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Nas Institutas de Gaio, 4, 156-160, constava:

“156. Tertia diviso interdictorum in hoc est, quod aut simplicia sunt aut

duplicia (‘Uma terceira divisão é a dos interditos em simples e dúplices’). 157. Simplicia sunt veluti in quid bus alter actor, alter reus est, qualia

sunt omnia restitutoria aut exhbitoria: namque actor est, qui desiderat aut exhiberi aut restitui, reus is est, a quo desideratur, ut exhibeat aut restituat .(‘Nos simples, um é autor e outro o réu; tais são todos os interditos restituitórios ou exibitórios; pois o autor é quem deseja a exibição ou restituição da coisa; réu, quem a deve exibir ou restituir’). 158. Prohibitoriorum autem interdictorum (interditum) alia duplicia, alia

simplcia sunt. (‘Dos proibitórios, uns são simples, outros dúplices’). 159. Simplicia sunt velutti quibus prohibet praetor in loco sacro aut in

flumine publico ripave eius aliquid facere conatur. (‘Nos simples o pretor proíbe ao réu fazer alguma coisa em lugar sagrado, em rio público ou suas margens; pois o autor é quem deseja que não se faça a coisa e o réu, quem a atenta fazer’).

160. Duplicia sunt velui UTI POSSIDETIS interdictum et UTRUBI. Ideo

autem duplicia vocantur, quod par utriusque litigatoris in his condicio est, nec quisquam praecipue reuns vel actor intellegitur, sed unusquisque tam rei quam actoris partes sustinet; quippe praetor pari sermone cum utroque loquitur. Nam summa conceptio eorum interdictorum haec est: UTI NUNC POSSIDETIS, QUO MINUS ITA POSSIDEATIS, VIM FIERI VETO: item alterius: UTRUBI HIC HOMO, DE QUO AGITUR (APUD QUEM) MAIORE PARTE HUIUS ANNI FUIT, QUO MINUS IS EGUM DUCAT, VIM FIERI VETO (‘Dúplices são, por exemplo, os interditos uti

possidetis e utrubi. Por isso chamam-se dúplices porque neles a condição dos litigantes é idêntica, nenhum se encontra na situação determinada de réu ou autor, mas cada um representa ambos os papéis; por isso o pretor emprega as mesmas palavras, dirigindo-se aos dois. Assim, a forma geral desses institutos é a seguinte: EU PROÍBO SE FAÇA VIOLÊNCIA, DE MODO DEIXARDES DE POSSUIR COMO AGORA POSSUÍS. E a do outro: EU PROÍBO SE FAÇA VIOLÊNCIA, VISANDO IMPEDIR AQUELA DAS PARTES, QUE POSSUI O ESCRAVO EM QUESTÃO

DURANTE A MAIOR PARTE DESTE ANO, DE O LEVAR CONSIGO’).”235

Relembram José Rogério Cruz e Tucci e Luiz Carlos de Azevedo236 que no período formular, nas ações bona fidei, ou seja, nas controvérsias pro socio, mandati e negotiorum gestio, poderia o réu apresentar pedido autônomo, decorrente do negócio jurídico, dando origem a um iudicium contrarium, no qual as partes assumiam idênticas posições processuais, cada um representando ambos os papéis, de autor e réu.

Afirmam que a locução mutua petitio que aparece nas fontes jurídicas clássicas para indicar um iudicium contrarium constituiria um remédio de natureza reconvencional.

Parece-nos que das Institutas poderíamos extrair a exata concepção do que seria a ação dúplice.

Por força da própria relação de direito material, inexistira previamente, como não raro ocorre, uma legitimação predeterminada, de sorte que a um dos litigantes corresponderia a legitimidade para ser autor e ao outro restaria, na hipótese de eventual ação em juízo, a de réu, resistindo simplesmente à pretensão alheia.

Nesse diapasão, calham à fiveleta as palavras de Adroaldo Fabrício:

“Em regra, a relação jurídico-processual, estabelecida entre o autor e o Estado-juiz e entre este e o réu, mantém uma polaridade bem definida, no sentido de que uma das partes é a que pede para si um bem da vida e a outra e aquela em face da qual, ou mesmo contra a qual, é pedida a prestação jurisdicional. Quem formula o petitum, em rigor de técnica, é o autor e só ele; o réu, se é que ‘pede’, nada mais pede do que a improcedência da demanda. Certo, o oferecimento eventual de reconvenção inverte, quanto ao objeto desta, aquela polaridade, mas isso em nada afeta a estrutura lógica da relação processual, porque o reconvinte, em verdade propõe uma outra ação, que só acidentalmente se processa nos mesmos autos.

235 Alexandre Correia; Gaetano Sciacia; Alexandre Augusto de Castro Correia, Manual de direito romano, 2.

ed., São Paulo: Saraiva, 1955, v. 2, p. 278-281. Para José Rogério Cruz e Tucci e Luiz Carlos de Azevedo, a descoberta dos denominados Gai institutionum commentarii quattour na Biblioteca Capitular de Verona, em 1816, pelo historiador alemão Barthold Georg Niebuhr, a partir de uma genial intuição de Savigny, revolucionou a história do direito privado em todo o mundo (Lições de história do processo civil romano, cit., p. 31).

236 José Rogério Cruz e Tucci; Luiz Carlos de Azevedo, Lições de história do processo civil romano, cit., p.

Também, em regra, pode-se dizer que o direito material predetermina a

priori a polarização, pois é dele que emergem a legitimação ativa e passiva para a causa. Considerados uma certa relação jurídico-material a um dado remédio jurídico-processual, identificadas estão a pessoa que pode ser autor e a que pode ser réu.

Muito excepcionalmente, inexiste essa predeterminação das legitimações: a situação jurídica é tal que qualquer dos sujeitos pode ajuizar a ação em face dos demais. Tal ocorre nos juízos demarcatórios e divisórios: não há rigorosamente autores e réus; qualquer dos confinantes ou comunheiros poderia ter tomado a iniciativa. Se há dois sujeitos da relação jurídico- material e qualquer deles pode propor a mesma ação contra o outro, essa ação é dúplice. Geralmente se reconhece essa condição de actio duplex, por exemplo, a de prestação de contas, não tanto pelo fato de as poder oferecer quem as deve, assim como pode exigi-las aquele a quem são devidas (na verdade, são diferentes, em um e em outro caso, as pretensões e os remédios), mas antes pelo efeito secundário de condenação pelo saldo, que faz título executivo contra qualquer das partes, independentemente de quem seja autor ou réu (...).”237

Posição idêntica manifesta Gabriel Rezende Filho:

“Nas ações dúplices, igual e recíproco é o direito que às partes compete promover, podendo, assim, figurar, indiferentemente, como autores os réus.

Estas ações assim se denominam porque nelas as partes como que reúnem as qualidades de autor e de réu, podendo, em conseqüência, ser o autor condenado sem necessidade de reconvenção do réu.

Nas ações simples, ao contrário, o pedido do autor deve ser julgado procedente ou improcedente, e a única condenação que lhe pode ser imposta pelo juiz é o pagar as custas.

Foram os romanos que estabeleceram a classe da judicia duplicia como excepcional, porque em tais ações o réu pleiteia a mesma coisa que o autor: o autor pode tornar-se réu e o réu autor em relação ao mesmo objeto do litígio. A sentença é que definirá, afinal, a posição das partes, colocando uma como autor, outra como réu.

Nas ações dúplices, portanto, o réu assume papel ativo, sem perder, contudo, a sua posição de réu, fazendo pedido que não constitui ação nova.

São exemplos de ações dúplices a de divisão, a de demarcação, a de partilha, a possessória.”238

Da relação de direito material decorreria, assim, a possibilidade de qualquer dos sujeitos que a integram figurar como autor ou réu.

Além disso, ao se negar o direito material afirmado pela parte que se apresenta em juízo como autor, se estaria reconhecendo a pretensão do adversário.

237 Adroaldo Furtado Fabrício, Comentários ao Código de Processo Civil, cit., p. 494.

238 Gabriel Rezende Filho, Curso de direito processual civil, 5. ed., São Paulo: Saraiva, 1957, v. 1, p. 234, §

Araken de Assis239 consigna que “do prisma material, é dúplice a ação, provocando o iudicium duplex, na qual a contestação do réu basta à obtenção do bem da vida. Em regra geral, o autor pede e o réu somente impede: na actio duplex, o ato de impedir (contestação) já expressa um sentido contrário. Tal característica deriva do direito material posto em causa(rectius: mérito, pretensão processual ou objeto ltigioso)”.

Não se desconhece a posição de autores como Câmara Leal240 no sentido de que só a praxe e a lei poderiam conferir caráter dúplice a qualquer ação.

Rigorosamente do ponto de vista técnico, parece-nos que a lei por razões variadas, como a busca de maior celeridade e concentração de atos processuais, pode, eventualmente facultar ao réu formular pedido, para obtenção de um bem da vida na própria contestação, sem que à luz dos magistérios antes expostos, se pudesse falar estritamente em ter se criado uma ação dúplice, a não ser que tal termo seja usado em sentido lato.

Ter-se-ia que examinar a relação de direito material se haveria ou não uma polarização previamente definida, se qualquer das partes poderia ocupar o pólo ativo ou passivo da relação processual, se a rejeição do pedido do autor de per si seria suscetível de conferir o bem da vida em disputa ao réu.

Acolhida a mencionada posição mesmo algumas ações como as possessórias, consideradas dúplices, deixariam de se enquadrar em tal moldura.

A não ser que se parta da premissa de que as ações seriam dúplices em sentido lato ou estrito.

Em sentido lato, seria dúplice a ação, sempre que se permita ao réu a formulação de pedido que não o de mera improcedência do requerido pelo autor, independentemente de reconvenção.

239 Araken de Assis, Procedimento sumário, São Paulo: Malheiros, 1996, p. 93.

240 Antônio Luiz da Câmara Leal, Código de Processo Civil e Comercial do Estado de São Paulo comentado,

Em sentido estrito, seria dúplice a ação em que, pela relação de direito material, qualquer das partes pode figurar em juízo como autor ou réu, e a improcedência do pedido efetuado pelo promovente implicaria no reconhecimento do direito do adversário.

Dentro dessa esteira, a duplicidade seria natural a algumas ações ou derivaria de opção legislativa.

A duplicidade poderia se assentar na ausência de “predeterminação das legitimações”, no dizer de Adroaldo Fabrício, em função da peculiaridade da relação de direito material ou pelo efeito da sentença, ou ainda pela possibilidade do réu formular pretensão de direito material na contestação, sem que haja necessidade do oferecimento de reconvenção, ampliando o objeto litigioso.

Ao abordar as ações consideradas dúplices, afigura-nos possível enfatizar em quais dos aspectos antes referidos teria se estribado o legislador para fazê-lo.

Cumpre, afinal, dentro do presente tópico, afastar qualquer confusão entre bilateralidade das ações com o seu caráter dúplice.

A respeito do tema, precisas as ponderações de Kazuo Watanabe241, reportando-se a entendimento de Araújo Cintra, Ada Pelegrini Grinover e Cândido Dinamarco, no sentido de que todo ação é bilateral, “em virtude da direção contrária dos interesses dos litigantes”, há na ação e no processo “contradição recíproca”, tendo também o réu uma pretensão em face do órgão jurisdicional.

A pretensão do réu consiste em ver o pedido do autor rejeitado, assumindo uma forma antitética à do autor.

Assevera, como aliás já se consignou na presente dissertação, que embora a defesa do réu possa dilatar a área de cognição do juiz, o objeto do processo, não aumenta o objeto litigioso, representado por aquilo que ele julgará e será acobertado pela coisa julgada material.

241 Kazuo Watanabe, Ação dúplice, Revista de Processo, São Paulo, Revista dos Tribunais, ano 8, n. 31, p.

Assinala que a ampliação do objeto litigioso apenas se dá com instrumentos processuais destinados a tal fim, entre os quais a ação declaratória incidental e a reconvenção, e por opção legislativa, em casos excepcionais, através da própria contestação, e observa que quando isso se permite, diz-se que a ação tem caráter dúplice.

Faz ressalva que se mostra relevante, valendo-se de lição de Pontes de Miranda, que não “se dispensa de modo nenhum a alegação e a prova, como se a duplicidade fosse de iure, o que não está nos princípios”.242

Permitimo-nos apenas acrescer que nas ações de prestação de contas, conforme adiante se pormenorizará, afastou-se o Código de tal posição, uma vez que poderá haver julgamento em favor do réu, ainda que ele nada tenha alegado ou provado, mantendo-se revel.

Doravante passaremos ao exame das ações consideradas dúplices no Código de Processo Civil e fora dele, valendo sublinhar que procuraremos apenas enfatizar esse aspecto e suas implicações, já que certamente, se nos lançássemos à tarefa de abordar cada uma destas demandas, em suas múltiplas variantes, se extrapolaria o âmbito da dissertação.