poética e à narrativa. Por isso é importante recorrer aos apontamentos de “O cão sem plumas” e “O rio”, onde muitos dos elementos característicos do tríptico, como um todo, estão mais evidentes.
“O cão sem plumas” foi escrito em 1950, quando o poeta estava servindo em Barcelona. O poema apresenta uma descrição da paisagem do rio de acordo com a percepção do autor. O Capibaribe é como um cão sem plumas, ou seja, sem adornos. A idéia para o poema veio quando Cabral leu em uma matéria publicada em O Observador Econômico e Financeiro que dizia que a expectativa de vida no Recife era de 28 anos, enquanto na Índia era de 29. Essa notícia foi para ele totalmente inesperada. “As senhoras da sociedade pernambucana faziam crochê para doar aos mortos de fome da Índia, sem olhar para o quintal delas.” (MELO NETO apud BARBOSA, 2007) Diante do choque de tal informação Cabral compreendeu “[...] que aquilo era um beco sem saída, que poderia passar o resto da vida fazendo esses poeminhas amáveis, requintados, dirigidos especialmente a certas almas sutis. Foi daí que resolvi dar meia-volta e enfrentar esse monstro: o assunto, o tema.” (MELO NETO apud ATHAYDE, 1998, p.104)
“O rio” foi escrito durante seu afastamento da carreira diplomática, enquanto estava no Rio de Janeiro. Cabral o escreveu propositadamente de maneira rude, tosca, com assuntos nada poéticos, apresentando um rio falante, contando sua história e descrevendo a paisagem por onde flui desde a nascente até a foz.
Deseja escrever um poema não poético, isto é, que rompa em definitivo com os temas e a dicção da tradição poética brasileira. A fala de um rio não pode ser simbolista, nem parnasiana. Tratando-se de um rio nordestino, não pode também ser úmida. Deve ser seca como a região que o abriga. (CASTELLO, 2006, p.119)
É um de seus poemas mais geográficos, escrito com o auxílio, inclusive, de mapas da região por onde passa o Capibaribe. “[...] Não sabia os