3.1. İnsan Haklarının “Göreli” Evrenselliği
3.1.3. İnsan Hakları Metinlerinin Kodifikasyonu Sürecine Yansıyan Görelilik
O Jardim da Infância dispensou uma atenção especial aos corpos das crianças, pelas imposições das mais diversas: higiênicas, estéticas e morais. As imposições higiênicas estiveram presentes na matrícula, no cuidado com o corpo, na ginástica; as imposições estéticas se impuseram na jovialidade, alegria, beleza, atribuídas a meninos, meninas e jardineiras, e as imposições morais se deram nas atividades, nos discursos inscrevendo nos corpos marcas de identidade, e, por conseguinte, de diferenciação.
O processo de escolarização do corpo demonstra como a escola praticava uma pedagogia da sexualidade, pelas sutilezas, discrições e continuidades. Algumas representações adquirem tanta força, que passam a ser tomadas como naturais, a norma. Daí, compreender a norma instituída para meninos e para meninas por um jogo de representações que apresentava suas cartas marcadas.
O corpo é carregado de símbolos, de significados e de representações. No intento de mapear a mudança das condutas e das ações, pensar o corpo é ir além do corpo que dorme, come, descansa, brinca; é pensar o corpo hierarquizado como homem, mulher, menino, menina, negro, branco, de forma a produzir e reproduzir papéis e relações de poder.
Os Brinquedos tratam não só de um modo de ser, mas de um modo de agir. O corpo como interlocutor é quem realizava os movimentos, as ações, ou seja, todo o gestual necessário para a execução da representação cênica.
Segundo Finco (2004) o corpo é moldado materialmente desde o seu nascimento, pela alimentação, exercícios físicos, mas sua mudança é também social. Corpo e sociedade trabalham em reciprocidade. Assim, o corpo é objeto da cultura na medida em que é produzido, moldado, adestrado e civilizado por ela.
A ação pedagógica explícita, a que está descrita nos manuais e livros de registro, volta-se para a descrição dos atributos intelectuais, mas, segundo Louro (2003), é pelo que
não está escrito, as situações do dia a dia que também se constituem as práticas civilizatórias.
A marcação lateral (menino, menina) remete a um gerenciamento do local de cada um no jogo cênico, meninos e meninas aprendiam desde cedo os atributos de homens e mulheres, conteúdos educacionais que se instalaram em seus corpos. Podemos inferir que a marcação lateral seria uma forma de não permitir que estes corpos escapassem a regra.
Durante as encenações, o corpo era conclamado apontando que os gestuais característicos de alguns animais ou de algumas profissões não eram possíveis para ambos os sexos.
O acordo tácito existente não admitia que um menino representasse uma borboleta ou uma galinha, ou que uma menina representasse um ferreiro ou um derrubador de árvores. O lugar social dessas crianças estava marcado no jogo teatral que, como o mentor propunha, tinha que ter uma articulação com o cotidiano.
O diálogo aponta o acordo velado entre família e escola e as representações possíveis para meninos e meninas:
“Minha filhinha dansará amanhã no bailado da Primavera. Que honra para mim ser mãe de uma das borboletas!”Ao lado meio triste, meio desapontada queixava-se uma desditosa senhora: “Eu nunca terei essa felicidade!” E nós conciliantes:”Ora!seu menino possue bonita voz. Fará o canário na próxima festa das aves.” E baixando o tom, consoladoramente: “Não lhe parece melhor ser mãe de um canarinho, a ser feita lagarta, mãe de qualquer borboleta?!”(SILVA, 1946,p.62)
Nessa pequena história entre duas mães e professoras, temos o retrato dos lugares dos meninos e das meninas no jogo cênico. A mãe do menino que representaria o canarinho sabia que, por ter um menino, jamais o veria interpretando uma borboleta, fosse pela simbologia do inseto, que vive em jardins, voando de flor em flor, fosse pelo gestual necessário para sua imitação. O consolo irônico das professoras a essa mãe recorre à biologia da borboleta que, no seu processo de metamorfose, passa pela fase da lagarta, um inseto que rasteja, que é destituído de beleza, de cores e de encanto
Biologicamente, a borboleta pode ser macho ou fêmea, mas gramaticalmente borboleta é um substantivo feminino que, no senso comum, acabou por destituir o inseto do outro sexo. Esta pequena brincadeira das professoras revela que existia um acordo tácito entre o lugar de cada criança na representação dos Brinquedos. Assim, o Jardim da Infância, juntamente com as famílias, articularam identidades e práticas na construção dos sujeitos femininos e masculinos. Nesse ínterim, as crianças não foram meras receptoras, participando ativamente desse processo.
Portanto, como se tratava de uma encenação a linguagem corporal utilizada para representar estes personagens também dizia muito sobre quem poderia encená-los. O corpo, seus movimentos, gestos, posturas eram um dos recursos usados pelas jardineiras na semeadura de homens e mulheres “civilizados’, capazes de viver em coerência e em adequação na sociedade brasileira da época.
Recuperando uma prática do cotidiano da instituição que se revelara numa atividade requintada e de alto grau de complexidade buscou-se compreender este material pela elaboração de diferentes quadros na tentativa de abarcar os significados de ser menino e menina.
Os quadros foram elaborados seguindo o contido no Livro de Registros (1903) e, após a leitura, os brinquedos foram classificados segundo o destaque que era conferido ao menino ou à menina. Foi redigida uma síntese dos Brinquedos, usando o texto inicial que descreve toda a ação, tendo em vista que algumas cenas apresentam quatro a cinco páginas de versos e declamações.
Foi criado um quadro reunindo meninos e meninas, pois os brinquedos conferiam aos dois sexos uma posição de destaque, reunindo os brinquedos que tratavam dos animais e da natureza, profissões e ações, música e, por fim, um quadro agrupou os Brinquedos que eram executados por todos, sem distinção de gênero, pois tratavam de sons, movimentos corporais, objetos, imitação e brinquedos de revezamento. Convém apontar que, mesmo durante a organização e análise dos quadros, foi possível perceber outras formas de agrupamento, ampliando os modos de enxergar essa atividade e esse livro.
Parte dos Brinquedos tratavam da forma, da estrutura e da utilidade das coisas, das pessoas e dos objetos, como mostrar para a criança de onde vêm os alimentos, a lã etc.. Os animais são vistos como trabalhadores, uma vez que fornece aos seres humanos leite, mel etc.. Muitos Brinquedos vão retomando sempre a utilidade das coisas, das pessoas, dos animais entre outros, sendo um prenúncio a lição de coisas.
Os Brinquedos Operários diligentes e A cigarra e a formiga tratam da importância do trabalho que, segundo Froebel (2001), é a fonte para o afastamento da preguiça e do desânimo, práticas condenadas pelo educador.