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3. İLETİŞİM VE YÖNETİM OLGUSUNUN SİNEMATOGRAFİK DÜZLEMDE OKUNMASI: 2001 A SPACE ODYSSEY ÖRNEĞİ

3.2. Filmin Çözümlenmes

3.2.6. İkinci Ana Düzlem: İnsanın Yolculuk ve Arayış Serüven

3.2.6.3. Üçüncü Alt Düzlem: Yaşama Sanatı, Üst Ülküler ve Süper ego

Opsis é a palavra grega que Aristóteles utilizava para se referir ao espetáculo, à mise en scène ou encenação.

Mythos é o enredo. E segundo Ricouer (1985168 apud Berdoulay; Entrikin, 2012, p. 109), “O que faz a força do relato é o poder que ele confere ao sujeito de interpretar seu mundo, de lhe dar sentido, qualquer que seja a heterogeneidade dos fenômenos envolvidos”.

167Informação verbal fornecida em entrevista pessoal, no Espaço Os Fofos Encenam, em 08 de agosto de 2011.

Irmã Josefa169 nos orientou que o Opis não deve suplantar o Mythos, aqui nessa Festança – o Terra de Santo.

Porém, de acordo com Nunes (2012, p. 183-184):

De um ponto de vista mais amplo, o mythos, como substância da cena, não tem forma, ou melhor, tem a fórmula que o espetáculo pretende que ele tenha, de acordo com o princípio segundo o qual o mythos é relativo ao

opsis: é o tipo de espetáculo que determina o modo como o mythos é trabalhado. Se considerarmos a afirmação de Brook, segundo a qual o teatro faz com que as invisibilidades se tornem visíveis, seremos levados a concordar que é para o invisível que o mythos aponta [...] e que este invisível refere-se ao problema do simbólico, ou seja, o mythos está ligado a aspectos do símbolo que vão além do que é visível, indicando algo no símbolo que não se adequa ao pensamento lógico conceitual.

Newton Moreno há muito e por diversas vezes e de múltiplas formas já sugerira que a chave para o Opis do Terra de Santo é a ritualização do Mythos.

Pinço agora para vós, trechos de frases que foram emitidas por ele ao longo de todo o processo, nas quais podemos perceber o seu desejo de que esse princípio motor alimentasse a cena do Terra de Santo: do Levítico, “Santidade implica afastamento do profano. É pureza ritual”; do Números: “É o sacrifício de comunhão, seguido do holocausto, que prepara a manifestação divina”; nas pesquisas para a preparação dos “estudos cênicos” – “século XVII”: “Rito deve ser dogma até o final”; nas discussões sobre os “estudos cênicos” – “século XVIII”: “Manter a narrativa mítica para os “estudos cênicos” – “século XIX”, leva à suspensão”, e ainda “os enredos devem girar em torno de uma pulsão ritual”; no início dos trabalhos com o roteiro Terra de Santo (Pentateuco): “Buscar o texto como reza”; nos trabalhos de corpo com Viviane Madu: “Visitem espaços sagrados. Busquem contatos com os rituais”; após a nossa terceira mostra pública “os cinco séculos”: “O temas dessas histórias são o sagrado, a tradição e a terra de santo”, e “A relação com o mundo dos mortos é herança do Assombrações. É a defesa do mistério no meu entender”; nas discussões sobre os “estudos cênicos” – “século XVIII”: “[Se] a dramaturgia é construída em torno de uma evento ritual, que alguma coisa aconteça, acho que se estabelece esse lugar do rito – um certo olhar crítico, mas ao mesmo tempo um mergulho no ritual”; na entrega do primeiro roteiro: “na fase

169Informação fornecida pela “Irmã Josefa” (espírito), em algum dia do mês de abril, no Espaço Os

Fofos Encenam – “morto conversa com vivo, vivo conversa com morto. É a relação com o mundo dos mortos”. Mistério é fortaleza!

‘pesquise mais’, sugestões de narrativas, ritos, idiomas e cultos que darão, a meu ver, a atmosfera mais ritualística”.

Ainda mais explicitamente, esse princípio da ritualização da cena aparece nas expressões “espetáculo-reza” ou “rolo compressor político-histórico-espiritual” ou ainda “emprestar mais e mais do rito religioso para a cena”.

Quero fazer-vos rememorar que este preceito não parece ter surgido de afetações durante o processo de trabalho, ele era um a priori de Newton Moreno do qual nos descreve Féral (2004), pois, já na nossa primeira reunião do projeto ele abordara o tema: “[O ‘Sagrado pessoal’] é um objetivo valoroso para a encenação: dúvida, fé, questão” (Informação verbal)170.

É a atmosfera do sagrado, é um estado de suspensão, é a ritualização do teatro. Aqui neste terreiro, o teatro é atravessado pelo ritual e por que não buscá-lo onde explicitamente se encontra e é recomendado – na religião? Não é ritual religioso, mas deste, o Terra de Santo se nutre e contagia. “O rigor da religião é uma espécie de magia, o ‘ritual’ do teatro, uma espécie de jogo” (FLASZEN; POLLASTRELLI, 2010, p. 43, grifo do autor). É teatro. É teatro ritualizado.

Um teatro capaz de oferecer uma abertura para a dimensão do sagrado. Um teatro herdeiro do grande sistema multifacetado que Turner (1986/2005, p. 184) denomina de “ritual tribal”:

[...] que abrange ideias e imagens do cosmos e do caos, [...] fazendo uso de todos os códigos sensoriais para produzir sinfonias para além da música: o entrelaçamento da dança, de diferentes tipos de linguagens corporais, canções, cânticos [...] incensos, oferendas, banquetes ritualizados, pinturas, [...] a encenação de tramas míticos e heroicos retirados de tradições orais – e muito mais”.

“Arte e ritual, no dizer de Turner, são gerados em áreas de ‘liminaridade’, onde condições normalmente fixas se abrem ao fluxo e à mudança, podendo as sociedades sofrer

170Informação fornecida na nossa primeira reunião oficial no Espaço Os Fofos Encenam, em 14 de março de 2011.

reorganizações mentais periódicas” (TURNER, 1982171 apud CARLSON, 1997, p. 492, grifo do autor).

O rito possibilitaria esse trânsito por outros estados físicos e mentais, deslocando o homem da perspectiva e do horizonte do cotidiano, promovendo uma desestabilização radical de sua identidade “social”. A linguagem dos ritos nasce dessa “crise”, nos afirma Quilici (2004, p. 70).

Tratar-se-ia aqui no Terra de Santo, penso eu, de desenvolver uma linguagem para o teatro que tem como referência os sonhos e os mitos – sejam eles de uma família, de uma etnia, de uma nação, sejam eles mitos pessoais: “ [...] uma linguagem também baseada nas pulsões do corpo, nas imagens e na simbólica dos gestos, capaz de permitir ao homem aquilo que a lógica dos conceitos e do desenvolvimento da razão linear de causa-efeito jamais poderia atingir [...]” (NUNES, 2012, p. 141). Seria, a meu ver, uma tentativa de sacralizar o humano e o teatro neste terreiro.

Não seria o Terra de Santo uma representação que inscreve o sujeito, ator ou interlocutor, no simbólico e nos códigos do teatro, simplesmente, mas sim uma representação que decifra esses códigos e competências permitindo que “falem os fluxos de desejo” dos sujeitos envolvidos nessa vivência espaço-temporal, havendo uma produção e deslocamento de fluxos de energia onde o ponto de passagem é o ator, buscando jamais cristalizar-se num único significado ou representação; energia que ele põe a trabalhar, captando vínculos dos interlocutores. (FÉRAL, 1982172 apud CARLSON, 1997).

Ainda segundo Féral, o teatro vivenciado dentro desta perspectiva, alcançará uma teatralidade que é a junção de uma dinâmica representacional, com o teatro “jogando eternamente” em “contínuos deslocamentos da posição do desejo”.

Para Artaud, o teatro ocidental teria nascido da negação do rito e de tudo que ele implica, podendo ser entendida essa negação a partir do problema da “representação”, e a retomada do rito implica justamente colocar esse termo em cheque (QUILICI, 2004). A importância e o lugar do humano e do sagrado nessa reconstrução da criação de uma linguagem própria do teatro são fatores que se encontram profundamente encadeados no pensamento artaudiano (NUNES, 2012).

171TURNER, V. From ritual to theatre. New York: [S.I.:s.n.] 1982.

Partindo das duas últimas considerações, e unicamente delas, posso propor-vos que o nosso Terra de Santo traz consigo qualidades do teatro da crueldade de Artaud.

O teatro da crueldade não se confunde de modo algum com qualquer espécie de “hiper-realismo”, que se limitaria a expor a vida na sua brutalidade e incoerência. Ele pretende, a partir da confrontação com situações de choque

[a perspectiva metafísica da conversa entre os encarnados do ‘mundo dos vivos’ e os espíritos do ‘mundo dos mortos’], provocar uma determinada forma de experiência “intelectual” e vital, que não pode ser traduzida exatamente por “reflexão racional” (QUILICI, 2004, p.76, grifos nossos).

O Terra de Santo é um teatro que acontece em busca do mistério, em busca de um aquietamento humilde ou, como nos disse Newton Moreno, uma investigação que possibilite escutar o sagrado. O sagrado em nós mesmos. Do eu (espírito) e do não-eu (matéria). O sagrado de outrem. “Mistérios não se desnudam, nem se permitem desnudar-se. Mistérios se auscultam, se descrevem, se indagam... se meditam: mas não se desvelam. Diante deles, o pensamento se entrega ao espanto do maravilhoso [...]” (VAN DE BEUQUE, 2004, p. 87).

O Terra de Santo, afirmo-vos, é o teatro que provoca e exige o assombro. Um teatro que busca “acordar o sexto sentido”. Mas é um teatro que se realiza nos corpos, nos pensamentos, nos corações, além de se realizar no imaterial, no não palpável, numa segunda realidade para os atores e interlocutores.

Porém, nisso tudo não há nenhuma novidade, todos bem sabem. Pois, as formas primitivas de teatro desde os primórdios do homem já traduziam o espanto do maravilhamento, num sentido mais amplo, assentando-se no amplo alicerce dos impulsos vitais primários: dos encantamentos dos rituais de caça, de danças, de colheitas, dos ritos de iniciação, do totemismo e xamanismo e dos vários cultos divinos (BERTHOLD, 2006).

Nada de uma contribuição contemporânea para o teatro, portanto. É só o retorno a uma característica nascente e vital, como nos propõe Artaud. E também Grotowski: “A reconstrução no teatro do jogo ‘ritual’ a partir de elementos residuais, ou seja, a restituição ao teatro de seu princípio vital, seria um dos objetivos principais da nossa prática [...] O teatro é a única dentre as artes a possuir o privilégio da ‘ritualidade’” (FLASZEN; POLLASTRELLI, 2010, p.41).

Para Grotowski (2010), o seu objetivo com o teatro ritual não é ressuscitar o teatro religioso, como acredito que também não seja o nosso de Os Fofos, mas sim, renovar o ritual,

o ritual teatral, não religioso, mas humano: através do ato, não através da fé. E o eixo desse ritual talvez seja o mito – a ritualização do teatro é a reencarnação do mito através da edificação de um ritual laico. E é assim que também percebo todos os atos de criação do texto espetacular Terra de Santo: um ato de fé embebido num procedimento de ritual laico.

Mas vos pergunto: o que seria essencial para a realidade desse teatro? Grotowski nos responde: “o ator enquanto ser humano”. E Lyra (2011, p. 325-326, grifos do autor), complementa:

O “reencantamento” do mundo da pesquisa e seu objeto (“social” e “societal”), tão desencantado pelo conceptualismo e as dialéticas rígidas e unidimensionais dos positivistas é perseguido por estas novas abordagens, e este “reencantamento” passa acima de tudo pelo imaginário e pela experiência performática, os lugares-comuns do próximo, da proximidade e do longínquo “selvagem”.

Para escutar o vigor da simplicidade, dos lugares-comuns de si ou do próximo, é necessário libertar o pensamento das amarras, é deixar o eu (espírito) desgarrar do não-eu (matéria) e deixar-se assombrar. Assombremo-nos. Encantemo-nos. Ritualizemos o teatro. Ultrapassemos a incompletude dos atos de criação.

II.4 Números

A noiva (Katia Daher)

O senhor de engenho (Eduardo Reyes)

Noninha (Cris Rocha)

Mariene (Katia Daher) Michael (Paulo de Pontes)