O saneamento necessita uma abordagem sistêmica inserindo suas diversas dimensões para superar o conceito de mera prestação de serviço. As políticas públicas em saneamento são pautadas por um conjunto de condicionantes sistêmicos que estão profundamente relacionados entre si e não podem ser tomadas separadamente. Estes condicionantes moldam e orientam as políticas que em suas diversas interfaces (econômico-financeira, técnica, geográfica, política, sociocultural, dentre outras possíveis condicionantes inseridas especificamente em cada ambiente) regem os marcos legais e institucionais. Assim, subsidiam a gestão das políticas públicas através do planejamento, organização administrativa e avaliação do sistema (CASTRO, 2013).
A percepção da intersetorialidade do saneamento, que inclui diversas áreas do conhecimento, é capaz de construir ações adequadas à realidade local. As ciências exatas trazem a compreensão de processos físicos e químicos relacionados ao abastecimento de água e esgotamento sanitário. As ciências humanas trazem o aperfeiçoamento das intervenções para garantir a apropriação e consequente utilização pela população. As ciências da vida são capazes de avaliar os impactos das ações na saúde coletiva. Podemos, por exemplo, relacionar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) (Quadro 3.1), com ações de abastecimento de água e esgotamento sanitário, a partir da multidimensionalidade da área, como norteador de politicas públicas (HELLER, 2013).
Quadro 3.1 - Relação entre os ODM e os impactos do abastecimento de água e esgotamento sanitário
Objetivo Relação com o abastecimento de água/esgotamento sanitário
Erradicar a pobreza extrema
A melhoria das condições sanitárias a nível domiciliar é capaz de romper a relação pobreza e processo saúde/doença
Erradicar a fome Melhoria nas condições ambientais tem consequências positivas
na redução da desnutrição através da redução de episódios de diarreia e produção de alimentos
Reduzir a mortalidade infantil
O efeito positivo de ações de abastecimento de água e esgotamento sanitário na redução de doenças diarreicas (segunda principal causa de morte em crianças de até cinco anos) é conhecido e comprovado
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 29
Tabela 3.1 - Relação entre os ODM e os impactos do abastecimento de água e esgotamento sanitário (continuação)
Objetivo Relação com o abastecimento de água/esgotamento sanitário
Alcançar a igualdade de gêneros e o empode- ramento da mulher
O fornecimento de água no domicílio, diminuindo ou eliminando a necessidade de busca, representa ganho de tempo produtivo a mulher que é, em muitas comunidades, responsável pela obtenção deste recurso
Fonte: Adaptado de Heller (2013)
Segundo o relatório mais recente da ONU sobre os avanços dos ODM, a maioria dos objetivos, cujo prazo termina este ano, não serão alcançados em escala global. Apesar do objetivo de reduzir pela metade o número de pessoas sem acesso a fontes de água melhoradas ter sido alcançado em 2010, outros objetivos, também relacionadas ao saneamento, estão distantes do ideal. Em 2012, quase 2 bilhões de pessoas tiveram acesso a instalações sanitárias melhoradas, porém 2,5 bilhões de pessoas ainda não utilizavam este tipo de instalação e 1 bilhão defecavam a céu aberto, oferecendo grande risco às comunidades que frequentemente já são vulneráveis. Quanto à erradicação da fome, a proporção de pessoas subnutridas em regiões em desenvolvimento diminuiu apenas 10 pontos percentuais de 1990 a 2013. Entre crianças de até cinco anos de idade, estima-se que uma a cada quatro crianças são afetadas pela subnutrição crônica, o equivalente a 162 milhões de crianças no mundo. Globalmente, a taxa de mortalidade infantil diminuiu quase pela metade de 1990 a 2012, porém em regiões como Oceania e África Subsaariana não atingirão o objetivo até 2015 que, na taxa de decaimento atual, só será alcançada em 2028 (ONU, 2014).
A partir deste cenário pós ODM, surgem o Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Estes objetivos têm origem no documento resultado da Rio + 20, The Future We
Want, que estabeleceu um Grupo de Trabalho Aberto para desenvolver um conjunto de metas
para o desenvolvimento sustentável. Assim, definiu-se que os ODS devem ser coerentes e integrados com a agenda de desenvolvimento das Nações Unidas para além de 2015. Reafirmou-se a importância da liberdade, da paz e da segurança, o respeito pelos direitos humanos, incluindo o direito ao desenvolvimento e o direito a um padrão de vida adequado, o direito à alimentação e à água, o Estado de direito, a boa governação, a igualdade de gênero, o empoderamento das mulheres e do compromisso global para sociedades justas e democráticas. Entre os objetivos de desenvolvimento sustentável definidas pela ODS,
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 30 destaca-se o sexto objetivo: assegurar a disponibilidade e a gestão sustentável de água e esgotamento sanitário para todos (ONU, 2015). O sexto objetivo da ODS almeja:
• Alcançar o acesso universal e equitativo à água potável segura até 2030;
• Assegurar, até 2030, o acesso ao saneamento e à higiene adequada e equitativa para todos e acabar com defecação a céu aberto, com especial atenção para as necessidades das mulheres e meninas e aqueles em situação de vulnerabilidade;
• Melhorar a qualidade da água, reduzindo a poluição, minimizando liberação de produtos químicos e materiais perigosos, reduzir pela metade a proporção de águas residuais não tratadas e aumentar a reciclagem e reutilização segura até 2030;
• Aumentar substancialmente a eficiência do uso da água em todos os setores, garantir o fornecimento de água doce para atender a escassez de água e reduzir substancialmente o número de pessoas em situação de escassez hídrica até 2030;
• Implementar a gestão integrada dos recursos hídricos em todos os níveis, incluindo através da cooperação transfronteiriça até 2030;
• Proteger e restaurar ecossistemas relacionados com a água, incluindo montanhas, florestas, pantanais, rios, aquíferos e lagos até 2020.