• Sonuç bulunamadı

A maioria dos estudos que toma a EJA como contexto de pesquisa refere-se às práticas de alfabetização e escolarização de jovens e adultos. Esses estudos procuram caracterizar o alunado, a escola e/ou as práticas pedagógicas próprios a essa modalidade de ensino. E, apesar do adensamento quantitativo dessas pesquisas, o que se percebe é a

dificuldade de superar essa fase de “diagnóstico” para uma efetiva ação no intuito de

acessibilizar o processo de ensino-aprendizagem nessa modalidade de ensino. Concordemente a Ortiz,

As principais conclusões presentes, nas pesquisas analisadas, ratificam um perfil dos alunos jovens e adultos como:

• indivíduos que, juntamente com seus familiares, estão marcados por carências socioeconômicas, afetivas e culturais;

• a escola reproduz a estrutura de desigualdade social presente na sociedade capitalista, estando longe da realidade e das necessidades concretas dos alunos;

• os conteúdos e metodologias partem de um padrão de aluno ilusório; • alfabetizar-se significa manutenção no emprego e melhor integração social;

• o ritmo do emprego os afasta da escola. (ORTIZ, 2002, p. 70, 71) Algumas pesquisas, no entanto, possuem um caráter mais aplicado, uma vez que discutem fatores diretamente ligados à interação do professor com o aluno no processo de construção do conhecimento, a saber, a formação docente; suas concepções de linguagem, do processo de ensino/aprendizagem, do desenvolvimento cognitivo dos alunos. Pesquisas com essa natureza buscam, na análise do discurso dos sujeitos que constroem o contexto escolar, respostas para suas problematizações.

Almeida (2008) analisa os discursos dos professores da EJA, no que se refere à prática educativa, buscando desvelar as marcas discursivas que evidenciam a formação a que foram submetidos e que apresentam claros índices de repetição de posturas de imobilismo, adotadas no processo de ensino-aprendizagem, para alunos dessa modalidade. Os resultados desse estudo chamam à atenção o fato de o discurso de exclusão e incompetência estar sempre permeando o discurso dos professores em sala de aula, reafirmando constantemente o fracasso escolar nessa modalidade de ensino. O que parece ratificar que os discentes estão fadados ao fracasso e à imobilidade social.

Ramos (2009) investiga, com base nos postulados de Bakhtin e seu Círculo, as concepções de língua, linguagem, leitura e escrita no discurso de seis professoras da EJA

ao retomarem a Proposta Curricular de Língua Portuguesa do MEC e a da Ação Educativa. Em suas conclusões, a autora constata a urgente necessidade de um processo de formação de professores contínua, que possibilite o contato com teorias linguísticas que embasam o ensino/aprendizagem de leitura e escrita, destacando a diferença do processo de alfabetização e letramento.

Ortiz (2002), em sua dissertação de mestrado, procura olhar a EJA sob o viés cognitivista piagetiano. Seu trabalho objetiva verificar o nível de operatoriedade dos alunos da Educação de Jovens e Adultos da cidade de Mogi Guaçu, determinado pelas provas operatórias de Jean Piaget. Os resultados obtidos nesse estudo permitem-na concluir que os sujeitos estudados encontram-se nos níveis elementares de operatoriedade, fato que pode explicar as dificuldades em operar categorias abstratas. A interpretação desses resultados não pretende, no entanto, classificar os sujeitos, mas possibilitar uma reflexão sobre como criar situações que possibilitem aos alunos a construção de sua aprendizagem, ante os conteúdos sistematizados pela escola.

As pesquisas supracitadas ainda apresentam uma caracterização da modalidade da EJA como um espaço no qual subjazem concepções ilusórias de um alunado cognitivamente limitado e de um processo de desenvolvimento cognitivo ainda baseado nas teorias psicológicas e educacionais tradicionais. Ou seja, parecem ratificar uma postura já apontada pelo PARECER CNE/CEB 11/2000:

A excessiva ênfase nos aspectos lacunosos do analfabetismo pode mascarar formas de riqueza cultural e de potencial humano e conduzir a uma metodologia pedagógica mais forte na "ausência de..." do que na presença de aptidões, saberes e na virtualidade das pessoas socialmente estigmatizadas como pouco lógicas ou como destituídas de densidade psicológica. (PARECER CNE/CEB 11/2000, p. 5 e 6)

Mesmo pesquisas que se voltam para o processo de leitura no contexto da EJA parecem fazê-lo com vistas a entender as práticas de leitura dentro de sua funcionalidade social ou importância dada pelos alunos (Gaspar, 2009).

É perceptível, portanto, a necessidade de pesquisas que se voltem especificamente para a leitura e compreensão como processo cognitivo de significação nesse contexto de ensino, possibilitando, se ainda não a criação de metodologias de ensino, ao menos a discussão de encaminhamentos metodológicos de otimização do processo de leitura. Faz-se necessário um mapeamento das estratégias utilizadas por esses adultos e jovens já inseridos no mercado de trabalho, muitos já pais ou mães, trazendo suas histórias de vida, no processo de compreensão textual. Apenas assim seria possível modificar o atual processo

educacional ao qual o alunado da EJA é agora submetido. Um processo educacional que

apenas mascaradamente lhes oferece uma “conclusão” dos níveis básicos de ensino, sem

um verdadeiro desenvolvimento de habilidades ou competências como a da leitura e da compreensão de textos.

Por outro lado, mesmo quando pensamos especificamente as pesquisas acerca do processo de leitura ou compreensão de textos, segundo Gerhardt (2011, p. 52):

O interesse pelas pesquisas em leitura no Brasil teve início na década de oitenta do século passado, com foco nos aspectos cognitivos do processamento em leitura, definidos pela Psicolinguística, e se limitando à relação texto-leitor. Tal interesse se ateve ao âmbito acadêmico, e, mesmo que alguns pesquisadores tenham se dedicado ao assunto, os materiais disponíveis sobre leitura e cognição não lograram atingir a formulação de projetos didático-pedagógicos e a elaboração de compêndios didáticos para as escolas brasileiras.

Nesse enquadre, esta pesquisa pode contribuir para uma melhor compreensão de como alunos da EJA significam textos e, consequentemente, para o desenvolvimento de metodologias de ensino que levem em consideração a cognição desse público específico, propiciando um real aprendizado.